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AUGUSTINE
DE VILLEBLANCHE
(ou "O Estratagema do Amor")
A Menina Augustine
de Villebranche de que acabamos de ver uma parte da lógica,
senhora das suas ações com a idade de vinte anos,
e podendo dispor de trinta mil libras de rendas, decidira-se por
gosto a nunca se casar; o seu nascimento era bom, sem ser ilustre,
era filha única dum homem que enriquecera nas índias
e morrera sem jamais a ter podido convencer ao casamento.
Não o
devemos dissimular, muito entrava desta espécie de capricho,
de que Augustine acabava de fazer a apologia, na repugnância
que testemunhava pelo himeneu; seja conselho, seja educação,
seja disposição de órgão ou calor de
sangue (nascera em Madras), seja inspiração da natureza,
seja tudo o que se quiser enfim, a Menina de Villebranche detestava
os homens, e totalmente entregue ao que os ouvidos castos entenderão
pela palavra safismo, só encontrava volúpia com o
seu sexo e só se satisfazia com as graças do desprezo
que sentia pelo Amor.
Augustine era
uma verdadeira perda para os homens; alta, feita para ser pintada,
os mais belos cabelos castanhos, o nariz um pouco aquilino, os dentes
soberbos, e olhos duma expressão, duma vivacidade... a pele
duma delicadeza, duma brancura, todo o conjunto numa palavra duma
espécie de volúpia tão atraente... que era
bem certo que vendo-se tão feita para dar amor e tão
determinada a não o receber, podia muito naturalmente escapar
a muitos homens um número infinito de sarcasmos contra um
gosto, aliás muito simples, mas que privando, apesar disso,
os altares de Safo duma das criaturas do universo mais bem feitas
para os servir, devia necessariamente indispor os sectários
dos templos de Vênus.
A Menina de Villebranche ria satisfeita de todas estas censuras,
de todos estes maus propósitos, e nem por isso se entregava
menos aos seus caprichos.
A mais elevada
de todas as loucuras - dizia ela -, é envergonharmo-nos das
inclinações que recebemos da natureza; e fazer pouco
dum qualquer indivíduo que tem gostos singulares, é
absolutamente tão bárbaro como o seria mofar dum homem
ou duma mulher saído zarolho ou coxo do seio da mãe,
mas insinuar estes princípios razoáveis a néscios
é empreender parar o curso dos astros.
Existe uma espécie
de prazer para o orgulho em rir dos efeitos que não se tem,
e estes gozos são tão doces ao homem e particularmente
aos imbecis, que é muito raro vê-los renunciar-lhes...
Isso provoca, aliás, maldades, frios ditos de espírito,
fracos trocadilhos, e para a sociedade, ou seja para uma coleção
de seres que o tédio junta e que a estupidez modifica, é
tão doce falar duas ou três horas sem nada dizer, tão
delicioso brilhar à custa dos outros e anunciar estigmatizando-o
um vício que se está muito longe de ter... é
uma espécie de elogio que se pronuncia taticamente sobre
si mesmo; por este preço consentem até em se unir
aos outros, em fazer cabala para esmagar o indivíduo cujo
grande erro é o de não pensar como o comum dos mortais,
e retiram-se para casa inchados do espírito que mostraram,
quando só provaram radicalmente por uma tal conduta pedantismo
e tolice.
Assim pensava
a Menina de Villebranche e muito afirmativamente decidida a nunca
se constranger, rindo-se dos preconceitos, bastante rica para se
bastar a si própria, acima da sua reputação,
visando epicuriamente uma vida voluptuosa e de modo algum as beatitudes
celestes nas quais acreditava muito pouco, ainda menos uma imortalidade
demasiado quimérica para os seus sentidos, rodeada por um
pequeno círculo de mulheres pensando como ela, a querida
Augustine entregava-se inocentemente a todos os prazeres que a deleitavam.
Tivera muitos
apaixonados, mas todos tinham sido tão maltratados, que se
estava enfim em vésperas de renunciar a esta conquista, quando
um jovem chamado Franville, pouco mais ou menos da sua categoria
social e tão rico como ela, tendo ficado loucamente amoroso,
não só não se desgostou com os seus rigores
mas determinou-se mesmo muito seriamente a não abandonar
a praça enquanto ela não fosse conquistada: participou
o seu projeto aos amigos, riram-se dele, manteve que conseguiria,
desafiaram-no e ele tentou.
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