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ESPUMAS FLUTUANTES
Antônio de Castro Alves
 


É TARDE!
Olha-me, ó virgem, a fronte
Olha-me os olhos sem luz
A palidez do infortúnio
Por minhas faces transluz;
Olha, ó virgem - não te iludas -
Eu só tenho a lira e a cruz.
Junqueira Freire

É tarde! É muito tarde!
Mont'Alverne

É tarde! É muito tarde! O templo é negro...
O fogo-santo já no altar não arde.
Vestal! não venhas tropeçar nas piras...
É tarde! É muito tarde!

Treda noite! E minh'alma era o sacrário,
A lâmpada do amor velava entanto,
Virgem flor enfeitava a borda virgem
Do vaso sacrossanto;

Quando Ela veio - a negra feiticeira -
A libertina, lúgubre bacante,
Lascivo olhar, a trança desgrenhada,
A roupa gotejante.

Foi minha crença - o vinho dessa orgia,
Foi minha vida - a chama que apagou-se,
Foi minha mocidade - o toro lúbrico,
Minh'alma - o tredo alcouce.

E tu, visão do céu! Vens tateando
O abismo onde uma luz sequer não arde?
Ai! não vás resvalar no chão lodoso...
É tarde! É muito tarde!

Ai! não queiras os restos do banquete!
Não queiras esse leito conspurcado!
Sabes? meu beijo te manchara os lábios
Num beijo profanado.

A flor do lírio de celeste alvura
Quer da lucíola o pudico afago...
O cisne branco no arrufar das plumas
Quer o aljôfar do lago.

É tarde! A rola meiga do deserto
Faz o ninho na moita perfumada...
Rola de amor! não vás ferir as asas
Na ruína gretada.

Como o templo, que o crime encheu de espanto,
Ermo e fechado ao fustigar do norte,
Nas ruínas d'esta alma a raiva geme...
E cresce o cardo - a morte -.

Ciúme! dor! sarcasmo! - Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria,
Quando nas trevas a tormenta ulula
Um uivo de agonia!...

................................................................

É tarde! Estrela-d'alva! o lago é turvo.
Dançam fogos no pântano sombrio.
Pede a Deus que dos céus as cataratas
Façam do brejo - um rio!

Mas não!... Somente as vagas do sepulcro
Hão de apagar o fogo que em mim arde...
Perdoa-me, Senhora!... eu sei que morro...
É tarde! É muito tarde!...
Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1869


A MEU IRMÃO GUILHERME DE
CASTRO ALVES

Na cordilheira altíssima dos Andes
Os Chimboraços solitários, grandes
Ardem naquelas hibernais regiões.
Ruge embalde e fumega a solfatara...
É dos lábios sangrentos da cratera
Que a avalanche vacila aos furacões.

A escória rubra com os geleiros brancos
Misturados resvalam pelos flancos
Dos ombros friorentos do vulcão...

..............................................................

Assim, Poeta, é tua vida imensa,
Cerca-te o gelo, a morte, a indiferença...
E são lavas lá dentro o coração.
Curralinho, julho de 1870


QUANDO EU MORRER...
Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A fresca tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
Junqueira Freire

Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto,
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro a boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro - o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos - errantes - por santelmo.
Tem por velame - os panos do sudário...
Por mastro - o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas - o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não tem o coração no peito...
E um deles vos dirá: "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai." Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho."...
... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...
São Paulo, de março 1869


UMA PÁGINA DE ESCOLA REALISTA
Drama cômico em quatro palavras
A tragédia me faz rir; a comédia me faz chorar.
E o drama? Nem rir, nem chorar...
Pensamento de Carnioli

CENÁRIO
A alcova é fria e pequena
Abrindo sobre um jardim.
A tarde frouxa e serena
Já desmaia para o fim.
No centro um leito fechado
Deixa o longo cortinado
Sobre o tapete rolar...
Há, nas jarras deslumbrantes,
Camélias frias, brilhantes,
Lembrando a neve polar.

Livros esparsos por terra,
Uma harpa caída além;
E essa tristeza, que encerra
O asilo, onde sofre alguém.
Fitas, máscaras e flores
Não sei que vagos odores
Falam de amor e prazer.
Além da frouxa penumbra
Um vulto incerto ressumbra
- O vulto de uma mulher.

Vous, qui volez lá-bas, legères hirondelles
Dites-moi, dites-moi, pourquoi vais je mourir.
Alfred de Musset

MÁRIO
(no leito)
É tarde! é tarde! Abri-me estas cortinas
Deixai que a luz me acaricie a fronte!...
Ó sol, ó noivo das regiões divinas,
Suspende um pouco a luz neste horizonte!

SÍLVIA
(abrindo a janela)
Da noite o frio vento te regela
O mórbido suor...

MÁRIO
Oh! que me importa?
A tarde doura-me o suor da fronte...
- Último louro desta vida morta!

Crepusc'lo! mocidade! natureza!
Inundai de fulgor meu dia extremo...
Quero banhar-me em vagas de harmonia,
Como no lago se mergulha o remo!

E que amores que sonham as esferas!
A brisa é de volúpia um calafrio.
A estrela sai das folhas do infinito,
Sai dos musgos o verme luzidio...

Tudo que vive, que palpita e sente
Chama o par amoroso para a sombra.
O pombo arrula - preparando o ninho,
A abelha zumbe - preparando a alfombra.

As trevas rolam como as tranças negras,
Que a andaluza desmancha em mago enleio;
E entre rendas sutis surge medrosa
A lua plena, qual moreno seio.

Abre-se o ninho... o cálice.... o regaço...
Anfitrite, corando, aguarda o noivo...

(longa pausa)

E tu também esperas teu esposo,
Ó morte! Ó moça, que engrinalda o goivo!

SÍLVIA
(à meia voz, acompanhando-se na guitarra)
Dizem as moças galantes
Que as rolas são tão constantes...
Pois será?
Que morrendo-lhe os amantes,
Morrem de fome, arquejantes,
Quem dirá?

Dizem sábios arrogantes
Que nestas terras distantes,
Não por cá,
Sobre piras fumegantes
Morrem viúvas constantes,
Pois será?

Não creio nos navegantes
Nem nas histórias galantes,
Que há por lá.
Fome e fogueiras brilhantes
Cá não há...
Mas inda morrem amantes
De saudades lacerantes,
Quem dirá?

(aos últimos harpejos cai-lhe uma lágrima)

MÁRIO
(vendo-a chorar)
Sílvia! Deixa rolar sobre a guitarra,
Da lágrima a harmonia peregrina!
Sílvia! cantando - és a mulher formosa!
Sílvia! chorando - és a mulher divina!

Oh! lágrimas e pérolas! - aljôfares
Que rebentais no interno cataclismo,
Do oceano - este dédalo insondável!
Do coração - este profundo abismo!

Sílvia! dá-me a beber a gota d'água,
Nessa pálpebra roxa como o lírio...
Como lambe a gazela o brando orvalho
Nas largas folhas do deserto assírio.

E quando est'alma desdobrando as asas
Entrar do céu na região serena,
Como uma estrela eu levarei nos dedos
Teu pranto sideral, ó Madalena!...

SÍLVIA
(tem-se ajoelhado aos pés do leito)

Meus prantos sirvam apenas
Pra umedecer teus cabelos,
Como da corça nos velos
Fresco orvalho a resvalar!
Pra molhar a flor, que aspires
Rolem prantos de meus olhos,
Pra atravessar os escolhos
Meus prantos manda rolar!...

Meus prantos sirvam apenas
Pra a terra, em que tu pisares,
Pra a sede, em que te abrasares,
Terás meu sangue, Senhor!
Meus prantos são óleo humilde
Que eu derramo a tuas plantas...

(Mário estende-lhe os braços)

Mas se acaso me levantas
Meus prantos dizem-te amor!...

MÁRIO
(tendo-a contra o seio)

Sentir que a vida vai fugindo aos poucos
Como a luz, que desmaia no ocidente...
E boiar sobre as ondas do sepulcro,
Como Ofélia nas águas da corrente...

Sentir o sangue espadanar do peito
- Licor de morte - sobre a boca fria,
E meu lábio enxugar nos teus cabelos,
Como Rola nas tranças de Maria,

De teus braços fazer o diadema
De minha vida, que desmaia insana,
Esquecer o passado em teu regaço,
Como Byron aos pés da Italiana;

Em teu lábio molhado e perfumoso
O licor entornar de minha vida...
Escutar-te nas vascas da agonia,
Como Fausto as canções de Margarida!...

Eis como eu quero - na embriaguez da morte -
Do banquete no chão pender a fronte...
Inda a taça empunhando de teus beijos
Sob as rosas gentis de Anacreonte!...

(a noite tem descido pouco a pouco, o luar penetrando pela
alcova alumia o grupo dos amantes)

SÍLVIA
Que palidez, meu poeta,
Se estende na face tua!...

MÁRIO
São os raios descorados,
Os alvos raios da lua!

SÍLVIA
Mas um suor de agonia
Teu peito ardente tressua...

MÁRIO
São os orvalhos, que descem
Ao frio clarão da lua.

SÍLVIA
Que mancha é esta sangrenta,
Que no teu lábio flutua?

MÁRIO
São as sombras de uma nuvem
Que tolda a face da lua!

SÍLVIA.
Como teus dedos esfriam
Sobre minha espádua nua!...

MÁRIO
(distraído)
Não vês um anjo, que desce,
No frouxo clarão da lua?...


SÍLVIA
Mário? Não vês quem te chama?...
Tua amante... Sílvia... a tua...

MÁRIO
(desmaiando)
É a morte que me leva
Num frio raio de lua!...

(o poeta cai semimorto sobre o leito.
No espasmo sua mão contraída prende uma trança da moça)

SÍLVIA
Teus brancos dedos fecharam
De meu cabelo a madeixa,
Tua amante não se queixa...
Bem vês... cativa ficou!
Mas não se prende o desejo
Que n'alma acaso se aninha!...
Nunca vistes a andorinha,
Que alegre o fio quebrou?

(Ouve-se um relógio dar horas)

Já! tão tarde! E embalde tento
Abrir-te os dedos fechados...
Como frios cadeados,
Que o teu amor me lançou.
Porém se aqui me cativas
Minh'alma foge-te asinha...
Nunca vistes a andorinha,
Que alegre o fio quebrou!...

(debruça-se a escrever numa carteira)

"Paulo! Vem à meia-noite...
Mário morre! Mário expira!
Vem que minh'alma delira
E embalde cativa estou..."

MÁRIO (que tendo lido por cima de seu ombro)

Sílvia! a morte abre-me os dedos,
És livre, Sílvia... caminha!

(morrendo)

Minh'alma é como a andorinha,
Que alegre o fio quebrou.
1870


COUP D'ÉTRIER

É preciso partir! Já na calçada
Retinem as esporas do arrieiro;
Da mula a ferradura taxeada
Impaciente chama o cavaleiro;
A espaços ensaiando uma toada
Sincha as bestas o lépido tropeiro...
Soa a celeuma alegre da partida,
O pajem firma o loro e empunha a brida.

Já do largo deserto o sopro quente
Mergulha perfumado em meus cabelos.
Ouço das selvas a canção cadente
Segredando-me incógnitos anelos.
A voz dos servos pitoresca, ardente
Fala de amores férvidos, singelos...
Adeus! Na folha rota de meu fado
Traço ainda um - adeus - ao meu passado.

Um adeus! E depois morra no olvido
Minha história de luto e de martírio,
As horas que eu vaguei louco, perdido
Das cidades no tétrico delírio;
Onde em pântano turvo, apodrecido
D'íntimas flores não rebenta um lírio...
E no drama das noites do prostíbulo
É mártir - alma... a saturnal - patíbulo!

Onde o gênio sucumbe na asfixia
Em meio à turba alvar e zombadora;
Onde Musset suicida-se na orgia,
E Chatterton na fome aterradora!
Onde, à luz de uma lâmpada sombria,
O Anjo da Guarda ajoelhado chora,
Enquanto a cortesã lhe apanha os prantos
Pra realce dos lúbricos encantos!...

Abre-me o seio, ó Madre Natureza!
Regaços da floresta americana,
Acalenta-me a mádida tristeza
Que da vaga das turbas espadana.
Troca dest'alma a fria morbideza
Nessa ubérrima seiva soberana!...
O Pródigo... do lar procura o trilho...
Natureza! Eu voltei... e eu sou teu filho!

Novo alento selvagem, grandioso
Trema nas cordas desta frouxa lira.
Dá-me um plectro bizarro e majestoso,
Alto como os ramais da sicupira.
Cante meu gênio o dédalo assombroso
Da floresta que ruge e que suspira,
Onde a víbora lambe a parasita...
E a onça fula o dorso pardo agita!

Onde em cálix de flor imaginária
A cobra de coral rola no orvalho,
E o vento leva a um tempo o canto vário
D'araponga e da serpe de chocalho...
Onde a soidão é o magno estradivário...
Onde há músculos em fúria em cada galho,
E as raízes se torcem quais serpentes...
E os monstros jazem no ervaçal dormentes.

E se eu devo expirar... se a fibra morta
Reviver já não pode a tanto alento...
Companheiro! Uma cruz na selva corta
E planta-a no meu tosco monumento!...
Da chapada nos ermos... (o qu'importa?)
Melhor o inverno chora... e geme o vento.
E Deus para o poeta o céu desata
Semeado de lágrimas de prata!...
Curralinho, 1 de junho de 1870


MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro

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