ESPUMAS
FLUTUANTES
Antônio de Castro Alves
O HÓSPEDE
Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando te fores;
Como as brisas que passam doudas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.
Teófilo Braga
"Onde vais
estrangeiro! Por que deixas
O solitário albergue do deserto?
O que buscas além dos horizontes?
Por que transpor o píncaro dos montes,
Quando podes achar o amor tão perto?...
"Pálido
moço! Um dia tu chegaste
De outros climas, de terras bem distantes...
Era noite!... A tormenta além rugia...
Nos abetos da serra a ventania
Tinha gemidos longos, delirantes.
"Uma buzina
restrugiu no vale
Junto aos barrancos onde geme o rio...
De teu cavalo o galopar soava,
E teu cão ululando replicava
Aos surdos roncos do trovão bravio.
"Entraste!
A loura chama do brasido
Lambia um velho cedro crepitante.
Eras tão triste ao lume da fogueira...
Que eu derramei a lágrima primeira
Quando enxuguei teu manto gotejante!
"Onde vais,
estrangeiro? Por que deixas
Esta infeliz, misérrima cabana?
Inda as aves te afagam do arvoredo...
Se quiseres... as flores do silvedo
Verás inda nas tranças da serrana.
"Queres
voltar a este país maldito
Onde a alegria e o riso te deixaram?
Eu não sei tua história... mas que importa?...
... Bóia em teus olhos a esperança morta
Que as mulheres de lá te apunhalaram.
"Não
partas, não! Aqui todos te querem!
Minhas aves amigas te conhecem.
Quando à tardinha volves da colina
Sem receio da longa carabina
De lajedo em lajedo as corças descem!
"Teu cavalo
nitrindo na savana
Lambe as úmidas gramas em meus dedos.
Quando a fanfarra tocas na montanha,
A matilha dos ecos te acompanha
Ladrando pela ponta dos penedos.
"Onde vais,
belo moço? Se partires
Quem será teu amigo, irmão e pajem?
E quando a negra insônia te devora,
Quem na guitarra que suspira e chora.
Há de cantar-te seu amor selvagem?
"A choça
do desterro é nua e fria!
O caminho do exílio é só de abrolhos!
Que família melhor que meus desvelos?...
Que tenda mais sutil que meus cabelos
Estrelados no pranto de teus olhos?...
"Estranho
moço! Eu vejo em tua fronte
Esta amargura atroz que não tem cura.
Acaso fulge ao sol de outros países,
Por entre as balsas de cheirosas lises,
A esposa que tua alma assim procura?
"Talvez
tenhas além servos e amantes,
Um palácio em lugar de uma choupana.
E aqui só tens uma guitarra e um beijo,
E o fogo ardente de ideal desejo
Nos seios virgens da infeliz serrana!..."
No entanto Ele
partiu!... Seu vulto ao longe
Escondeu-se onde a vista não alcança...
... Mas não penseis que o triste forasteiro
Foi procurar nos lares do estrangeiro
O fantasma sequer de uma esperança!...
Curralinho, 29 de abril de 1870
AS TREVAS
A meu amigo, o dr. Franco Meireles, inspirado
tradutor das Melodias Hebraicas
Traduzido de
Lord Byron
Tive um sonho
que em tudo não foi sonho!...
O sol brilhante
se apagara: e os astros,
Do eterno espaço na penumbra escura,
Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.
A terra fria balouçava cega
E tétrica no espaço ermo de lua.
A manhã ia, vinha... e regressava...
Mas não trazia o dia! Os homens pasmos
Esqueciam no horror dessas ruínas
Suas paixões. E as almas conglobadas
Gelavam-se num grito de egoísmo
Que demandava "luz". Junto às fogueiras
Abrigavam-se... e os tronos e os palácios,
Os palácios dos reis, o albergue e a choça
Ardiam por fanais. Tinham nas chamas
As cidades morrido. Em torno às brasas
Dos seus lares os homens se grupavam,
Pra à vez extrema se fitarem juntos.
Feliz de quem vivia junto às lavas
Dos vulcões sob a tocha alcantilada!
Hórrida
esp'rança acalentava o mundo!
As florestas ardiam!... de hora em hora
Caindo se apagavam; crepitando,
Lascado o trono desabava em cinzas.
E tudo... tudo as trevas envolviam.
As frontes ao clarão da luz doente
Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes
As faíscas das chamas borrifavam-nas.
Uns, de bruços no chão, tapando os olhos
Choravam. Sobre as mãos cruzadas - outros -
Firmando a barba, desvairados riam.
Outros correndo à toa procuravam
O ardente pasto pra funéreas piras.
Inquietos, no esgar do desvario,
Os olhos levantavam pra o céu torvo,
Vasto sudário do universo - espectro -,
E após em terra se atirando em raivas,
Rangendo os dentes, blasfemos, uivavam!
Lúgubre
grito os pássaros selvagens
Soltavam, revoando espavoridos
Num vôo tonto co'as inúteis asas!
As feras 'stavam mansas e medrosas!
As víboras rojando s'enroscavam
Pelos membros dos homens, sibilantes,
Mas sem veneno... a fome lhes matavam!
E a guerra, que um momento s'extinguira,
De novo se fartava. Só com sangue
Comprava-se o alimento, e após à parte
Cada um se sentava taciturno,
Pra fartar-se nas trevas infinitas!
Já não havia amor!... O mundo inteiro
Era um só pensamento, e o pensamento
Era a morte sem glória e sem detença!
O estertor da fome apascentava-se
Nas entranhas... Ossada ou carne pútrida
Ressupino, insepulto era o cadáver.
Mordiam-se entre
si os moribundos:
Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,
Todo exceto um só... que defendia
O cadáver do seu, contra os ataques
Dos pássaros, das feras e dos homens,
Até que a fome os extinguisse, ou fossem
Os dentes frouxos saciar algures!
Ele mesmo alimento não buscava...
Mas, gemendo num uivo longo e triste
Morreu lambendo a mão, que inanimada
Já não podia lhe pagar o afeto.
Faminta a multidão
morrera aos poucos.
Escaparam dous homens tão-somente
De uma grande cidade. E se odiavam.
... Foi junto dos tições quase apagados
De um altar, sobre o qual se amontoaram
Sacros objetos pra um profano uso,
Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas
Reunindo nas mãos frias dos espectros,
De seus sopros exaustos ao bafejo
Uma chama irrisória produziram!...
Ao clarão que tremia sobre as cinzas
Olharam-se e morreram dando um grito.
Mesmo da própria hediondez morreram,
Desconhecendo aquele em cuja fronte
Traçara a fome o nome de Duende!
O mundo fez-se
um vácuo. A terra esplêndida,
Populosa tornou-se numa massa
Sem estações, sem árvores, sem erva,
Sem verdura, sem homens e sem vida,
Caos de morte, inanimada argila!
Calaram-se o oceano, o rio, os lagos!
Nada turbava a solidão profunda!
Os navios no mar apodreciam
Sem marujos! os mastros desabando
Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos
Uma vaga na queda alevantassem.
Tinham morrido as vagas! e jaziam
As marés no seu túmulo... antes delas
A lua que as guiava era já morta!
No estagnado céu murchara o vento;
Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas
Era só trevas o universo inteiro.
Bahia, 23 de dezembro
AVES DE ARRIBAÇÃO
Pensava em ti nas horas de tristeza
Quando estes versos pálidos compus.
Cercavam-me planícies sem beleza,
Pesava-me na fronte um céu sem luz.
Ergue este ramo
solto no caminho.
Sei que em teu seio asilo encontrará.
Só tu conheces o secreto espinho
Que dentro d'alma me pungindo está!
Fagundes Varela
Aves, é
primavera! à rosa! à rosa!
Tomás Ribeiro
I
Era o tempo em que as ágeis andorinhas
Consultam-se na beira dos telhados,
E inquietas conversam, perscrutando
Os pardos horizontes carregados...
Em que as rolas
e os verdes periquitos
Do fundo do sertão descem cantando...
Em que a tribo das aves peregrinas
Os Zíngaros do céu formam-se em bando!
Viajar! viajar!
A brisa morna
Traz de outro clima os cheiros provocantes.
A primavera desafia as asas,
Voam os passarinhos e os amantes!...
II
Um dia Eles chegaram. Sobre a estrada
Abriram à tardinha as persianas;
E mais festiva a habitação sorria
Sob os festões das trêmulas lianas.
Quem eram? Donde
vinham? - Pouco importa
Quem fossem da casinha os habitantes.
- São noivos -: as mulheres murmuravam!
E os pássaros diziam: - São amantes - !
Eram vozes -
que uniam-se co'as brisas!
Eram risos - que abriam-se co'as flores!
Eram mais dous clarões - na primavera!
Na festa universal - mais dous amores!
Astros! Falai
daqueles olhos brandos.
Trepadeiras! Falai-lhe dos cabelos!
Ninhos d'aves! dizei, naquele seio,
Como era doce um pipilar d'anelos.
Sei que ali
se ocultava a mocidade...
Que o idílio cantava noite e dia...
E a casa branca à beira do caminho
Era o asilo do amor e da poesia.
Quando a noite
enrolava os descampados,
O monte, a selva, a choça do serrano,
Ouviam-se, alongando a paz dos ermos,
Os sons doces, plangentes de um piano.
Depois suave,
plena, harmoniosa
Uma voz de mulher se alevantava...
E o pássaro inclinava-se das ramas
E a estrela do infinito se inclinava.
E a voz cantava
o tremolo medroso
De uma ideal sentida barcarola...
Ou nos ombros na noite desfolhava
As notas petulantes da Espanhola!
III
Às vezes, quando o sol nas matas virgens
A fogueira das tardes acendia,
E como a ave ferida ensangüentava
Os píncaros da longa serrania,
Um grupo destacava-se
amoroso,
Tendo por tela a opala do infinito,
Dupla estátua do amor e mocidade
Num pedestal de musgos e granito.
E embaixo o
vale a descantar saudoso
Na cantiga das moças lavadeiras!...
E o riacho a sonhar nas canas bravas,
E o vento a s'embalar nas trepadeiras.
Ó crepúsculos
mortos! Voz dos ermos!
Montes azuis! Sussurros da floresta!
Quando mais vós tereis tantos afetos
Vicejando convosco em vossa festa?...
E o sol poente
inda lançava um raio
Do caçador na longa carabina...
E sobre a fronte d'Ela por diadema
Nascia ao longe a estrela vespertina.
IV
É noite! Treme a lâmpada medrosa
Velando a longa noite do poeta...
Além, sob as cortinas transparentes
Ela dorme... formosa Julieta!
Entram pela
janela quase aberta
Da meia-noite os preguiçosos ventos
E a lua beija o seio alvinitente
- Flor que abrira das noites aos relentos.
O Poeta trabalha!...
A fronte pálida
Guarda talvez fatídica tristeza...
Que importa? A inspiração lhe acende o verso
Tendo por musa - o amor e a natureza!
E como o cácto
desabrocha a medo
Das noites tropicais na mansa calma,
A estrofe entreabre a pétala mimosa
Perfumada da essência de sua alma.
No entanto Ela
desperta... num sorriso
Ensaia um beijo que perfuma a brisa...
... A Casta-diva apaga-se nos montes...
Luar de amor! acorda-te, Adalgisa!
V
Hoje a casinha já não abre à tarde
Sobre a estrada as alegres persianas.
Os ninhos desabaram... no abandono
Murcharam-se as grinaldas de lianas.
Que é
feito do viver daqueles tempos!
Onde estão da casinha os habitantes?
... A primavera, que arrebata as asas...,
Levou-lhe os passarinhos e os amantes!...
Curralinho, 1870
OS PERFUMES
A L.
O sândalo é o perfume das mulheres
de Istambul, e das huris do profeta; como
as borboletas, que se alimentam do
mel, a mulher do Oriente vive com as
gotas dessa essência divina.
José de Alencar
O perfume é
o invólucro invisível,
Que encerra as formas da mulher bonita.
Bem como a salamandra em chamas vive,
Entre perfumes a sultana habita.
Escrínio
aveludado onde se guarda
- Colar de pedras - a beleza esquiva,
Espécie de crisálida, onde mora
A borboleta dos salões - a Diva.
Alma das flores
- quando as flores morrem,
Os perfumes emigram para as belas,
Trocam lábios de virgens - por boninas,
Trocam lírios - por seios de donzelas!
E ali - silfos
travessos, traiçoeiros
Voam cantando em lânguido compasso
Ocultos nesses cálices macios
Das covinhas de um rosto ou dum regaço.
Vós,
que não entendeis a lenda oculta,
A linguagem mimosa dos aromas,
De Madalena a urna olhais apenas
Como um primor de orientais redomas
E não
vedes que ali na mirra e nardo
Vai toda a crença da Judia loura...
E que o óleo, que lava os pés do Cristo,
É uma reza também da pecadora.
Por mim eu sei
que há confidências ternas,
Um poema saudoso, angustiado,
Se uma rosa de há muito emurchecida,
Rola acaso de um livro abandonado.
O espírito
talvez dos tempos idos
Desperta ali como invisível nume...
E o poeta murmura suspirando:
"Bem me lembro... era este o seu perfume!"
E que segredo
não revela acaso
De uma mulher a predileta essência?
Ora o cheiro é lascivo e provocante!
Ora casto, infantil, como a inocência!
Ora propala
os sensuais anseios
D'alcova de Ninon ou Margarida,
Ora o mistério divinal do leito,
Onde sonha Cecília adormecida.
Aqui, na magnólia
de Celuta
Lambe a solta madeixa, que se estira.
Unge o bronze do dorso da caboc'la,
E o mármore do corpo da Hetaira.
É que
o perfume denuncia o espírito
Que sob as formas feminis palpita...
Pois como a salamandra em chamas vive,
Entre perfumes a mulher habita.
Curralinho, 21 de junho de 1870
IMMENSIS ORBIBUS ANGUIS
Sibila lambebant linguis vibrantibus ora.
Virgílio
I
Resvala em fogo o sol dos montes sobre a espalda,
E lustra o dorso nu da índia americana...
Na selva zumbe entanto o inseto de esmeralda,
E pousa o colibri nas flores da liana.
Ali - a luz
cruel, a calmaria intensa!
Aqui - a sombra, a paz, os ventos, a cascata...
E a pluma dos bambus a tremular imensa...
E o canto de aves mil... e a solidão ... e a mata...
E a hora em
que, fugindo aos raios da esplanada,
A indígena, a gentil matrona do deserto
Amarra aos palmeirasis a rede mosqueada,
Que, leve como um berço, embala o vento incerto...
Então
ela abandona-lhe ao beijo apaixonado
A perna a mais formosa - o corpo o mais macio,
E, as pálpebras cerrando, ao filho bronzeado
Entrega um seio nu, moreno, luzidio.
Porém
dentre os espatos esguios do coqueiro,
Do verde gravatá nos cachos reluzentes,
Enrosca-se e desliza um corpo sorrateiro
E desce devagar pelos cipós pendentes.
E desce... e
desce mais... à rede já se chega...
Da índia nos cabelos a longa cauda some...
Horror! aquele horror ao peito eis que se apega!
A baba - quer o leite! - A chaga - sente fome!
O veneno - quer
mel! - A escama quer a pele!
Quer o almíscar - perfume! - O imundo quer - o belo!
A língua do reptil - lambendo o seio imbele!...
Uma cobra - por filho... Horrível pesadelo!...
II
Assim, minh'alma, assim um dia adormeceste
Na floresta ideal da ardente mocidade...
Abria a fantasia - a pétala celeste...
Zumbia o sonho d'ouro em doce obscuridade...
Assim, minh'alma
deste o seio (ó dor imensa!)
Onde a paixão corria indômita e fremente!
Assim bebeu-te a vida, a mocidade e a crença
Não boca de mulher... mas de fatal serpente!...
Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1869
A UMA ATRIZ
No seu benefício
Branco cisne,
que vogavas
Das harmonias no mar,
Pomba errante de outros climas,
Vieste aos cerros pousar.
Inda bem. Sob os palmares
Na voz do condor, dos mares,
Das serranias, dos céus...
Sente o homem, - que é poeta.
Sente o vate - que é profeta.
Sente o profeta - que é Deus.
Há alguma
cousa de grande
Deste mundo na amplidão,
Como que a face do Eterno
Palpita na criação...
E o homem que olha o deserto,
Diz consigo: "Deus stá perto
Que a grandeza é o Criador."
E, sob as paternas vistas,
Larga rédeas às conquistas,
Pede as asas ao condor.
Inda bem. A
glória é isto...
É ser tudo... é ser qual Deus...
Agitar as selvas d'alma
Ao sopro dos lábios teus...
Dizer ao peito - suspira!
Dizer à mente - delira!
A glória inda é mais: É ver
Homens, que tremem - se tremes!
Homens, que gemem - se gemes!
Que morrem - se vais morrer!
A glória
é ter com o tridente
Refreada a multidão,
- Oceano de pensamentos
Que tu agitas co'a mão!
- Montanha feita de idéias,
Que sustenta as epopéias
Que é do gênio pedestal!
- Harpa imensa feita de almas,
Que rompe em hinos e palmas,
Ao teu toque divinal.
Mas esqueceste...
Não basta
"Chegar, olhar e vencer"
Do gênio a maior grandeza
O ser divino é sofrer.
Diz!... Quando ouves a torrente
Do entusiasmo na enchente
Vir espumar-te lauréis;
Nest'hora grande não sentes
Longe os silvos das serpentes,
Que tentam morder-te os pés?
Inda é a glória - rainha
Que jamais caminha
só.
Ai! Quem sobe ao Capitólio
Vai precedido de pó.
Porém tu zombas da inveja...
Se à noite o raio lampeja
Tu fazes dele um clarão!
Pela tormenta embalada
Ao som da orquestra arroubada
Vais te perder n'amplidão.
Recife, 27 de setembro de 1866
CANÇÃO DO BOÊMIO
Recitativo da "Meia Hora de Cinismo"
COMÉDIA
DE COSTUMES ACADÊMICOS
Música de Emílio do Lago
Que noite fria!
Na deserta rua
Tremem de medo os lampiões sombrios.
Densa garoa faz fumar a lua
Ladram de tédio vinte cães vadios.
Nini formosa!
por que assim fugiste?
Embalde o tempo à tua espera conto.
Não vês, não vês?... Meu coração
é triste
Como um calouro quando leva ponto.
A passos largos
eu percorro a sala
Fumo um cigarro, que filei na escola...
Tudo no quarto de Nini me fala
Embalde fumo... tudo aqui me amola.
Diz-me o relógio
cinicando a um canto
"Onde está ela que não veio ainda?"
Diz-me a poltrona "por que tardas tanto?
Quero aquecer-te, rapariga linda."
Em vão
a luz da crepitante vela
De Hugo clareia uma canção ardente;
Tens um idílio - em tua fronte bela...
Um ditirambo - no teu seio quente...
Pego o compêndio...
inspiração sublime
Pra adormecer... inquietações tamanhas...
Violei à noite o domicílio, ó crime!
Onde dormia uma nação... de aranhas...
Morrer de frio
quando o peito é brasa...
Quando a paixão no coração se aninha!?...
Vós todos, todos, que dormis em casa,
Dizei se há dor, que se compare à minha!...
Nini! o horror
deste sofrer pungente
Só teu sorriso neste mundo acalma...
Vem aquecer-me em teu olhar ardente...
Nini! tu és o cache-nez dest'alma.
Deus do Boêmio!...
São da mesma raça
As andorinhas e o meu anjo louro...
Fogem de mim se a primavera passa
Se já nos campos não há flores de ouro...
E tu fugiste,
pressentindo o inverno,
Mensal inverno do viver boêmio...
Sem te lembrar que por um riso terno
Mesmo eu tomara a primavera a prêmio...
No entanto ainda
do Xerez fogoso
Duas garrafas guardo ali... Que minas!
Além de um lado o violão saudoso
Guarda no seio inspirações divinas...
Se tu viesses...
de meus lábios tristes
Rompera o canto... Que esperança inglória!...
Ela esqueceu o que jurar-lhe vistes
Ó Paulicéia, ó Ponte grande, ó Glória!...
Batem!... Que
vejo! Ei-la afinal comigo...
Foram-se as trevas... fabricou-se a luz...
Nini! pequei... dá-me exemplar castigo!
Sejam teus braços... do martírio a cruz!
São Paulo, junho de 1868