ESPUMAS
FLUTUANTES
Antônio de Castro Alves
O TONEL DAS DANAIDES
Diálogo
Na torrente
caudal de seus cabelos negros
Alegre eu embarquei da vida a rubra flor.
- Poeta! Eras
o Doge o anel lançando às ondas...
Ao fundo de um abismo... arremessaste o amor.
Depois minh'alma
ao som da Lira de cem vozes
Sublimes fantasias em notas desfolhou.
- Cleópatra
também pra erguer no Tibre a espuma
As pérolas do colar nas vagas desfiou!
Depois fiz de
meu verso a púrpura escarlate
Por onde ela pisasse em marcha triunfal!
- Como Hércules,
volveste aos pés da insana Onfália
O fuso feminil de uma paixão fatal.
Um dia ela me
disse: "Eu sou uma exilada!"
Ergui-me... e abandonei meu lar e meu país...
- Assim o filho
pródigo atira as vestes quentes
E treme no caminho aos pés da meretriz.
E quando debrucei-me
à beira daquela alma
Pra ver toda riqueza e afetos que lhe dei!...
- Ai! nada mais
achaste! o abismo os devorara...
O pego se esqueceu da dádiva do Rei!
Na gruta do
chacal ao menos restam ossos...
Mas tudo sepultou-me aquele amor cruel!
- Poeta! O coração
da fria Messalina
É das fatais Danaides o pérfido Tonel!
14 de outubro de 1869
A
LUÍS
No dia de seu natalício
A imaginação, com o vôo ousado, aspira
a princípio à eternidade... Depois um
pequeno espaço basta em breve para os destroços
de nossas esperanças iludidas!...
Goethe
Como um perfume
de longínquas plagas
Traz o vento da pátria ao peregrino,
Ó meu amigo! que saudade infinda
Tu me trazes dos tempos de menino!
É o ledo
enxame de sutis abelhas
Que vem lembrar à flor o mel d'aurora...
Acres perfumes de uma idade ardente
Quando o lábio sorri... mas nunca chora!
Que tempos idos!
que esperanças louras!
Que cismas de poesia e de futuro!
Nas páginas do triste Lamartine
Quanto sonho de amor pousava puro!...
E tu falavas
de um amor celeste,
De um anjo, que depois se fez esposa...
- Moça, que troca os risos de criança
Pelo meigo cismar de mãe formosa.
Oh! meu amigo!
neste doce instante
O vento do passado em mim suspira,
E minh'alma estremece de alegria,
Como ao beijo da noite geme a lira.
Tu paraste na
tenda, ó peregrino!
Eu vou seguindo do deserto a trilha;
Pois bem... que a lira do poeta errante
Seja a bênção do lar e da família.
Rio, fevereiro de 1868
DALILA
Fair defect of nature
Paradise Lost - Milton
Foi desgraça,
meu Deus!... Não!... Foi loucura
Pedir seiva de vida - à sepultura,
Em gelo - me abrasar,
Pedir amores - a Marco sem brio,
E a rebolcar-me em leito imundo e frio
- A ventura buscar.
Errado viajor
- sentei-me à alfombra
E adormeci da mancenilha à sombra
Em berço de cetim...
Embalava-me a brisa no meu leito...
Tinha o veneno a lacerar-me o peito
- A morte dentro em mim...
Foi loucura!...
No ocaso - tomba o astro;
A estátua branca e pura de alabastro
- Se mancha em lodo vil...
Quem rouba a estrela - à tumba do ocidente?
Que Jordão lava na lustral corrente
O marmóreo perfil?...
.....................................................................
Talvez!... Foi
sonho!... Em noite nevoenta
Ela passou sozinha, macilenta
Tremendo a soluçar...
Chorava - nenhum eco respondia...
Sorria - a tempestade além bramia...
E ela sempre a marchar.
E eu disse-lhe:
Tens frio? - arde minha alma.
Tens os pés a sangrar? - podes em calma
Dormir no peito meu.
Pomba errante - é meu peito um ninho vago!
Estrela - tens minha alma - imenso lago -
Reflete o rosto teu!...
E amamos...
Este amor foi um delírio...
Foi ela minha crença, foi meu lírio,
Minha estrela sem véu...
Seu nome era o meu canto de poesia,
Que com o sol - pena de ouro - eu escrevia
Nas lâminas do céu.
Em seu seio
escondi-me... como à noite
Incauto colibri, temendo o açoite
Das iras do tufão,
A cabecinha esconde sob as asas,
Faz seu leito gentil por entre as gazas
Da rosa do Japão.
E depois...
embalei-a com meus cantos
Seu passado esqueci... lavei com prantos
Seu lodo e maldição...
... Mas um dia acordei... E mal desperto
Olhei em torno a mim... - Tudo deserto...
Deserto o coração...
Ao vento, que
gemia pelas franças
Por ela perguntei... de suas tranças
À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio...
E meu lábio queimado e o peito frio,
Foi ela que o queimou...
Minha alma nodoou
no ósculo imundo,
Bem como Satanás - beijando o mundo -
Manchou a criação,
Simum - crestou-me da esperança as flores...
Tormenta - ela afogou nos seus negrores
A luz da inspiração...
Vai, Dalila!...
É bem longa tua estrada...
É suave a descida - terminada
Em báratro cruel.
Tua vida - é um banho de ambrosia...
Mais tarde a morte e a lâmpada sombria
Pendente do bordel.
Hoje flores...
A música soando...
As perlas do Champagne gotejando
Em taças de cristal.
A volúpia a escaldar na louca insônia...
Mas sufoca os festins de Babilônia
A legenda fatal.
Tens o seio
de fogo e a alma fria.
O cetro empunhas lúbrico da orgia
Em que reinas tu só!...
Mas que finda o ranger de uma mortalha,
A enxada do coveiro que trabalha
A revolver o pó.
Não te
maldigo, não!... Em vasto campo
Julguei-te - estrela, - e eras - pirilampo
Em meio à cerração...
Prometeu - quis dar luz á fria argila...
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,
A luz da redenção!!...
Recife, 1864
AS DUAS ILHAS
Sobre uma página da poesia de Victor Hugo,
com o mesmo título
Quando à
noite - às horas mortas -
O silêncio e a solidão
- Sob o dossel do infinito -
Dormem do mar n'amplidão,
Vê-se, por cima dos mares,
Rasgando o teto dos ares
Dous gigantescos perfis...
Olhando por sobre as vagas,
Atentos, longínquas plagas
Ao clarear dos fuzis.
Quem os vê,
olha espantado
E a sós murmura: "O que é?
Ai! que atalaias gigantes,
São essas além de pé?..."
Adamastor de granito
Co'a testa roça o infinito
E a barba molha no mar;
E de pedra a cabeleira
Sacudind'a onda ligeira
Faz de medo recuar...
São -
dous marcos miliários,
Que Deus nas ondas plantou.
Dous rochedos, onde o mundo
Dous Prometeus amarrou!...
- Acolá... (Não tenhas medo!...)
É Santa Helena - o rochedo
Desse Titã, que foi rei!...
- Ali... (Não feches os olhos!...)
Ali... aqueles abrolhos
São a ilha de Jersey!...
São eles
- os dous gigantes
No século de pigmeus.
São eles - que a majestade
Arrancam da mão de Deus.
- Este concentra na fronte
Mais astros - que o horizonte,
Mais luz - do que o sol lançou!...
- Aquele - na destra alçada
Traz segura sua espada
- Cometa, que ao céu roubou!...
E olham os velhos
rochedos
O Sena, que dorme além...
E a França, que entre a caligem
Dorme em sudário também...
E o mar pergunta espantado:
"Foi deveras desterrado
Buonaparte - meu irmão?..."
Diz o céu astros chorando:
"E Hugo?..." E o mundo pasmando
Diz: "Hugo... Napoleão!..."
Como vasta reticência
Se estende o silêncio após...
És muito pequena, ó França,
Pra conter estes heróis...
Sim! que estes vultos augustos
Para o leito de Procustos
Muito grandes Deus traçou...
Basta os reis tremam de medo
Se a sombra de algum rochedo
Sobre eles se projetou!...
Dizem que, quando,
alta noite,
Dorme a terra - e vela Deus,
As duas ilhas conversam
Sem temor perante os céus.
- Jersey curva sobre os mares
À Santa Helena os pensares
Segreda do velho Hugo...
- E Santa Helena no entanto
No Salgueiro enxuga o pranto
E conta o que Ele falou...
E olhando o
presente infame
Clamam: "Da turba vulgar
Nós - infinitos de pedra -
Nós havemo-los vingar!..."
E do mar sobre as escumas,
E do céu por sobre as brumas,
Um ao outro dando a mão...
Encaram a imensidade
Bradando: "A Posteridade!..."
Deus ri-se e diz: "Inda não!...
Recife, 1865
AO ATOR JOAQUIM AUGUSTO
Um dia Pigmalião
- o estatuário
Da oficina no tosco santuário
Pôs-se a pedra a talhar...
Surgem contornos lânguidos, amenos...
E dos flocos de mármore outra Vênus
Surge dest'outro mar.
De orgulho o
mestre ri... A estátua é bela!
Da Grécia as filhas por inveja dela
Vão nas grutas gemer...
Mas o artista soluça: "Ó Grande Jove!
"Ela é bela... bem sei - mas não se move!
"É sombra - e não mulher!"
Então
do excelso Olimpo o deus-tonante
Manda que desça um raio fulgurante
À tenda do escultor.
Vive a estátua! Nos olhos - treme o pejo,
Vive a estátua!... Na boca - treme um beijo,
Nos seios - treme amor.
O poeta é
- o moderno estatuário
Que na vigília cria solitário
Visões de seio nu!
O mármore da Grécia - é o novo drama!
Mas o raio vital quem lá derrama?...
É Júpiter!... És tu!...
Como Gluck nas
selvas aprendia
Ao som do violoncelo a melodia
Da santa inspiração,
Assim bebes atento a voz obscura
Do vento das paixões na selva escura
Chamada - multidão.
Gargalhadas,
suspiros, beijos, gritos,
Cantos de amor, blasfêmias de precitos,
Choro ou reza infantil,
Tudo colhes... e voltas co'as mãos cheias,
- O crânio largo a transbordar de idéias
E de criações mil.
Então
começa a luta, a luta enorme.
Desta matéria tosca, áspera, informe,
Que na praça apanhou,
Teu gênio vai forjar novo tesouro...
O cobre escuro vai mudar-se em ouro,
Como Fausto o sonhou!
Glória
ao mestre! Passando por seus dedos
Dói mais a dor... os risos são mais ledos...
O amor é mais do céu...
Rebenta o ouro desta fronte acesa!
O artista corrigiu a natureza!
O alquimista venceu!
Então
surges, Ator! e do proscênio
Atiras as moedas do teu gênio
Às pasmas multidões.
Pródigo enorme! a tua enorme esmola
Cunhada pela efígie tua rola
Nos nossos corações.
Por isso agora,
no teu almo dia,
Vieram dando as mãos à Poesia
E o povo, bem o vês;
Como nos tempos dessa Roma antiga
Aos pés desse outro Augusto a plebe amiga
Atirava lauréis...
Augusto! E o
nome teu não se desmente...
O diadema real na vasta frente
Cinges... eu bem o sei!
Mandas no povo deste novo Lácio...
E os poetas repetem como Horácio:
"Salve! Augusto! Rei!"
São Paulo, outubro de 1868
OS ANJOS
DA MEIA-NOITE
Fotografias
I
Quando a insônia, qual lívido vampiro,
Como o arcanjo da guarda do Sepulcro,
Vela à noite por nós,
E banha-se em suor o travesseiro,
E além geme nas franças do pinheiro
Da brisa a longa voz...
Quando sangrenta
a luz no alampadário
Estala, cresce, expira, após ressurge,
Como uma alma a penar;
E canta aos guizos rubros da loucura
A febre - a meretriz da sepultura -
A rir e a soluçar...
Quando tudo
vacila e se evapora,
Muda e se anima, vive e se transforma,
Cambaleia e se esvai...
E da sala na mágica penumbra...
Um mundo em trevas rápido se obumbra...
E outro das trevas sai...
......................................................................
Então...
nos brancos mantos, que arregaçam
Da meia-noite os Anjos alvos passam
Em longa procissão!
E eu murmuro ao fitá-los assombrado:
São os Anjos de amor de meu passado
Que desfilando vão...
Almas, que um
dia no meu peito ardente
Derramastes dos sonhos a semente,
Mulheres, que eu amei!
Anjos louros do céu! virgens serenas!
Madonas, Querubins, ou Madalenas!
Surgi! aparecei!
Vinde, fantasmas!
Eu vos amo ainda;
Acorde-se a harmonia à noite infinda
Ao roto bandolim...
..................................................................
E no éter,
que em notas se perfuma,
As visões s'alteando uma por uma...
Vão desfilando assim!...
1ª SOMBRA
Marieta
Como o gênio
da noite, que desata
O véu de rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos... Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata...
O seio virginal,
que a mão recata,
Embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
Preludia um violão na serenata!...
... Furtivos
passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
Matam lábios os beijos em segredo...
Afoga-me os
suspiros, Marieta!
Oh surpresa! oh palor! oh pranto! oh medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!...
2ª SOMBRA
Bárbara
Erguendo o cálixe,
que o Xerez perfuma,
Loura a trança alastrando-lhe os joelhos,
Dentes níveos em lábios tão vermelhos,
Como boiando em purpurina escuma;
Um dorso de
Valquíria... alvo de bruma,
Pequenos pés sob infantis artelhos,
Olhos vivos, tão vivos, como espelhos,
Mas como eles também sem chama alguma;
Garganta de
um palor alabastrino,
Que harmonias e músicas respira...
No lábio - um beijo... no beijar - um hino;
Harpa eólia
a esperar que o vento a fira,
- Um pedaço de mármore divino...
E o retrato de Bárbara - a Hetaira.-
3ª SOMBRA
Ester
Vem! no teu
peito cálido e brilhante
O nardo oriental melhor transpira!...
Enrola-te na longa caxemira,
Como as Judias moles do Levante,
Alva a clâmide
aos ventos - roçagante...,
Túmido o lábio, onde o saltério gira...
Ó musa de Israel! pega da lira...
Canta os martírios de teu povo errante!
Mas não...
brisa da pátria além revoa,
E ao delamber-lhe o braço alabastro,
Falou-lhe de partir... e parte... e voa...
Qual nas algas
marinhas desce um astro...
Linda Ester! teu perfil se esvai... s'escoa...
Só me resta um perfume... um canto... um rastro...
4ª SOMBRA
Fabíola
Como teu riso
dói... como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do pássaro maldito,
Que em sânie de cadáveres se ceva!
Filha da noite!
A ventania leva
Um soluço de amor pungente, aflito...
Fabíola! É teu nome!... Escuta... é um grito,
Que lacerante para os céus s'eleva!...
E tu folgas,
Bacante dos amores,
E a orgia, que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores...
É sangue,
que referve-te na taça!
É sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!
5ª e
6ª SOMBRAS
Cândida e Laura
Como no tanque
de um palácio mago,
Dous alvos cisnes na bacia lisa,
Como nas águas, que o barqueiro frisa,
Dous nenúfares sobre o azul do lago,
Como nas hastes
em balouço vago
Dous lírios roxos, que acalenta a brisa,
Como um casal de juritis, que pisa
O mesmo ramo no amoroso afago...,
Quais dous planetas
na cerúlea esfera,
Como os primeiros pâmpanos das vinhas,
Como os renovos nos ramais da hera,
Eu vos vejo
passar nas noites minhas,
Crianças, que trazeis-me a primavera...
Crianças, que lembrais-me as andorinhas!...
7ª SOMBRA
Dulce
Se houvesse
ainda talismã bendito,
Que desse ao pântano - a corrente pura,
Musgo - ao rochedo, festa - à sepultura,
Das águias negras - harmonia ao grito...,
Se alguém
pudesse ao infeliz precito
Dar lugar no banquete da ventura...
E trocar-lhe o velar da insônia escura
No poema dos beijos - infinito...,
Certo... serias
tu, donzela casta,
Quem me tomasse em meio do Calvário
A cruz de angústias, que o meu ser arrasta!...
Mas se tudo
recusa-me o fadário,
Na hora de expirar, ó Dulce, basta
Morrer beijando a cruz de teu rosário!...
8ª SOMBRA
Último Fantasma
Quem és
tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso...
Baixas do céu
num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso!...
Onde nos vimos
nós?... És doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?...
Quem és
tu? Quem és tu? - És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!...
Santa Isabel, agosto de 1870