Bernardo
Guimarães
A Escrava Isaura
Capítulo VIII
Agora nos é
indispensável abandonar por alguns instantes Isaura
em sua penível situação diante de seu dissoluto e
bárbaro senhor para
informarmos o leitor sobre o que ocorrera no seio daquela pequena
família, e em que pé ficaram os negócios da casa,
depois que a notícia
da morte do comendador, estalando como uma bomba no meio das
intrigas domésticas, veio dar-lhes dolorosa diversão no
momento em
que elas, refervendo no mais alto grau de ebulição, reclamavam
forçosamente um desenlace qualquer.
Aquela morte não podia senão prolongar tão melindrosa
e deplorável
situação, pondo nas mãos de Leôncio toda a
fortuna patema, e
desatando as últimas peias que ainda o tolhiam na expansão
de seus
abomináveis instintos.
Leôncio e Malvina estiveram de nojo encerrados em casa por alguns
dias, durante os quais parece que deram tréguas aos arrufos e
despeitos recíprocos. Henrique, que queria absolutamente partir
no dia
seguinte, cedendo enfim aos rogos e instâncias de Malvina, consentiu
em ficar-lhe fazendo companhia durante os dias de nojo.
- Conforme for o procedimento de meu marido, disse-lhe ela, -
iremos juntos. Se por estes dias não der liberdade e um destino
qualquer
a Isaura, não ficarei mais nem um momento em sua casa.
Leôncio encerrado em seu quarto a ninguém falou, nem apareceu
durante alguns dias, e parecia mergulhado no mais inconsolável
e profundo
pesar. Entretanto, não era assim. É verdade que Leôncio
não
deixou de sofrer certo choque, certa surpresa, que não golpe doloroso,
com a noticia do falecimento de seu pai; mas no fundo d'alma, - força
é dizê-lo, - passado o primeiro momento de abalo e consternação
chegou até a estimar aquele acontecimento, que tanto a propósito
vinha
livrá-lo dos apuros em que se achava enleado em face de Malvina
e de Miguel. Portanto, durante a sua reclusão, em vez de entregar-se
à dor que lhe deveria causar tão sensível golpe,
Leôncio, que por
maneira nenhuma podia resignar-se a desfazer-se de Isaura, só meditava
os meios de safar-se das dificuldades, em que se achava envolvido,
e urdia planos para assegurar-se da posse da gentil cativa. As dificuldades
eram grandes, e constituíam um nó, que poderia ser cortado,
mas
nunca desatado. Leôncio havia reconhecido a promessa que seu pai
fizera
a Miguel, de alforriar Isaura mediante a soma enorme de dez contos de
réis.
Miguel tinha pronta essa quantia, e lha tinha vindo meter nas
mãos, reclamando a liberdade de sua filha. Leôncio reconhecia
também,
e nem podia contestar, que sempre fora voto de sua falecida mãe
deixar
livre Isaura por sua morte. Por outro lado Malvina, sabedora de sua
paixão e de seus sinistros intentos sobre a cativa, justamente
irritada,
exigia com império a imediata alforria da mesma. Não restava
ao
mancebo meio algum de se tirar decentemente de tantas dificuldades
senão libertando Isaura. Mas Leôncio não podia se
conformar com
semelhante idéia. O violento e cego amor, que Isaura lhe havia
inspirado,
o incitava a saltar por cima de todos os obstáculos, a arrostar
todas as
leis do decoro e da honestidade, a esmagar sem piedade o coração
de sua
meiga e carinhosa esposa, para obter a satisfação de seus
frenéticos
desejos. Resolveu pois cortar o nó, usando de sua prepotência,
e protelando indefinidamente o cumprimento de seu dever, assentou de
afrontar com cínica indiferença e brutal sobranceria as
justas exigências e
exprobrações de Malvina.
Quando esta, depois de deixar passar alguns dias em respeito à
dor de que julgava seu marido acabrunhado, lhe tocou naquele melindroso
negócio:
- Temos tempo, Malvina, - respondeu-lhe o marido com toda a
calma. - É-me preciso em primeiro lugar dar balanço e fazer
o inventário
da casa de meu pai. Tenho de ir à corte arrecadar os seus papéis
e
tomar conhecimento do estado de seus negócios. Na volta e com mais
vagar trataremos de Isaura.
Ao ouvir esta resposta o rosto de Malvina cobriu-se de palidez
mortal; ela sentiu esfriar-lhe o coração apertado entre
as mãos geladas do
mais pungente dissabor, como se ali se esmoronasse de repente todo o
sonhado castelo de suas aventuras conjugais. Ela esperava que o
marido fulminado por tão doloroso golpe naqueles dias de amarga
meditação e abatimento, retraindo-se no santuário
da consciência,
reconhecesse seus erros e desvanos, implorasse o perdão deles,
e se
propusesse a entrar nas sendas do dever e da honestidade. As frias
desculpas e fúteis evasivas do marido vieram submergi-la de chofre
no mais amargo e profundo desalento.
- Como?! - exclamou ela com um acento que exprimia a um
tempo altiva indignação e o mais entranhado desgosto. -
Pois ainda
hesitas em cumprir tão sagrado dever?... se tivesses alma, Leôncio,
terias considerado Isaura como tua irmã, pois bem sabes que tua
mãe a
amava e idolatrava como a uma filha querida, e que era seu mais
ardente desejo libertá-la por sua morte e deixar-lhe um legado
considerável, que lhe assegurasse o futuro. Sabes também
que teu pai
havia feito promessa solene ao pai de Isaura de dar-lhe alforria pela
quantia de dez contos de réis, e Miguel já te veio pôr
nas mãos essa
exorbitante quantia. Sabes tudo isto, e ainda vens com dúvidas
e demoras!...
Oh! isto é muito!... não vejo motivo nenhum para demorar
o cumprimento de
um dever de que há muito tempo já devias ter-te desempenhado.
- Mas para que semelhante pressa?... não me dirás Malvina?
-
replicou Leôncio com a maior brandura e tranqüilidade. - De
que
proveito pode ser agora a liberdade para Isaura? porventura não
está ela aqui bem? é maltratada?... sofre alguma privação?...
não
continua a ser considerada antes como uma filha da família, do
que como
uma escrava? queres que desde já a soltemos à toa por esse
mundo?...
assim decerto não cumpriremos o desejo de minha mãe, que
tão solicita
se mostrava pela sorte futura de Isaura. Não, minha Malvina; não
devemos por ora entregar Isaura a si mesma. É preciso primeiro
assegurar-lhe
uma posição decente, honesta e digna de sua beleza e educação,
procurando-lhe um bom marido, e isso não se arranja assim de um
dia
para outro.
- Que miserável desculpa, meu amigo!... Isaura por ora não
precisa de marido para protegê-la; tem o pai, que é homem
muito de bem,
e acaba de dar provas de quanto adora sua filha. Entreguemo-la ao
senhor Miguel, que ficará em muito boas mãos, e debaixo
de muito boa
sombra.
- Pobre do senhor Miguel! - replicou Leôncio com sorriso
desdenhoso. - Terá bons desejos, não duvido; mas onde estão
os meios,
de que dispõe, para fazer a felicidade de Isaura, principalmente
agora
em que decerto empenhou os cabelos da cabeça para arranjar a alforria
da filha, se é que isso não proveio de esmolas, que lhe
fizeram, como
me parece mais certo.
Por única resposta Malvina abanou tristemente a cabeça e
suspirou.
Todavia quis ainda acreditar na sinceridade das palavras de seu marido,
fingiu-se satisfeita e retirou-se sem dar mostras de agastamento. Não
podia, porém, prolongar por mais tempo aquela situação
para ela tão
humilhante, tão cheia de ansiedade e desgosto, e no outro dia insistiu
ainda com mais força sobre o mesmo objeto. Teve em resposta as
mesmas evasivas e moratórias. Leôncio afetava mesmo tratar
desse
negócio com certa indiferença desdenhosa, como quem estava
definitivamente resolvido a fazer o que quisesse. Malvina desta vez não
pôde conter-se, e rompeu com seu marido. Este, como já friamente
havia deliberado, aparou os raios da cólera feminina no escudo
de uma
imprudência cínica e galhofeira, o que levou ao último
grau de
exacerbação a cólera e o despeito de Malvina.
No outro dia Malvina, sem dar satisfação alguma a quem quer
que
fosse, deixava precipitadamente a casa de Leôncio, e partia em companhia
de seu irmão Henrique a caminho do Rio de Janeiro, jurando no
auge da indignação nunca mais pôr os pés naquela
casa, onde era tão
vilmente ultrajada, e varrer para sempre da lembrança a imagem
de seu
desleal e devasso marido. No assomo do despeito não calculava se
teria
forças bastantes para levar a efeito aqueles frenéticos
juramentos,
inspirados pela febre do ciúme e da indignação; ignorava
que nas
almas tenras e bondosas como a sua o ódio se desvanece muito mais
depressa do que o amor; e o amor, que Malvina consagrava a Leôncio,
a
despeito de seus desmandos e devassidões, era muito mais forte
do
que o seu ressentimento, por mais justo que este fosse.
Leôncio por seu lado, levando por diante o seu plano de opor aos
assomos da esposa a mais inerte e cínica indiferença, viu
de braços
cruzados e sem fazer a minima observação, os preparativos
daquela
rápida viagem, e recostado ao alpendre, fumando indolentemente
o seu
charuto, assistiu à partida de sua mulher, como se fora o mais
indiferente dos hóspedes.
Entretanto, essa indiferença de Leôncio nada tinha de natural
e
sincera; não que ele sentisse pesar algum pela brusca partida de
sua
mulher; pelo contrário, era júbilo, que sentia com a realização
daquela
caprichosa resolução de Malvina, que assim lhe abandonava
o campo
inteiramente livre de embaraços, para prosseguir em seus nefandos
projetos sobre a infeliz Isaura. Com aquele fingido pouco-caso, conseguia
disfarçar o prazer e satisfação, em que lhe transbordava
o coração; e
como era aforismo adotado e sempre posto em prática por ele, posto
que em circunstâncias menos graves, - que contra as cóleras
e
caprichos femininos não há arma mais poderosa do que muito
sangue-frio e pouco-caso, Malvina não pôde descobrir no fundo
daquela
afetada indiferença o júbilo intenso em que nadava a alma
de seu marido.
O que era feito porém da nobre e infeliz Isaura durante esses
longos dias de luto, de consternação, de ansiedade e dissabores?
Desde que ouviu a leitura da carta, em que se noticiava a morte do
comendador, Isaura perdeu todas as lisonjeiras esperanças que um
momento
antes Miguel fizera desabrochar em seu coração. Transida
de horror, compreendeu
que um destino implacável a entregava vítima indefesa entre
as mãos de seu tenaz
e desalmado perseguidor. Sabedora da miseranda sorte de sua mãe,
não encontrava
em sua imaginação abalada outro remédio a tão
cruel situação senão resignar-se e
preparar-se para o mais atroz dos martírios. Um cruel desalento,
um pavor
mortal apoderou-se de seu espírito, e a infeliz, pálida,
desfeita, e como
que alucinada, ora vagava à toa pelos campos, ora escondida nas
mais
espessas moitas do pomar, ou nos mais sombrios recantos das alcovas,
passava horas e horas entre sustos e angústias, como a tímida
lebre,
que vê pairando no céu a asa sinistra do gavião de
garras sangrentas.
Quem poderia ampará-la? onde poderia encontrar proteção
contra as
tirânicas vontades de seu libertino e execrável senhor? Só
duas pessoas
poderiam ter por ela comiseração e interesse; seu pai e
Malvina. Seu
pai, obscuro e pobre feitor, não tendo ingresso em casa de Leôncio,
e
só podendo comunicar-se com ela a custo e furtivamente, em pouco
ou
nada podia valer-lhe. Malvina, que sempre a havia tratado com tanta
bondade e carinho, ai! a própria Malvina, depois da cena escandalosa
em que colhera seu marido, dirigindo a Isaura palavras enternecidas,
começou a olhá-la com certa desconfiança e afastamento,
terrível efeito
do ciúme, que torna injustas e rancorosas as almas ainda as mais
cândidas
e benevolentes A senhora, com o correr dos dias, tornava-se cada
vez menos tratável e benigna para com a escrava, que antes havia
tratado com carinho e intimidade quase fraternal.
Malvina era boa e confiante, e nunca teria duvidado da inocência
de Isaura, se não fosse Rosa, sua terrível êmula e
figadal inimiga.
Depois do desaguisado, de que Isaura foi causa inocente, Rosa ficou sendo
a mucama ou criada da câmara de Malvina, e esta às vezes
desabafava
em presença da maligna mulata os ciúmes e desgostos que
lhe ferviam
e transvazavam do coração.
- Sinhá está-se fiando muito naquela sonsa... - dizia-lhe
a
maliciosa rapariga. - Pois fique certa que não são de hoje
esses namoricos;
há muito tempo que eu estou vendo essa impostora, que diante da
sinhá se faz toda simplória, andar-se derretendo diante
de sinhô moço.
Ela mesmo é que tem a culpa de ele andar assim com a cabeça
virada.
Estes e outros quejandos enredos, que Rosa sabia habilmente
insinuar nos ouvidos de sua senhora, eram bastantes para desvairar
o espírito de uma cândida e inexperiente moça como
Malvina, e foram
produzindo o resultado que desejava a perversa mulatinha.
Acabrunhada com aquele novo infortúnio, Isaura fez algumas
tentativas para achegar-se de sua senhora, e saber o motivo por que lhe
retirava a afeição e confiança, que sempre lhe mostrara,
e a fim de
poder manifestar sua inocência. Mas era recebida com tal frieza
e altivez, que a infeliz recuava espavorida para de novo ir mergulhar-se
mais
fundo ainda no pego de suas angústias e desalentos.
Todavia, enquanto Malvina se conservava em casa, era sempre
uma salvaguarda, uma sombra protetora, que amparava Isaura contra
as importunações e brutais tentativas de Leôncio.
Por menor que fosse
o respeito, que lhe tinha o marido, ela não deixava de ser um poderoso
estorvo ao menos contra os atos de violência, que quisesse pôr
em
prática para conseguir seus execrandos fins. Isaura ponderava isso
tudo,
e é custoso fazer-se idéia do estado de terror e desfalecimento
em que
ficou aquela pobre alma quando viu partir sua senhora, deixando-a
inteiramente ao desamparo, entregue sem defesa aos insanos e bárbaros
caprichos daquele que era seu senhor, amante e algoz ao mesmo tempo.
De feito, Leôncio mal viu sumir-se a esposa por trás da última
colina, não podendo conter mais a expansão de seu satânico
júbilo, tratou
logo de pôr o tempo em proveito, e pôs-se a percorrer toda
a casa em
procura de Isaura. Foi enfim dar com ela no escuro recanto de uma
alcova, estendida por terra, quase exânime, banhada em pranto e
arrancando do peito soluços convulsivos.
Poupemos ao leitor a narração da cena vergonhosa que aí
se deu.
Contentemo-nos com dizer que Leôncio esgotou todos os meios brandos
e suasivos ao seu alcance para convencer a rapariga que era do
interesse e dever dela render-se a seus desejos. Fez as mais esplêndidas
promessas, e os mais solenes protestos; abaixou-se até às
mais humildes
súplicas, e arrastou-se vilmente aos pés da escrava, de
cuja boca não
ouviu senão palavras amargas, e terríveis exprobrações;
e vendo enfim
que eram infrutíferos todos esses meios, retirou-se cheio de cólera,
vomitando as mais tremendas ameaças.
Para dar a essas ameaças começo de execução,
nesse mesmo dia
mandou pô-la trabalhando entre as fiandeiras, onde a deixamos no
capítulo
antecedente. Dali teria de ser levada para a roça, da roça
para o tronco,
do tronco para o pelourinho, e deste certamente para o túmulo,
se teimasse em sua resistência às ordens de seu senhor.
Capítulo IX
Leôncio impaciente e com o coração ardendo nas
chamas de uma
paixão febril e delirante não podia resignar-se a
adiar por mais tempo a
satisfação de seus libidinosos desejos. Vagando daqui
para ali por toda a
casa como quem dava ordens para reformar o serviço doméstico,
que
dai em diante ia correr todo por sua conta, não fazia mais
do que espreitar
todos os movimentos de Isaura, procurando ocasião de achá-la
a
sós para insistir de novo e com mais força em suas
abomináveis
pretensões. De uma janela viu as escravas fiandeiras atravessarem
o
pátio para irem jantar, e notou a ausência de Isaura.
- Bom!... vai tudo às mil maravilhas, murmurou Leôncio
com
satisfação; nesse momento passava-lhe pela mente a
feliz lembrança de
mandar o feitor levar as outras escravas para o cafezal, ficando
ele
quase a sós com Isaura no meio daqueles vastos e desertos
edifícios.
Dir-me-ão que, sendo Isaura uma escrava, Leôncio, para
achar-se a
sós com ela não precisava de semelhantes subterfúgios,
e nada mais
tinha a fazer do que mandá-la trazer à sua presença
por bem ou por
mal. Decerto ele assim podia proceder, mas não sei que prestígio
tem,
mesmo em uma escrava, a beleza unida à nobreza da alma, e
à
superioridade da inteligência, que impõe respeito aos
entes ainda
os mais perversos e corrompidos. Por isso Leôncio, a despeito
de todo o
seu cinismo e obcecação, não podia eximir-se
de render no fundo
d'alma certa homenagem à beleza e virtudes daquela escrava
excepcional,
e de tratá-la com mais alguma delicadeza do que às
outras.
- Isaura, - disse Leôncio, continuando o diálogo que
deixamos
apenas encetado, - fica sabendo que agora a tua sorte está
inteiramente entre
as minhas mãos.
- Sempre esteve, senhor, - respondeu humildemente Isaura.
- Agora mais que nunca. Meu pai é falecido, e não
ignoras que
sou eu o seu único herdeiro. Malvina por motivos, que sem
dúvida terás
adivinhado, acaba de abandonar-me, e retirou-se para a casa de seu
pai. Sou eu, pois, que hoje unicamente governo nesta casa, e disponho
do teu destino. Mas também, Isaura, de tua vontade unicamente
depende a tua felicidade ou a tua perdição.
- De minha vontade!... oh! não, senhor; minha sorte depende
unicamente da vontade de meu senhor.
- E eu bem desejo - replicou Leôncio com a mais terna inflexão
de voz, - com todas as forças de minha alma, tornar-te a
mais feliz das
criaturas; mas como, se me recusas obstinadamente a felicidade,
que tu,
só tu me poderias dar?...
- Eu, senhor?! oh! por quem é, deixe a humilde escrava em
seu
lugar; lembre-se da senhora D. Malvina, que é tão
formosa, tão boa, e
que tanto lhe quer bem. É em nome dela que lhe peço,
meu senhor;
deixe de abaixar seus olhos para uma pobre cativa, que em tudo está
pronta para lhe obedecer, menos nisso, que o senhor exige...
- Escuta, Isaura; és muito criança, e não sabes
dar ás coisas o
devido peso. Um dia, e talvez já tarde, te arrependerás
de ter rejeitado
o meu amor.,
- Nunca! - exclamou Isaura. - Eu cometeria uma traição
infame para com minha senhora, se desse ouvidos às palavras
amorosas
de meu senhor.
- Escrúpulos de criança!.., escuta ainda, Isaura.
Minha mãe vendo
a tua linda figura e a viveza de teu espírito, - talvez por
não ter filha
alguma, - desvelou-se em dar-te uma educação, como
teria dado a
uma filha querida. Ela amava-te extremosamente, e se não
deu-te a
liberdade foi com o receio de perder-te; foi para conservar-te sempre
junto de si. Se ela assim procedia por amor, como posso eu largar-te
de
mão, eu que te amo com outra sorte de amor muito mais ardente
e
exaltado, um amor sem limites, um amor que me levará à
loucura ou
ao suicídio, se não... mas que estou a dizer!... Meu
pai, - Deus lhe
perdoe, - levado por uma sórdida avareza, queria vender tua
liberdade
por um punhado de ouro, como se houvesse ouro no mundo que
valesse os inestimáveis encantos, de que os céus te
dotaram.
Profanação!... eu repeliria, como quem repele um insulto,
todo aquele
que ousasse vir oferecer-me dinheiro pela tua liberdade. Livre és
tu,
porque Deus não podia formar um ente tão perfeito
para votá-lo à
escravidão. Livre és tu, porque assim o queria minha
mãe, e assim o quero
eu. Mas, Isaura, o meu amor por ti é imenso; eu não
posso, eu não
devo abandonar-te ao mundo. Eu morreria de dor, se me visse forçado
a
largar mão da jóia inestimável, que o céu
parece ter-me destinado, e
que eu há tanto tempo rodeio dos mais ardentes anelos de
minha
alma...
- Perdão, senhor; eu não posso compreendé-lo;
diz-me que sou
livre, e não permite que eu vá para onde quiser, e
nem ao menos que
eu disponha livremente de meu coração?!
- Isaura, se o quiseres, não serás somente livre;
serás a senhora,
a deusa desta casa. Tuas ordens, quaisquer que sejam, os teus menores
caprichos serão pontualmente cumpridos; e eu, melhor do que
faria o
mais terno e o mais leal dos amantes, te cercarei de todos os cuidados
e
carinhos, de todas as adorações, que sabe inspirar
o mais ardente e
inextinguível amor. Malvina me abandona!... tanto melhor!
em que
dependo eu dela e de seu amor, se te possuo?! Quebrem-se de uma
vez
para sempre esses laços urdidos pelo interesse! esqueça-se
para sempre
de mim, que eu nos braços de minha Isaura encontrarei sobeja
ventura
para poder lembrar-me dela.
- O que o senhor acaba de dizer me horroriza. Como se pode
esquecer e abandonar ao desprezo uma mulher tão amante e
carinhosa,
tão cheia de encantos e virtudes, como sinhá Malvina?
Meu senhor,
perdoe-me se lhe falo com franqueza; abandonar uma mulher bonita,
fiel e virtuosa por amor de uma pobre escrava, seria a mais feia
das
ingratidões.
A tão severa e esmagadora exprobração, Leôncio
sentiu revoltar-se
o seu orgulho. escrava insolente! - bradou cheio de cólera.
- Que
eu suporte sem irritar-me os teus desdéns e repulsas, ainda
vá:
mas repreensões!... com quem pensas tu que falas?...
- Perdão! senhor!... exclamou Isaura aterrada e arrependida
das
palavras que lhe tinham escapado.
- E, entretanto, se te mostrasses mais branda comigo... mas não,
é muito aviltar-me diante de uma escrava; que necessidade
tenho eu de
pedir aquilo que de direito me pertence? Lembra-te, escrava ingrata
e
rebelde, que em corpo e alma me pertences, a mim só e a mais
ninguém. És propriedade minha; um vaso, que tenho
entre as minhas
mãos e que posso usar dele ou despedaçá-lo
a meu sabor,
- Pode despedaçá-lo, meu senhor; bem o sei; mas, por
piedade,
não queira usar dele para fins impuros e vergonhosos. A escrava
também
tem coração, e não é dado ao senhor
querer governar os seus afetos.
- Afetos!... quem fala aqui em afetos?! Podes acaso dispor deles?...
- Não, por certo, meu senhor; o coração é
livre; ninguém pode
escravizá-lo, nem o próprio dono.
- Todo o teu ser é escravo; teu coração obedecerá,
e se não
cedes de bom grado, tenho por mim o direito e a força...
mas para
quê? para te possuir não vale a pena empregar esses
meios extremos.
Os instintos do teu coração são rasteiros e
abjetos como a tua condição;
para te satisfazer far-te-ei mulher do mais vil, do mais hediondo
de
meus negros.
- Ah! senhor! bem sei de quanto é capaz. Foi assim que seu
pai
fez morrer de desgosto e maus-tratos a minha pobre mãe; já
vejo que
me é destinada a mesma sorte. Mas fique certo de que não
me faltarão
nem os meios nem a coragem para ficar para sempre livre do senhor
e
do mundo.
- Oh! - exclamou Leôncio com satânico sorriso, - já
chegaste a
tão subido grau de exaltação e romantismo!...
isto em uma escrava não
deixa de ser curioso. Eis o proveito que se tira de dar educação
a tais
criaturas! Bem mostras que és uma escrava, que vives de tocar
piano e
ler romances. Ainda bem que me preveniste; eu saberei gelar a ebulição
desse cérebro escaldado. Escrava rebelde e insensata, não
terás mãos
nem pés para pôr em prática teus sinistros intentos.
Olá, André, - bra-
dou ele e apitou com força no cabo do seu chicote.
- Senhor! - bradou de longe o pajem, e um instante depois estava
em presença de Leôncio.
- André, - disse-lhe este com voz seca e breve - traze-me
já
aqui um tronco de pés e algemas com cadeado.
- Virgem santa! - murmurou consigo André espantado. - Para
que será tudo isto?... ah! pobre Isaura!...
- Ah! meu senhor, por piedade! - exclamou Isaura, caindo de
joelhos aos pés de Leôncio, e levantando as mãos
ao céu em contorções
de angústia; pelas cinzas ainda quentes de seu pai, há
poucos dias
falecido, pela alma de sua mãe, que tanto lhe queria, não
martirize a
sua infeliz escrava. Acabrunhe-me de trabalhos, condene-me ao serviço
o mais grosseiro e pesado, que a tudo me sujeitarei sem murmurar;
mas
o que o senhor exige de mim, não posso, não devo fazê-lo,
embora
deva morrer.
- Bem me custa tratar-te assim, mas tu mesma me obrigas a este
excesso. Bem vês que me não convém por modo
nenhum perder uma
escrava como tu és. Talvez ainda um dia me serás grata
por ter-te
impedido de matar-te a ti mesma.
- Será o mesmo! - bradou Isaura levantando-se altiva, e com
o
acento rouco e trémulo da desesperação, - não
me matarei por minhas
próprias mãos, mas morrerei às mãos
de um carrasco.
Neste momento chega André trazendo o tronco e as algemas,
que
deposita sobre um banco, e retira-se imediatamente.
Ao ver aqueles bárbaros e aviltantes instrumentos de suplício
turvaram-se os olhos a Isaura, o coração se lhe enregelou
de pavor, as
pernas lhe desfaleceram, caiu de joelhos e debruçando-se
sobre o
tamborete, em que fiava, desatou uma torrente de lágrimas.
- Alma de minha sinhá velha! - exclamou com voz entrecortada
de soluços, - valei-me nestes apuros; valei-me lá
do céu, onde estais,
como me valíeis cá na Terra.
- Isaura, - disse Leôncio com voz áspera apontando
para os
instrumentos de suplício, - eis ali o que te espera, se persistes
em teu
louco emperramento. Nada mais tenho a dizer-te; deixo-te livre ainda,
e
fica-te o resto do dia para refletires. Tens de escolher entre o
meu amor
e o meu ódio. Qualquer dos dois, tu bem sabes, são
violentos e
poderosos. Adeus!...
Quando Isaura sentiu que seu senhor se havia ausentado, ergueu o
rosto, e levantando ao céu os olhos e as mãos juntas,
dirigiu à Rainha
dos anjos a seguinte fervorosa prece, exalada entre soluços
do mais
íntimo de sua alma:
- Virgem senhora da Piedade, Santíssima Mãe de Deus!...
vós
sabeis se eu sou inocente, e se mereço tão cruel tratamento.
Socorrei-me
neste transe aflitivo, porque neste mundo ninguém pode valer-me.
Livrai-me das garras de um algoz, que ameaça não só
a minha vida,
como a minha inocência e honestidade. Iluminai-lhe o espírito
e
infundi-lhe no coração brandura e misericórdia
para que se compadeça
de sua infeliz cativa. É uma humilde escrava que com as lágrimas
nos olhos e a dor no coração vos roga pelas vossas
dores sacrossantas,
pelas chagas de vosso Divino Filho: valei-me por piedade.
Quanto Isaura era formosa naquela suplicante e angustiosa
atitude! oh! muito mais bela do que em seus momentos de serenidade
e
prazer!... se a visse então, Leôncio talvez sentisse
abrandar-se o férreo e
obcecado coração. Com os olhos arrasados em lágrimas,
que em fio lhe
escorregavam pelas faces desbotadas, entreaberta a boca melancólica,
que lhe tremia ao passar da prece murmurada entre soluços,
atiradas
em desordem pelas espáduas as negras e opulentas madeixas,
voltando
para o céu o busto mavioso plantado sobre um colo escultural,
ofereceria ao artista inspirado o mais belo e sublime modelo para
a
efígie da Mãe Dolorosa, a quem nesse momento dirigia
suas ardentes
súplicas. Os anjos do céu, que por certo naquele instante
adejavam em
torno dela agitando as asas de ouro e carmim, não podiam
deixar de
levar tão férvida e dolorosa prece aos pés
do trono da Consoladora dos
aflitos.
Absorvida em suas mágoas Isaura não viu seu pai, que,
entrando
pelo salão a passos sutis e cautelosos, encaminhava-se para
ela.
- Oh! felizmente ela ali está, - murmurava o velho, - o algoz
aqui também andava! oh! pobre Isaura!... que será
de ti?!...
- Meu pai por aqui!... - exclamou a infeliz ao avistar Miguel. -
Venha, venha ver a que estado reduzem sua filha.
- Que tens, filha?... que nova desgraça te sucede?
- Não está vendo, meu pai?... eis ali a sorte, que
me espera, -
respondeu ela apontando para o tronco e as algemas, que ali estavam
ao pé dela.
- Que monstro, meu Deus!... mas eu já esperava por tudo isto...
- É esta a liberdade que pretende dar àquela que a
mãe dele
criou com tanto amor e carinho. O mais cruel e aviltante cativeiro,
um
martírio continuado da alma e do corpo, eis o que resta à
sua desventurada
filha... Meu pai, não posso resistir a tanto sofrimento!...
restava-me
um recurso extremo; esse mesmo vai-me ser negado. Presa, algemada,
amarrada de pés e mãos!... oh!... meu pai! meu pai!...
isto é horrível!...
Meu pai, a sua faca, - acrescentou depois de ligeira pausa com voz
rouca e olhar sombrio, - preciso de sua faca.
- Que pretendes fazer com ela, Isaura? que louco pensamento é
o teu?...
- Dê-me essa faca, meu pai; eu não usarei dela senão
em caso
extremo; quando o infame vier lançar-me as mãos para
deitar-me esses
ferros, farei saltar meu sangue ao rosto vil do algoz.
- Não, minha filha; não serão necessários
tais extremos. Meu
coração já adivinhava tudo isto, e já
tenho tudo prevenido. O dinheiro,
que não serviu para alcançar a tua liberdade, vai
agora prestar-nos para
arrancar-te às garras desse monstro. Tudo está já
disposto, Isaura. Fujamos.
- Sim, meu pai, fujamos; mas como? para onde?
- Para longe daqui, seja para onde for; e já, minha filha,
enquanto não
suspeitem coisa alguma, e não te carregam de ferros.
- Ah! meu pai, tenho bem medo; se nos descobrem, qual será
a
minha sorte!...
- A empresa é arriscada, não posso negar-te; mas ânimo.
Isaura;
é nossa única tábua de salvação;
agarremo-nos a ela com fé, e
encomendemo-nos à divina providência. Os escravos estão
na roça; o
feitor levou para o cafezal tuas companheiras, teu senhor saiu a
cavalo com o André; não há talvez em toda a
casa senão alguma negra lá pelos
cantos da cozinha. Aproveitemos a ocasião, que parece mesmo
nos vir das
mãos de Deus, no momento em que aqui estou chegando. Eu já
preveni tudo.
Lá no fundo do quintal à beira do rio está
amarrada uma canoa; é quanto nos
basta. Tu sairás primeiro e irás lá ter por
dentro do quintal; eu sairei por fora
alguns instantes depois e lá nos encontraremos. Em menos
de uma hora estaremos
em Campos, onde nos espera um navio, de que é capitão
um amigo meu, e que
tem de seguir viagem para o Norte nesta madrugada. Quando romper
o dia,
estaremos longe do algoz que te persegue. Vamo-nos, Isaura; talvez
por
esse mundo encontremos alguma alma piedosa, que melhor do que eu
te
possa proteger.
- Vamo-nos, meu pai; que posso eu recear?... posso acaso ser
mais desgraçada do que já sou?...
Isaura, cosendo-se com a sombra do muro, que rodeava o pátio,
abriu o portão, que dava para o quintal, e desapareceu. Momentos
depois
Miguel rodeando por fora os edifícios costeava o quintal,
e achava-se com ela à margem do rio.
A canoa vogando sutilmente bem junto à barranca, impelida
pelo
braço vigoroso de Miguel, em poucos minutos perdeu de vista
a
fazenda.