Bernardo
Guimarães
A Escrava Isaura
Capítulo
VI
- Senhor Leôncio,
- disse Malvina com voz alterada
aproximando-se do sofá, em que se achava o marido, - desejo
dizer-lhe
duas palavras, se isso não o incomoda.
- Estou sempre às tuas ordens, querida Malvina, - respondeu
levantando-se lesto e risonho, e como quem nenhum reparo fizera
no
tom cerimonioso com que Malvina o tratava. - Que me queres?...
- Quero dizer-lhe, - exclamou a moça em tom severo, e fazendo
vãos esforços para dar ao seu lindo e mavioso semblante
um ar feroz,
- quero dizer-lhe que o senhor me insulta e me atraiçoa em
sua casa,
da maneira a mais indigna e desleal...
- Santo Deus!... que estás aí a dizer, minha querida?...
explica-te melhor, que não compreendo nem uma palavra do
que dizes...
- Debalde, que o senhor se finge surpreendido; bem sabe a
causa do meu desgosto. Eu já devia ter pressentido esse seu
vergonhoso procedimento; há muito que o senhor não
é o mesmo para
comigo, e me trata com tal frieza e indiferença...
- Oh! meu coração, pois querias que durasse eternamente
a
lua-de-mel?... isso seria horrivelmente monótono e prosaico.
- Ainda escarneces, infame! - bradou a moça, e desta vez
as
faces se lhe afoguearam de extraordinário rubor, e fuzilaram-lhe
nos
olhos lampejos de cólera terrível.
- Oh! não te exasperes assim, Malvina; estou gracejando -
disse
Leôncio procurando tomar-lhe a mão.
- Boa ocasião para gracejos!... deixe-me, senhor!... que
infâmia!...
que vergonha para nós ambos!...
- Mas enfim não te explicarás?
- Não tenho que explicar; o senhor bem me entende. Só
tenho
que exigir...
- Pois exige, Malvina.
- Dê um destino qualquer a essa escrava, a cujos pés
o senhor
costuma vilmente prostrar-se: liberte-a, venda-a, faça o
que quiser. Ou
eu ou ela havemos de abandonar para sempre esta casa; e isto hoje
mesmo. Escolha entre nos.
- Hoje?!
- E já!
- És muito exigente e injusta para comigo, Malvina, - disse
Leôncio
depois de um momento de pasmo e hesitação. - Bem sabes
que
é meu desejo libertar Isaura; mas acaso depende isso de mim
somente?
é a meu pai que compete fazer o que de mim exiges.
- Que miserável desculpa, senhor! seu pai já lhe entregou
escravos e fazenda, e dará por bem feito tudo quanto o senhor
fizer. Mas se
acaso o senhor a prefere a mim...
- Malvina!... não digas tal blasfêmia!...
- Blasfêmia!... quem sabe!... mas enfim dê um destino
qualquer a
essa rapariga, se não quer expelir-me para sempre de sua
casa. Quanto
a mim, não a quero mais nem um momento em meu serviço;
é bonita
demais para mucama.
- O que lhe dizia eu, senhor Leôncio? acudiu Henrique, que
já
cansado e envergonhado do papel de mudo guarda-costas, entendeu
que devia intervir também na querela. - Está vendo?..
eis aí o fruto
que se colhe desses belos trastes de luxo, que quer por força
ter em seu
salão...
- Esses trastes não seriam tão perigosos, se não
existissem vis
mexeriqueiros, que não hesitam em perturbar o sossego da
casa dos
outros para conseguir seus fins perversos...
- Alto lá, senhor!... para impedir que o senhor não
transportasse
o seu traste de luxo do salão para a alcova, percebe?...
o escândalo
cedo ou tarde seria notório, e nenhum dever tenho eu de ver
de braços
cruzados minha irmã indignamente ultrajada.
- Senhor Henrique! bradou Leôncio avançando para ele,
hirto de
cólera e com gesto ameaçador.
- Basta, senhores - gritou Malvina interpondo-se aos dois
mancebos. - Toda a disputa por tal motivo é inútil
e vergonhosa
para nós todos. Eu já disse a Leôncio o que
tinha de dizer; ele que se
decida; faça o que entender. Se quiser ser homem de brio
e pundonor,
ainda é tempo. Se não, deixe-me, que eu o entregarei
ao desprezo que
merece.
- Oh! Malvina! estou pronto a fazer todo o possível para
te
tranqüilizar e contentar: mas deves saber que não posso
satisfazer o teu
desejo sem primeiro entender-me com meu pai, que está na
corte. É
preciso mais que saibas, que meu pai nenhuma vontade tem de libertar
Isaura, tanto assim, que para se ver livre das importunações
do pai dela,
que também quer a todo custo libertá-la, exigiu uma
soma por tal forma
exorbitante, que é quase impossível o pobre homem
arranjá-la.
- O de casa!... dá licença? - bradou neste momento
com voz
forte e sonora uma pessoa, que vinha subindo a escada do alpendre.
- Quem quer que é, pode entrar, - gritou Leôncio dando
graças
ao céu, que tão a propósito mandava-lhe uma
visita para interromper
aquela importuna e detestável questão e livrá-lo
dos apuros em que se
via entalado.
Entretanto, como se verá, não tinha muito de que congratular-se.
O
visitante era Miguel, o antigo feitor da fazenda, o pai de Isaura,
que
havia sido outrora grosseiramente despedido pelo pai de Leôncio.
Este, que ainda o não conhecia, recebeu-o com afabilidade.
- Queira sentar-se, - disse-lhe, - e dizer-nos o motivo por que
nos faz a honra de procurar,
- Obrigado! - disse o recém-chegado, depois de cumprimentar
respeitosamente Henrique e Malvina. - V. S.a sem dúvida é
o senhor
Leôncio?...
- Para o servir.
- Muito bem!... é com V. S.ª que tenho de tratar na
falta do
senhor seu pai. O meu negócio é simples, e julgo que
o posso declarar
em presença aqui do senhor e da senhora, que me parecem ser
pessoas
de casa.
- Sem dúvida! entre nós não há segredo,
nem reservas.
- Eis aqui ao que vim, senhor meu, - disse Miguel, tirando da
algibeira de seu largo sobretudo uma carteira, que apresentou a
Leôncio; - faça o favor de abrir esta carteira; aqui
encontrará V. S.ª a
quantia exigida pelo senhor seu pai, para a liberdade de uma escrava
desta
casa por nome Isaura.
Leôncio enfiou, e tomando maquinalmente a carteira, ficou
alguns
instantes com os olhos pregados no teto.
- Pelo que vejo, - disse por fim, - o senhor deve ser o pai...
aquele que dizem ser o pai da dita escrava. - é o senhor.
- não me
lembra o nome..
- Miguel, um criado de V. S.a
- É verdade; o senhor Miguel. Folgo muito que tenha arranjado
meios de libertar a menina; ela bem merece esse sacrifício.
Enquanto Leôncio abre a carteira, e conta e reconta mui
pausadamente nota por nota o dinheiro, mais para ganhar tempo a
refletir sobre o que deveria fazer naquelas conjunturas, do que
para verificar
se estava exata a soma, aproveitemo-nos do ensejo para contemplar
a
figura do bom e honrado português, pai da nossa heroína,
de quem ainda não
nos ocupamos senão de passagem.
Era um homem de mais de cinqüenta anos; em sua fisionomia nobre
e alerta transpirava a franqueza, a bonomia, e a lealdade.
Trajava pobremente, mas com muito alinho e limpeza, e por suas
maneiras e conversação, conhecia-se que aquele homem
não viera ao
Brasil, como quase todos os seus patrícios, dominado pela
ganância de
riquezas. Tinha o trato e a linguagem de um homem polido, e de
acurada educação. De feito Miguel era filho de uma
nobre e honrada
família de miguelistas, que havia emigrado para o Brasil.
Seus
pais, vítimas de perseguições políticas,
morreram sem ter nada que legar
ao filho, que deixaram na idade de dezoito a vinte anos. Sozinho,
sem
meios e sem proteção, viu-se forçado a viver
do trabalho de seus
braços, metendo-se a jardineiro e horticultor, mister este,
que
como filho de lavrador, robusto, ativo e inteligente, desempenhava
com suma perícia e perfeição.
O pai de Leôncio, tendo tido ocasião de conhecê-lo,
e apreciando
o seu merecimento, o engajou para feitor de sua fazenda com vantajosas
condições. Ali serviu muitos anos sempre mui respeitado
e querido
de todos, até que aconteceu-lhe a fatal, mas muito desculpável
fraqueza,
que sabemos, e em consequência da qual foi grosseiramente
despedido
por seu patrão. Miguel concebeu amargo ressentimento e mágoa
profunda, não tanto por si, como por amor das duas infelizes
criaturas,
que não podia proteger contra a sanha de um senhor perverso
e brutal.
Mas forçoso lhe foi resignar-se. Não lhe faltava serviço
nem acolhimento
pelas fazendas vizinhas. Conhecedores de seu mérito, os lavradores
em
redor o aceitariam de braços abertos; a dificuldade estava
na escolha.
Optou pelo mais vizinho, para ficar o mais perto possível
de sua querida
filhinha.
Como o comendador quase sempre achava-se na corte ou em
Campos, Miguel tinha muita ocasião e facilidade de ir ver
a menina, à
qual cada vez ia criando mais entranhado afeto. A esposa do comendador,
na ausência deste, dava ao português franca entrada
em sua casa,
e facilitava-lhe os meios de ver e afagar a filhinha, com o que
vivia ele
mui consolado e contente. De feito o céu tinha dado à
sua filha na
pessoa de sua senhora uma segunda mãe tão boa e desvelada,
como
poderia ser a primeira, e que mais do que esta lhe podia servir
de
amparo e proteção. A morte inesperada daquela virtuosa
senhora veio
despedaçar-lhe o coração, quebrando-lhe todas
as suas lisonjeiras esperanças.
Muito pode o amor paterno em uma alma nobre e sensível!...
Miguel, sobrepujando todo o ódio, repugnância e asco,
que lhe inspirava a
pessoa do comendador, não hesitou em ir humilhar-se diante
dele,
importuná-lo com suas súplicas, rogar-lhe com as lágrimas
nos olhos, que
abrisse preço à liberdade de Isaura.
- Não há dinheiro que a pague; há de ser sempre
minha, -
respondia com orgulhoso cinismo o inexorável senhor ao infeliz
e aflito
pai.
Um dia enfim para se ver livre das importunações e
súplicas de
Miguel, disse-lhe com mau modo:
- Homem de Deus, traga-me dentro de um ano dez contos de
réis, e lhe entrego livre a sua filha e... deixe-me por caridade.
Se não
vier nesse prazo, perca as esperanças.
- Dez contos de réis! é soma demasiado forte para
mim.. - mas
não importa!... ela vale muito mais do que isso. Senhor comendador,
vou fazer o impossível para trazer-lhe essa soma dentro do
prazo
marcado. Espero em Deus, que me há de ajudar.
O pobre homem, à força de trabalho e economia, impondo-se
privações, vendendo todo o supérfluo, e limitando-se
ao que era
estritamente necessário, no fim do ano apenas tinha arranjado
metade da
quantia exigida. Foi-lhe mister recorrer à generosidade de
seu
novo patrão, o qual, sabendo do santo e nobre fim a que se
propunha seu
feitor, e do vexame e extorsão de que era vítima,
não hesitou em
fornecer-lhe a soma necessária, a título de empréstimo
ou adiantamento de
salários.
Leôncio, que como seu pai julgava impossível que Miguel
em um
ano pudesse arranjar tão considerável soma, ficou
atônito e altamente
contrariado, quando este se apresentou para lha meter nas mãos.
- Dez contos, - disse por fim Leôncio acabando de contar o
dinheiro. - É justamente a soma exigida por meu pai. - Bem
estólido
e avaro é este meu pai, murmurou ele consigo, - eu nem por
cem
contos a daria. - Senhor Miguel, - continuou em voz alta,
entregando-lhe a carteira, - guarde por ora o seu dinheiro; Isaura
não
me pertence ainda; só meu pai pode dispor dela. Meu pai acha-se
na
corte, e não deixou-me autorização alguma para
tratar de semelhante
negócio. Arranje-se com ele.
- Mas V. S.ª é seu filho e herdeiro único, e
bem podia por si
mesmo...
- Alto lá, senhor Miguel! meu pai felizmente é vivo
ainda, e não
me é permitido desde já dispor de seus bens, como
minha herança.
- Embora, senhor; tenha a bondade de guardar esse dinheiro e
enviá-lo ao senhor seu pai, rogando-lhe da minha parte o
favor de
cumprir a promessa que me fez de dar liberdade a Isaura mediante
essa
quantia.
- Ainda pões dúvida, Leôncio?! - exclamou Malvina
impaciente
e indignada com as tergiversações do marido. - Escreve,
escreve
quanto antes a teu pai; não te podes esquivar sem desonra
a cooperar
para a liberdade dessa rapariga.
Leôncio, subjugado pelo olhar imperioso da mulher, e pela
força
das circunstâncias, que contra ele conspiravam, não
pôde mais escusar-se.
Pálido e pensativo, foi sentar-se junto a uma mesa, onde
havia papel
e tinta, e de pena em punho pôs-se a meditar em atitude de
quem ia
escrever. Malvina e Henrique, debruçados a uma janela, conversavam
entre si em voz baixa. Miguel, sentado a um canto na outra extremidade
da sala, esperava pacientemente, quando Isaura, que do quintal,
onde
se achava escondida, o tinha visto chegar, entrando no salão
sem ser
sentida, se lhe apresentou diante dos olhos. Entre pai e filha travou-se
a
meia voz o seguinte diálogo:
- Meu pai!... que novidade o traz aqui?... a modo que lhe estou
vendo um ar mais alegre que de costume.
- Calada! - murmurou Miguel, levando o dedo à boca e apontando
para Leôncio. - Trata-se da tua liberdade.
- Deveras, meu pai!... mas como pôde arranjar isso?
- Ora como?!... a peso de ouro. Comprei-te, minha filha, e em
breve vais ser minha.
- Ah! meu querido pai!... como vossemecê é bom para
sua filha!...
se soubesse quantos hoje já me vieram oferecer a liberdade!...
mas por que preço! meu Deus!... nem me atrevo a lhe contar.
Meu
coração adivinhava, continuou beijando com terna efusão
as mãos de
Miguel; - eu não devia receber a liberdade senão das
mãos daquele
que me deu a vida!...
- Sim, querida Isaura! - disse o velho apertando-a contra o
coração. - O céu nos favoreceu, e em breve
vais ser minha, minha só,
minha para sempre!...
- Mas ele consente?... perguntou Isaura apontando para Leôncio.
- O negócio não é com ele, é com seu
pai, a quem agora escreve.
- Nesse caso tenho alguma esperança; mas se minha sorte depender
somente daquele homem, serei para sempre escrava.
- Arre! com mil diabos!... resmungou consigo Leôncio
levantando-se, e dando sobre a mesa um furioso murro com o punho
fechado. - Não sei que volta hei de dar para desmanchar esta
inqualificável loucura de meu pai!
- Já escreveste, Leôncio? - perguntou Malvina voltando-se
para
dentro.
Antes que Leôncio pudesse responder a esta pergunta, um pajem,
entrando rapidamente pela sala, entrega-lhe uma carta tarjada de
preto.
- De luto!... meu Deus!... que será! - exclamou Leôncio,
pálido
e trêmulo, abrindo a carta, e depois de a ter percorrido rapidamente
com os olhos lançou-se sobre uma cadeira, soluçando
e levando o
lenço aos olhos.
- Leôncio! Leôncio!... que tem?... exclamou Malvina
pálida de
susto; e tomando a carta que Leôncio atirara sobre a mesa,
começou a
ler com voz entrecortada:
"Leôncio,
tenho a dar-te uma dolorosa notícia, para a qual teu
coração não podia estar preparado. E um golpe, pelo
qual todos
nós temos de passar inevitavelmente, e que deves suportar com
resignação. Teu pai já não existe; sucumbiu
anteontem subitamente,
vítima de uma congestão cerebral..."
Malvina não
pôde continuar; e nesse momento, esquecendo-se das
injúrias e de tudo que lhe havia acontecido naquele nefasto dia,
lançou-se
sobre seu marido, e abraçando-se com ele estreitamente, misturava
suas
lágrimas com as dele.
- Ah! meu pai! meu pai!... tudo está perdido! - exclamou Isaura,
pendendo a linda e pura fronte sobre o peito de Miguel. - Já nenhuma
esperança nos resta!...
- Quem sabe, minha filha! - replicou gravemente o pai. - Não
desanimemos; grande é o poder de Deus!...
Capítulo VII
Na fazenda de Leôncio
havia um grande salão toscamente construído,
sem forro nem soalho, destinado ao trabalho das escravas que se ocupavam
em fiar e tecer lã e algodão.
Os móveis deste lugar consistiam em tripeças, tamboretes,
bancos,
rodas de fiar, dobadouras, e um grande tear colocado a um canto.
Ao longo do salão, defronte de largas janelas guarnecidas de
balaústres, que davam para um vasto pálio interior, via-se
postada uma
fila de fiandeiras. Eram de vinte a trinta negras, crioulas e mulatas,
com
suas tenras crias ao colo ou pelo chão a brincarem em redor delas.
Umas conversavam, outras cantarolavam para encurtarem as longas
horas de seu fastidioso trabalho. Viam-se ali caras de todas as
idades, cores e feitios, desde a velha africana, trombuda e macilenta,
até
à roliça e luzidia crioula, desde a negra brunida como azeviche
até à
mulata quase branca.
Entre estas últimas distinguia-se uma rapariguinha, a mais
faceira e gentil que se pode imaginar nesse gênero. Esbelta e flexível
de
corpo, tinha o rostinho mimoso, lábios um tanto grossos, mas bem
modelados, voluptuosos, úmidos, e vermelhos como boninas que acabam
de
desabrochar em manhã de abril. Os olhos negros não eram
muito grandes,
mas tinham uma viveza e travessura encantadoras. Os cabelos negros e
anelados podiam estar bem na cabeça da mais branca fidalga de
além-mar. Ela porém os trazia curtos e mui bem frisados
à maneira dos
homens. Isto longe de tirar-lhe a graça, dava à sua fisionomia
zombeteira e espevitada um chispe original e encantador. Se não
fossem os brinquinhos de ouro, que lhe tremiam nas pequenas e bem
molduradas orelhas, e os túrgidos e ofegantes seios que como dois
trêfegos
cabritinhos lhe pulavam por baixo de transparente camisa, tomá-la-íeis
por um rapazote maroto e petulante. Veremos em breve de que ralé
era
esta criança, que tinha o bonito nome de Rosa.
No meio do sussurro das rodas, que giravam, das monótonas cantarolas
das fiandeiras, do compasso estrépito do tear, que trabalhava
incessantemente, dos guinchos e alaridos das crianças, quem prestasse
atento ouvido, escutaria a seguinte conversação, travada
timidamente e
a meia voz em um grupo de fiandeiras, entre as quais se achava Rosa.
- Minhas camaradas, - dizia a suas vizinhas uma crioula idosa,
matreira e sabida em todos os mistérios da casa desde os tempos
dos
senhores velhos, - agora que sinhô velho morreu, e que sinhá
Malvina
foi-se embora para a casa de seu pai dela, é que nós vamos
ver o que e
rigor de cativeiro.
- Como assim, tia Joaquina?!...
- Como assim!... vocês verão. Vocês bem sabem, que
sinhô velho
não era de brinquedo; pois sim; lá diz o ditado - atrás
de mim virá
quem bom me fará. - Este sinhô moço Leôncio...
hum!... Deus queira
que me engane... quer-me parecer que vai-nos fazer ficar com saudade
do tempo de sinhô velho...
- Cruz! ave Maria!...
não fala assim, tia Joaquina!... então é
melhor matar a gente de uma vez...
- Este não quer saber de fiados nem de tecidos, não; e daqui
a
pouco nós tudo vai pra roça puxar enxada de sol a sol, ou
pra o cafezal
apanhar café, e o pirai do feitor aí rente atrás
de nós. Vocês verão. Ele
o que quer é café, e mais café, que é o que
dá dinheiro.
- Também, a dizer a verdade, não sei o que será melhor,
-
observou outra escrava, - se estar na roça trabalhando de enxada,
ou
aqui pregada na roda, desde que amanhece até nove, dez horas da
noite. Quer-me parecer que lã ao menos a gente fica mais à
vontade.
- Mais à vontade?!.., que esperança! - exclamou uma terceira.
- Antes, aqui, mil vezes! aqui ao menos a gente sempre está livre
do
maldito feitor.
- Qual, minha gente! - ponderou a velha crioula - tudo é
cativeiro. Quem teve a desgraça de nascer cativo de um mau senhor,
dê por aqui, dê por acolá, há de penar sempre.
Cativeiro é má sina; não
foi Deus que botou no mundo semelhante coisa, não; foi invenção
do
diabo. Não vê o que aconteceu com a pobre Juliana, mãe
de Isaura?
- Por falar nisso, - atalhou uma das fiandeiras, - o que fica
fazendo agora a Isaura?... enquanto sinhá Malvina estava aí,
ela andava
de estadão na sala, agora...
- Agora fica fazendo as vezes de sinhá Malvina, - acudiu Rosa
com seu sorriso maligno e zombeteiro.
- Cala a boca, menina! - bradou com voz severa a velha crioula.
- Deixa dessas falas. Coitada da Isaura. Deus te livre a você de
estar na pele daquela pobrezinha! se vocês soubessem quanto penou
a
pobre da mãe dela! ah! aquele sinhô velho foi um home judeu
mesmo,
Deus te perdoe. Agora com Isaura e sinhô Leôncio a coisa vai
tomando
o mesmo rumo. Juliana era uma mulata bonita e sacudida; era da cor
desta Rosa mas inda mais bonita e mais bem feita...
Rosa deu um muxoxo, e fez um momo desdenhoso.
- Mas isso mesmo foi a perdição dela, coitada! - continuou
a
crioula velha. - O ponto foi sinhô velho gostar dela... eu já
contei a
vocês o que é que aconteceu. Juliana era uma rapariga de
brio, e por
isso teve de penar, até morrer. Nesse tempo o feitor era esse siô
Miguel,
que anda aí, e que é pai de Isaura. Isso é que era
feitor bom!... todo
mundo queria ele bem, e tudo andava direito. Mas esse siô Francisco,
que ai anda agora, cruz nele!... é a pior peste que tem botado
os pés
nesta casa. Mas, como ia dizendo, o siô Miguel gostava muito de
Juliana, e trabalhou, trabalhou até ajuntar dinheiro para forrar
ela. Mas nhonhô não esteve por isso, ficou muito zangado,
e tocou o feitor
para fora.
Também Juliana pouco durou; pirai e serviço deu co'ela na
cova
em pouco tempo. Picou aí a pobre menina ainda de mama, e se não
fosse sinhá velha, que era uma santa mulher, Deus sabe o que seria
dela!... também, coitada!... antes Deus a tivesse levado!...
- Por quê, tia Joaquina?...
- Porque está-me parecendo, que ela vai ter a mesma sina da
mãe...
- E o que mais merece aquela impostora? - murmurou a
invejosa e malévola Rosa. - Pensa que por estar servindo na sala
é
melhor do que as outras, e não faz caso de ninguém. Deu
agora em
namorar os moços brancos, e como o pai diz que há de forrar
ela, pensa
que e uma grande enhora. Pobre do senhor Miguel!... não tem onde
cair
morto, e há de ter para forrar a filha!
- Que má língua é esta Rosa! - murmurou enfadada
a velha
crioula, relanceando um olhar de repreensão sobre a mulata. - Que
mal te fez a pobre Isaura, aquela pomba sem fel, que com ser o que e,
bonita e civilizada como qualquer moça branca, não é
capaz de fazer
pouco caso de ninguém?... Se você se pilhasse no lugar dela,
pachola e
atrevida como és, havias de ser mil vezes pior.
Rosa mordeu os beiços de despeito, e ia responder com todo o
atrevimento e desgarre, que lhe era próprio, quando uma voz áspera
e
atroadora, que, partindo da porta do salão, retumbou por todo ele,
veio
pôr termo à conversação das fiandeiras.
- Silêncio! - bradava aquela voz. - Arre! que tagarelice!... pa-
rece que aqui só se trabalha de língua!...
Um homem espadaúdo e quadrado, de barba espessa e negra, de
fisionomia dura e repulsiva, apresenta-se à porta do salão,
e
vai entrando. Era o feitor. Acompanhava-o um mulato ainda novo, esbelto
e
aperaltado, trajando uma bonita libré de pajem, e conduzindo uma
roda de
fiar. Logo após eles entrou Isaura.
As escravas todas levantaram-se e tomaram a bênção
ao feitor.
Este mandou colocar a roda em um espaço desocupado, que infelizmente
para Isaura ficava ao pé de Rosa.
- Anda cá, rapariga; - disse o feitor voltando-se para Isaura.
-
De hoje em diante é aqui o teu lugar; esta roda te pertence, e
tuas
parceiras que te dêem tarefa para hoje. Bem vejo que te não
há de
agradar muito a mudança; mas que volta se lhe há de dar?...
teu senhor
assim o quer. Anda lá; olha que isto não é piano,
não; é acabar depressa
com a tarefa para pegar em outra. Pouca conversa e muito trabalhar...
Sem se mostrar contrariada nem humilhada com a nova ocupação,
que lhe davam, Isaura foi sentar-se junto a roda, e pôs-se a prepará-la
para dar começo ao trabalho. Posto que criada na sala e empregada
quase sempre em trabalhos delicados, todavia era ela hábil em todo
o
gênero de serviço doméstico: sabia fiar, tecer, lavar,
engomar, e cozinhar
tão bem ou melhor do que qualquer outra. Foi pois colocar-se
com toda a satisfação e desembaraço entre as suas
parceiras; apenas
notava-se no sorriso, que lhe adejava nos lábios, certa expressão
de
melancólica resignação; mas isso era o reflexo das
inquietações
e angústias, que lhe oprimiam o coração, que não
desgosto por se ver
degradada do posto que ocupara toda sua vida junto de suas senhoras.
Cônscia de sua condição, Isaura procurava ser humilde
como qualquer
outra escrava, porque a despeito de sua rara beleza e dos dotes de seu
espirito, os fumos da vaidade não lhe intumesciam o coração,
nem
turvavam-lhe a luz de seu natural bom senso. Não obstante porém
toda
essa modéstia e humildade transiuzia-lhe, mesmo a despeito dela,
no
olhar, na linguagem e nas maneiras, certa dignidade e orgulho nativo,
proveniente talvez da consciência de sua superioridade, e ela sem
o
querer sobressaía entre as outras, bela e donosa, pela correção
e
nobreza dos traços fisionômicos e por certa distinção
nos gestos
e ademanes. Ninguém diria que era uma escrava, que trabalhava entre
as
companheiras, e a tomaria antes por uma senhora moça, que, por
desenfado, fiava entre as escravas. Parecia a garça-real, alçando
o
colo garboso e altaneiro, entre uma chusma de pássaros vulgares.
As outras escravas a contemplavam todas com certo interesse e
comiseração, porque de todas era querida, menos de Rosa,
que lhe
tinha inveja e aversão mortal. Em duas palavras o leitor ficará
inteirado
do motivo desta malevolência de Rosa. Não era só pura
inveja; havia aí
alguma coisa de mais positivo, que convertia essa inveja em ódio
mortal.
Rosa havia sido de há muito amásia de Leôncio, para
quem fora fácil
conquista, que não lhe custou nem rogos nem ameaças. Desde
que, porém,
inclinou-se a Isaura, Rosa ficou inteiramente abandonada e esquecida.
A gentil mulatinha sentiu-se cruelmente ferida em seu coração
com esse
desdém, e como era maligna e vingativa, não podendo vingar-se
de seu senhor,
jurou descarregar todo o peso de seu rancor sobre a pessoa de sua infeliz
rival.
..............................................................................
- Um raio que te
parta, maldito! - Má lepra te consuma, coisa
ruim! - Uma cascavel que te morda a língua, cão danado!
- Estas e
outras pragas vomitavam as escravas resmungando entre si contra o
feitor, apenas este voltou-lhes as costas. O feitor é o ente mais
detestado
entre os escravos; um carrasco não carrega com tantos ódios.
abominado mais do que o senhor cruel, que o muniu do azorrague
desapiedado para açoitá-los e acabrunhá-los de trabalhos.
É assim que
o paciente se esquece do juiz, que lavrou a sentença para revoltar-se
contra o algoz, que a executa.
Como já dissemos, coube em sorte a Isaura sentar-se perto de
Rosa. Esta assestou logo contra sua infeliz companheira a sua bateria
de
ditérios e remoques sarcásticos e irritantes.
- Tenho bastante pena de você, Isaura. disse Rosa para dar começo
às operações.
- Deveras! - respondeu Isaura, disposta a opor às provocações
de Rosa toda a sua natural brandura e paciência. Pois por quê,
Rosa?...
- Pois não é duro mudar-se da sala para a senzala, trocar
o sofá
de damasco por esse cepo, o piano e a almofada de cetim por essa
roda? Por que te enxotaram de lá, Isaura?
- Ninguém me enxotou, Rosa; você bem sabe. Sinhá Malvina
foi-se embora em companhia de seu irmão para a casa do pai dela.
Portanto nada tenho que fazer na sala, e é por isso que venho aqui
trabalhar com vocês.
- E por que é que ela não te levou, você, que era
o ai-jesus
dela?... Ah! Isaura, você cuida que me embaça, mas está
muito
enganada; eu sei de tudo. Você estava ficando muito aperaltada,
e
por isso veio aqui para conhecer o seu lugar
- Como és maliciosa! - replicou Isaura sorrindo tristemente, mas
sem se alterar; pensas então que eu andava muito contente e cheia
de
mim por estar lá na sala no meio dos brancos?... como te enganas!...
se
me não perseguires com a tua má língua, como principias
a fazer, creio
que hei de ficar mais satisfeita e sossegada aqui.
- Nessa não creio eu; como é que você pode ficar satisfeita
aqui,
se não acha moços para namorar?
- Rosa, que mal te fiz eu, para estares assim a amofinar-me com
essas falas?...
- Olhe a sinhá, não se zangue!... perdão, dona Isaura;
eu pensei
que a senhora tinha esquecido os seus melindres lá no salão.
- Podes dizer o que quiseres, Rosa; mas eu bem sei, que na sala
ou na cozinha eu não sou mais do que uma escrava como tu. Também
deves-te lembrar, que se hoje te achas aqui, amanhã sabe Deus onde
estarás. Trabalhemos, que é nossa obrigação.
deixemos dessas
conversas que não têm graça nenhuma.
Neste momento ouvem-se as badaladas de uma sineta; eram três
para quatro horas da tarde; a sineta chamava os escravos a jantar. As
escravas suspendem seus trabalhos e levantam-se; Isaura porém
não se move, e continua a fiar.
- Então? - diz-lhe Rosa com o seu ar escarninho, - você não
ouve, Isaura? são horas; vamos ao feijão.
- Não, Rosa; deixem-me ficar aqui; não tenho fome nenhuma.
Fico adiantando minha tarefa, que principiei muito tarde.
- Tem razão; também uma rapariga civilizada e mimosa como
você não deve comer do caldeirão dos escravos. Quer
que te mande
um caldinho, um chocolate?...
- Cala essa boca, tagarela! - bradou a crioula velha, que parecia
ser a priora daquele rancho de fiandeiras. - Forte lingüinha de
víbora!... deixa a outra sossegar. Vamos, minha gente.
As escravas retiraram-se todas do salão, ficando só Isaura,
entregue ao seu trabalho e mais ainda às suas tristes e inquietadoras
reflexões. O fio se estendia como que maquinalmente entre seus
dedos
mimosos, enquanto o pezinho nu e delicado, abandonando o tamanquinho de
marroquim, pousava sobre o pedal da roda, a que dava automático
impulso. A fronte lhe pendia para um lado como açucena esmorecida,
e
as pálpebras meio cerradas eram como véus melancólicos,
que
encobriam um pego insondável de tristura e desconforto. Estava
deslumbrante de beleza naquela encantadora e singela atitude.
- Ah! meu Deus! - pensava ela; nem aqui posso achar um
pouco de sossego!... em toda parte juraram martirizar-me!... Na sala,
os
brancos me perseguem e armam mil intrigas e enredos para me
atormentarem. Aqui, onde entre minhas parceiras, que parecem me
querer bem, esperava ficar mais tranqüila, há uma, que por
inveja, ou
seja lá pelo que for, me olha de revés e só trata
de achincalhar-me.
Meu Deus! meu Deus!... já que tive a desgraça de nascer
cativa, não era
melhor que tivesse nascido bruta e disforme, como a mais vil das
negras, do que ter recebido do céu estes dotes, que só servem
para
amargurar-me a existência?
Isaura não teve muito tempo para dar larga expansão às
suas
angustiosas reflexões. Ouviu rumor na porta, e levantando os olhos
viu
que alguém se encaminhava para ela.
- Ai! meu Deus! - murmurou consigo. - Aí temos nova
importunação! nem ao menos me deixam ficar sozinha um instante.
Quem entrava era, sem mais nem menos, o pajem André, que já
vimos em companhia do feitor, e que mui ancho, empertigado e
petulante se foi colocar defronte de Isaura.
- Boa tarde, linda Isaura. Então, como vai essa flor? - saudou
o
pachola do pajem com toda a faceirice.
- Bem, respondeu secamente Isaura.
- Estás mudada?... tens razão, mas é preciso ir-se
acomodando
com este novo modo de vida. Deveras que para quem estava
acostumada lá na sala, no meio de sedas e flores e águas-de-cheiro,
há
de ser bem triste ficar aqui metida entre estas paredes enfumaçadas
que só tresandam a sarro de pito e morrão de candeia.
- Também tu, André, vens por tua vez aproveitar-te da ocasião
para me atirar lama na cara?...
- Não, não, Isaura; Deus me livre de te ofender; pelo contrário,
dói-me deveras dentro do coração ver aqui misturada
com esta
corja de negras beiçudas e catinguentas uma rapariga como tu, que
só
merece pisar em tapetes e deitar em colchões de damasco. Esse senhor
Leôncio tem mesmo um coração de fera.
- E que te importa isso? eu estou bem satisfeita aqui.
- Qual!... não acredito; não é aqui teu lugar. Mas
também por
outra banda estimo bem isso.
- Por quê?
- Porque, enfim, Isaura, a falar-te a verdade, gosto muito de você,
e aqui ao menos podemos conversar mais em liberdade...
- Deveras!... declaro-te desde já que não estou disposta
a ouvir
tuas liberdades.
- Ah! é assim! - exclamou André todo enfunado com este
brusco desengano. - Então a senhora quer só ouvir as finezas
dos
moços bonitos lá na sala!... pois olha, minha camarada,
isso nem sempre
pode ser, e cá da nossa laia não és capaz de encontrar
rapaz de
melhor figura do que este seu criado. Ando sempre engravatado,
enluvado, calçado, engomado, agaloado, perfumado, e o que mais
e, -
acrescentou batendo com a mão na algibeira, - com as algibeiras
sempre a tinir. A Rosa, que também é uma rapariguinha bem
bonita,
bebe os ares por mim; mas coitada!... o que é ela ao pé
de você?...
Enfim, Isaura, se você soubesse quanto bem te quero, não
havias de
fazer tão pouco caso de mim. Se tu quisesses, olha... escuta.
E dizendo isto o maroto do pajem, avizinhando-se de Isaura,
foi-lhe lançando desembaraçadamente o braço em torno
do colo, como quem
queria falar-lhe em segredo, ou talvez furtar-lhe um beijo.
- Alto lá! - exclamou Isaura repelindo-o com enfado. - Está
ficando bastante adiantado e atrevido. Retire-se daqui, se não
irei dizer
tudo ao senhor Leôncio.
- Oh! perdoa, Isaura; não há motivo para você se arrufar
assim.
És muito má, para quem nunca te ofendeu, e te quer tanto
bem. Mas
deixa estar, que o tempo há de te amaciar esse coraçãozinho
de pedra.
Adeus; eu já me vou embora; mas olha lá, Isaura; pelo amor
de Deus,
não vá dizer nada a ninguém. Deus me livre que sinhó
moço saiba do
que aqui se passou; era capaz de me enforcar. O que vale, -
continuou André consigo e retirando-se, - o que vale é que
neste negócio
parece-me que ele anda tão adiantado como eu.
Pobre Isaura! sempre e em toda parte esta contínua importunação
de senhores e de escravos, que não a deixam sossegar um só
momento! Como não devia viver aflito e atribulado aquele coração!
Dentro de casa contava ela quatro inimigos, cada qual mais porfiado em
roubar-lhe a paz da alma, e torturar-lhe o coração: três
amantes,
Leôncio, Belchior, e André, e uma êmula terrível
e desapiedada, Rosa. Fácil
lhe fora repelir as importunações e insolências dos
escravos e criados;
mas que seria dela, quando viesse o senhor?!...
De feito, poucos instantes depois Leôncio, acompanhado pelo
feitor, entrava no salão das fiandeiras. Isaura, que um momento
suspendera o seu trabalho, e com o rosto escondido entre as mãos
se
embevecia em amargas reflexões, não se apercebera da presença
deles.
- Onde estão as raparigas que aqui costumam trabalhar?... perguntou
Leôncio ao feitor, ao entrar no salão.
- Foram jantar, senhor; mas não tardarão a voltar.
- Mas uma cá se deixou ficar... ah! é a Isaura... Ainda
bem! -
refletiu consigo Leôncio, - a ocasião não pode ser
mais favorável;
tentemos os últimos esforços para seduzir aquela empedernida
criatura.
Logo que acabem de comer, - continuou ele dirigindo-se ao feitor, -
leve-as para a colheita do café. Há muito que eu pretendia
recomendar-lhe
isto e tenho-me esquecido. Não as quero aqui mais nem um
instante; isto é um lugar de vadiação, em que perdem
o tempo sem
proveito algum, em continuas palestras. Não faltam por aí
tecidos de
algodão para se comprar.
Mal o feitor se retirou, Leôncio dirigiu-se para junto de Isaura.
- Isaura! murmurou com voz meiga e comovida.
- Senhor! - respondeu a escrava erguendo-se sobressaltada; de-
pois murmurou tristemente dentro d'alma: - meu Deus! é ele!...
é
chegada a hora do suplício.