Bernardo
Guimarães
A Escrava Isaura
Capitulo
III
Falta-nos ainda conhecer
mais de perto a Henrique, o cunhado de
Leôncio. Era ele um elegante e bonito rapaz de vinte anos, frívolo,
estouvado
e vaidoso, como são quase sempre todos os jovens, mormente
quando lhes coube a ventura de terem nascido de um pai rico. Não
obstante esses ligeiros senões, tinha bom coração
e bastante dignidade e
nobreza de alma. Era estudante de medicina, e como estava-se em
férias, Leôncio o convidara a vir visitar a irmã e
passar alguns dias em sua
fazenda.
Os dois mancebos chegavam de Campos, onde Leôncio desde a
véspera linha ido ao encontro do cunhado.
Só depois de casado Leôncio, que antes disso poucas e breves
estadas fizera na casa paterna, começou a prestar atenção
à extrema
beleza e às graças incomparáveis de Isaura. Posto
que lhe coubesse em
sorte uma linda e excelente mulher, ele não se havia casado por
amor,
sentimento esse a que seu coração até ali parecia
absolutamente
estranho. Casara-se por especulação, e como sua mulher era
moça e bonita,
sentira apenas por ela paixão, que se ceva no gozo dos prazeres
sensuais, e com eles se extingue. Estava reservado à infeliz Isaura
fazer
vibrar profunda e violentamente naquele coração as fibras
que
ainda não estavam de todo estragadas pelo atrito da devassidão.
Concebeu por ela o mais cego e violento amor, que de dia em dia ia
crescendo na razão direta dos sérios e poderosos obstáculos
que
encontrava, obstáculos a que não estava afeito, e que em
vão se esforçava
para superar. Mas nem por isso desistia de sua tresloucada empresa, porque
em
fim de contas, - pensava ele, - Isaura era propriedade sua, e quando
nenhum outro meio fosse eficaz, restava-lhe o emprego da violência.
Leôncio era um digno herdeiro de todos os maus instintos e da brutal
devassidão do comendador.
Pelo caminho, como sua mente andava sempre cheia da imagem
de Isaura, Leôncio conversara longamente com seu cunhado a respeito
dela, exaltando-lhe a beleza, e deixando transluzir com revoltante cinismo
as lascivas intenções que abrigava no coração.
Esta conversação
não agradava muito a Henrique, que às vezes corava de pejo
e de
indignação por sua irmã, mas não deixou de
excitar-lhe viva curiosidade
de conhecer uma escrava de tão extraordinária beleza.
No dia seguinte ao da chegada dos mancebos às oito horas da
manhã, Isaura, que acabava de espanejar os móveis e arranjar
o salão,
achava-se sentada junto a uma janela e entrelinha-se a bordar, à
espera
que seus senhores se levantassem para servir-lhes o café. Leôncio
e
Henrique não tardaram em aparecer, e parando à porta do
salão
puseram-se a contemplar Isaura, que sem se aperceber da presença
deles continuava a bordar distraidamente.
- Então, que te parece? segredava Leôncio a seu cunhado.
-
Uma escrava desta ordem não é um tesouro inapreciável?
Quem não
diria que uma andaluza de Cádiz, ou uma napolitana?...
- Não é nada disso; mas é coisa melhor, respondeu
Henrique
maravilhado; é uma perfeita brasileira.
- Qual brasileira! é superior a tudo quanto há. Aqueles
encantos
e aquelas dezessete primaveras em uma moça livre, teriam feito
virar o
juízo a muita gente boa. Tua irmã pretende com instância,
que eu a
liberte, alegando que essa era a vontade de minha defunta mãe;
mas
nem tão tolo sou eu, que me desfaça assim sem mais nem menos
de
uma jóia tão preciosa. Se minha mãe teve o capricho
de criá-la com
todo o mimo e de dar-lhe uma primorosa educação, não
foi decerto
para abandoná-la ao mundo, não achas?... Também meu
pai parece
que cedeu às instâncias do pai dela, que é um pobre
galego, que por ai
anda, e que pretende libertá-la; mas o velho pede por ela tão
exorbitante soma, que julgo nada dever recear por esse lado. Vê
lá,
Henrique, se há nada que pague uma escrava assim?...
- É com efeito encantadora - replicou o moço, - se estivesse
no serralho do sultão, seria sua odalisca favorita. Mas devo notar-te,
Leôncio, - continuou, cravando no cunhado um olhar cheio de
maliciosa penetração, - como teu amigo e como irmão
de tua mulher,
que o teres em tua sala e ao lado de minha irmã uma escrava tão
linda e tão bem tratada não deixa de ser inconveniente e
talvez
perigoso para a tranqüilidade doméstica...
- Bravo! - atalhou Leôncio, galhofando, - para a idade que
tens, já estás um moralista de polpa!... mas não
te dê isso cuidado, meu
menino; tua irmã não tem dessas veleidades, e é ela
mesma quem mais
gosta de que Isaura seja vista e admirada por todos. E tem razão;
Isaura
é como um traste de luxo, que deve estar sempre exposto no salão.
Querias que eu mandasse para a cozinha os meus espelhos de Veneza?...
Malvina, que vinha do interior da casa, risonha, fresca e alegre
como uma manhã de abril, veio interromper-lhes a conversação.
- Bom dia, senhores preguiçosos! - disse ela com voz argentina
e festiva como o trino da andorinha. - Até que enfim sempre se
levantaram!
- Estás hoje muito alegre, minha querida, - retorquiu-lhe sor-
rindo o marido; - viste algum passarinho verde de bico dourado?...
- Não vi, mas hei de ver; estou alegre mesmo, e quero que hoje
aqui em casa seja um dia de festa para todos. Isto depende de ti, Leôncio,
e estava aflita por te ver de pé; quero dizer-te uma coisa; já
devia
tê-la dito ontem, mas o prazer de ver este ingrato de irmão,
que há
tanto tempo não vejo, me fez esquecer...
- Mas o que é?... fala, Malvina.
- Não te lembras de uma promessa, que sempre me fazes,
promessa sagrada, que há muito tempo devia ter sido cumprida?...
hoje
quero absolutamente, exijo, o seu cumprimento.
- Deveras?.., mas que promessa?... não me lembro.
- Ah! como te fazes de esquecido!... não te lembras, que me
prometeste dar liberdade a...
- Ah! já sei, já sei; - atalhou Leôncio com impaciência.
- Mas
tratar disso aqui agora? em presença dela?... que necessidade há
de que nos ouça?
- E que mal faz isso? mas seja como quiseres, - replicou a moça
tomando a mão de Leôncio e levando-o para o interior da casa;
-
vamos cá para dentro. Henrique, espera aí um momento, enquanto
eu
vou mandar preparar-nos o café.
Só depois da chegada de Malvina, Isaura deu pela presença
dos
dois mancebos, que a certa distância a contemplavam cochichando
a
respeito dela. Também pouco ouviu ela e nada compreendeu do rápido
diálogo que tivera lugar entre Malvina e seu marido. Apenas estes
se
retiraram ela também se levantou e ia sair, mas Henrique, que ficara
só,
a deteve com um gesto.
- Que me quer, senhor? - disse ela baixando os olhos com humildade.
- Espera ai, menina; tenho alguma coisa a dizer-te, - replicou o
moço, e sem dizer mais nada colocou-se diante dela devorando-a
com
os olhos, e como extático contemplando-lhe a maravilhosa beleza.
Henrique sentia-se acanhado diante daquela nobre figura radiante de beleza,
e de angélica serenidade. Por seu lado Isaura também olhava
para o
moço, atônita e tolhida, esperando em vão que lhe
dissesse o que
queria. Por fim Henrique, afoito, e estouvado como era, lembrando-se que
Isaura, a despeito de toda a sua formosura, não passava de uma
escrava, entendeu que fazia um ridículo papel, deixando-se ali
ficar diante
dela em muda e extática contemplação, e chegando-se
a ela com todo
o desembaraço e petulância travou-lhe da mão, e...
- Mulatinha, disse, - tu não fazes idéia de quanto és
feiticeira.
Minha irmã tem razão; é pena que uma menina assim
tão linda não seja
mais que uma escrava. Se tivesses nascido livre, serias incontestavelmente
a rainha dos salões.
- Está bem, senhor, está bem! replicou Isaura soltando-se
da mão
de Henrique; se é só isso o que tinha a dizer-me, deixe-me
ir embora.
- Espera ainda um pouco; não sejas assim má; eu não
te quero
fazer mal algum. Oh! quanto eu daria para obter a tua liberdade, se
com ela pudesse obter também o teu amor!... És muito mimosa
e muito
linda para ficares por muito tempo no cativeiro; alguém impreterivelmente
virá arrancar-te dele, e se hás de cair nas mãos
de algum desconhecido,
que não saberá dar-te o devido apreço, seja eu, minha
Isaura, seja o irmão
de tua senhora, que de escrava te haja de fazer uma princesa...
- Ah! senhor Henrique! retorquiu a menina com enfado; - o
senhor não se peja de dirigir esses galanteios a uma escrava de
sua
irmã? isso não lhe fica bem; há por aí tanta
moça bonita, a quem o
senhor pode fazer a corte...
- Não; ainda não vi nenhuma que te iguale, Isaura, eu te
juro.
Olha, Isaura; ninguém mais do que eu está nas circunstâncias
de
conseguir a tua liberdade; sou capaz de obrigar Leôncio a te libertar,
porque, se me não engano, já lhe adivinhei os planos e as
intenções, e
protesto-te que hei de burlá-los todos; é uma infâmia
em que não posso
consentir. Além da liberdade terás tudo o que desejares,
sedas, jóias,
carros, escravos para te servirem, e acharás em mim um amante
extremoso, que sempre te há de querer, e nunca te trocará
por quanta
moça há por esse mundo, por bonita e rica que seja, porque
tu só
vales mais que todas elas juntas.
- Meu Deus! - exclamou Isaura com um ligeiro tom de mofa; -
tanta grandeza me aterra; isso faria virar-me o juízo. Nada, meu
senhor;
guarde suas grandezas para quem melhor as merecer; eu por ora estou
contente com a minha sorte.
- Isaura!... para que tanta crueldade!... escuta, - disse o moço
lançando o braço ao pescoço de Isaura.
- Senhor Henrique! - gritou ela esquivando-se ao abraço, -
por quem é, deixe-me em paz!
- Por piedade, Isaura! - insistiu o rapaz continuando a querer
abraçá-la; - oh!... não fales tão alto!...
um beijo... um beijo só, e já te
deixo...
- Se o senhor continua, eu grito mais alto. Não posso aqui trabalhar
um momento, que não me venham perturbar com declarações
que
não devo escutar...
- Oh! como está altaneira! - exclamou Henrique, já um tanto
agastado com tanta resistência. - Não lhe falta nada!...
tem até os ares
desdenhosos de uma grande senhora!... não te arrufes assim, minha
princesa...
- Arre lá, senhor! - bradou a escrava já no auge da impaciência.
- Já não bastava o senhor Leôncio!... agora vem o
senhor também...
- Como?... que estás dizendo?... também Leôncio?...
oh!... oh!
bem o coração me estava adivinhando!... que infâmia!...
mas decerto tu
o escutas com menos impaciência, não é assim?
- Tanto como escuto ao senhor.
- Não duvido Isaura; a lealdade, que deves a tua senhora, que
tanto te estima, não te permite que dês ouvidos àquele
perverso. Mas
comigo o caso é diferente; que motivo há para seres cruel
assim?
- Eu cruel para com meus senhores!!! Ora, senhor, pelo amor de
Deus!... Não esteja assim a escarnecer de uma pobre cativa.
- Não! não escarneço... Isaura!... escuta, - exclamava
Henrique
forcejando para abraçá-la e furtar-lhe um beijo.
- Bravo!... bravíssimo! - retumbou pelo salão uma voz acompanhada
de sardônica e estrepitosa gargalhada.
Henrique voltou-se sobressaltado. Toda a sua amorosa exaltação
tinha-se-lhe gelado de súbito no âmago do coração.
Leôncio estava em pé no meio da porta, de braços cruzados
e
olhando para ele com sorriso do mais insultante escárnio.
- Bravo! muito bem, senhor meu cunhado! - continuou Leôncio
no mesmo tom de mofa. - Está pondo em prática belissimamente
as
suas lições de moral!... requestando-me as escravas!...
está galante!...
sabe respeitar divinamente a casa de sua irmã!...
- Ah! maldito importuno! murmurou Henrique, trincando os
dentes de cólera, e seu primeiro impulso foi investir de punho
fechado, e
responder com cachações aos insolentes sarcasmos do cunhado.
Refletindo porém um momento, sentiu que lhe seria mais vantajoso
empregar contra o seu agressor a mesma arma de que se servira contra ele,
o
sarcasmo, que as circunstâncias lhe permitiam vibrar de modo vitorioso
e decisivo. Acalmou-se, pois, e com sorriso de soberano desdém:
- Ah! perdão, meu cunhado! - disse ele não sabia que a
peregrina jóia do seu salão lhe merecesse tanto cuidado,
que o levasse
a ponto de andá-la espionando; creio que tem mais zelo por ela
do que
mesmo pelo respeito que se deve à sua casa e à sua mulher.
Pobre de
minha irmã!... é bem simples, e admira que, há mais
tempo, não tenha
conhecido o belo marido que possui!...
- O que estás dizendo, rapaz? - bradou Leôncio com gesto
ameaçador; - repete; que estás dizendo?
- O mesmo que o senhor acaba de ouvir, - redargüiu Henrique
com firmeza, - e fique certo que o seu indigno procedimento não
há
de ficar por muito tempo oculto à minha irmã.
- Qual procedimento!? tu deliras, Henrique?...
- Faça-se de esquerdo!... pensa que não sei tudo?... enfim.
adeus, senhor Leôncio: eu me retiro, porque seria altamente
inconveniente, indigno e ridículo da minha parte estar a disputar
com
o senhor por amor de uma escrava.
- Espera, Henrique... escuta...
- Não, não; não tenho negócio nenhum com o
senhor. Adeus! -
disse e retirou-se precipitadamente.
Leôncio sentiu-se esmagado, e arrependeu-se mil e uma vezes de
ter provocado tão imprudentemente aquele leviano e estouvado rapaz.
Ignorava que seu cunhado estivesse ao fato da paixão que sentia
por
Isaura, e dos esforços que empregava para vencer-lhe a isenção
e lograr
seus favores. verdade que lhe havia falado sem muito rebuço a esse
respeito; mas algumas palavras ditas entre rapazes, em tom de mera
chocarrice, não constituíam base suficiente para que sobre
ela Henrique
pudesse articular uma acusação contra ele em face de sua
mulher.
Decerto a rapariga lhe havia revelado alguma coisa, e isto o fazia espumar
de despeito e raiva contra um e outra. Bem pouco lhe importava a
perturbação da paz doméstica, o que o enfurecia era
o perigo em que
se colocara de ver desconcertados os seus perversos desígnios sobre
a
gentil escrava.
- Maldição! - rugia ele lá consigo. - Aquele maluco
é bem ca-
paz de desconcertar todos os meus planos. Se sabe alguma coisa, como
parece, não porá dúvida em levar tudo aos ouvidos
de Malvina...
Leôncio ficou por alguns momentos em pé, imóvel, sombrio,
carrancudo, com o espírito entregue à cruel inquietação
que o fustigava.
Depois, pairando as vistas em derredor, deu com os olhos em Isaura, a
qual, desde que Leôncio se apresentara, corrida, trêmula e
anelante,
fora sumir-se em um canto da sala; dali presenciara em silenciosa ansiedade
a altercação dos dois moços, como corça mal
ferida escutando o
rugir de dois tigres, que disputaram entre si o direito de devorá-la.
Por
seu lado também se arrependia do intimo d'alma, e raivava contra
si
mesma pela indiscreta e louca revelação, que em um assomo
de
impaciência deixara escapar dos seus lábios. Sua imprudência
ia ser
causa da mais deplorável discórdia no seio daquela família,
discórdia,
de que por fim de contas ela viria a ser a principal vítima. A
desavença
entre os dois mancebos era como o choque de duas nuvens, que se encontram
e continuam a pairar tranqüilamente no céu; mas o raio desprendido
de
seu seio teria de vir certeiro sobre a fronte da infeliz cativa.
Capítulo IV
- Ah! estás ainda ai?... fizeste bem, - disse Leôncio
mal avistou
Isaura, que trêmula e confusa não ousara sair do cantinho,
a que se
abrigara, e onde fazia mil votos ao céu para que seu senhor
não a visse,
nem se lembrasse dela naquele momento. - Isaura, continuou ele,
- pelo que vejo, andas bem adiantada em amores!... estavas a ouvir
finezas daquele rapazola...
- Tanto como ouço as suas, meu senhor, por não ter
outro remédio.
Uma escrava, que ousasse olhar com amor para seus senhores, merecia
ser severamente castigada.
- Mas tu disseste alguma coisa àquele estouvado, Isaura?...
- Eu?! - respondeu a escrava perturbando-se; - eu, nada que
possa ofender nem ao senhor nem a ele...
- Pesa bem as tuas palavras, Isaura; olha, não procures
enganar-me. Nada lhe disseste a meu respeito?
- Nada.
- Juras?
- Juro, - balbuciou Isaura.
- Ah! Isaura, Isaura!... tem cuidado. Se até aqui tenho sofrido
com paciência as tuas repulsas e desdéns, não
estou disposto a suportar
que em minha casa, e quase em minha presença, estejas a escutar
galanteios de quem quer que seja, e muito menos revelar o que aqui
se
passa. Se não queres o meu amor, evita ao menos de incorrer
no meu
ódio.
- Perdão, senhor, que culpa tenho eu de andarem a perseguir-me?
- Tens alguma razão; estou vendo que me verei forçado
a
desterrar-te desta casa, e a esconder-te em algum canto, onde não
sejas
tão vista e cobiçada...
- Para quê, senhor...
- Basta; não te posso ouvir agora, Isaura. Não convém
que nos
encontrem aqui conversando a sós. Em outra ocasião
te escutarei. -
preciso estorvar que aquele estonteado vã intrigar-me com
Malvina -
murmurava Leôncio retirando-se. - Ah! cão! maldita
a hora em que te
trouxe à minha casa!
- Permita Deus que tal ocasião nunca chegue! - exclamou
tristemente dentro da alma a rapariga, vendo seu senhor retirar-se.
Ela via com angústia e mortal desassossego as continuas e
cada vez mais
encarniçadas solicitações de Leôncio,
e não atinava com um meio de
opor-lhes um paradeiro. Resolvida a resistir até à
morte, lembrava-se da
sorte de sua infeliz mãe, cuja triste história bem
conhecia, pois a tinha
ouvido, segredada a medo e misteriosamente, da boca de alguns velhos
escravos da casa, e o futuro se lhe antolhava carregado das mais
negras
e sinistras cores. Revelar tudo a Malvina era o único meio,
que se lhe
apresentava ao espírito, para pôr termo às ousadias
do seu marido, e atalhar
futuras desgraças. Mas Isaura amava muito sua jovem senhora
para ousar dar
semelhante passo, que iria derramar-lhe no seio um pego de desgostos
e amarguras, quebrando-lhe para sempre a risonha e doce ilusão
em
que vivia.
Preferia antes morrer como sua mãe, vitima das mais cruéis
sevícias, do que ir por suas mãos lançar uma
nuvem sinistra no céu até ali
tão sereno e bonançoso de sua querida senhora.
O pai de Isaura, o único ente no mundo, que à exceção
de Malvina
se interessava por ela, pobre e simples jornaleiro, não se
achava
em estado de poder protegê-la contra as perseguições
e violências de
que se achava ameaçada. Em tão cruel situação
Isaura não sabia senão
chorar em segredo a sua desventura, e implorar ao céu, do
qual somente
podia esperar remédio a seus males.
Bem se compreende pois agora aquele acento tão dorido, tão
repassado de angústia, com que cantava a sua canção
favorita. Malvina
enganava-se atribuindo sua tristeza a alguma paixão amorosa.
Isaura
conservava ainda o coração no mais puro estado de
isenção. Com
quanto mais dó não a teria lastimado sua boa e sensível
senhora, se
pudesse adivinhar a verdadeira causa dos pesares que o ralavam.
Capítulo V
Isaura despertando de suas pungentes e amargas preocupações.
tomou seu balainho de costura e ia deixar o salão, resolvida
a sumir-se
no mais escondido recanto da casa, ou amoitar-se em algum
esconderijo do pomar. Esperava assim esquivar-se à repetição
de cenas
indecentes e vergonhosas, como essas por que acabava de passar.
Apenas
dera os primeiros passos foi detida por uma extravagante e grotesca
figura, que penetrando no salão veio postar-se diante de
seus olhos.
Era um monstrengo afetando formas humanas, um homúnculo em
tudo mal construído, de cabeça enorme, tronco raquítico,
pernas curtas
e arqueadas para fora, cabeludo como um urso, e feio como um mono.
Era como um desses truões disformes, que formavam parte indispensável
do séquito de um grande rei da Média Idade, para divertimento
dele e de seus cortesões. A natureza esquecera de lhe formar
o
pescoço, e a cabeça disforme nascia-lhe de dentro
de uma formidável
corcova, que a resguardava quase como um capuz. Bem reparado todavia,
o
rosto não era muito irregular, nem repugnante, e exprimia
muita
cordura, submissão e bonomia.
Isaura teria soltado um grito de pavor, se há muito não
estivesse
familiarizada com aquela estranha figura, pois era ele, sem mais
nem
menos, o senhor Belchior, fiel e excelente ilhéu, que há
muitos anos
exercia naquela fazenda mui digna e conscienciosamente, apesar de
sua
deformidade e idiotismo, o cargo de jardineiro. Parece que as flores,
que são o símbolo natural de tudo quanto é
belo, puro e delicado,
deviam ter um cultor menos disforme e repulsivo. Mas quis a sorte
ou o
capricho do dono da casa estabelecer aquele contraste, talvez para
fazer
sobressair a beleza de umas à custa da fealdade do outro.
Belchior tinha em uma das mãos o vasto chapéu de palha,
que
arrastava pelo chão, e com a outra empunhava. não
um ramalhete, mas
um enorme feixe de flores de todas as qualidades, à sombra
das quais
procurava eclipsar sua desgraciosa e extravagante figura. Parecia
um
desses vasos de louça, de formas fantásticas e grotescas,
que se enchem
de flores para enfeitar bufetes e aparadores.
- Valha-me Deus! - pensou Isaura ao dar com os olhos no jardineiro.
- Que sorte é a minha! ainda mais este!... este ao menos
é de
todos o mais suportável: os outros me amofinam, e atormentam:
este as
vezes me faz rir.
- Muito bem aparecido, senhor Belchior! então, o que deseja?
- Senhora Isaura, eu... eu... vinha..., - resmungou embaraçado
o jardineiro.
- Senhora!... eu senhora!... também o senhor pretende caçoar
comigo, senhor Belchior?...
Eu caçoar com a senhora!... não sou capaz... minha
língua seja
comida de bichos, se eu faltar com o respeito devido à senhora...
Vinha
trazer-lhe estas froles, se bem que a senhora mesma é uma
frol...
- Arre lá, senhor Belchior!... sempre a dar-me de senhora!...
se
continua por essa forma, ficamos mal, e não aceito as suas
froles... Eu
sou Isaura, escrava da senhora D. Malvina; ouviu, senhor Belchior!
- Embora lá isso; e soverana cá deste coração,
e eu, menina,
dou-me por feliz se puder beijar-te os pés. Olha, Isaura...
- Ainda bem! Agora sim; trate-me desse modo.
- Olha, Isaura, eu sou um pobre jardineiro, lá isso é
verdade; mas
sei trabalhar, e não hás de achar vazio o meu mealheiro,
onde já tenho
mais de meio mil cruzados. Se me quiseres, como eu te quero,
arranjote a liberdade, e caso-me contigo, que também não
és para andar
aí assim como escrava de ninguém.
- Muito obrigada pelos seus bons desejos; mas perde seu tempo,
senhor Belchior. Meus senhores não me libertam por dinheiro
nenhum.
- Ah! deveras!... que malbados!... ter assim no catibeiro a rainha
da Jermosura!... mas não importa, Isaura; terei mais gosto
em ser escravo
de uma escrava como tu, do que em ser senhor dos senhores de
cem mil cativos. Isaura!... não fazes idéia de como
te quero. Quando
vou molhar as minhas froles, estou a lembrar-me de ti com uma soidade!...
Deveras! ora viu-se que amor!...
- Isaura! - continuou Belchior, curvando os joelhos, - tem piedade
deste teu infeliz cativo...
- Levante-se, levante-se, - interrompeu Isaura com impaciência.
- Seria bonito que meus senhores viessem aqui encontrá-lo
fazendo
esses papéis!... que estou-lhe dizendo?... ei-los aí!...
ah! senhor Belchior!
De feito, de um lado Leôncio, e de outro Henrique e Malvina,
os
estavam observando.
Henrique, tendo-se retirado do salão, despeitado e furioso
contra
seu cunhado, assomado e leviano como era, foi encontrar a irmã
na
sala de jantar, onde se achava preparando o café e ali em
presença dela
não hesitou em desabafar sua cólera, soltando palavras
imprudentes,
que lançaram no espírito da moça o germe da
desconfiança e da
inquietação.
- Este teu marido, Malvina, não passa de um miserável
patife
- disse bufando de raiva.
- Que estás dizendo, Henrique?!... que te fez ele?... - perguntou
a moça, espantada com aquele rompante.
- Tenho pena de ti, minha irmã... se soubesses... que
infâmia!...
- Estás doido, Henrique!... o que há então?
- Permita Deus que nunca o saibas!... que vilania!...
- O que houve então, Henrique?... fala, explica-te por quem
és,
- exclamou Malvina, pálida e ofegante no cúmulo da
aflição.
- Oh! que tens?... não te aflijas assim, minha irmã,
- respondeu
Henrique, já arrependido das loucas palavras que havia soltado.
Tarde
compreendeu que fazia um triste e deplorável papel, servindo
de
mensageiro da discórdia e da desconfiança entre dois
esposos, que até ali
viviam na mais perfeita harmonia e tranquilidade. Tarde e em
vão procurou atenuar o terrível efeito de sua fatal
indiscrição.
- Não te inquietes, Malvina, continuou ele procurando sorrir-se;
- teu marido é um formidável turrão, eis aí
tudo; não vás pensar que
nos queremos bater em duelo.
- Não; mas vieste espumando de raiva, com os olhos em fogo,
e
com um ar...
- Qual!... pois não me conheces?... sempre fui assim; por
- dá
cá aquela palha - pego fogo, mas também é fogo
de palha.
- Mas pregaste-me um susto!...
- Coitada!... toma isto, - disse-lhe Henrique, oferecendo-lhe
uma xícara de café, é a melhor coisa que há
para aplacar sustos e
ataques de nervos.
Malvina procurou acalmar-se, mas as palavras do irmão tinham-lhe
penetrado no âmago do coração, como a dentada
de uma víbora, aí
deixando o veneno da desconfiança.
O aparecimento de Leôncio, que vinha do salão, pôs
termo a este
incidente. Os três tomaram café à pressa e sem
trocarem palavras; estavam
já ressabiados uns com outros, olhavam-se com desconfiança,
e de
um momento para outro a discórdia insinuara-se no seio daquela
pequena família, ainda há pouco tão feliz,
unânime e tranqüila. Tomado o
café retiraram-se, mas todos por um impulso instintivo, dirigiram
seus
passos para o salão, Henrique e Malvina de braços
dados pelo grande
corredor da entrada, e Leôncio sozinho por compartimentos
interiores,
que comunicavam com o salão. Era ali com efeito que se achava
o
pomo fatal, mas inocente, que devia servir de instrumento da
desunião e descalabro daquela nascente família.
Chegaram ainda a tempo de presenciar o final da cena ridícula,
que Belchior representava aos pés de Isaura. Leôncio,
porém, que os
espiava através das sanefas entreabertas de uma alcova, não
avistava
Henrique e Malvina, que haviam parado no corredor junto à
porta da
entrada.
- Oh! oh! - exclamou ele no momento em que Belchior prostrava-se
aos pés de Isaura. Creio que tenho dentro de casa um ídolo,
diante do qual todos vêm ajoelhar-se e render adorações!...
até o meu
jardineiro!... Olá, senhor Belchior, está bonito!...
Continue com a farsa,
que não está má... mas para tratar dessa flor
não precisamos de seus
cuidados, não; tem entendido, senhor Belchior!...
- Perdão, senhor meu, - balbuciou o jardineiro erguendo-se
trêmulo e confuso; - eu vinha trazer estas froles para os
basos da sala...
- E apresentá-las de joelhos!... essa é galante!...
Se continua
nesse papel de galã, declaro-lhe que o ponho pela porta fora
com dois
pontapés nessa corcova.
Corrido, confuso e azoinado, Belchior, cambaleando e esbarrando
pelas cadeiras, lá se foi às cegas em busca da porta
da rua.
- Isaura! ó minha Isaura! - exclamou Leôncio saindo
da alcova,
avançando com os braços abertos para a rapariga, e
dando à voz até ali
áspera e rude, a mais suave e tema inflexão.
Um ai agudo e pungente, que ecoou pelo salão, o faz parar
mudo,
gélido e petrificado. Tinha avistado no meio da porta Malvina,
que, pálida
e desfalecida, ocultava a fronte no ombro de seu irmão, que
a
amparava nos braços.
- Ah! meu irmão! - exclamou ela voltando de seu delíquio,
-
agora compreendo tudo que ainda há pouco me dizias.
E com uma das mãos comprimindo o coração, que
parecia querer-lhe
estalar de dor, e com a outra escondendo no lenço as lágrimas,
que
dos formosos olhos lhe brotavam aos pares, correu a encerrar-se
em
seu aposento.
Leôncio desconcertado pelo terrível contratempo, de
que acabava
de ser vítima, ficou largo tempo a passear, frenético
e agitado, de um a
outro lado, ao longo do salão, furioso contra o cunhado,
a cuja
impertinente leviandade atribuía as fatais ocorrências
daquela manhã,
que ameaçavam burlar todos os seus planos sobre Isaura, e
excogitando
meios de safar-se das dificuldades em que se via empenhado.
Isaura, tendo resistido em menos de uma hora, a três abordagens
consecutivas, dirigidas contra o seu pudor e isenção,
aturdida, cheia de
susto, confusão e vergonha, correu a esconder-se entre os
laranjais
como lebre medrosa, que ouve ladrarem pelos prados os galgos
encarniçados a seguirem-lhe a pista.
Henrique altamente indignado contra o cunhado não lhe queria
ver
a cara; tomou sua espingarda e saiu disposto a passar o dia inteiro
passarinhando pelos matos, e a retirar-se impreterivelmente para
a corte
ao romper do dia seguinte.
Os escravos ficaram pasmos, quando à hora do almoço
Leôncio
achou-se sozinho à mesa. Leôncio mandou chamar Malvina,
mas esta,
pretextando uma indisposição, não quis sair
de seu quarto. Seu primeiro
movimento foi um ímpeto de cólera brutal; esteve a
ponto de atirar
toalha, pratos, talheres e tudo pelos ares, e ir esbofetear o desassisado
e
insolente rapaz, que em má hora viera à sua casa para
perturbar a
tranqüilidade do seu viver doméstico. Mas conteve-se
a tempo, e
acalmando-se entendeu que melhor era não se dar por achado,
e encarar
com ares da maior indiferença e mesmo de desdém, os
arrufos da
esposa, e o mau humor do cunhado. Estava bem persuadido que lhe
seria difícil, se não impossível, dissimular
mais aos olhos da esposa
o seu torpe procedimento; incapaz, porém, de retratar-se
e implorar
perdão, resolveu amparar-se da tempestade, que ia despenhar-se
sobre
sua cabeça, com o escudo da mais cínica indiferença.
Inspiravam-lhe
este alvitre o orgulho, e o mau conceito em que tinha todas as mulheres,
nas quais não reconhecia pundonor nem dignidade.
Depois do almoço Leôncio montou a cavalo, percorreu
as roças e
cafezais, coisa que bem raras vezes fazia, e ao descambar do Sol
voltou
para casa, jantou com o maior sossego e apetite, e depois foi para
o
salão, onde, repoltreando-se em macio e fresco sofá,
pôs-se a fumar
tranqüilamente o seu havana.
Nesse comenos chega Henrique de suas excursões venatórias,
e
depois de procurar em vão a irmã por todos os cantos
da casa, vai
enfim encontrá-la encerrada em seu quarto de dormir desfigurada,
pálida, e com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
- Por onde andaste, Henrique?... estava aflita por te ver,
- exclamou a moça ao avistar o irmão. - Que má
moda é essa de deixar a
gente assim sozinha!...
- Sozinha?!... pois até aqui não vivias sem mim na
companhia de
teu belo marido?...
- Não me fales nesse homem... eu andava iludida; agora vejo
que andava pior do que sozinha, na companhia de um perverso.
- Ainda bem que presenciaste com teus próprios olhos o que
eu
não tinha ânimo de dizer-te. Mas, vamos! que pretendes
fazer?...
- O que pretendo?... vais ver neste mesmo instante... Onde está
ele?... viste-o por ai?...
Se me não engano, vi-o no salão; havia lá um
vulto sobre um sofá.
- Pois bem, Henrique, acompanha-me até lá.
Por que razão não vais só? poupa-me o desgosto
de encarar
aquele homem...
- Não, não; é preciso que vás comigo;
estava à tua espera
mesmo para esse fim. Preciso de uma pessoa que me ampare e me
alente. Agora até tenho medo dele.
- Ah! compreendo; queres que eu seja teu guarda-costas, para
poderes descompor a teu jeito aquele birbante. Pois bem; presto-me
de
boa vontade, e veremos se o patife tem o atrevimento de te desrespeitar.
Vamos!