Bernardo
Guimarães
A Escrava Isaura
Capitulo XII
Agora os leitores
já sabem, se é que há mais tempo não adivinharam,
que a suposta Elvira não é mais do que a escrava Isaura,
assim
como Anselmo não passa do feitor Miguel, ambos os quais são
já
nossos conhecidos antigos. Como também sabem que Isaura não
só era
dotada de espírito superior, como também recebera a mais
fina e
esmerada educação, não lhe estranharam a distinção
das maneiras, a
elegância e elevação da linguagem, e outros dotes,
que faziam com que
essa escrava excepcional pudesse aparecer e mesmo brilhar no meio da
mais luzida e aristocrática sociedade.
Foi a situação desesperada, em que via sua querida filha,
que
inspirou a Miguel o expediente extremo de uma fuga precipitada,
exposta a mil azares e perigos. Lembrava-se ele com horror do miserando
destino de que em iguais circunstâncias fora vítima a mãe
de Isaura, e
bem sabia que Leôncio, tão desalmado como o pai, e ainda
mais
corrupto e libertino, era capaz de excessos e atentados ainda maiores.
Tendo perdido a esperança de libertar a filha, entendeu que podia
utilizar-se da soma, que para esse fim tinha agenciado, empregando-a em
arrancar a pobre vitima das mãos do algoz, por qualquer meio que
fosse.
Bem via que aos olhos do mundo tirar uma escrava da casa de seus
senhores, e proteger-lhe a fuga, além de ser um crime, era um ato
desairoso
e indigno de um homem de bem; mas a escrava era uma filha
idolatrada, e uma pérola de pureza, prestes a ser poluída
ou esmagada
pela mão de um senhor verdugo, e esta consideração
o justificava aos olhos
da própria consciência.
Bem se lembrara o infeliz pai de dar denúncia do fato às
autoridades, implorando a proteção das leis em favor de
sua filha para
que não fosse vitima das violências e sevícias de
seu dissoluto e
brutal senhor. Mas todos a quem consultava respondiam-lhe a uma voz:
- Não se meta em tal; é tempo perdido. As autoridades nada
têm que ver
com o que se passa no interior da casa dos ricos. Não caia nessa;
muito feliz
será, se somente tiver de pagar as custas, e não lhe arrumarem
por
cima algum processo, com que tenha de ir dar com os costados na
cadeia. - Onde se viu o pobre ter razão contra o rico, o fraco
contra o
forte?...
Miguel entretinha relações ocultas com alguns dos antigos
escravos
da fazenda de Leôncio, os quais, lembrando-se ainda com saudades
do
tempo de sua boa administração, conservavam-lhe o mesmo
respeito e
afeição, e por meio deles tinha exata informação
do que se passava na
fazenda. Sabendo dos cruéis apuros a que sua filha se achava reduzida
depois da morte do comendador, não hesitou mais um instante, e
tratou
de tomar todas as providências e medidas de segurança para
roubar a
filha, e pô-la fora do alcance de seu bárbaro senhor. Na
mesma madrugada,
que seguiu-se à tarde, em que a raptou, fazia-se de vela com
Isaura para as províncias do Norte em um navio negreiro, de que
era
capitão um português, antigo e dedicado amigo seu. Este chegando
às
alturas de Pernambuco, como daí tinha de singrar para a costa da
África,
largou-os no Recife, prometendo-lhes que dentro em três ou quatro
meses estaria de volta e pronto a conduzi-los para onde quisessem.
Miguel que em sua profissão de jardineiro ou de feitor havia passado
a
vida desde a infância dentro de um horizonte acanhado e em círculo
mui limitado de relaçóes, tinha pouco conhecimento e nenhuma
experiência do mundo, e portanto não podia calcular todas
as conseqüências
da difícil posição em que ia colocar a si e a sua
filha. Durante os longos
anos que esteve feitorando a fazenda do comendador e de outros, não
se dera senão uma ou outra fuga insignificante de escravos, por
alguns
dias e para alguma fazenda vizinha, e, portanto, não é para
admirar que
ele quase completamente ignorasse a amplitude dos direitos, que tem
um senhor sobre o escravo, e os infinitos meios e recursos de que pode
lançar mão para capturá-los em caso de fuga. Entendeu,
pois, que em
Pernambuco poderia viver com sua filha em plena seguridade, ao
menos por três ou quatro meses, uma vez que se afastassem da sociedade
o mais que pudessem, e procurassem esconder sua vida na mais
completa obscuridade.
Isaura também, se bem que tivesse o espírito mais atilado
e
esclarecido, longe do objeto principal de seu terror e aversão,
não
deixava de sentir-se tranqüila, e até certo ponto descuidosa
dos
perigos a que vivia exposta. Mas essa tal ou qual tranquilidade só
durou
até o dia em que pela primeira vez viu Álvaro. Amou-o com
esse amor
exaltado das almas elevadas, que amam pela primeira e única vez,
e esse
amor, como bem se compreende, veio tornar ainda mais crítica e
angustiosa a
sua já tão precária e mísera situação.
Alvaro tinha na fisionomia, nas maneiras, na voz e no gesto, um
não sei quê de nobre, de amável e profundamente simpático,
que avassalava
todos os corações. O que não seria ele para aquela
que única até
ali lhe soubera conquistar o amor? Isaura não pôde resistir
a tão prestigiosa
sedução; amou-o com o ardor e entusiasmo de um coração
virgem; e com a
imprevidência e cegueira de uma alma de artista, embora não
visse nesse amor
mais do que uma nova fonte de lágrimas e torturas para seu coração.
Medindo o abismo que a separava de Álvaro, bem sabia que de
nenhuma esperança podia alimentar-se aquela paixão funesta,
que
deveria ficar para sempre sepultada no íntimo do coração,
como um
cancro a devorá-lo eternamente.
No seu cálice de amarguras, já quase a transbordar, tinha
de
receber da mão do destino mais aquele travo cruel, que lhe devia
queimar
os lábios e envenenar-lhe a existência.
Já bastante lhe pesava andar enganando a sociedade a respeito de
sua verdadeira condição; alma sincera e escrupulosa, envergonhava-se
consigo mesma de impor às poucas pessoas que com ela tratavam de
perto, um respeito e consideração a que nenhum direito podia
ter. Mas
considerando que de tal disfarce nenhum grande mal podia resultar à
sociedade, conformava-se com sua sorte. Deveria, porém, ela, ou
poderia sem inconveniente manter o seu amante na mesma ilusão?
Com
seu silêncio, conservando-o na ignorância de sua condição
de escrava,
deveria deixar alimentar-se, crescer profunda e enérgica paixão,
que o
moço por ela concebera?... não seria isto um vil embuste,
uma
indignidade, uma traição infame? não teria ele o
direito, ao saber da verdade,
de acabrunhá-la de amargas exprobrações, de desprezá-la,
de calcá-la
aos pés, de tratá-la enfim como escrava abjeta e vil, que
ficaria sendo?
- Oh! isto para mim seria mais horrível que mil mortes! -
exclamava ela no meio do angustioso embate de idéias que se lhe
agitavam
no espírito. - Não, não devo iludi-lo; isto seria
uma infâmia... vou-lhe
descobrir tudo; é esse o meu dever, e hei de cumpri-lo. Ficará
sabendo
que não pode, que não deve amar-me; porém ao menos
não ficará
com o direito de desprezar-me.. uma escrava, que procede com lisura e
lealdade, pode ao menos ser estimada. Não; não devo enganá-lo;
hei
de revelar-lhe tudo.
Esta era a resolução que lhe inspiravam seu natural pundonor
e
lealdade, e os ditames de uma consciência reta e delicada, mas quando
chegava o momento de pô-la em prática fraqueava-lhe o coração.
e
Isaura ia diferindo de dia para dia a execução de seu propósito.
Falecia-lhe de todo a coragem para quebrar por suas próprias
mãos a doce quimera, que tão deliciosamente a embalava,
e em que às
vezes conseguia esquecer por longo tempo sua mísera condição,
para
lembrar-se somente que amava e era amada.
- Deixemos durar mais um dia - refletia consigo. - esta ilusória,
mas inefável ventura. Sou uma condenada, que arrancam da masmorra
para subir ao palco e fazer por momentos o papel de rainha feliz e
poderosa; quando descer, serei de novo sepultada em minha masmorra
para nunca mais sair. Prolonguemos estes instantes; náo será
lícito deixar
passar ao menos em sonhos uma hora de felicidade sobre a fronte
do infeliz condenado?... sempre será tempo de quebrar esta frágil
cadeia
de ouro, que me prende ao céu, e baquear de novo no inferno de
meus sofrimentos.
Nesta indecisão, nesta luta interna, em que sempre a voz da paixão
abafava os ditames da razão e da consciência, passaram-se
alguns dias
até àquele, em que Alvaro os induziu por meios quase violentos
a aceitarem convite para um baile. Desde então Isaura entendeu
que
seria uma deslealdade, uma infâmia inqualificável, conservar
por mais
tempo o seu amante na ilusão a respeito de sua condição,
e que não
havia mais meio de prolongar, sem desdouro para eles, tão falsa
e
precária situação.
Era muito abusar da ignorância do nobre e generoso mancebo!
Uma escrava fugida apresentar-se em um baile, e apavonar-se em seu
braço à face da mais brilhante e distinta classe de uma
importante capital!...
era pagar com a mais feia ingratidão e a mais degradante deslealdade
os serviços,
que com tanta delicadeza e amabilidade lhe havia prestado. Isto repugnava
absolutamente aos escrúpulos da melindrosa consciência de
Isaura. É verdade
que Miguel, aterrado pelas considerações que Álvaro
lhe fizera, viu-se forçado
a anuir ao seu gracioso convite; Isaura porém guardara absoluto
silêncio,
o que ambos tomaram por um sinal de aquiescência.
Enganavam-se. Isaura recolhida ao silêncio não fazia mais
do que
tentar esforços supremos para sacudir o fardo daquele disfarce,
que
tanto lhe pesava sobre a consciência, rasgando resolutamente o véu
que
encobria aos olhos do amante sua verdadeira condição. Por
mais,
porém, que invocasse toda a sua energia e resolução,
no momento
decisivo a coragem a abandonava. Já a palavra lhe pairava pelos
lábios entreabertos, já tinha o passo formado para ir prostrar-se
aos
pés de Álvaro, mas encontrando pousado sobre ela o olhar
meigo e
apaixonado do mancebo, ficava como que fascinada; a palavra não
ousava
romper os lábios paralisados e refluía ao coração,
e os pés recusavam-se
ao movimento como se estivessem pregados no chão. Isaura estava
como o desgraçado a quem circunstâncias fatais arrastam ao
suicídio,
mas que ao chegar à borda do precipício medonho em que deseja
arrojar-se, recua espavorido.
- Fraca e covarde criatura que eu sou! - pensou ela por fim
esmorecida: - que miséria! nem tenho coragem para cumprir um dever!
não importa; para tudo há remédio; cumpre que ele
ouça da boca
de meu pai, o que eu não tenho ânimo de dizer-lhe.
Esta idéia luziu-lhe no espírito como uma tábua salvadora;
agarrou-se
a ela com sofreguidão, e antes que de novo lhe fraqueasse o ânimo,
tratou de pô-la
em execução.
- Meu pai, - disse ela resolutamente apenas Álvaro transpôs
o
portão do pequeno jardim, - declaro-lhe que não vou a esse
baile; não
quero, nem devo por forma nenhuma lá me apresentar.
- Não vais?! - exclamou Miguel atônito. - E por que não
disseste
isto há mais tempo, quando o senhor Álvaro ainda aqui se
achava? agora que
já demos nossa palavra...
- Para tudo há remédio, meu pai, - atalhou a filha com febril
vivacidade - e para este caso ele é bem simples. Vá meu
pai depressa
à casa desse moço, e diga-lhe o que eu não tive ânimo
de dizer-lhe;
declare-lhe quem eu sou, e está tudo acabado.
Dizendo isto, Isaura estava pálida, falava com precipitação,
os
lábios descarados lhe tremiam, e as palavras, proferidas com voz
convulsa
e estridente, parecia que lhe eram arrancadas a custo do coração.
Era o
resultado do extremo esforço que fazia, para levar a efeito tão
penível
resolução. O pai olhava para ela com assombro e consternação.
- Que estás a dizer, minha filha! - replicou-lhe ele - estás
tão
pálida e alterada!.. parece-me que tens febre... sofres alguma
coisa?
- Nada sofro, meu pai; não se inquiete pela minha saúde.
O que
eu estou lhe dizendo é que é absolutamente necessário
que meu pai vá
procurar esse moço e confessar-lhe tudo...
- Isso nunca!... estás louca, menina?... queres que eu te veja
encerrada em uma cadeia, conduzida em ferros para a tua província,
entregue a teu senhor, e por fim ver-te morrer entre tormentos nas garras
daquele monstro! oh! Isaura, por quem és, não me fales mais
nisso,
Enquanto o sangue me girar nestas veias, enquanto me restar o mais
pequenino recurso, hei de lançar mão dele para te salvar...
- Salvar-me por meio de uma indignidade, de uma infâmia, meu
pai!... retorquiu a moça com exaltação. - Como posso
eu, sem cometer a mais
vil deslealdade, aparecer apresentada por ele como uma senhora livre em
uma
sala de baile?... Quando esse senhor e tantas outras ilustres pessoas
souberem que
ombreou com elas, e a par delas dançou uma miserável escrava
fugida...
- Cala-te, menina! - interrompeu o velho, incomodado com a
exaltação da filha. - Não fales assim tão
alto... tranqüiliza-te; eles nunca saberão
de nada. O mais breve que puder ser deixaremos esta terra; amanhã
mesmo,
se for possível. Embarcaremos em qualquer paquete, e iremos para
bem longe, para
os Estados Unidos, por exemplo. Lá, segundo me consta, poderemos
ficar fora
do alcance de qualquer perseguição. Eu com o meu trabalho,
e tu com as tuas
prendas e habilitações, podemos viver sem sofrer necessidades
em qualquer canto
do mundo.
- Ah! meu pai! essa idéia de irmos para tão longe, sem esperança
de um dia podermos voltar, me oprime o coração.
- Que remédio, minha filha!.., já agora, ainda que tenhamos
de ir
parar ao fim do mundo, nos é forçoso fugir às garras
do monstro.
- Mas esse moço, que tanto se interessa por nós, o senhor
Álvaro,
nobre e generoso como é, sabendo da minha verdadeira condição,
e
das terríveis circunstâncias que nos obrigam a andar assim
fugitivos e
disfarçados pelo mundo, talvez queira e possa nos amparar e valer
contra
as perseguições...
- E quem nos afiança isso?... o mais certo é ele entregar-te
ao
desprezo, logo que saiba que não passas de uma escrava fugida,
se,
despeitado com o logro que levou, não for o primeiro a denunciar-te
à
polícia. No transe em que nos achamos, é de absoluta necessidade
enganar a ele e a todos; se revelarmos a quem quer que seja o segredo
de
nossa posição, estamos perdidos. Toma coragem, e vamos ao
baile,
minha filha; é um sacrifício cruel, mas passageiro, a que
devemos nos
sujeitar a bem de nossa segurança. Em breve estaremos longe, e
se
algum dia souberem quem tu eras, que nos importa? nunca mais nos
verão o rosto, nem ouvirão nossos nomes. Tens a consciência
escrupulosa
em demasia. Se ignoram quem tu és, a tua companhia em nada os
pode infamar. Com isso não fazes mal a ninguém; é
uma medida de
salvação, que todos te perdoariam.
- Meu pai parece que tem razão; mas não sei por que, repugna-me
absolutamente ao coração dar esse passo.
- Mas é preciso dá-lo, minha filha, se não queres
para nós ambos
a desgraça e a morte. Se não formos a esse baile, e desaparecermos
de
um dia para outro, como nos é forçoso, então as suspeitas
que
começamos a despertar tomarão muito maior vulto, e a policia
pôr-se-á à
nossa pista, e nos perseguirá por toda parte. É um sacrifício
na verdade,
mas não será ele muito mais suave do que as perseguições
da polícia, a
prisão, as torturas e a morte, que é o que podes esperar
em casa de teu
senhor?...
Isaura não respondeu; seu espírito agitava-se entre as mais
pungentes e amargas reflexões.
As palavras de seu pai a tinham abismado em glacial e profundo
desalento. Aturdida por tantos golpes, sua alma debatia-se em um mar
de dúvidas e perplexidades, como frágil barca em meio de
um oceano
irritado, sacudida aos boléus por vagalhões desencontrados.
O grito de sua consciência escrupulosa e delicada, a lisura e
sinceridade de seu coração, que não podia acomodar-se
com o embuste
e a mentira, e uma espécie de vago pressentimento que lhe pesava
sobre o
espírito, a desviavam daquele baile, e por momentos pareciam fixar
definitivamente a sua resolução; e firme neste propósito
dizia consigo
mesma: - não, não irei.
Por outro lado as considerações de seu pai, que pareciam
tão
razoáveis, bem como o desejo de ver Álvaro ainda uma vez,
de gozar
por algumas horas a sua presença, faziam-lhe de novo flutuar o
espírito no mar das irresoluções. A lembrança
de que em breve, talvez no
dia seguinte, tinha de deixar aquela terra e separar-se de Álvaro,
sem esperança alguma de jamais tornar a vê-lo, sem poder
dizer-lhe um
adeus, sem que ele pudesse saber quem ela era, nem para onde ia,
dilacerava-lhe o coração. Partir sem ter um ente a quem
apertar nos braços
na hora da despedida, nem ter um seio onde verter as lágrimas da
mais pungente saudade; partir para levar uma vida errante e fugitiva,
sem
esperança nem consolação alguma, através de
mil trabalhos e perigos,
para terminá-la talvez entre os tormentos da mais atroz escravidão,
oh!...
isto era pavoroso! - e, entretanto, era esse o único futuro que
a pobre
Isaura tinha diante dos olhos. Mas não; tinha ainda diante de si
uma
noite inteira de prazer e de ventura, uma noite esplêndida de baile
e
regozijo de seu amante, respirando o mesmo ar, inebriando-se de sua
voz, bebendo o seu hálito, recolhendo dentro d'alma seus olhares
apaixonados, sentindo na sua a pressão daquela mão adorada,
contando as
pulsações daquele coração, que só por
ela palpitava. Oh! uma noite
assim valia bem uma eternidade, viessem depois embora as angústias
e
perigos, a escravidão e a morte!
Cândida e modesta como era, nem por isso Isaura deixava de ter
consciência do quanto valia. Vendo-se o objeto do amor de um jovem
de espírito elevado, e dotado de tão nobres e brilhantes
qualidades
como Álvaro, ainda mais se confirmou na idéia que de si
mesma fazia.
Com sua natural perspicácia e penetração, bem depressa
convenceu-se
de que o afeto que o mancebo lhe consagrava não era simples e
superficial homenagem rendida a seus encantos e talentos, nem tampouco
passageiro capricho de mocidade, mas verdadeira paixão, sincera,
enérgica e profunda. Era isso para ela motivo de um orgulho íntimo,
que a elevava a seus próprios olhos, e por momentos a fazia esquecer-se
que era uma escrava.
- Estou convencida de que sou digna do amor de Álvaro, senão,
ele não me amaria; e se sou digna de seu amor, por que não
o serei de
me apresentar no seio da mais brilhante sociedade? A perversidade dos
homens pode acaso destruir o que há de bom e de belo na feitura
do
Criador? Assim refletia Isaura, e exaltada com estas idéias e com
a sedutora
perspectiva de algumas horas de inefável ventura em companhia
do amante exclamava dentro d'alma: - Hei de ir, hei de ir ao baile!
Enquanto Isaura, silenciosa e com a face na mão, se embebia em
suas cismas, procurando firmar-se em uma resolução, o pai,
não menos
inquieto e preocupado, passeava distraído entre os canteiros do
jardim,
aguardando com ansiedade uma resposta definitiva de sua filha.
- Irei, meu pai, irei ao baile, - disse ela por fim levantando-se,
mas vou preparar-me para ele como a vítima que tem de ser conduzida
ao sacrifício entre cânticos e flores. Tenho um cruel pressentimento,
que me acabrunha...
- Pressentimento de quê, Isaura?...
- Não sei, meu pai; de alguma desgraça.
- Pois quanto a mim, Isaura, o coração como que está-me
adivinhando
que de ir a esse baile resultará a nossa salvação.
Capitulo XIII
Não pense o leitor que já se acha terminado o baile a que
estávamos
assistindo. A pequena digressão que por fora dele fizemos no
capitulo antecedente, nos pareceu necessária para explicar por
que
conjunto de circunstãncias fatais a nossa heroína, sendo
uma escrava, foi
impelida a tomar a audaciosa resolução de apresentar-se
em um
esplêndido e aristocrático sarau, - fraqueza de coração,
ou timidez de
caráter, que pode ser desculpada, mas não plenamente justificada
em
uma pessoa de consciência tão delicada e de tão esclarecido
entendimento.
O baile continua, mas já não tão animado e festivo
como ao princípio.
Os aplausos frenéticos, a admiração geral, de que
Isaura se havia
tornado objeto da parte dos cavalheiros, tinham produzido um completo
resfriamento entre as mais belas e espirituosas damas da reunião.
Arrufadas com seus cavalheiros prediletos, em razão das entusiásticas
homenagens, que francamente iam render aos pés daquela que
implicitamente estavam proclamando a rainha do salão, já
nem ao menos
queriam dançar, e em vez de tisos folgazões, e de uma conversação
franca e jovial, só se ouviam pelos cantos entre diversos grupos
expansões misteriosamente sussurradas, e cochichos segredados entre
amarelas e sarcásticas risotas.
Propagava-se entre as moças como que um sussurro geral de
descontentamento. Era como esses rumores surdos e profundos, que
restrugem ao longe pelo espaço, precedendo uma grande tempestade.
Dir-se-ia que já estavam adivinhando que aquela mulher, que por
seus encantos e dotes incomparáveis as estava suplantando a todas,
não era mais do que - uma escrava. Muitas mesmo se foram retirando,
nomeadamente aquelas que afagavam alguma esperança, ou se julgavam
com algum direito sobre o coração de Álvaro. Aniquiladas
sob o peso
dos esmagadores triunfos de Isaura, não se achando com ânimo
de
manterem-se por mais tempo na liça, tomaram o prudente partido
de
irem esconder no misterioso recinto das alcovas o despeito e vergonha
de tão cruel e solene derrota.
Não diremos todavia que no meio de tantas e tão nobres damas,
distintas pelos encantos do espírito e do corpo, não houvesse
muitas
que, com toda a isenção e sem a menor sombra de inveja,
admirassem
a beleza de Isaura, e aplaudissem de coração e com sincero
prazer os
seus triunfos, e foram essas que conseguiram ir dando alguma vida ao
sarau, que sem elas teria esmorecido inteiramente. Todavia não
é
menos certo que do belo sexo, sem distinção de classes,
ao menos
a metade é ludibrio dessas invejas, ciúmes e rivalidades
mesquinhas.
Deixamos Isaura indo tomar parte em uma quadrilha, tendo Álvaro
por seu par. Enquanto dançam, entremos em uma saleta, onde há
mesas de
jogo, e bufetes guarnecidos de licoreiras, de garrafas de cerveja e
champanha. Esta saleta comunica imediatamente com o salão onde
se
dança, por uma larga porta aberta. Acham-se ai uma meia dúzia
de
rapazes, pela maior parte estudantes, desses com pretensões a estróinas
e excêntricos à Byron, e que já enfastiados da sociedade,
dos prazeres e das
mulheres, costumam dizer que não trocariam uma fumaça de
charuto, ou um copo de champanha, pelo mais fagueiro sorriso da
mais formosa donzela; desses descridos, que vivem a apregoar em
prosa e verso que na aurora da vida já têm o coração
mirrado pelo sopro
do cepticismo, ou calcinado pelo fogo das paixões, ou enregelado
pela saciedade; desses misantropos enfim, cheios de esplim, que se
acham sempre no meio de todos os bailes e reuniões de toda espécie,
alardeando o seu afastamento e desdém pelos prazeres da sociedade
e
frivolidades da vida.
Entre eles acha-se um, sobre o qual nos é mister deter por mais
um
pouco a atenção, visto que tem de tomar parte um tanto ativa
nos
acontecimentos desta história. Este nada tem de esplenético
nem de
byroniano; pelo contrário o seu todo respira o mais chato e ignóbil
prosaísmo.
Mostra ser mais velho que os seus comparsas uma boa dezena
de anos. Tem cabeça grande, cara larga, e feições
grosseiras. A testa é
desmesuradamente ampla, e estofada de enormes protuberâncias, o
que, na opinião de Lavater, é indicio de espírito
lerdo e acanhado a
roçar pela estupidez. O todo da fisionomia tosca e quase grotesca
revela
instintos ignóbeis, muito egoísmo e baixeza de caráter.
O que, porém,
mais o caracteriza é certo espírito de cobiça, e
de sórdida ganância, que
lhe transpira em todas as palavras, em todos os atos, e principalmente
no fundo de seus olhos pardos e pequeninos, onde reluz constantemente
um raio de velhacaria. É estudante, mas pelo desalinho do trajo,
sem o menor esmero e nem sombra de elegância, parece mais um
vendilhão. Estudava há quinze anos à sua própria
custa, mantendo-se do
rendimento de uma taverna, de que era sócio capitalista. Chama-se
Martinho.
- Rapaziada, - disse um dos mancebos, - vamos nós aqui a
uma partida de lansquenê, enquanto esses basbaques ali estão
a
arrastar os pés e a fazer mesuras.
- Justo! - exclamou outro, sentando-se a uma mesa e tomando
baralhos. - Já que não temos coisa melhor a fazer, vamos
às cartas.
Demais, no baralho é que está a vida. A vista de uma sota
me faz às
vezes estremecer o coração em emoções mais
vivas do que as sentiria
Romeu a um olhar de Julieta... Afonso, Alberto, Martinho, andem
para cá; vamos ao lansquenê; duas ou três corridas
somente...
- De boa vontade aceitaria o convite, - respondeu Martinho, -
se não andasse ocupado com um outro jogo, que de um momento para
outro, e sem nada arriscar, pode meter-me na algibeira não menos
de
cinco contos de réis limpinhos.
- De que diabo de jogo estás aí a falar?... nunca deixarás
de ser
maluco?... deixa-te de asneiras, e vamos ao lansquenê.
- Quem tem um jogo seguro como eu tenho, há de ir meter-se
nos azares do lansquenê, que já me tem engolido bem boas
patacas?...
Nem tão tolo serei eu.
- Com mil diabos, Martinho!... então não te explicarás?...
que
maldito jogo é esse?...
- Ora, adivinhem lá... Não são capazes. uma bisca
de estrondo.
Se adivinharem, dou-lhes uma ceia esplêndida no melhor hotel desta
cidade; bem entendido, se encartar a minha bisca.
- Dessa ceia estamos nós bem livres, pobre comedor de bacalhau
ardido, e porque não é possível haver quem adivinhe
as asneiras que
passam lá por esses teus miolos extravagantes. O que queremos é
o teu
dinheiro aqui sobre a mesa do lansquenê.
- Ora, deixem-me em paz, - disse Martinho, com os olhos atentamente
dirigidas para o salão de dança. - Estou calculando o meu
jogo... suponham que
é o xadrez, e que eu vou dar xeque-mate à rainha... dito
e feito, e os cinco contos
são meus...
- Não há dúvida, o rapaz está doido varrido...
Anda lá, Martinho;
descobre o teu jogo, ou vai-te embora, e não nos estejas a maçar
a
paciência com tuas maluquices.
- Malucos são vocês. O meu jogo é este... mas quanto
me dão
para descobri-lo? olhem que é coisa curiosa.
- Queres-nos atiçar a curiosidade para nos chuchar alguns cobres,
não é assim?... pois desta vez afianço-te da minha
parte, que não
arranjas nada. Vai-te aos diabos com o teu jogo, e deixa-nos cá
com
o nosso. As cartas, meus amigos, e deixemos o Martinho com suas
maluquices.
- Com suas velhacarias, dirás tu... não me pilha.
- Ah! toleirões! - exclamou o Martinho, - vocês ainda estão
com os beiços com que mamaram. Andem cá, andem, e verão
se é
maluquice, nem velhacaria. Enfim quero mostrar-lhes o meu jogo,
porque desejo ver se a opinião de vocês estará ou
não de acordo
com a minha. Eis aqui a minha bisca. - concluiu Martinho mostrando um
papel, que sacou da algibeira; - não é nada mais que um
anúncio de
escravo fugido.
- Ah! ah! ah! esta não é má!...
- Que disparate!... decididamente estás louco, meu Martinho.
- A que propósito vem agora anúncio de escravo fugido?...
- Foste acaso nomeado oficial de justiça ou capitão-do-mato?
Estas e outras frases escapavam aos mancebos de envolta, em um
coro de intermináveis gargalhadas, que competiam com a orquestra
do baile.
- Não sei de que tanto se espantam, - replicou frescamente o
Martinho; - o que admira é que ainda não vissem este grande
anúncio
em avulso, que veio do Rio de Janeiro, e foi distribuído por toda
a
cidade com o jornal do Comércio.
- Porventura somos esbirros ou oficiais de justiça, para nos
embaraçarmos com semelhantes anúncios?
- Mas olhem que o negócio é dos mais curiosos, e as alvíssaras
não são para se desprezarem.
- Pobre Martinho! quanto pode em teu espírito a ganância
de
ouro, que faz-te andar à cata de escravos fugidos em uma sala de
baile!
- pois é aqui que poderás encontrar semelhante gente?...
- Olé... quem sabe?!... tenho cá meus motivos para desconfiar
que por aqui mesmo hei de achá-la, assim como os cinco continhos
que, aqui entre nós, vêm agora mesmo ao pintar, pois que
o armazém
de meu sócio bem pouco tem rendido nestes últimos tempos.
Martinho chamava armazém à pequena taverna de que era sócio
Ditas aquelas palavras foi postar-se junto à porta que dava para
o salão
e ali ficou por largo tempo a olhar, ora para os que dançavam,
ora para
o anúncio, que tinha desdobrado na mão, como quem averigua
e confronta os sinais.
- Que diabo faz ali o Martinho? - exclamou um dos mancebos
que entretidos com as mímicas do Martinho, tomando-as por palhaçadas,
tinham-se esquecido de jogar.
- Está doido, não resta a menor dúvida. - observou
outro. -
Procurar escravo fugido em uma sala de baile!... Ora não faltava
mais
nada! Se andasse à cata de alguma princesa, decerto a iria procurar
no
quilombos.
- Mas talvez seja
algum pajem, ou alguma mucama, que por ai anda.
- Não me consta que haja nenhum pajem nem mucama ali dançando,
e ele não tira os olhos dos que dançam.
- Deixá-lo; este rapaz, além de ser um vil traficante, sempre
foi
um maníaco de primeira força.
- É ela! - disse o Martinho, deixando a porta, e voltando-se para
seus companheiros; - é ela; já não tenho a menor
dúvida; é ela, e está
segura.
- Ela quem, Martinho?...
- Ora! pois quem mais há de ser?...
- A escrava fugida?!...
- A escrava fugida, sim, senhores!... e ela está ali dançando.
- Ah! ah! ah! ora, vamos ver mais esta, Martinho!... até onde
queres levar a tua farsa? deve ser galante o desfecho. Isto é impagável,
e vale mais que quantos bailes há no mundo. - Se todos eles tivessem
um episódio assim, eu não perdia nem um. - Assim clamavam
os moços
entre estrondosas gargalhadas.
- Vocês zombam? - olhem que a farsa cheira um pouco a tragédia.
- Melhor! Melhor! - vamos com isso, Martinho!
- Não acreditam?... pois escutem lá, e depois me dirão
que tal é a farsa.
Dizendo isto, Martinho sentou-se em uma cadeira, e desdobrando o
anúncio, pôs-se em atitude de lê-lo. Os outros se agruparam
curiosos
em torno dele.
- Escutem bem, - continuou Martinho. - Cinco contos! - eis o
título pomposo, que em eloqüentes e graúdos algarismos
se acha no
frontispício desta obra imortal, que vale mais que a Ilíada
de Camões...
- E que os Lusíadas de Homero, não é assim, Martinho?
deixa-te
de preâmbulos asnáticos, e vamos ao anúncio.
- Eu já lhes satisfaço, - disse Martinho, e continuou lendo:
Fugiu da fazenda do Sr. Leôncio Gomes da Fonseca, no município
de Campos, província do Rio de Janeiro, uma escrava por nome
Isáura, cujos sinais são os seguintes: Cor clara e tez delicada
como de
qualquer branca; olhos pretos e grandes; cabelos da mesma cor,
compridos e ligeiramente ondeados; boca pequena, rosada e bem feita;
dentes alvos e bem dispostos; nariz saliente e bem talhado; cintura delgada,
talhe esbelto, e estatura regular; tem na face esquerda um pequeno
sinal preto, e acima do seio direito um sinal de queimadura, mui
semelhante a uma asa de borboleta. Traja-se com gosto e elegância,
canta e toca piano com perfeição. Como teve excelente educação
e tem uma
boa figura, pode passar em qualquer parte por uma senhora livre e de
boa sociedade. Fugiu em companhia de um português, por nome Miguel,
que se diz seu pai. É natural que tenham mudado o nome. Quem a
apreender, e
levar ao dito seu senhor, além de se lhe satisfazerem todas as
despesas, receberá
a gratificação de 5:OOO$OOO.
- Deveras, Martinho? - exclamou um dos ouvintes, - está
nesse papel o que acabo de ouvir? acabas de nos traçar o retrato
de
Vênus, e vens dizer-nos que é uma escrava fugida!...
- Se não querem acreditar ainda, leiam com seus próprios
olhos:
aqui está o papel...
- Com efeito! acrescentou outro - uma escrava assim vale a
pena apreendê-la, mais pelo que vale em si, do que pelos cinco contos.
Se eu a pilho, nenhuma vontade teria de entregá-la ao seu senhor.
- Já não me admira que o Martinho a procure aqui; uma criatura
tão perfeita só se pode encontrar nos palácios dos
príncipes.
- Ou no reino das fadas; e pelos sinais e indícios estou vendo
que
não pode ser outra senão essa nova divindade que hoje apareceu...
- Sem mais nem menos; deu no vinte, atalhou Martinho, e cha-
mando-os para junto da porta: - Agora venham cá, - continuou, -
e
reparem naquela bonita moça, que dança de par com Álvaro.
Pobre
Álvaro como está cheio de si! se soubesse com quem dança,
caía-lhe a
cara aos pés. Reparem bem, meus senhores, e vejam se não
combinam
perfeitamente os sinais?...
- Perfeitamente! - acudiu um dos moços, - é extraordinário!
lá
vejo o sinalzinho na face esquerda, e que lhe dá infinita graça.
Se tiver
a tal asa de borboleta sobre o seio, não pode haver mais dúvida.
O
céus! é possível que uma moça tão linda
seja uma escrava!
- E que tenha a audácia de apresentar-se em um bailes destes?
- acrescentou outro. Ainda não posso capacitar-me.
- Pois cá para mim, - disse o Martinho - o negócio é
liquido,
assim como os cinco contos, que me parece estarem já me cantando
na
algibeira; e até logo, meus caros.
E dizendo isto dobrou cuidadosamente o anúncio, meteu-o na algi-
beira, e esfregando as mãos com cínico contentamento, tomou
o
chapéu, e retirou-se.
- Forte miserável... - disse um dos comparsas - que vil ganância
de ouro a deste Martinho! estou vendo que é capaz de fazer prender
aquela moça aqui mesmo em pleno baile.
- Por cinco contos é capaz de todas as infâmias do mundo.
Tão
vil criatura é um desdouro para a classe a que pertencemos; devemos
todos conspirar para expeli-lo da Academia. Cinco contos daria eu
para ser escravo daquela rara formosura.
- É assombroso! Quem diria, que debaixo daquela figura de anjo
estaria oculta uma escrava fugida!
- E também quem nos diz que no corpo da escrava não se acha
asilada uma alma de anjo?...