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Bernardo Guimarães
A Escrava Isaura


Capitulo X


Já são passados mais de dois meses depois da fuga de Isaura, e
agora, leitores, enquanto Leôncio emprega diligências extraordinárias e
meios extremos, e desatando os cordões da bolsa, põe em atividade a
polícia e uma multidão de agentes particulares para empolgar de novo a
presa, que tão sorrateiramente lhe escapara, façamo-nos de vela para as
províncias do Norte, onde talvez primeiro que ele deparemos com a
nossa fugitiva heroína.
Estamos no Recife. É noite e a formosa Veneza da América do Sul,
coroada de um diadema de luzes, parece surgir dos braços do oceano,
que a estreita em carinhoso amplexo e a beija com amor. É uma noite
festiva: em uma das principais ruas nota-se um edifício esplendidamente
iluminado, para onde concorre grande número de cavalheiros e damas
das mais distintas e opulentas classes. É um lindo prédio onde uma
sociedade escolhida costuma dar brilhantes e concorridos saraus. Alguns
estudantes dos mais ricos e elegantes, também costumam descer da
velha Olinda em noites determinadas, para ali virem se espanejar entre os
esplendores e harmonias, entre as sedas e perfumes do salão do baile; e
aos meigos olhares e angélicos sorrisos das belas e espirituosas pernambucanas,
esquecerem por algumas horas os duros bancos da Academia e os carunchosos
praxistas.
Suponhamos que também somos adeptos daquele templo de
Terpsícore, entremos por ele a dentro, e observemos o que por aí vai de
curioso e interessante. Logo na primeira sala encontramos um grupo de
elegantes mancebos, que conversam com alguma animação. Escutemo-los.
- É mais uma estrela que vem brilhar nos salões do Recife, -
dizia Álvaro, - e dar lustre a nossos saraus. Não há ainda três meses,
que chegou a esta cidade, e haverá pouco mais de um, que a conheço.
Mas creia-me, Dr. Geraldo, é ela a criatura mais nobre e encantadora
que tenho conhecido. Não é uma mulher; é uma fada, é um anjo, é
uma deusa!...
- Cáspite! - exclamou o Dr. Geraldo; fada! anjo! deusa!... São
portanto três entidades distintas, mas por fim de contas verás que não
passa de uma mulher verdadeira. Mas dize-me cá, meu Álvaro; esse
anjo, fada, deusa, mulher ou o que quer que seja, não te disse de onde
veio, de que família é, se tem fortuna, etc., etc., etc.?
- Pouco me importo com essas coisas, e poderia responder-te
que veio do céu, que é da família dos anjos, e que tem uma fortuna
superior a todas as riquezas do mundo: uma alma pura, nobre e
inteligente, e uma beleza incomparável. Mas sempre te direi que o que
sei de positivo a respeito dela é que veio do Rio Grande do Sul em
companhia de seu pai, de quem é ela a única família; que seus meios são
bastantemente escassos, mas que em compensação ela é linda como
os anjos, e tem o nome de Elvira,
- Elvira! - observou o terceiro cavalheiro - bonito nome na
verdade!... mas não poderás dizer-nos, Álvaro, onde mora a tua fada?...
- Não faço mistério disso; mora com seu pai em uma pequena
chácara no bairro de Santo Antônio, onde vivem modestamente,
evitando relações, e aparecendo mui raras vezes em público. Nessa
chácara, escondida entre moitas de coqueiros e arvoredos, vive ela
como a violeta entre a folhagem, ou como fada misteriosa em uma gruta
encantada.
- É célebre! - retorquiu o doutor - mas como chegaste a descobrir
essa ninfa encantada, e a ter entrada em sua gruta misteriosa?
- Eu vos conto em duas palavras. Passando eu um dia a cavalo
por sua chácara, avistei-a sentada em um banco do pequeno jardim da
frente. Surpreendeu-me sua maravilhosa beleza. Como viu que eu a
contemplava com demasiada curiosidade, esgueirou-se como uma
borboleta entre os arbustos floridos e desapareceu. Formei o firme
propósito de vê-la e de falar-lhe, custasse o que custasse. Por mais, porém,
que indagasse por toda a vizinhança, não encontrei uma só pessoa que
se relacionasse com ela e que pudesse apresentar-me. Indaguei por fim
quem era o proprietário da chácara, e fui ter com ele. Nem esse podia
dar-me informações, nem servir-me em coisa alguma. O seu inquilino
vinha todos os meses pontualmente adiantar o aluguel da chácara; eis
tudo quanto a respeito dele sabia. Todavia continuei a passar todas as
tardes por defronte do jardim, mas a pé para melhor poder
surpreendêla e admirá-la; quase sempre, porém, sem resultado. Quando
acontecia estar no jardim, esquivava-se sempre às minhas vistas como da
primeira vez. Um dia, porém, quando eu passava, caiu-lhe o lenço ao
levantar-se do banco; a grade estava aberta; tomei a liberdade de penetrar
no jardim, apanhei o lenço, e corri a entregar-lho, quando já ela punha o pé
na soleira de sua casa. Agradeceu-me com um sorriso tão encantador,
que estive em termos de cair de joelhos a seus pés; mas não mandou-me
entrar, nem fez-me oferecimento algum.
- Esse lenço, Álvaro, - atalhou um cavalheiro, - decerto ela o
deixou cair de propósito, para que pudesses vê-la de perto e falar-lhe. É
um apuro de romantismo, um delicado rasgo de coquetterie.
- Não creio; não há naquele ente nem sombra de coquetterie;
tudo nela respira candura e singeleza. O certo é que custei a arrancar
meus pés daquele lugar, onde uma força magnética me retinha, e que
parecia rescender um misterioso eflúvio de amor, de pureza e de aventura...
Álvaro pára em sua narrativa, como que embevecido em tão
suaves recordações.
- E ficaste nisso, Alvaro! - perguntava outro cavalheiro; - o teu
romance está-nos interessando; vamos por diante, que estou aflito por
ver a peripécia...
- A peripécia?.., oh! essa ainda não chegou, e nem eu mesmo sei
qual será. Esgotei enfim os estratagemas possíveis para ter entrada no
santuário daquela deusa; mas foi tudo baldado. O acaso enfim veio em
meu socorro, e serviu-me melhor do que toda a minha habilidade e
diligência. Passeando eu uma tarde de carro no bairro de Santo
Antônio, pelas margens do Beberibe, passeio que se tornara para mim uma
devoção, avistei um homem e uma mulher navegando a todo pano em
um pequeno bote.
Instantes depois o bote achou-se encalhado em um banco de areia.
Apeei-me imediatamente, e tomando um escaler na praia, fui em socorro dos
dois navegantes que em vão forcejavam por safar a pequena
embarcação. Não podem fazer idéia da deliciosa surpresa que senti, ao
reconhecer nas duas pessoas do bote a minha misteriosa da chácara e
seu pai...
- Por essa já eu esperava; entretanto o lance não deixa de ser
dramático; a história de seus amores com a tal fada misteriosa vai
tomando visos de um poema fantástico.
- Entretanto, é a pura realidade. Como estavam molhados e
enxovalhados, convidei-os a entrarem no meu carro. Aceitaram depois de
muita relutância, e dirigimo-nos para a casa deles. É escusado contarvos o
resto desde então, se bem que com algum acanhamento foi-me
franqueado o umbral da gruta misteriosa.
- E pelo que vejo, - interrogou o doutor, - amas muito essa
mulher?
- Se amo! adoro-a cada vez mais, e o que é mais, tenho razões
para acreditar que ela... pelo menos não me olha com indiferença.
- Deus queira que não andes embaído por alguma Circe de
bordel, por alguma dessas aventureiras, de que há tantas pelo mundo, e
que, sabendo que és rico, arma laços ao teu dinheiro! Esse afastamento
da sociedade, esse mistério, em que procuram tão cuidadosamente
envolver a sua vida, não abonam muito em favor deles.
- Quem sabe se são criminosos que procuram subtrair-se às
pesquisas da polícia? - observou um cavalheiro.
- Talvez moedeiros falsos, - acrescentou outro.
- Tenho má-fé, - continuou o doutor - todas as vezes que vejo
uma mulher bonita viajando em países estranhos em companhia de um
homem, que de ordinário se diz pai ou irmão dela. O pai de tua fada,
Álvaro, se é que é pai, é talvez algum cigano, ou cavalheiro de
indústria, que especula com a formosura de sua filha.
- Santo Deus!... misericórdia! - exclamou Álvaro. - Se eu
adivinhasse que veria a pessoa daquela criatura angélica apreciada
com tanta atrocidade, ou antes tão impiamente profanada, quereria
antes ser atacado de mudez, do que trazê-la à conversação. Creiam, que
são demasiado injustos para com aquela pobre moça, meus amigos. Eu a
julgaria antes uma princesa destronizada, se não soubesse que é um
anjo do céu. Mas vocês em breve vão vê-la, e eu e ela estaremos
vingados; pois estou certo que todos a uma voz a proclamarão uma
divindade. Mas o pior é que desde já posso contar com um rival em
cada um de vocês.
- Por minha parte, disse um dos cavalheiros, - pode ficar tranqüilo,
pois sempre tive horror às moças misteriosas.
- E eu, que não sou mais do que um simples mortal, tenho muito
medo de fadas, - acrescentou o outro.
- E como é, perguntou o Dr. Geraldo, - que vivendo ela assim
arredada da sociedade, pôde resolver-se a deixar a sua misteriosa
solidão, para vir a este baile tão público e concorrido?...
- E quanto não me custou isso, meu amigo! - respondeu
Álvaro. - Veio quase violentada. Há muito tempo que procuro convencê-la
por todos os modos, que uma senhora jovem e formosa, como é ela,
escondendo seus encantos na solidão, comete um crime, contrário às
vistas do Criador, que formou a beleza para ser vista, admirada e
adorada; pois sou o contrário desses amantes ciumentos e atrabiliários, que
desejariam ter suas amadas escondidas no âmago da terra. Argumentos,
instâncias, súplicas, tudo foi perdido; pai e filha recusavam-se constantemente
a aparecerem em público, alegando mil diversos pretextos. Vali-me por fim de um
ardil; fiz-lhes acreditar que aquele modo de viver retraído e sem contato com
a sociedade em um país, onde eram desconhecidos, já começava a dar que
falar ao público e a atrair suspeitas sobre eles, e que até a polícia começava
a olhá-los com desconfiança: mentiras, que não deixavam de ter sua plausibilidade...
- E tanta, - interrompeu o doutor. - que talvez não andem
muito longe da verdade.
- Fiz-lhes ver, - continuou Álvaro, - que por infundadas e fúteis
que fossem tais suspeitas, era necessário arredá-las de si, e para isso
cumpria-lhes absolutamente freqüentar a sociedade. Este embuste
produziu o desejado efeito.
- Tanto pior para eles, - retorquiu o doutor; - eis aí um indício
bem mau, e que mais me confirma em minhas desconfianças. Fossem
eles inocentes, e bem pouco se importariam com as suspeitas do
público ou da policia, e continuariam a viver como dantes.
- Tuas suspeitas não têm o menor fundamento, meu doutor. Eles
têm poucos meios, e por isso evitam a sociedade, que realmente, impõe
duros sacrifícios às pessoas desfavorecidas da fortuna, e eles... mas
ei-los, que chegam... Vejam e convençam-se com seus próprios olhos.
Entrava nesse momento na ante-sala uma jovem e formosa dama
pelo braço de um homem de idade madura e de respeitável presença.
- Boa noite, senhor Anselmo!... boa noite, D. Elvira!... felizmente
ei-los aqui! - isto dizia Álvaro aos recém-chegados, separando-se de
seus amigos, e apressurando-se para cumprimentar a aqueles com toda
a amabilidade e cortesia. Depois oferecendo um braço a Elvira e outro
ao senhor Anselmo, os vai conduzindo para as salas interiores, por onde
já turbilhona a mais numerosa e brilhante sociedade. Os três interlocutores
de Álvaro, bem como muitas outras pessoas, que por ali se achavam,
puseram-se em ala para verem passar Elvira, cuja presença causava
sensação e murmurinho, mesmo entre os que não estavam prevenidos.
- Com efeito!... é de uma beleza deslumbrante! Que porte de rainha!...
- Que olhos de andaluza!...
- Que magníficos cabelos!
- E o colo!... que colo!... não reparaste?...
- E como se traja com tão elegante simplicidade! - assim murmuravam
entre si os três cavalheiros como impressionados por uma aparição celeste.
- E não reparaste, - acrescentou o Dr. Geraldo, - naquele
feiticeiro sinalzinho, que tem na face direita?... Álvaro tem razão; a sua fada
vai eclipsar todas as belezas do salão. E tem de mais a mais a vantagem
da novidade, e esse prestígio do mistério, que a envolve. Estou ardendo
de impaciência por lhe ser apresentado; desejo admirá-la mais de espaço.
Neste tom continuaram a conversar, até que, passados alguns minutos,
Álvaro, tendo cumprido a grata comissão de apresentador daquela nova
pérola dos salões, estava de novo entre eles.
- Meus amigos, - disse-lhes ele com ar triunfante. - convido-os
para o salão. Quero já apresentar-lhes D. Elvira para desvanecer de
uma vez para sempre as injuriosas apreensões, que ainda há pouco
nutriam a respeito do ente o mais belo e mais puro, que existe debaixo
do Sol, se bem que estou certo que só com a simples vista ficaram
penetrados de assombro até a medula dos ossos.
Os quatro cavalheiros se retiraram e desapareceram no meio do
turbilhão das salas interiores. Foram, porém, imediatamente substituídos
por um grupo de lindas e elegantes moças, que cintilantes de sedas e
pedrarias como um bando de aves-do-paraíso, passeavam conversando.
O assunto da palestra era também D. Elvira; mas o diapasão era totalmente
diverso, e em nada se harmonizava com o da conversação dos
rapazes. Nenhum mal nos fará escutá-las por alguns instantes.
- Você não saberá dizer-nos, D. Adelaide, quem é aquela moça,
que ainda há pouco entrou na sala pelo braço do senhor Álvaro?
- Não, D. Laura; é a primeira vez que a vejo, parece-me que não
é desta terra.
- Decerto; que ar espantado tem ela!... parece uma matuta,
que nunca pisou em um salão de baile; não acha, D. Rosalina?
- Sem dúvida!.., e você não reparou na toilette dela?... meu
Deus!... que pobreza! a minha mucama tem melhor gosto para se trajar.
Aqui a D. Emília é que talvez saiba quem ela é.
- Eu? por quê? é a primeira vez que a vejo, mas o senhor Álvaro
já me tinha dado notícias dela, dizendo que era um assombro de beleza.
Não vejo nada disso; é bonita, mas não tanto, que assombre.
- Aquele senhor Álvaro sempre é um excêntrico, um esquisito;
tudo quanto é novidade o seduz. E onde iria ele escavar aquela pérola,
que tanto o traz embasbacado?...
- Veio de arribação lá dos mares do Sul, minha amiga, e a julgar
pelas aparências não é de todo má.
- Se não fosse aquela pinta negra, que tem na face, seria mais
suportável.
- Pelo contrário, D. Laura; aquele sinal é que ainda lhe dá certa
graça particular...
- Ah! perdão, minha amiga; não me lembrava que você também
tem na face um sinalzinho semelhante; esse deveras fica-te muito bem,
e dá-te, muita graça; mas o dela, se bem reparei, é grande demais; não
parece uma mosca, mas sim um besouro, que lhe pousou na face.
- A dizer-te a verdade, não reparei bem. Vamos, vamos para o
salão; é preciso vê-la mais de perto, estudá-la com mais vagar para
podermos dar com segurança a nossa opinião.
E, dito isto, lá se foram elas com os braços enlaçados, formando
como longa grinalda de variegadas flores, que lá se foi serpeando
perder-se entre a multidão.


Capitulo XI

Álvaro era um desses privilegiados, sobre quem a natureza e a
fortuna parece terem querido despejar à porfia todo o cofre de seus
favores. Filho único de uma distinta e opulenta família, na idade de
vinte e cinco anos, era órfão de pai e mãe, e senhor de uma fortuna de
cerca de dois mil contos.
Era de estatura regular, esbelto, bem feito e belo, mais pela nobre
e simpática expressão da fisionomia do que pelos traços físicos, que
entretanto não eram irregulares. Posto que não tivesse o espírito muito
cultivado, era dotado de entendimento lúcido e robusto, próprio a elevar-se
à esfera das mais transcendentes concepções. Tendo concluído os
preparatórios, como era filósofo, que pesava gravemente as coisas,
ponderando que a fortuna de que pelo acaso do nascimento era
senhor, por outro acaso lhe podia ser tirada, quis para ter uma profissão
qualquer, dedicar-se ao estudo do Direito. No primeiro ano, enquanto
pairava pelas altas regiões da filosofia do direito, ainda achou algum
prazer nos estudos acadêmicos; mas quando teve de embrenhar-se no
intrincado labirinto dessa árida e enfadonha casuística do direito positivo,
seu espírito eminentemente sintético recuou enfastiado, e não teve
ânimo de prosseguir na senda encetada. Alma original, cheia de grandes
e generosas aspirações, aprazia-se mais na indagação das altas questões
políticas e sociais, em sonhar brilhantes utopias, do que em estudar e
interpretar leis e instituições, que pela maior parte, em sua opinião, só
tinham por base erros e preconceitos os mais absurdos.
Tinha ódio a todos os privilégios e distinções sociais, e é escusado
dizer que era liberal, republicano e quase socialista.
Com tais idéias Álvaro não podia deixar de ser abolicionista
exaltado, e não o era só em palavras. Consistindo em escravos uma não
pequena porção da herança de seus pais, tratou logo de emancipá-los
todos. Como porém Álvaro tinha um espírito nimiamente filantrópico,
conhecendo quanto é perigoso passar bruscamente do estado de absoluta
submissão para o gozo da plena liberdade, organizou para os seus
libertos em uma de suas fazendas uma espécie de colônia, cuja direção
confiou a um probo e zeloso administrador. Desta medida podiam resultar
grandes vantagens para os libertos, para a sociedade, e para o próprio Álvaro.
A fazenda lhes era dada para cultivar, a título de arrendamento, e eles
sujeitando-se a uma espécie de disciplina comum, não só preservavam-se
de entregar-se à ociosidade, ao vício e ao crime, tinham segura a subsistência
e podiam adquirir algum pecúlio, como também poderiam indenizar a Álvaro do
sacrifício, que fizera com a sua emancipação. Original e excêntrico como um
rico lorde inglês, professava em seus costumes a pureza e severidade
de um quaker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração
impressionável, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegância,
e sobretudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa
pureza ideal, próprios das almas elevadas e dos corações bem formados.
Entretanto, Álvaro ainda não havia encontrado até ali a mulher que lhe
devia tocar o coração, a encarnação do tipo ideal, que lhe sorria nos sonhos
vagos de sua poética imaginação. Com tão excelentes e brilhantes predicados,
Álvaro por certo devia ser objeto de grande preocupação no mundo
elegante, e talvez o almejo secreto, que fazia palpitar o coração de mais
de uma ilustre e formosa donzela. Ele, porém, igualmente cortês e
amável para com todas, por nenhuma delas ainda havia dado o mínimo
sinal de predileção.
Pode-se fazer idéia do desencanto, do assombro, da terrível
decepção que reinou nos círculos das belas pernambucanas ao verem o
vivo interesse e solicitude de que Álvaro rodeava uma obscura e
pobre moça; a deferência com que a tratava, e os entusiásticos elogios
que sem rebuço lhe prodigalizava. Juno e Palas não ficaram tão
despeitadas, quando o formoso Páris conferiu a Vênus o prêmio da formosura.
Já antes daquele sarau, Álvaro em alguns círculos de senhoras
havia falado de Elvira em termos tão lisonjeiros e mesmo com certa
eloquência apaixonada, que a todas surpreendeu e inquietou. As moças
ardiam por ver aquele protótipo de beleza, e já de antemão choviam sobre a
desconhecida e o seu campeão mil chascos e malignos apodos. Quando, porém,
a viram, apesar dos contrafeitos e desdenhosos sornsos que apenas lhes roçavam
a flor dos lábios, sentiram uma desagradável impressão pungir-lhes no íntimo
do coração. Peço perdão às belas, de minha rude franqueza; a vaidade é,
com bem raras exceções, companheira inseparável da beleza e onde se
acha a vaidade, a inveja, que sempre a acompanha mais ou menos de perto,
não se faz esperar por muito tempo. A beleza da desconhecida era incontestável;
sua modéstia e timidez em nada prejudicavam a singela e nativa elegância
de que era dotada; o traje simples e mesmo pobre em relação ao luxo suntuoso,
que a rodeava assentava-lhe maravilhosamente, e realçava-lhe ainda mais
os encantos naturais. O efeito deslumbrante, que Elvira produziu
logo ao primeiro aspecto, e o empenho com que Álvaro procurava fazer
sobressaltar os sedutores atrativos de Elvira, como de propósito para
eclipsar as outras belezas do salão, eram de sobejo para irritar-lhes a
vaidade e o amor-próprio. Uma e outra deviam ser naquela noite o alvo de
mil olhares desdenhosos, de mil sorrisos zombeteiros, e acerados
epigramas.
Álvaro nem dava fé da mal disfarçada hostilidade com que ele e a
sua protegida, - podemos dar-lhe esse nome, - eram acolhidos naquela reunião;
mas a tímida e modesta Elvira, que em parte alguma encontrava lhaneza
e cordialidade, achava-se mal naquela atmosfera de fingida amabilidade e
cortesania, e em cada olhar via um escárnio desdenhoso, em cada sorriso um
sarcasmo.
Já sabemos quem era Álvaro; agora travemos conhecimento com o
seu amigo, o Dr. Geraldo.
Era um homem de trinta anos; bacharel em Direito e advogado
altamente conceituado no foro do Recife. Entre as relações de
Álvaro era a que cultivava com mais afeto e intimidade; uma inteligência
de bom quilate, firme e esclarecida, um caráter sincero, franco e cheio de
nobreza, davam-lhe direito a essa predileção da parte de Álvaro. Seu
espírito prático e positivo, como deve ser o de um consumado jurisconsulto,
prestando o maior respeito às instituições e mesmo a todos os preconceitos
e caprichos da sociedade, estava em completo antagonismo com as idéias
excêntricas e reformistas de seu amigo; mas esse antagonismo, longe de perturbar
ou arrefecer a recíproca estima e afeição, que entre eles reinava, servia antes
para alimentá-las e fortalecê-las, quebrando a monotonia que deve reinar nas
relações de duas almas sempre acordes e uníssonas em tudo. Estas tais por
fim de contas, vendo que o que uma pensa, a outra também pensa, o que
uma quer, a outra igualmente quer, e que nada têm a se comunicarem,
enjoadas de tanto se dizerem - amém, - ver-se-ão forçadas a recolherem-se
ao silêncio e a dormitarem uma em face da outra; plácida, cômoda e sonolenta
amizade!... De mais, a contrariedade de tendências e opiniões são sempre de
grande utilidade entre amigos, modificando-se e temperando-se umas pelas outras.
É assim que muitas vezes o positivismo e o senso prático do Dr. Geraldo serviam
de corretivo às utopias e exaltações de Álvaro, e vice-versa.
Da boca do próprio Álvaro já ouvimos por que acaso veio ele conhecer
D. Elvira, e como conseguiu levá-la ao sarau, a que ainda continuamos a assistir.
- Meu pai, - dizia uma jovem senhora a um homem respeitável,
em cujo braço se arrimava, entrando na ante-sala, onde ainda nos conservamos
de observação. - Meu pai, fiquemos por aqui um pouco nesta sala, enquanto
está deserta. Ah! meu Deus! - continuou ela com voz abafada, depois de se terem
sentado junto um do outro; - que vim eu aqui fazer, eu pobre escrava, no meio
dos saraus dos ricos e dos fidalgos!... este luxo, estas luzes, estas homenagens,
que me rodeiam, me perturbam os sentidos e causam-me vertigem. É um crime
que cometo, envolvendo-me no meio de tão luzida sociedade; é uma traição,
meu pai; eu o conheço, e sinto remorsos... Se estas nobres senhoras
adivinhassem que ao lado delas diverte-se e dança uma miserável
escrava fugida a seus senhores!... Escrava! - exclamou levantando-se - escrava!...
afigura-se-me que todos estão lendo, gravada em letras negras em minha fronte,
esta sinistra palavra!... fujamos daqui, meu pai, fujamos! esta sociedade
parece estar escarnecendo de mim; este ar me sufoca... fujamos.
Falando assim a moça, pálida e ofegante, lançava a cada frase
olhares inquietos em roda de si, e empuxava o braço de seu pai, repetindo
sempre com ansiosa sofreguidão:
- Vamo-nos, meu pai; fujamos daqui.
- Sossega teu coração, minha filha, - respondeu o velho procurando
acalmá-la. - Aqui ninguém absolutamente pode suspeitar quem
tu és. Como poderão desconfiar que és uma escrava, se de todas essas
lindas e nobres senhoras nem pela formosura, nem pela graça e prendas
do espirito nenhuma pode levar-te a palma?
- Tanto pior, meu pai; sou alvo de todas as atenções, e esses
olhares curiosos, que de todos os cantos se dirigem sobre mim, fazem-me
a cada instante estremecer; desejaria até que a terra se abrisse debaixo de meus
pés, e me sumisse em seu seio.
- Deixa-te dessas idéias; esse teu medo e acanhamento é que
poderiam nos pôr a perder, se acaso houvesse o mais leve motivo de
receio. Ostenta com desembaraço todos os seus encantos e habilidades,
dança, canta, conversa, mostra-te alegre e satisfeita, que longe de te
suporem uma escrava, são capazes de pensar que és uma princesa.
Toma ânimo, minha filha, ao menos por hoje; esta também, assim
como é a primeira, será a derradeira vez que passaremos por este
constrangimento; não nos é possível ficar por mais tempo nesta terra, onde
começamos a despertar suspeitas.
- É verdade, meu pai!... que fatalidade!... - respondeu a moça
com uma triste oscilação de cabeça. - Assim pois estamos condenados
a vagar de pais em país, sequestrados da sociedade, vivendo no mistério, e
estremecendo a todo instante, como se o céu nos tivesse marcado
com um ferrete de maldição!... ah! esta partida há de me doer bem no
coração!... não sei que encanto me prende a este lugar. Entretanto, terei
de dizer adeus eterno a... esta terra, onde gozei alguns dias de prazer e
tranqüilidade! Ah! meu Deus!... quem sabe se não teria sido melhor
morrer entre os tormentos da escravidão!...
Neste momento entrava Álvaro na ante-sala percorrendo-a com os
olhos, como quem procurava alguém.
- Onde se sumiriam? - vinha ele murmurando; - teriam tido a
triste lembrança de se irem embora?... oh! não; felizmente ei-los ali! -
exclamou alegremente, dando com os olhos nos dois personagens que
acabamos de ouvir conversar. - D. Elvira, V. Ex.ª. é modesta demais;
vem esconder-se neste recanto, quando devia estar brilhando no salão,
onde todos suspiram pela sua presença. Deixe isso para as tímidas e
fanadas violetas; à rosa compete alardear em plena luz todos os seus
encantos.
- Desculpe-me, - murmurou Isaura - uma pobre moça criada
como eu na solidão da roça, e que não está acostumada a tão esplêndidas
reuniões, sente-se abafada e constrangida...
- Oh! não... há de acostumar-se, eu espero. As luzes, o esplendor,
as harmonias, os perfumes, constituem a atmosfera em que deve
brilhar a beleza, que Deus criou para ser vista e admirada. Vim buscá-la
a pedido de alguns cavalheiros, que já são admiradores de V. Ex.ª. Para
interromper a monotonia das valsas e quadrilhas, costumam aqui as senhoras
encantar-nos os ouvidos com alguma canção, ária, modinha, ou
seja o que for. Algumas pessoas a quem eu disse, - perdoe-me a
indiscrição, filha do entusiasmo - que V. Ex.ª possui a mais linda voz, e
canta com maestria, mostram o mais vivo desejo de ouvi-la.
- Eu, senhor Álvaro!... eu cantar diante de uma tão luzida reunião!...
por favor, queira dispensar-me dessa nova prova. É em seu
próprio interesse que lhe digo; canto mal, sou muito acanhada, e estou
certa que irei solenemente desmenti-lo. Poupe-nos a nós ambos essa
vergonha.
- São desculpas, que não posso aceitar, porque já a ouvi cantar,
e creia-me, D. Elvira, se eu não tivesse a certeza de que a senhora
canta admiravelmente, não seria capaz de expô-la a um fiasco. Quem
canta como V. Ex.ª não deve acanhar-se, e eu por minha parte peço-lhe
encarecidamente que não cante outra coisa, senão aquela maviosa
canção da escrava, que outro dia a surpreendi cantando, e afianço a V. Ex.ª
que arrebatará os ouvintes.
- Por que razão não pode ser outra? essa desperta-me recordações tão tristes...
- E é talvez por isso mesmo, que é tão linda nos lábios de V. Ex.ª.
- Ai! triste de mim! - suspirou dentro da alma D. Elvira: -
aqueles mesmos que mais me amam, tomam-se, sem o saber, os meus
algozes!...
Elvira bem quisera escusar-se a todo transe; cantar naquela ocasião
era para ela o mais penoso dos sacrifícios. Mas não lhe era mais possível relutar,
e lembrando-se do judicioso conselho de seu pai, não quis
mais ver-se rogada, e aceitando o braço que Álvaro lhe oferecia, foi por
ele conduzida ao piano, onde sentou-se com a graça e elegância de
quem se acha completamente familiarizada com o instrumento.
Uma multidão de cabeças curiosas, e de corações palpitando na
mais ansiosa expectação, se apinharam em volta do piano; os cavalheiros
estavam ansiosos por saberem se a voz daquela mulher correspondia à sua
extraordinária beleza; se a fada seria também uma sereia; as
moças esperavam, que ao menos naquele terreno, teriam o prazer de
ver derrotada a sua formidável êmula, e já contavam compará-la com o
pavão da fábula, queixando-se a Juno que, o tendo formado a mais
bela das aves, não lhe dera outra voz mais que um guincho áspero e
desagradável.
A conjuntura era delicada e solene; a moça achava-se na difícil
situação de uma prima-dona, que, precedida de uma grande reputação,
faz a sua estréia perante um público exigente e ilustrado. Em tomo dela
fazia-se profundo silêncio; as respirações estavam como que suspensas,
ao passo que parecia ouvir-se o palpitar de todos os corações no ofego
da expectação. Álvaro, apesar de conhecer já a excelência da voz de
Elvira e sua maestria no canto, não deixava de mostrar-se inquieto e
comovido. Elvira por sua parte pouco se importaria de cantar bem ou
mal; desejaria até passar pela moça a mais feia, a mais desengraçada e
a mais tola daquela reunião, contanto que a deixassem a um canto
esquecida e sossegada. Dir-se-ia que estava debaixo do império de algum
terrível pressentimento. Mas Elvira amava a Álvaro, e grata ao delicado
empenho, com que este, cheio de solicitude e entusiasmo, se esforçava
por apresentá-la como um protótipo de beleza e de talento aos
olhos daquela brilhante sociedade, para satisfazê-lo, e não desmentir a
lisonjeira opinião, que propalara a respeito dela, desejava cantar o melhor
que lhe fosse possível. Era ao triunfo de Álvaro que aspirava mais
do que ao seu próprio.
Uma vez sentada ao piano, logo que seus dedos mimosos e
flexíveis, pousando sobre o teclado, preludiaram alguns singelos acordes, a
moça sentiu-se outra, revelando aos circunstantes maravilhados um
novo e original aspecto de sua formosura. A fisionomia, cuja expressão
habitual era toda modéstia, ingenuidade e candura, animou-se de luz
insólita; o busto admiravelmente cinzelado, ergueu-se altaneiro e majestoso;
os olhos extáticos alçavam-se cheios de esplendor e serenidade; os
seios, que até ali apenas arfavam como as ondas de um lago em tranqüila
noite de luar, começaram de ofegar, túrgidos e agitados, como
oceano encapelado; seu colo distendeu-se alvo e esbelto como o
do cisne que se apresta a desprender os divinais gorjeios. Era o
sopro da inspiração artística, que, roçando-lhe pela fronte, a
transformava em sacerdotisa do belo, em intérprete inspirada das
harmonias do céu. Ali sentia-se ela rainha sobre seu trono ideal; ali
era Calíope sentada sobre a tripo de sagrada, avassalando o mundo
ao som de enlevadoras e inefáveis harmonias. Das próprias inquietações
e angústias da alma soube ela tirar alento e inspiração para vencer as
dificuldades da árdua situação em que se achava empenhada. Banhou os
lábios com as lágrimas do coração, e a voz lhe rompeu do peito com
tão original e arrebatadora vibração, em modulações tão puras e
suaves, tão repassadas de sublime melancolia, que mais de uma lágrima
viu-se rolar pelas faces dos freqüentadores daquele templo dos prazeres,
dos risos, e da frivolidade!
Elvira acabava de alcançar um triunfo colossal. Mal terminara o
canto, o salão restrugiu entre os mais estrondosos aplausos, e parecia
que vinha desabando ao ruído atordoador das palmas e dos vivas!
A fada de Álvaro é também uma sereia; - dizia o Dr. Geraldo
a um dos cavalheiros, em cuja companhia já o vimos. - Resume tudo
em si... que timbre de voz tão puro e tão suave; julguei-me arrebatado
ao sétimo céu, ouvindo as harmonias dos coros angélicos.
- É uma consumada artista... no teatro faria esquecer a Malibran,
e conquistaria reputação européia. Álvaro tem razão; uma criatura assim
não pode ser uma mulher ordinária, e muito menos uma aventureira... A música
dando o sinal para a quadrilha, interrompe a conversação ou não nô-la deixa
ouvir.
- D. Elvira, - diz Álvaro dirigindo-se à sua protegida, que já se
achava sentada ao pé de seu pai, - lembre-se, que me fez a honra de
conceder-me esta quadrilha.
Elvira esforçou-se por sorrir e combater o terrível abatimento, que
ao deixar o piano de novo se apoderara de seu espírito.
Tomou o braço de Álvaro, e ambos foram ocupar o seu lugar na
quadrilha.

Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII e Capítulo IX
Capítulo X e Capítulo XI
Capítulo XII e Capítulo XIII
Capítulo XIV e Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XVIII
Capítulo XIX e Capítulo XX
Capítulo XXI e Capítulo XXII