ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
ADVERTÊNCIA
Quando o conselheiro
Aires faleceu, acharam-se-lhe na secretaria sete cadernos manuscritos,
rijamente encapados em papelão. Cada um dos primeiros seis
tinha o seu número de ordem, por algarismos romanos, I, II,
III, IV, V, VI, escritos a tinta encarnada. O sétimo trazia
este título: Último.
A razão desta designação especial não
se compreendeu então nem depois. Sim, era o último
dos sete cadernos, com a particularidade de ser o mais grosso, mas
não fazia parte do Memorial, diário de lembranças
que o conselheiro escrevia desde muitos anos e era a matéria
dos seis. Não trazia a mesma ordem de datas, com indicação
da hora e do minuto, como usava neles. Era uma narrativa; e, posto
figure aqui o próprio Aires, com o seu nome e título
de conselho, e, por alusão, algumas aventuras, nem assim
deixava de ser a narrativa estranha à matéria dos
seis cadernos. Último por quê?
A hipótese de que o desejo do finado fosse imprimir este
caderno em seguida aos outros, não é natural, salvo
se queria obrigar à leitura dos seis, em que tratava de si,
antes que lhe conhecessem esta outra história, escrita com
um pensamento interior e único, através das páginas
diversas. Nesse caso, era a vaidade do homem que falava, mas a vaidade
não fazia parte dos seus defeitos. Quando fizesse, valia
a pena satisfazê-la? Ele não representou papel eminente
neste mundo; percorreu a carreira diplomática, e aposentou-se.
Nos lazeres do ofício, escreveu o Memorial, que, aparado
das páginas mortas ou escuras, apenas daria (e talvez de)
para matar o tempo da barca de Petrópolis.
Tal foi a razão de se publicar somente a narrativa. Quanto
ao título, foram lembrados vários, em que o assunto
se pudesse resumir, Ab ovo, por exemplo, apesar do latim; venceu,
porém, a idéia de lhe dar estes dois nomes que o próprio
Aires citou uma vez:
ESAÚ E JACÓ
Dico, che quando l'anima mal nata...
Dante
CAPÍTULO
I / COISAS FUTURAS!
Era a primeira
vez que as duas iam ao Morro do Castelo. Começaram de subir
pelo lado da rua do Carmo. Muita gente há no Rio de Janeiro
que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais
nascerá e morrerá sem lá pôr os pés.
Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho
inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me
há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia
bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do
mundo.
Natividade e Perpétua conheciam outras partes, além
de Botafogo, mas o Morro do Castelo, por mais que ouvissem falar
dele e da cabocla que lá reinava em 1871, era-lhes tão
estranho e remoto como o clube. O íngreme, o desigual, o
mal calçado da ladeira mortificavam os pés às
duas pobres donas. Não obstante, continuavam a subir, como
se fosse penitência, devagarinho, cara no chão, véu
para baixo. A manhã trazia certo movimento; mulheres, homens,
crianças que desciam ou subiam, lavadeiras e soldados, algum
empregado, algum lojista, algum padre, todos olhavam espantados
para elas, que aliás vestiam com grande simplicidade; mas
há um donaire que se não perde, e não era vulgar
naquelas alturas. A mesma lentidão do andar, comparada à
rapidez das outras pessoas, fazia desconfiar que era a primeira
vez que ali iam. Uma crioula perguntou a um sargento: "Você
quer ver que elas vão à cabocla?" E ambos pararam
a distância, tomados daquele invencível desejo de conhecer
a vida alheia, que é muita vez toda a necessidade humana.
Com efeito, as duas senhoras buscavam disfarçadamente o número
da casa da cabocla, até que deram com ele. A casa era como
as outras, trepada no morro. Subia-se por uma escadinha, estreita,
sombria, adequada à aventura. Quiseram entrar depressa, mas
esbarraram com dois sujeitos que vinham saindo, e coseram-se ao
portal. Um deles perguntou-lhes familiarmente se iam consultar a
adivinha.
- Perdem o seu tempo, concluiu furioso, e hão de ouvir muito
disparate...
- É mentira dele, emendou o outro rindo; a cabocla sabe muito
bem onde tem o nariz.
Hesitaram um pouco; mas, logo depois advertiram que as palavras
do primeiro eram sinal certo da vidência e da franqueza da
adivinha; nem todos teriam a mesma sorte alegre. A dos meninos de
Natividade podia ser miserável, e então... Enquanto
cogitavam passou fora um carteiro, que as fez subir mais depressa,
para escapar a outros olhos. Tinham fé, mas tinham também
vexame da opinião, como um devoto que se benzesse às
escondidas.
Velho caboclo, pai da adivinha, conduziu as senhoras à sala.
Esta era simples, as paredes nuas, nada que lembrasse mistério
ou incutisse pavor, nenhum petrecho simbólico, nenhum bicho
empalhado, esqueleto ou desenho de aleijões. Quando muito
um registro da Conceição colado à parede podia
lembrar um mistério, apesar de encardido e roído,
mas não metia medo. Sobre uma cadeira, uma viola.
- Minha filha já vem, disse o velho. As senhoras como se
chamam?
Natividade deu o nome de batismo somente, Maria, como um véu
mais espesso que o que trazia no rosto, e recebeu um cartão,
porque a consulta era só de uma, - com o número 1.012.
Não há que pasmar do algarismo; a freguesia era numerosa,
e vinha de muitos meses. Também não há que
dizer do costume, que é velho e velhíssimo. Relê
Ésquilo, meu amigo, relê as Eumênides, lá
verás a Pítia, chamando os que iam à consulta:
"Se há aqui Helenos, venham, aproximem-se, segundo o
uso, na ordem marcada pela sorte"... A sorte outrora, a numeração
agora, tudo é que a verdade se ajuste à prioridade,
e ninguém perca a sua vez de audiência. Natividade
guardou o bilhete, e ambas foram à janela.
A falar verdade, temiam o seu tanto, Perpétua menos que Natividade.
A aventura parecia audaz, e algum perigo possível. Não
ponho aqui os seus gestos: imaginai que eram inquietos e desconcertados.
Nenhuma dizia nada. Natividade confessou depois que tinha um nó
na garganta. Felizmente, a cabocla não se demorou muito;
ao cabo de três ou quatro minutos, o pai a trouxe pela mão,
erguendo a cortina do fundo.
- Entra, Bárbara.
Bárbara entrou, enquanto o pai pegou da viola e passou ao
patamar de pedra, à porta da esquerda. Era uma criaturinha
leve e breve, saia bordada, chinelinha no pé. Não
se lhe podia negar um corpo airoso. Os cabelos, apanhados no alto
da cabeça por um pedaço de fita enxovalhada, faziam-lhe
um solidéu natural, cuja borla era suprida por um raminho
de arruda. Já vai nisto um pouco de sacerdotisa. O mistério
estava nos olhos. Estes eram opacos, não sempre nem tanto
que não fossem também lúcidos e agudos, e neste
último estado eram igualmente compridos; tão compridos
e tão agudos que entravam pela gente abaixo, revolviam o
coração e tornavam cá fora, prontos para nova
entrada e outro revolvimento. Não te minto dizendo que as
duas sentiram tal ou qual fascinação. Bárbara
interrogou-as; Natividade disse ao que vinha e entregou-lhe os retratos
dos filhos e os cabelos cortados, por lhe haverem dito que bastava.
- Basta, confirmou Bárbara. Os meninos são seus filhos?
- São.
- Cara de um é cara de outro.
- São gêmeos; nasceram há pouco mais de um ano.
- As senhoras podem sentar-se.
Natividade disse baixinho à outra que "a cabocla era
simpática", não tão baixo que esta não
pudesse ouvir também; e daí pode ser que ela, receosa
da predição, quisesse aquilo mesmo para obter um bom
destino aos filhos. A cabocla foi sentar-se à mesa redonda
que estava no centro da sala, virada para as duas. Pôs os
cabelos e os retratos defronte de si. Olhou alternadamente para
eles e para a mãe, fez algumas perguntas a esta, e ficou
a mirar os retratos e os cabelos, boca aberta, sobrancelhas cerradas.
Custa-me dizer que acendeu um cigarro, mas digo, porque é
verdade, e o fumo concorda com o ofício. Fora, o pai roçava
os dedos na viola, murmurando uma cantiga do sertão do Norte:
Menina da saia branca,
Saltadeira de riacho...
Enquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava
de expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora
explicativa. Bárbara inclinava-se aos retratos, apertava
uma madeixa de cabelos em cada mão, e fitava-as, e cheirava-as,
e escutava-as, sem a afetação que porventura aches
nesta linha. Tais gestos não se poderiam contar naturalmente.
Natividade não tirava os olhos dela, como se quisesse lê-la
por dentro. E não foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar
se os meninos tinham brigado antes de nascer.
- Brigado?
- Brigado, sim, senhora.
- Antes de nascer?
- Sim, senhora, pergunto se não teriam brigado no ventre
de sua mãe; não se lembra?
Natividade, que não tivera a gestação sossegada,
respondeu que efetivamente sentira movimentos extraordinários,
repetidos, e dores, e insônias... Mas então que era?
Brigariam por quê? A cabocla não respondeu. Ergueu-se
pouco depois, e andou à volta da mesa, lenta, como sonâmbula,
os olhos abertos e fixos; depois entrou a dividi-los novamente entre
a mãe e os retratos. Agitava-se agora mais, respirando grosso.
Toda ela, cara e braços, ombros e pernas, toda era pouca
para arrancar a palavra ao Destino. Enfim, parou, sentou-se exausta,
até que se ergueu de salto e foi ter com as duas, tão
radiante, os olhos tão vivos e cálidos, que a mãe
ficou pendente deles, e não se pôde ter que lhe não
pegasse das mãos e lhe perguntasse ansiosa:
- Então? Diga, posso ouvir tudo.
Bárbara, cheia de alma e riso, deu um respiro de gosto. A
primeira palavra parece que lhe chegou à boca, mas recolheu-se
ao coração, virgem dos lábios dela e de alheios
ouvidos. Natividade instou pela resposta, que lhe dissesse tudo,
sem falta...
- Coisas futuras! murmurou finalmente a cabocla.
- Mas, coisas feias?
- Oh! não! não! Coisas bonitas, coisas futuras!
- Mas isso não basta; diga-me o resto. Esta senhora é
minha irmã e de segredo, mas se é preciso sair, ela
sai; eu fico, diga-me a mim só... Serão felizes?
- Sim.
- Serão grandes?
* Serão grandes, oh! grandes! Deus há de dar-lhes
muitos benefícios. Eles hão de subir, subir, subir...
Brigaram no ventre de sua mãe, que tem? Cá fora também
se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só
o que lhe digo. Quanto à qualidade da glória, coisas
futuras!
Lá dentro, a voz do caboclo velho ainda uma vez continuava
a cantiga do sertão:
Trepa-me neste coqueiro,
Bota-me os cocos abaixo.
E a filha, não tendo mais que dizer, ou não sabendo
que explicar, dava aos quadris o gesto da toada, que o velho repetia
lá dentro:
Menina da saia branca,
Saltadeira de riacho,
Trepa-me neste coqueiro,
Bota-me os cocos abaixo,
Quebra coco, sinhá,
Lá no cocá,
Se te dá na cabeça,
Há de rachá;
Muito hei de me ri,
Muito hei de gostá,
Lelê, coco, naiá.
CAPÍTULO
II / MELHOR DE DESCER QUE DE SUBIR
Todos os oráculos
têm o falar dobrado, mas entendem-se. Natividade acabou entendendo
a cabocla, apesar de lhe não ouvir mais nada; bastou saber
que as coisas futuras seriam bonitas, e os filhos grandes e gloriosos
para ficar alegre e tirar da bolsa uma nota de cinqüenta mil-réis.
Era cinco vezes o preço do costume, e valia tanto ou mais
que as ricas dádivas de Creso à Pítia. Arrecadou
os retratos e os cabelos, e as duas saíram, enquanto a cabocla
ia para os fundos à espera de outros. Já havia alguns
fregueses à porta, com os números de ordem, e elas
desceram rapidamente, escondendo a cara.
Perpétua compartia as alegrias da irmã, as pedras
também, o muro do lado do mar, as camisas penduradas às
janelas, as cascas de banana no chão. Os mesmos sapatos de
um irmão das almas, que ia a dobrar a esquina da Rua da Misericórdia
para a de S. José, pareciam rir de alegria, quando realmente
gemiam de cansaço. Natividade estava tão fora de si
que, ao ouvir-lhe pedir: "Para a missa das almas!" tirou
da bolsa uma nota de dois mil-réis, nova em folha, e deitou-a
à bacia. A irmã chamou-lhe a atenção
para o engano, mas não era engano, era para as almas do purgatório.
E seguiram lépidas para o coupé, que as esperava no
espaço que fica entre a Igreja de S. José e a Câmara
dos Deputados. Não tinham querido que o carro as levasse
até ao princípio da ladeira, para que o cocheiro e
o lacaio não desconfiassem da consulta. Toda a gente falava
então da cabocla do Castelo, era o assunto da cidade; atribuíam-lhe
um poder infinito, uma série de milagres, sortes, achados,
casamentos. Se as descobrissem, estavam perdidas embora muita gente
boa lá fosse. Ao vê-las dando a esmola ao irmão
das almas, o lacaio trepou à almofada e o cocheiro tocou
os cavalos, a carruagem veio buscá-las, e guiou para Botafogo.
CAPÍTULO
III / A ESMOLA DA FELICIDADE
- Deus lhe acrescente,
minha senhora devota! exclamou o irmão das almas ao ver a
nota cair em cima de dois níqueis de tostão e alguns
vinténs antigos. Deus lhe dê todas as felicidades do
céu e da terra, e as almas do purgatório peçam
a Maria Santíssima que recomende a senhora dona a seu bendito
filho!
Quando a sorte ri, toda a natureza ri também, e o coração
ri como tudo o mais. Tal foi a explicação que, por
outras palavras menos especulativas, deu o irmão das almas
aos dois mil-réis. A suspeita de ser a nota falsa não
chegou a tomar pé no cérebro deste: foi alucinação
rápida. Compreendeu que as damas eram felizes, e, tendo o
uso de pensar alto, disse piscando o olho, enquanto elas entravam
no carro:
- Aquelas duas viram passarinho verde, com certeza.
Sem rodeios, supôs que as duas senhoras vinham de alguma aventura
amorosa, e deduziu isto de três fatos, que sou obrigado a
enfileirar aqui para não deixar este homem sob a suspeita
de caluniador gratuito. O primeiro foi a alegria delas, o segundo
o valor da esmola, o terceiro o carro que as esperava a um canto,
como se elas quisessem esconder do cocheiro o ponto dos namorados.
Não concluas tu que ele tivesse sido cocheiro algum dia,
e andasse a conduzir moças antes de servir às almas.
Também não creias que fosse outrora rico e adúltero,
aberto de mãos, quando vinha de dizer adeus às suas
amigas. Ni cet excès d'honneur, ni cette indignité.
Era um pobre diabo sem mais ofício que a devoção.
Demais, não teria tido tempo; contava apenas vinte e sete
anos.
Cumprimentou as senhoras, quando o carro passou. Depois ficou a
olhar para a nota tão fresca, tão valiosa, nota que
almas nunca viram sair das mãos dele. Foi subindo a Rua de
S. José. Já não tinha ânimo de pedir;
a nota fazia-se ouro, e a idéia de ser falsa voltou-lhe ao
cérebro, e agora mais freqüente, até que se lhe
pegou por alguns instantes. Se fosse falsa... "Para a missa
das almas!" gemeu à porta de uma quitanda e deram-lhe
um vintém, - um vintém sujo e triste ao pé
da nota tão novinha que parecia sair do prelo. Seguia-se
um corredor de sobrado. Entrou, subiu, pediu, deram-lhe dois vinténs,
- o dobro da outra moeda no valor e no azinhavre.
E a nota sempre limpa, uns dois mil-réis que pareciam vinte.
Não, não era falsa. No corredor pegou dela, mirou-a
bem; era verdadeira. De repente, ouviu abrir a cancela em cima,
e uns passos rápidos Ele, mais rápido, amarrotou a
nota e meteu-a na algibeira das calças; ficaram só
os vinténs azinhavrados e tristes, o óbolo da viúva.
Saiu, foi à primeira oficina, à primeira loja, ao
primeiro corredor, pedindo longa e lastimosamente:
- Para a missa das almas!
Na igreja, ao tirar a opa, depois de entregar a bacia ao sacristão,
ouviu uma voz débil como de almas remotas que lhe perguntavam
se os dois mil-réis... Os dois mil-réis, dizia outra
voz menos débil, eram naturalmente dele, que, em primeiro
lugar, também tinha alma, e, em segundo lugar, não
recebera nunca tão grande esmola. Quem quer dar tanto vai
à igreja ou compra uma vela, não põe assim
uma nota na bacia das esmolas pequenas.
Se minto, não é de intenção. Em verdade,
as palavras não saíram assim articuladas e claras,
nem as débeis, nem as menos débeis; todas faziam uma
zoeira aos ouvidos da consciência. Traduzi-as em língua
falada, a fim de ser entendido das pessoas que me lêem; não
sei como se poderia transcrever para o papel um rumor surdo e outro
menos surdo, um atrás de outro e todos confusos para o fim,
até que o segundo ficou só: "Não tirou
a nota a ninguém... a dona é que a pôs na bacia
por sua mão... também ele era alma"... À
porta da sacristia que dava para a rua, ao deixar cair o reposteiro
azul-escuro debruado de amarelo, não ouviu mais nada. Viu
um mendigo que lhe estendia o chapéu roto e sebento, meteu
vagarosamente a mão no bolso do colete, também roto,
e aventou uma moedinha de cobre que deitou ao chapéu do mendigo,
rápido, às escondidas, como quer o Evangelho. Eram
dois vinténs, ficavam-lhe mil novecentos e noventa e oito
réis. E o mendigo, como ele saísse depressa, mandou-lhe
atrás estas palavras de agradecimento, parecidas com as suas:
- Deus lhe acrescente, meu senhor, e lhe dê...
CAPÍTULO
IV / A MISSA DO COUPÉ
Natividade ia
pensando na cabocla do Castelo, na predição da grandeza
e na notícia da briga. Tornava a lembrar-se que, de fato,
a gestação não fora sossegada; mas só
lhe ficava a sorte da glória e da grandeza. A briga lá
ia, se a houve, o futuro, sim, esse é que era o principal
ou tudo. Não deu pela Praia de Santa Luzia. No Largo da Lapa
interrogou a irmã sobre o que pensava da adivinha. Perpétua
respondeu que bem, que acreditava, e ambas concordaram que ela parecia
falar dos próprios filhos, tal era o entusiasmo. Perpétua
ainda a repreendeu pelos cinqüenta mil-réis dados em
paga; bastavam vinte.
- Não faz mal. Coisas futuras!
- Que coisas serão?
- Não sei; futuras.
Mergulharam outra vez no silêncio. Ao entrar no Catete, Natividade
recordou a manhã em que ali passou, naquele mesmo coupé,
e confiou ao marido o estado de gravidez. Voltavam de uma missa
de defunto, na Igreja de S. Domingos...
"Na Igreja de S. Domingos diz-se hoje uma missa por alma de
João de Melo, falecido em Maricá." Tal foi o
anúncio que ainda agora podes ler em algumas folhas de 1869.
Não me ficou o dia. o mês foi agosto. O anúncio
está certo, foi aquilo mesmo, sem mais nada, nem o nome da
pessoa ou pessoas que mandaram dizer a missa, nem hora, nem convite.
Não se disse sequer que o defunto era escrivão, ofício
que só perdeu com a morte. Enfim, parece que até lhe
tiraram um nome; ele era, se estou bem informado, João de
Melo e Barros.
Não se sabendo quem mandava dizer a missa, ninguém
lá foi. A igreja escolhida deu ainda menos relevo ao ato;
não era vistosa, nem buscada, mas velhota, sem galas nem
gente, metida ao canto de um pequeno largo, adequada à missa
recôndita e anônima.
Às oito horas parou um coupé à porta; o lacaio
desceu, abriu a portinhola, desbarretou-se e perfilou-se. Saiu um
senhor e deu a mão a uma senhora, a senhora saiu e tomou
o braço ao senhor, atravessaram o pedacinho de largo e entraram
na igreja. Na sacristia era tudo espanto. A alma que a tais sítios
atraíra um carro de luxo, cavalos de raça, e duas
pessoas tão finas não seria como as outras almas ali
sufragadas. A missa foi ouvida sem pêsames nem lágrimas.
Quando acabou, o senhor foi à sacristia dar as espórtulas.
O sacristão, agasalhando na algibeira a nota de dez mil réis
que recebeu, achou que ela provava a sublimidade do defunto; mas
que defunto era esse? O mesmo pensaria a caixa das almas, se pensasse,
quando a luva da senhora deixou cair dentro uma pratinha de cinco
tostões. Já então havia na igreja meia dúzia
de crianças maltrapilhas, e fora, alguma gente às
portas e no largo, esperando. O senhor, chegando à porta,
relanceou os olhos, ainda que vagamente, e viu que era objeto de
curiosidade. A senhora trazia os seus no chão. E os dois
entravam no carro, com o mesmo gesto, o lacaio bateu a portinhola
e partiram.
A gente local não falou de outra coisa naquele e nos dias
seguintes. Sacristão e vizinhos relembravam o coupé,
com orgulho. Era a missa do coupé. As outras missas vieram
vindo, todas a pé, algumas de sapato roto, não raras
descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas de
chita ao domingo, missas de tamancos. Tudo voltou ao costume, mas
a missa do coupé viveu na memória por muitos meses.
Afinal não se falou mais nela; esqueceu como um baile.
Pois o coupé era este mesmo. A missa foi mandada dizer por
aquele senhor, cujo nome é Santos, e o defunto era seu parente,
ainda que pobre. Também ele foi pobre, também ele
nasceu em Maricá. Vindo para o Rio de Janeiro, por ocasião
da febre das ações (1855), dizem que revelou grandes
qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou logo muito, e fê-lo
perder a outros. Casou em 1859 com esta Natividade, que ia então
nos vinte anos e não tinha dinheiro, mas era bela e amava
apaixonadamente. A Fortuna os abençoou com a riqueza. Anos
depois tinham eles uma casa nobre, carruagem, cavalos e relações
novas e distintas. Dos dois parentes pobres de Natividade morreu
o pai em 1866, restava-lhe uma irmã. Santos tinha alguns
em Maricá, a quem nunca mandou dinheiro, fosse mesquinhez,
fosse habilidade. Mesquinhez não creio, ele gastava largo
e dava muitas esmolas. Habilidade seria; tirava-lhes o gosto de
vir cá pedir-lhe mais.
Não lhe valeu isto com João de Melo, que um dia apareceu
aqui, a pedir-lhe emprego. Queria ser, como ele, diretor de banco.
Santos arranjou-lhe depressa um lugar de escrivão no cível
em Maricá, e despachou-o com os melhores conselhos deste
mundo.
João de Melo retirou-se com a escrivania, e dizem que uma
grande paixão também. Natividade era a mais bela mulher
daquele tempo. No fim, com os seus cabelos quase sexagenários,
fazia crer na tradição. João de Melo ficou
alucinado quando a viu, ela conheceu isso, e portou-se bem. Não
lhe fechou o rosto, é verdade, e era mais bela assim que
zangada; também não lhe fechou os olhos que eram negros
e cálidos. Só lhe fechou o coração,
um coração que devia amar como nenhum outro, foi a
conclusão de João de Melo uma noite em que a viu ir
decotada a um baile. Teve ímpeto de pegar dela, descer, voar,
perderem-se...
Em vez disso, uma escrivania e Maricá; era um abismo. Caiu
nele; três dias depois saiu do Rio de Janeiro para não
voltar. A princípio escreveu muitas cartas ao parente, com
a esperança de que ela as lesse também, e compreendesse
que algumas palavras eram para si. Mas Santos não lhe deu
resposta, e o tempo e a ausência acabaram por fazer de João
de Melo um excelente escrivão. Morreu de uma pneumonia.
Que o motivo da pratinha de Natividade deitada à caixa das
almas fosse pagar a adoração do defunto não
digo que sim, nem que não; faltam-me pormenores. Mas pode
ser que sim, porque esta senhora era não menos grata que
honesta. Quanto às larguezas do marido, não esqueças
que o parente era defunto, e o defunto um parente menos.
CAPÍTULO
V / HÁ CONTRADIÇÕES EXPLICÁVEIS
Não me
peças a causa de tanto encolhimento no anúncio e na
missa, e tanta publicidade na carruagem, lacaio e libré.
Há contradições explicáveis. Um bom
autor, que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica
aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé
ou em caleça de praça ou de aluguel; mas eu, amigo,
eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando
muito, explico-as, com a condição de que tal costume
não pegue. Explicações comem tempo e papel,
demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é
ler com atenção.
Quanto à contradição de que se trata aqui,
é de ver que naquele recanto de um larguinho modesto, nenhum
conhecido daria com eles, ao passo que eles gozariam o assombro
local; tal foi a reflexão de Santos, se se pode dar semelhante
nome a um movimento interior que leva a gente a fazer antes uma
coisa que outra. Resta a missa; a missa em si mesma bastava que
fosse sabida no céu e em Maricá. Propriamente vestiram-se
para o céu. O luxo do casal temperava a pobreza da oração;
era uma espécie de homenagem ao finado. Se a alma de João
de Melo os visse de cima, alegrar-se-ia do apuro em que eles foram
rezar por um pobre escrivão. Não sou eu que o digo;
Santos é que o pensou.
CAPÍTULO VI / MATERNIDADE
A princípio,
vieram calados. Quando muito, Natividade queixou-se da igreja, que
lhe sujara o vestido.
- Venho cheia de pulgas, continuou ela; por que não fomos
a S. Francisco de Paula ou à Glória, que estão
mais perto, e são limpas?
Santos trocou as mãos à conversa, e falou das ruas
mal calçadas, que faziam dar solavancos ao carro. Com certeza,
quebravam-lhe as molas.
Natividade não replicou, mergulhou no silêncio, como
naquele outro capítulo, vinte meses depois, quando tornava
do Castelo com a irmã. Os olhos não tinham a nota
de deslumbramento que trariam então; iam parados e sombrios,
como de manhã e na véspera. Santos, que já
reparara nisso, perguntou-lhe o que é que tinha; ela não
sei se lhe respondeu de palavra; se alguma disse, foi tão
breve e surda que inteiramente se perdeu. Talvez não passasse
de um simples gesto de olhos, um suspiro, ou coisa assim. Fosse
o que fosse, quando o coupé chegou ao meio do Catete, os
dois levavam as mãos presas, e a expressão do rosto
era de abençoados. Não davam sequer pela gente das
ruas; não davam talvez por si mesmos.
Leitor, não é muito que percebas a causa daquela expressão
e desses dedos abotoados. Já lá ficou dita atrás,
quando era melhor deixar que a adivinhasses; mas provavelmente não
a adivinharias, não que tenhas o entendimento curto ou escuro,
mas porque o homem varia do homem, e tu talvez ficasses com igual
expressão, simplesmente por saber que ias dançar sábado.
Santos não dançava; preferia o voltarete, como distração.
A causa era virtuosa, como sabes; Natividade estava grávida,
acabava de o dizer ao marido.
Aos trinta anos não era cedo nem tarde; era imprevisto. Santos
sentiu mais que ela o prazer da vida nova. Eis aí vinha a
realidade do sonho de dez anos, uma criatura tirada da coxa de Abraão,
como diziam aqueles bons judeus, que a gente queimou mais tarde,
e agora empresta generosamente o seu dinheiro às companhias
e às nações. Levam juro por ele; mas os hebraísmos
são dados de graça. Aquele é desses. Santos,
que só conhecia a parte do empréstimo, sentia inconscientemente
a do hebraísmo, e deleitava-se com ele. A emoção
atava-lhe a língua; os olhos que estendia à esposa
e a cobriam eram de patriarca; o sorriso parecia chover luz sobre
a pessoa amada abençoada e formosa entre as formosas.
Natividade não foi logo, logo, assim; a pouco e pouco é
que veio sendo vencida e tinha já a expressão da esperança
e da maternidade. Nos primeiros dias, os sintomas desconcertaram
a nossa amiga. É duro dizê-lo, mas é verdade.
Lá se iam bailes e festas, lá ia a liberdade e a folga.
Natividade andava já na alta roda do tempo; acabou de entrar
por ela, com tal arte que parecia haver ali nascido. Carteava-se
com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas. Nem
tinha só esta casa de Botafogo, mas também outra em
Petrópolis; nem só carro, mas também camarote
no Teatro Lírico, não contando os bailes do Cassino
Fluminense, os das amigas e os seus; todo o repertório, em
suma, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas, pertencia àquela
dúzia de nomes planetários que figuram no meio da
plebe de estrelas. O marido era capitalista e diretor de um banco.
No meio disso, a que vinha agora uma criança deformá-la
por meses, obrigá-la a recolher-se, pedir-lhe as noites,
adoecer dos dentes e o resto? Tal foi a primeira sensação
da mãe, e o primeiro ímpeto foi esmagar o gérmen.
Criou raiva ao marido. A segunda sensação foi melhor.
A maternidade, chegando ao meio-dia, era como urna aurora nova e
fresca. Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva
da chácara ou no regaço da aia, com três anos
de idade, e este quadro daria aos trinta e quatro anos que teria
então um aspecto de vinte e poucos...
Foi o que a reconciliou com o marido. Não exagero; também
não quero mal a esta senhora. Algumas teriam medo, a maior
parte amor. A conclusão é que, por uma ou por outra
porta, amor ou vaidade, o que o embrião quer é entrar
na vida. César ou João Fernandes, tudo é viver,
assegurar a dinastia e sair do mundo o mais tarde que puder.
O casal ia calado. Ao desembocar na Praia de Botafogo, a enseada
trouxe o gosto de costume. A casa descobria-se a distância,
magnífica; Santos deleitou-se de a ver, mirou-se nela, cresceu
com ela, subiu por ela. A estatueta de Narciso, no meio do jardim,
sorriu à entrada deles, a areia fez-se relva, duas andorinhas
cruzaram por cima do repuxo, figurando no ar a alegria de ambos.
A mesma cerimônia à descida. Santos ainda parou alguns
instantes para ver o coupé dar a volta, sair e tornar à
cocheira; depois seguiu a mulher que entrava no saguão.
CAPÍTULO
VII / GESTAÇÃO
Em cima, esperava
por eles Perpétua, aquela irmã de Natividade, que
a acompanhou ao Castelo, e lá ficou no carro, onde as deixei
para narrar os antecedentes dos meninos.
- Então? Houve muita gente?
- Não, ninguém, pulgas.
Perpétua também não entendera a escolha da
igreja. Quanto à concorrência, sempre lhe pareceu que
seria pouca ou nenhuma; mas o cunhado vinha entrando, e ela calou
o resto. Era pessoa circunspecta, que não se perdia por um
dito ou gesto descuidado. Entretanto, foi-lhe impossível
calar o espanto, quando viu o cunhado entrar e dar à mulher
um abraço longo e terno, abrochado por um beijo.
- Que é isso? exclamou espantada.
Sem reparar no vexame da mulher, Santos deu um abraço à
cunhada, e ia dar-lhe um beijo também, se ela não
recuasse a tempo e com força.
- Mas que é isso? Você tirou a sorte grande de Espanha?
- Não, coisa melhor, gente nova.
Santos conservara alguns gestos e modos de dizer dos primeiros anos,
tais que o leitor não chamará propriamente familiares;
também não é preciso chamar-lhes nada. Perpétua,
afeita a eles, acabou sorrindo e dando-lhe parabéns. Já
então Natividade os deixara para se ir despir. Santos, meio
arrependido da expansão, fez-se sério e conversou
da missa e da igreja. Concordou que esta era decrépita e
metida a um canto, mas alegou razões espirituais. Que a oração
era sempre oração, onde quer que a alma falasse a
Deus. Que a missa, a rigor, não precisava estritamente de
altar; o rito e o padre bastavam ao sacrifício. Talvez essas
razões não fossem propriamente dele, mas ouvidas a
alguém, decoradas sem esforço e repetidas com convicção.
A cunhada opinou de cabeça que sim. Depois falaram do parente
morto e concordaram piamente que era um asno; - não disseram
este nome, mas a totalidade das apreciações vinha
a dar nele, acrescentado de honesto e honestíssimo.
- Era uma pérola, concluiu Santos.
Foi a última palavra da necrologia; paz aos mortos. Dali
em diante, vingou a soberania da criança que alvorecia. Não
alteraram os hábitos, nos primeiros tempos, e as visitas
e os bailes continuaram como dantes, até que pouco a pouco,
Natividade se fechou totalmente em casa. As amigas iam vê-la.
Os amigos iam visitá-los ou jogar cartas com o marido.
Natividade queria um filho, Santos uma filha, e cada um pleiteava
a sua escolha com tão boas razões, que acabavam trocando
de parecer. Então ela ficava com a filha, e vestia-lhe as
melhores rendas e cambraias, enquanto ele enfiava uma beca no jovem
advogado, dava-lhe um lugar no parlamento, outro no ministério.
Também lhe ensinava a enriquecer depressa; e ajudá-lo-ia
começando por uma caderneta na Caixa Econômica, desde
o dia em que nascesse até os vinte e um anos. Alguma vez,
às noites, se estavam sós, Santos pegava de um lápis
e desenhava a figura do filho, com bigodes, - ou então riscava
uma menina vaporosa.
- Deixa, Agostinho, disse-lhe a mulher uma noite; você sempre
há de ser criança.
E pouco depois, deu por si a desenhar de palavra a figura do filho
ou filha, e ambos escolhiam a cor dos olhos, os cabelos, a tez,
a estatura. Vês que também ela era criança.
A maternidade tem dessas incoerências, a felicidade também,
e por fim a esperança, que é a meninice do mundo.
A perfeição seria nascer um casal. Assim os desejos
do pai e da mãe ficariam satisfeitos. Santos pensou em fazer
sobre isso uma consulta espírita. Começava a ser iniciado
nessa religião, e tinha a fé noviça e firme.
Mas a mulher opôs-se; a consultar alguém, antes a cabocla
do Castelo, a adivinha célebre do tempo, que descobria as
coisas perdidas e predizia as futuras. Entretanto, recusava também,
por desnecessário. A que vinha consultar sobre uma dúvida,
que dali a meses estaria esclarecida? Santos achou, em relação
à cabocla, que seria imitar as crendices da gente reles;
mas a cunhada acudiu que não, e citou um caso recente de
pessoa distinta, um juiz municipal, cuja nomeação
foi anunciada pela cabocla.
- Talvez o ministro da Justiça goste da cabocla, explicou
Santos.
As duas riram da graça, e assim se fechou uma vez o capítulo
da adivinha, para se abrir mais tarde. Por agora é deixar
que o feto se desenvolva, a criança se agite e se atire,
como impaciente de nascer. Em verdade, a mãe padeceu muito
durante a gestação, e principalmente nas últimas
semanas. Cuidava trazer um general que iniciava a campanha da vida,
a não ser um casal que aprendia a desamar de véspera.