ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
CAPÍTULO XXXI / FLORA
Tal era aquele
casal de políticos. Um filho, se eles tivessem um filho varão,
podia ser a fusão das suas qualidades opostas, e talvez um
homem de Estado. Mas o céu negou-lhes essa consolação
dinástica.
Tinham uma filha única, que era tudo o contrário deles.
Nem a paixão de D. Cláudia, nem o aspecto governamental
de Batista distinguia a alma ou a figura da jovem Flora. Quem a
conhecesse por esses dias, poderia compará-la a um vaso quebradiço
ou à flor de uma só manhã, e teria matéria
para uma doce elegia. Já então possuía os olhos
grandes e claros, menos sabedores, mas dotados de um mover particular,
que não era o espalhado da mãe, nem o apagado do pai,
antes mavioso e pensativo, tão cheio de graça que
faria amável a cara de um avarento. Põe-lhe o nariz
aquilino, rasga-lhe a boca meio risonha, formando tudo um rosto
comprido, alisa-lhe os cabelos ruivos, e aí tens a moça
Flora.
Nasceu em agosto de 1871. A mãe, que datava por ministérios,
nunca negou a idade da filha:
- Flora nasceu no ministério Rio Branco, e foi sempre tão
fácil de aprender, que já no ministério Sinimbu
sabia ler e escrever correntemente.
Era retraída e modesta, avessa a festas públicas,
e dificilmente consentiu em aprender a dançar. Gostava de
música, e mais do piano que do canto. Ao piano, entregue
a si mesma, era capaz de não comer um dia inteiro. Há
aí o seu tanto de exagerado, mas a hipérbole é
deste mundo, e as orelhas da gente andam já tão entupidas
que só à força de muita retórica se
pode meter por elas um sopro de verdade.
Até aqui nada há que extraordinariamente distinga
esta moça das outras, suas contemporâneas, desde que
a modéstia vai com a graça, e em certa idade é
tão natural o devaneio como a travessura. Flora, aos quinze
anos, dava-lhe para se meter consigo. Aires, que a conheceu por
esse tempo, em casa de Natividade. acreditava que a moça
viria a ser uma inexplicável.
- Como diz? inquiriu a mãe.
- Verdadeiramente, não digo nada, emendou Aires; mas, se
me permite dizer alguma coisa, direi que esta moça resume
as raras prendas de sua mãe.
- Mas eu não sou inexplicável, replicou D. Cláudia
sorrindo.
- Ao contrário, minha senhora. Tudo está, porém,
na definição que dermos a esta palavra. Talvez não
haja nenhuma certa. Suponhamos uma criatura para quem não
exista perfeição na terra, e julgue que a mais bela
alma não passa de um ponto de vista; se tudo muda com o ponto
de vista, a perfeição...
- A perfeição é copas, insinuou Santos.
Era um convite ao voltarete. Aires não teve animo de aceitar,
tão inquieta lhe pareceu Flora, com os olhos nele, interrogativos,
curiosos de saber por que é que ela era ou viria a ser inexplicável.
Além disso, preferia a conversação das mulheres.
É dele esta frase do Memorial: "Na mulher, o sexo corrige
a banalidade; no homem, agrava."
Não foi preciso aceitar nem recusar o convite de Santos;
chegaram dois habituados do jogo, e com eles Batista, que estava
na saleta próxima, Santos foi ao recreio de todas as noites.
Um daqueles era o velho Plácido, doutor em espiritismo; o
segundo era um corretor da praça, chamado Lopes, que amava
as cartas pelas cartas, e sentia menos perder dinheiro que partidas.
Lá se foram ao voltarete, enquanto Aires ficava no salão,
a ouvir a um canto as damas, sem que os olhos de Flora se despegassem
dele.
CAPÍTULO
XXXII / O APOSENTADO
Já então
este ex-ministro estava aposentado. Regressou ao Rio de Janeiro,
depois de um último olhar às coisas vistas, para aqui
viver o resto dos seus dias. Podia fazê-lo em qualquer cidade,
era homem de todos os climas, mas tinha particular amor à
sua terra, e porventura estava cansado de outras. Não atribuía
a estas tantas calamidades. A febre amarela, por exemplo, à
força de a desmentir lá fora, perdeu-lhe a fé,
e cá dentro, quando via publicados alguns casos, estava já
corrompido por aquele credo que atribui todas as moléstias
a uma variedade de nomes. Talvez porque era homem sadio.
Não mudara inteiramente; era o mesmo ou quase. Encalveceu
mais, é certo, terá menos carnes, algumas rugas; ao
cabo, uma velhice rija de sessenta anos. Os bigodes continuam a
trazer as pontas finas e agudas. O passo é firme, o gesto
grave, com aquele toque de galanteria, que nunca perdeu. Na botoeira,
a mesma flor eterna.
Também a cidade não lhe pareceu que houvesse mudado
muito. Achou algum movimento mais, alguma ópera menos, cabeças
brancas, pessoas defuntas; mas a velha cidade era a mesma. A própria
casa dele no Catete estava bem conservada. Aires despediu o inquilino,
tão polidamente como se recebesse o ministro dos negócios
estrangeiros, e meteu-se nela a si e a um criado, por mais que a
irmã teimasse em levá-lo para Andaraí.
- Não, mana Rita, deixe-me ficar no meu canto.
- Mas eu sou a sua última parenta, disse ela.
- De sangue e de coração, isso é, concordou
ele; pode acrescentar que a melhor de todas e a mais pia. Onde estão
aqueles cabelos?... Não precisa baixar os olhos. Você
os cortou para meter no caixão de seu finado marido. Os que
aí estão embranqueceram; mas os que lá ficaram
eram pretos, e mais de uma viúva os teria guardado todos
para as segundas núpcias.
Rita gostou de ouvir aquela referência. Outrora, não;
pouco depois de viúva, tinha vexame de um ato tão
sincero; achava-se quase ridícula. Que valia cortar os cabelos
por haver perdido o melhor dos maridos? Mas, andando o tempo, entrou
a ver que fizera bem, a aprovar que lho dissessem, e, na intimidade,
a lembrá-lo. Agora serviu a alusão para replicar:
- Pois se eu sou isso, por que é que você prefere viver
com estranhos?
- Que estranhos? Não vou viver com ninguém. Viverei
com o Catete, o Largo do Machado, a Praia de Botafogo e a do Flamengo,
não falo das pessoas que lá moram, mas das ruas, das
casas, dos chafarizes e das lojas. Há lá coisas esquisitas,
mas sei eu se venho achar em Andaraí uma casa de pernas para
o ar, por exemplo? Contentemo-nos do que sabemos. Lá os meus
pés andam por si. Há ali coisas petrificadas e pessoas
imortais, como aquele Custódio da confeitaria, lembra-se?
- Lembra-me, a Confeitaria do Império.
- Há quarenta anos que a estabeleceu; era ainda no tempo
em que os carros pagavam imposto de passagem. Pois o diabo está
velho, mas não acaba; ainda me há de enterrar. Parece
rapaz; aparece-me lá todas as semanas.
- Você também parece rapaz.
- Não brinque, mana; eu estou acabado. Sou um velho gamenho,
pode ser; mas não é por agradar a moças, é
porque me ficou este jeito... E a propósito, por que não
vai você morar comigo?
- Ah! é para saber que também eu gosto de estar comigo.
Irei lá de vez em quando, mas já não saio daqui,
senão para o cemitério.
Ajustaram visitar um ao outro; Aires viria jantar às quintas-feiras.
D. Rita ainda lhe falou dos casos de moléstia dele, ao que
Aires replicou que não adoecia nunca, mas se adoecesse viria
para Andaraí; o coração dela era o melhor dos
hospitais. Talvez que em todas essas recusas houvesse também
a necessidade de fugir à contradição, porque
a irmã sabia inventar ocasiões de dissidência.
Naquele mesmo dia (era ao almoço) ele achou o café
delicioso, mas a irmã disse que era ruim, obrigando-o a um
grande esforço para tornar atrás e achá-lo
detestável.
A princípio, Aires cumpriu a solidão, separou-se da
sociedade, meteu-se em casa, não aparecia a ninguém
ou a raros e de longe em longe. Em verdade estava cansado de homens
e de mulheres, de festas e de vigílias. Fez um programa.
Como era dado a letras clássicas achou no Padre Bernardes
esta tradução daquele salmo: "Alonguei-me fugindo
e morei na soedade." Foi a sua divisa. Santos, se lha dessem,
fá-la-ia esculpir, à entrada do salão, para
regalo dos seus numerosos amigos. Aires deixou-a estar em si. Alguma
vez gostava de a recitar calado, parte pelo sentido, parte pela
linguagem velha: "!Alonguei-me fugindo e morei na soedade."
Assim foi a princípio. Às quintas-feiras ia jantar
com a irmã. Às noites passeava pelas praias, ou pelas
ruas do bairro. O mais do tempo era gasto em ler e reler, compor
o Memorial ou rever o composto, para relembrar as coisas passadas.
Estas eram muitas e de feição diversa, desde a alegria
até a melancolia, enterramentos e recepções
diplomáticas, uma braçada de folhas secas, que lhe
pareciam verdes agora. Alguma vez as pessoas eram designadas por
um X ou ***, e ele não acertava logo quem fossem, mas era
um recreio procurá-las, achá-las e completá-las.
Mandou fazer um armário envidraçado, onde meteu as
relíquias da vida, retratos velhos, mimos de governos e de
particulares, um leque, uma luva, uma fita e outras memórias
femininas, medalhas e medalhões, camafeus, pedaços
de ruínas gregas e romanas, uma infinidade de coisas que
não nomeio, para não encher papel. As cartas não
estavam lá, viviam dentro de uma mala, catalogadas por letras,
por cidades, por línguas, por sexos. Quinze ou vinte davam
para outros tantos capítulos e seriam lidas com interesse
e curiosidade. Um bilhete, por exemplo, um bilhete encardido e sem
data, moço como os bilhetes velhos, assinado por iniciais,
um M e um P que ele traduzia com saudades. Não vale a pena
dizer o nome.
CAPÍTULO
XXXIII / A SOLIDÃO TAMBÉM CANSA
Mas tudo cansa,
até a solidão. Aires entrou a sentir uma ponta de
aborrecimento; bocejava, cochilava, tinha sede de gente viva, estranha,
qualquer que fosse, alegre ou triste. Metia-se por bairros excêntricos,
trepava aos morros, ia às igrejas velhas, às ruas
novas, a Copacabana e à Tijuca. O mar ali, aqui o mato e
a vista acordavam nele uma infinidade de ecos, que pareciam as próprias
vozes antigas. Tudo isso escrevia, às noites, para se fortalecer
no propósito da vida solitária. Mas não há
propósito contra a necessidade.
A gente estranha tinha a vantagem de lhe tirar a solidão,
sem lhe dar a conversação. As visitas de rigor que
ele fazia eram poucas, breves e apenas faladas. E tudo isso foram
os primeiros passos. A pouco e pouco sentiu o sabor dos costumes
velhos, a nostalgia das salas, a saudade do riso, e não tardou
que o aposentado da diplomacia fosse reintegrado no emprego da recreação.
A solidão, tanto no texto bíblico como na tradução
do padre, era arcaica. Aires trocou-lhe uma palavra e o sentido:
"Alonguei-me fugindo, e morei entre a gente."
Assim se foi o programa da vida nova. Não é que ele
já a não entendesse nem amasse, ou que a não
praticasse ainda alguma vez, a espaços, como se faz uso de
um remédio que obriga a ficar na cama ou na alcova; mas,
sarava depressa e tornava ao ar livre. Queria ver a outra gente,
ouvi-la, cheirá-la, gostá-la, apalpá-la, aplicar
todos os sentidos a um mundo que podia matar o tempo, o imortal
tempo.
CAPÍTULO
XXXIV / INEXPLICÁVEL
Assim o deixamos,
há apenas dois capítulos, a um canto da sala da gente
Santos, em conversação com as senhoras. Hás
de lembrar-te que Flora não despegava os olhos dele, ansiosa
de saber por que é que a achava inexplicável. A palavra
rasgava-lhe o cérebro, ferindo sem penetrar. Inexplicável
que era? Que se não explica, sabia; mas que se não
explica por quê?
Quis perguntá-lo ao conselheiro, mas não achou ocasião,
e ele saiu cedo. A primeira vez, porém, que Aires foi a S.
Clemente, Flora pediu-lhe familiarmente o obséquio de uma
definição mais desenvolvida. Aires sorriu e pegou
na mão da mocinha, que estava de pé.
Foi só o tempo de inventar esta resposta:
- Inexplicável é o nome que podemos dar aos artistas
que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra
tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece
que a árvore é árvore, nem a choupana. Se se
trata então de gente, adeus. Por mais que os olhos da figura
falem, sempre esses pintores cuidam que eles não dizem nada.
E retocam com tanta paciência, que alguns morrem entre dois
olhos, outros matam-se de desespero.
Flora achou a explicação obscura; e tu, amiga minha
leitora, se acaso és mais velha e mais fina que ela, pode
ser que a não aches mais clara. Ele é que não
acrescentou nada, para não ficar incluído entre os
artistas daquela espécie. Bateu paternalmente na palma da
mão de Flora, e perguntou pelos estudos. Os estudos iam bem;
como é que não iriam bem os estudos? E sentando-se
ao pé dele, a mocinha confessou que tinha idéia justamente
de aprender desenho e pintura, mas se havia de pôr tinta de
mais ou de menos, e acabar não pintando nada, melhor seria
ficar só na música. A música ia bem com ela,
o francês também, e o inglês.
- Pois só a música, o inglês e o francês,
concordou Aires.
- Mas o senhor promete que não me achará inexplicável?
pergunta ela com doçura.
Antes que ele respondesse, entraram na sala os dois gêmeos.
Flora esqueceu um assunto por outro, e o velho pelos rapazes. Aires
não se demorou mais que o tempo de a ver rir com eles, e
sentir em si alguma coisa parecida com remorsos. Remorsos de envelhecer,
creio.
CAPÍTULO XXXV / EM VOLTA DA MOÇA
Já então
os dois gêmeos cursavam, um a Faculdade de Direito, em S.
Paulo; outro a Escola de Medicina, no Rio. Não tardaria muito
que saíssem formados e prontos, um para defender o direito
e o torto da gente, outro para ajudá-la a viver e a morrer.
Todos os contrastes estão no homem.
Não era tanta a política que os fizesse esquecer Flora,
nem tanta Flora que os fizesse esquecer a política. Também
não eram tais as duas que prejudicassem estudos e recreios.
Estavam na idade em que tudo se combina sem quebra de essência
de cada coisa. Lá que viessem a amar a pequena com igual
força é o que se podia admitir desde já, sem
ser preciso que ela os atraísse de vontade. Ao contrário,
Flora ria com ambos, sem rejeitar nem aceitar especialmente nenhum;
pode ser até que nem percebesse nada. Paulo vivia mais tempo
ausente. Quando tornava pelas férias, como que a achava mais
cheia de graça. Era então que Pedro multiplicava as
suas finezas para se não deixar vencer do irmão, que
vinha pródigo delas. E Flora recebia-as todas com o mesmo
rosto amigo.
Note-se - e este ponto deve ser tirado à luz, - note-se que
os dois gêmeos continuavam a ser parecidos e eram cada vez
mais esbeltos. Talvez perdessem estando juntos, porque a semelhança
diminuía em cada um deles a feição pessoal.
Demais, Flora simulava às vezes confundi-los, para rir com
ambos. E dizia a Pedro:
- Dr. Paulo!
E dizia a Paulo:
- Dr. Pedro!
Em vão eles mudavam da esquerda para a direita e da direita
para a esquerda. Flora mudava os nomes também, e os três
acabavam rindo. A familiaridade desculpava a ação
e crescia com ela. Paulo gostava mais de conversa que de piano;
Flora conversava. Pedro ia mais com o piano que com a conversa;
Flora tocava. Ou então fazia ambas as coisas, e tocava falando,
soltava a rédea aos dedos e à língua.
Tais artes, postas ao serviço de tais graças, eram
realmente de acender os gêmeos, e foi o que sucedeu pouco
a pouco. A mãe dela cuido que percebeu alguma coisa; mas
a princípio não lhe deu grande cuidado. Também
ela foi menina e moça, também se dividiu a si sem
se dar nada a ninguém. Pode ser até que, a seu parecer,
fosse um exercício necessário aos olhos do espírito
e da cara. A questão é que estes se não corrompessem,
nem se deixassem ir atrás de cantigas, como diz o povo, que
assim exprime os feitiços de Orfeu. Ao contrário,
Flora é que fazia de Orfeu, ela é que era a cantiga.
Oportunamente, escolheria a um deles, pensava a mãe.
A intimidade tinha intervalos grandes, além das ausências
obrigadas de Paulo. Apesar de não sair, Pedro não
a buscava sempre, nem ela ia muita vez à casa da praia. Não
se viam dias e dias. Que pensassem um no outro, é possível;
mas não possuo o menor documento disto. A verdade é
que Pedro tinha os seus companheiros de escola, os namoros de rua
e de aventura, os partidos de teatro, os passeios à Tijuca
e outros arrabaldes. Ao demais, os dois gêmeos estavam ainda
no ponto de falar dela nas cartas, louvá-la, descrevê-la,
dizer mil coisas doces, sem ciúme.
CAPÍTULO XXXVI / A DISCÓRDIA NÃO É
TÃO FEIA COMO SE PINTA
A discórdia
não é tão feia como se pinta, meu amigo. Nem
feia, nem estéril. Conta só os livros que tem produzido,
desde Homero até cá, sem excluir... Sem excluir qual?
Ia dizer que este, mas a Modéstia acena-me de longe que pare
aqui. Paro aqui; e viva a Modéstia, que mal suporta a letra
capital que lhe ponho, a letra e os vivas, mas há de ir com
ela e com eles. Viva a Modéstia, e excluamos este livro;
fiquem só os grandes livros épicos e trágicos,
a que a Discórdia deu vida, e digam-me se tamanhos efeitos
não provam a grandeza da causa. Não, a discórdia
não é tão feia como se pinta.
Teimo nisto para que as almas sensíveis não comecem
de tremer pela moça ou pelos rapazes. Não há
mister tremer, tanto mais que a discórdia dos dois começou
por um simples acordo, naquela noite. Costeavam a praia, calados,
pensando só, até que ambos, como se falassem para
si, soltaram esta frase única:
- Está ficando bem bonita.
E voltando-se um para outro:
- Quem?
Ambos sorriram; acharam pico ao simultâneo da reflexão
e da pergunta. Sei que este fenômeno é tal qual o do
capítulo XXV, quando eles disseram da idade, mas não
me culpem a mim; eram gêmeos, podiam ter o falar gêmeo.
O principal é que não se amofinaram; não era
ainda amor o que sentiam. Cada um expôs a sua opinião
acerca das graças da pequena, o gesto, a voz, os olhos e
as mãos, tudo com tão boa sombra, que excluía
a idéia de rivalidade. Quando muito, divergiam na escolha
da melhor prenda, que para Pedro eram os olhos, e para Paulo a figura;
mas como acabavam achando um total harmônico, era visto que
não brigavam por isso. Nenhum deles atribuía ao outro
a coisa vaga ou o que quer que era que principiavam a sentir, e
mais pareciam estetas que enamorados. Aliás, a mesma política
os deixou em paz essa noite: não brigaram por ela. Não
é que não sentissem alguma coisa oposta, à
vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia,
água quieta, vozes confusas e esparsas, algum tílburi
a passo ou a trote, segundo ia vazio ou com gente. Tal ou qual brisa
fresca.
A imaginação os levou então ao futuro, a um
futuro brilhante com ele é em tal idade. Botafogo teria um
papel histórico, uma enseada imperial para Pedro, uma Veneza
republicana para Paulo sem doge, nem conselho dos dez, ou então
um doge com outro título, um simples presidente, que se casaria
em nome do povo com este pequenino Adriático. Talvez o doge
fosse ele mesmo. Esta possibilidade, apesar dos anos verdes, enfunou
a alma do moço. Paulo viu-se à testa de uma república,
em que o antigo e o moderno, o futuro e o passado se mesclassem,
uma Roma nova, uma Convenção Nacional, a República
Francesa e os Estados Unidos da América.
Pedro, à sua parte, construía a meio caminho como
um palácio para a representação nacional, outro
para o imperador, e via-se a si mesmo ministro e presidente do conselho.
Falava, dominava o tumulto e as opiniões, arrancava um voto
à Câmara dos Deputados ou então expedia um decreto
de dissolução. É uma minúcia, mas merece
inseri-la aqui: Pedro, sonhando com o governo, pensava especialmente
nos decretos de dissolução. Via-se em casa, com o
ato assinado, referendado, copiado, mandado aos jornais e às
Câmaras, lido pelos secretários, arquivado na secretaria,
e os deputados saindo cabisbaixos, alguns resmungando, outros irados.
Só ele estava tranqüilo, no gabinete, recebendo os amigos
que iam cumprimentá-lo e pedir os recados para a província.
Tais eram as grandes pinceladas da imaginação dos
dois. As estrelas recebiam no céu todos os pensamentos dos
rapazes, a lua seguia quieta e a vaga da praia estirava-se com a
preguiça do costume. Voltaram a si ao pé de casa.
Tal ou qual impulso quis levá-los a discutir acerca do tempo
e da noite, da temperatura e da enseada. Algum murmúrio vago
pode ser que lhes fizesse mover os beiços e começar
a quebrar o silêncio, mas o silêncio era tão
augusto que concordaram em respeitá-lo. E logo acharam de
si para si que a lua era esplêndida, a enseada bela e a temperatura
divina.
CAPÍTULO
XXXVII / DESACORDO NO ACORDO
Não esqueça
dizer que, em 1888, uma questão grave e gravíssima
os fez concordar também, ainda que por diversa razão.
A data explica o fato: foi a emancipação dos escravos.
Estavam então longe um do outro, mas a opinião uniu-os.
A diferença única entre eles dizia respeito à
significação da reforma, que para Pedro era um ato
de justiça, e para Paulo era o início da revolução.
Ele mesmo o disse, concluindo um discurso em S. Paulo, no dia 20
de maio: "A abolição é a aurora da liberdade;
esperemos o sol; emancipado o preto, resta emancipar o branco."
Natividade ficou atônita quando leu isto; pegou da pena e
escreveu uma carta longa e maternal. Paulo respondeu com trinta
mil expressões de ternura, declarando no fim que tudo lhe
poderia sacrificar, inclusive a vida e até a honra; as opiniões
é que não. "Não, mamãe; as opiniões
é que não."
- As opiniões é que não. repetiu Natividade
acabando de ler a carta.
Natividade não acabava de entender os sentimentos do filho,
ela que sacrificara as opiniões aos princípios, como
no caso de Aires, e continuou a viver sem mácula. Como então
não sacrificar?... Não achava explicação.
Relia a frase da carta e a do discurso; tinha medo de o ver perder
a carreira política, se era a política que o faria
grande homem. "Emancipado o preto, resta emancipar o branco",
era uma ameaça ao imperador e ao império.
Não atinou... Nem sempre as mães atinam. Não
atinou que a frase do discurso não era propriamente do filho;
não era de ninguém. Alguém a proferiu um dia.
em discurso ou conversa, em gazeta ou em viagem de terra ou de mar.
Outrem a repetiu, até que muita gente a fez sua. Era nova,
era enérgica, era expressiva, ficou sendo patrimônio
comum.
Há frases assim felizes. Nascem modestamente, como a gente
pobre; quando menos pensam, estão governando o mundo, à
semelhança das idéias. As próprias idéias
nem sempre conservam o nome do pai; muitas aparecem órfãs,
nascidas de nada e de ninguém. Cada um pega delas, verte-as
como pode, e vai levá-las à feira, onde todos as têm
por suas.
CAPÍTULO XXXVIII / CHEGADA A PROPÓSITO
Quando, às
duas horas da tarde do dia seguinte, Natividade se meteu no bonde,
para ir a não sei que compras na Rua do Ouvidor, levava a
frase consigo. A vista da enseada não a distraiu, nem a gente
que passava, nem os incidentes da rua, nada; a frase ia diante e
dentro dela, com o seu aspecto e tom de ameaça. No Catete,
alguém entrou de salto, sem fazer parar o veículo.
Adivinha que era o conselheiro; adivinha também que, posto
o pé no estribo, e vendo logo adiante a nossa amiga, caminhou
para lá rápido e aceitou a ponta do banco que ela
lhe ofereceu. Depois dos primeiros cumprimentos:
- Pareceu-me vê-la olhar assustada, disse Aires.
- Naturalmente, não imaginei que fosse capaz deste ato de
ginástica.
- Questão de costume. As pernas saltam por si mesmas. Um
dia, deixam-me cair, as rodas passam por cima...
- Fosse como fosse, chegou a propósito.
- Chego sempre a propósito. Já lhe ouvi isso, uma
vez, há muitos anos, ou foi a sua irmã... Ora, espere,
não me esqueceu o motivo; creio que falavam da cabocla do
Castelo. Não se lembra de uma tal ou qual cabocla que morava
no Castelo, e adivinhava a sorte da gente? Eu estava aqui de licença,
e ouvi dizer coisas do arco-da-velha. Como sempre tive fé
em Sibilas, acreditei na cabocla. Que fim levou ela?
Natividade olhou para ele, como receando se teria adivinhado então
a consulta que ela fez à cabocla. Pareceu-lhe que não,
sorriu e chamou-lhe incrédulo. Aires negou que fosse incrédulo;
ao contrário, sendo tolerante, professava virtualmente todas
as crenças deste mundo. E concluiu:
- Mas, enfim, por que é que chego a propósito?
Ou o passado, ou a pessoa, com as suas maneiras discretas e espírito
repousado, ou tudo isso junto, dava a este homem, relativamente
a esta senhora, uma confiança que ela não achava agora
em ninguém, ou acharia em poucos. Falou-lhe de uma confidência,
um papel que não mostraria ao marido.
- Quero um conselho, conselheiro; e demais, para que incomodar a
meu marido? Quando muito, contarei o negócio a mana Perpétua.
Acho melhor não dizer nada a Agostinho.
Aires concordou que não valia a pena aborrecê-lo, se
era caso disso, e esperou. Natividade, sem falar da cabocla, contou
primeiro a rivalidade dos filhos, já manifesta em política,
e tratando especialmente de Paulo, repetiu-lhe a frase da carta
e perguntou o que cumpria fazer mais útil. Aires entendeu
que eram ardores da mocidade. Que não teimasse; teimando,
ele mudaria de palavras, mas não de sentimentos.
- Então crê que Paulo será sempre isto?
- Sempre, não digo; também não digo o contrário.
Baronesa, a senhora exige respostas definitivas, mas diga-me o que
é que há definitivo neste mundo, a não ser
o voltarete de seu marido? Esse mesmo falha. Há quantos dias
não sei o que é uma licença? É verdade
que não tenho aparecido. E depois, o prazer da conversação
paga bem o das cartas. Aposto que os homens casados que lá
vão são de outro parecer?
- Talvez.
- Só os solteirões podem avaliar as idéias
das mulheres. Um viúvo sem filhos, como eu, vale por um solteirão;
minto, aos sessenta anos, como eu, vale por dois ou três.
Quanto ao jovem Paulo. não pense mais no discurso. Também
eu discursei em rapaz.
- Já cuidei em casá-los.
- Casar é bom, assentiu Aires.
- Não digo casar já, mas daqui a dois ou três
anos. Talvez faça antes uma viagem com eles. Que lhe parece?
Vamos lá, não me responda repetindo o que eu digo.
Quero o seu pensamento verdadeiro. Acha que uma viagem?...
- Acho que uma viagem...
- Acabe.
- As viagens fazem bem, mormente na idade deles. Formam-se para
o ano, não é? Pois então! Antes de começar
qualquer carreira. casados ou não, é útil ver
outras terras... Mas que necessidade tem a senhora de ir com eles?
- As mães...
- Mas eu também (desculpe interrompê-la) mas eu também
sou seu filho. Não acha que o costume, o bom rosto, a graça,
a afeição e todas as prendas grisalhas que a adornam
compõem uma espécie de maternidade? Eu confesso-lhe
que ficaria órfão.
- Pois venha conosco.
- Ah! baronesa, para mim já não há mundo que
valha um bilhete de passagem. Vi tudo por várias línguas.
Agora o mundo começa aqui no cais da Glória ou na
Rua do Ouvidor e acaba no Cemitério de S. João Batista.
Ouço que há uns mares tenebrosos para os lados da
Ponta do Caju, mas eu sou um velho incrédulo, como a senhora
dizia há pouco, e não aceito essas notícias
sem prova cabal e visual, e para ir averiguá-las, falíam-me
pernas.
- Sempre gracioso! Não as vi treparem agora? Sua irmã
disse-me outro dia que o senhor anda como aos trinta anos.
- Rita exagera. Mas, voltando à viagem, a senhora ainda não
comprou os bilhetes?
- Não.
- Não os encomendou sequer?
- Também não.
- Então, pensemos em outra coisa. Cada dia traz a sua ocupação,
quanto mais as semanas e os meses. Pensemos em outra coisa. e deixe
lá o Paulo pedir a república.
Natividade achou consigo que ele tinha razão; depois, pensou
em outra coisa, e esta foi a idéia do princípio. Não
disse logo o que era; preferiu conversar alguns minutos. Não
era difícil com este sujeito. Uma das suas qualidades era
falar com mulheres, sem descair na banalidade nem subir às
nuvens; tinha um modo particular, que não sei se estava na
idéia, se no gesto, se na palavra. Não é que
falasse mal de ninguém, e aliás seria uma distração.
Quero crer que não dissesse mal por indiferença ou
cautela; provisoriamente, ponhamos caridade.
- Mas, a senhora ainda me não disse o que queria de mim,
além do conselho. Ou não quer mais nada?
- Custa-me pedir-lhe.
- Peça sempre.
- Sabe que os meus dois gêmeos não combinam em nada,
ou só em pouco, por mais esforços que eu tenha feito
para os trazer a certa harmonia. Agostinho não me ajuda;
tem outros cuidados. Eu mesma já não me sinto com
forças, e então pensei que um amigo, um homem moderado,
um homem de sociedade, hábil, fino, cauteloso, inteligente,
instruído...
- Eu, em suma?
- Adivinhou.
- Não adivinhei; é o meu retrato em pessoa. Mas então
que lhe parece que possa fazer?
- Pode corrigi-los por boas maneiras; fazê-los unidos, ainda
quando discordem, e que discordem pouco ou nada. Não imagina;
parece até propósito. Não discordam da cor
da Lua, por exemplo, mas aos onze anos Pedro descobriu que as sombras
da Lua eram nuvens, e Paulo que eram falhas da nossa vista, e atracaram-se;
eu é que os separei. Imagine em política...
- Imagine em amores, diga logo; mas não é propriamente
para este caso...
- Oh! não!
- Para os outros é igualmente inútil, mas eu nasci
para servir, ainda inutilmente. Baronesa, o seu pedido equivale
a nomear-me aio ou preceptor... Não faça gestos; não
me dou por diminuído. Contanto que me pague os ordenados...
E não se assuste; peço pouco, pague-me em palavras;
as suas palavras são de ouro. Já lhe disse que toda
a minha ação é inútil.
- Por quê?
- É inútil.
- Uma pessoa de autoridade, como o senhor, pode muito, contanto
que os ame, porque eles são bons, creia. Conhece-os bem?
- Pouco.
- Conheça-os mais e verá.
Aires concordou rindo. Para Natividade valia por uma tentativa nova.
Confiava na ação do conselheiro, e para dizer tudo...
Não sei se diga... Digo. Natividade contava com a antiga
inclinação do velho diplomata. As cãs não
lhe tirariam o desejo de a servir. Não sei quem me lê
nesta ocasião. Se é homem, talvez não entenda
logo, mas se é mulher creio que entenderá. Se ninguém
entender, paciência; basta saber que ele prometeu o que ela
quis, e também prometeu calar-se; foi a condição
que a outra lhe pos. Tudo isso polido, sincero e incrédulo.
CAPÍTULO
XXXIX / UM GATUNO
Chegaram ao
Largo da Carioca, apearam-se e despediram-se; ela entrou pela Rua
Gonçalves Dias, ele enfiou pela da Carioca. No meio desta,
Aires encontrou um magote de gente parada, logo depois andando em
direção ao largo. Aires quis arrepiar caminho, não
de medo, mas de horror. Tinha horror à multidão. Viu
que a gente era pouca, cinqüenta ou sessenta pessoas, e ouviu
que bradava contra a prisão de um homem. Entrou num corredor,
à espera que o magote passasse. Duas praças de polícia
traziam o preso pelo braço. De quando em quando, este resistia,
e então era preciso arrastá-lo ou forçá-lo
por outro método. Tratava-se, ao que parece, do furto de
uma carteira.
- Não furtei nada! - bradava o preso detendo o passo. É
falso! Larguem-me! sou um cidadão livre! Protesto! protesto!
- Siga para a estação!
- Não sigo!
- Não siga! bradava a gente anônima. Não siga!
não siga!
Uma das praças quis convencer a multidão que era verdade,
que o sujeito furtara uma carteira, e o desassossego pareceu minorar
um pouco; mas, indo a praça a andar com a outra e o preso,
- cada uma pegando-lhe um dos braços, a multidão recomeçou
a bradar contra a violência. O preso sentiu-se animado, e
ora lastimoso, ora agressivo, convidava a defesa. Foi então
que a outra praça desembainhou a espada para fazer um claro.
A gente voou, não airosamente, como a andorinha ou a pomba,
em busca do ninho ou do alimento, voou de atropelo, pula aqui, pula
ali, pula acolá, para todos os lados. A espada entrou na
bainha, e o preso seguiu com as praças. Mas logo os peitos
tomaram vingança das pernas, e um clamor ingente, largo,
desafrontando, encheu a rua e a alma do preso. A multidão
fez-se outra vez compacta e caminhou para a estação
policial. Aires seguiu caminho.
A vozeira morreu pouco a pouco, e Aires entrou na Secretaria do
Império. Não achou o ministro, parece, ou a conferência
foi curta. Certo é que, saindo à praça, encontrou
partes do magoté que tornavam comentando a prisão
e o ladrão. Não diziam ladrão, mas gatuno,
fiando que era mais doce, e tanto bradavam há pouco contra
a ação das praças, como riam agora das lástimas
do preso.
- Ora o sujeito!
Mas então... perguntarás tu. Aires não perguntou
nada. Ao cabo, havia um fundo de justiça naquela manifestação
dupla e contraditória; foi o que ele pensou. Depois, imaginou
que a grita da multidão protestante era filha de um velho
instinto de resistência à autoridade. Advertiu que
o homem, uma vez criado, desobedeceu logo ao Criador, que aliás
lhe dera um paraíso para viver; mas não há
paraíso que valha o gosto da oposição. Que
o homem se acostume às leis, vá; que incline o colo
à força e ao bel-prazer, vá também;
é o que se dá com a planta, quando sopra o vento.
Mas que abençoe a força e cumpra as leis sempre, sempre,
sempre, é violar a liberdade primitiva, a liberdade do velho
Adão. Ia assim cogitando o conselheiro Aires.
Não lhe atribuam todas essas idéias. Pensava assim,
como se falasse alto, à mesa ou na sala de alguém.
Era um processo de crítica mansa e delicada, tão convencida
em aparência, que algum ouvinte, à cata de idéias,
acabava por lhe apanhar uma ou duas...
Ia a descer pela Rua Sete de Setembro, quando a lembrança
da vozeria trouxe a de outra, maior e mais remota.
CAPÍTULO
XL / RECUERDOS
Essa outra vozeria
maior e mais remota não caberia aqui, se não fosse
a necessidade de explicar o gesto repentino com que Aires parou
na calçada. Parou, tornou a si e continuou a andar com os
olhos no chão e a alma em Caracas. Foi em Caracas, onde ele
servirá na qualidade de adido de legação. Estava
em casa, de palestra com uma atriz da moda, pessoa chistosa e garrida.
De repente, ouviram um clamor grande, vozes tumultuosas, vibrantes,
crescentes...
- Que rumor é este, Carmen? perguntou ele entre duas carícias.
- Não se assuste, amigo meu; é o governo que cai.
- Mas eu ouço aclamações...
- Então é o governo que sobe. Não se assuste.
Amanhã é tempo de ir cumprimentá-lo.
Aires deixou-se ir rio abaixo daquela memória velha, que
lhe surdia agora do alarido de cinqüenta ou sessenta pessoas.
Essa espécie de lembranças tinha mais efeito nele
que outras. Recompôs a hora, o lugar e a pessoa da sevilhana.
Cármen era de Sevilha. O ex-rapaz ainda agora recordava a
cantiga popular que lhe ouvia, à despedida, depois de retificar
as ligas, compor as saias, e cravar o pente no cabelo, - no momento
em que ia deitar a mantilha, meneando o corpo com graça:
Tienen las sevillanas,
En la mantilla,
Un letrero que dice:
¡Viva Sevilla!
Não posso dar a toada, mas Aires ainda a trazia de cor, e
vinha a repeti-la consigo, vagarosamente, como ia andando. Outrossim,
meditava na ausência de vocação diplomática.
A ascensão de um governo, - de um regímen que fosse,
- com as suas idéias novas, os seus homens frescos, leis
e aclamações, valia menos para ele que o riso da jovem
comediante. Onde iria ela? A sombra da moça varreu tudo o
mais, a rua, a gente, o gatuno, para ficar só diante do velho
Aires, dando aos quadris e cantarolando a trova andaluza:
Tienen las sevillanas,
En la mantilla...
CAPÍTULO
XLI / CASO DO BURRO
Se Aires obedecesse
ao seu gosto, e eu a ele, nem ele continuaria a andar, nem eu começaria
este capítulo; ficaríamos no outro, sem nunca mais
acabá-lo. Mas não há na memória que
dure, se outro negócio mais forte puxa pela atenção,
e um simples burro fez desaparecer Cármen e a sua trova.
Foi o caso que uma carroça estava parada, ao pé da
Travessa de S. Francisco, sem deixar passar um carro, e o carroceiro
dava muita pancada no burro da carroça. Vulgar embora, este
espetáculo fez parar o nosso Aires, não menos condoído
do asno do homem. A força despendida por este era grande,
porque o asno ruminava se devia ou não sair do lugar; mas,
não obstante esta superioridade, apanhava que era o diabo.
Já havia algumas pessoas paradas, mirando. Cinco ou seis
minutos durou esta situação; finalmente o burro preferiu
a marcha à pancada, tirou a carroça do lugar e foi
andando.
Nos olhos redondos do animal viu Aires uma expressão profunda
de ironia e paciência. Pareceu-lhe o gesto largo de espírito
invencível. Depois leu neles este monólogo; "Anda,
patrão, atulha a carroça de carga para ganhar o capim
de que me alimentas. Vive de pé no chão para comprar
as minhas ferraduras. Nem por isso me impedirás que te chame
um nome feio, mas eu não te chamo nada; ficas sendo sempre
o meu querido patrão. Enquanto te esfalfas em ganhar a vida,
eu vou pensando que o teu domínio não vale muito,
uma vez que me não tiras a liberdade de teimar..."
- Vê-se, quase que se lhe ouve a reflexão, notou Aires
consigo.
Depois riu de si para si, e foi andando. Inventara tanta coisa no
serviço diplomático, que talvez inventasse o monólogo
do burro. Assim foi; não lhe leu nada nos olhos, a não
ser a ironia e a paciência, mas não se pôde ter
que lhes não desse uma forma de palavra, com as suas regras
de sintaxe. A própria ironia estava acaso na retina dele.
O olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o
ouvido serve de eco ao silêncio. Tudo é que o dono
tenha um lampejo de imaginação para ajudar a memória
a esquecer Caracas e Cármen, os seus beijos e experiência
política.
CAPÍTULO
XLII / UMA HIPÓTESE
Visões
e reminiscências iam assim comendo o tempo e o espaço
ao conselheiro, a ponto de lhe fazerem esquecer o pedido de Natividade;
mas não o esqueceu de todo, e as palavras trocadas há
pouco surdiam-lhe das pedras da rua. Considerou que não perdia
muito em estudar os rapazes. Chegou a apanhar uma hipótese,
espécie de andorinha, que avoaça entre árvores,
abaixo e acima, pousa aqui, pousa ali, arranca de novo um surto
e toda se despeja em movimentos. Tal foi a hipótese vaga
e colorida, a saber, que se os gêmeos tivessem nascido dele
talvez não divergissem tanto nem nada, graças ao equilíbrio
do seu espírito. A alma do velho entrou a ramalhar não
sei que desejos retrospectivos, e a rever essa hipótese,
outra Caracas, outra Cármen, ele pai, estes meninos seus,
toda a andorinha que se dispersava num farfalhar calado de gestos.