ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
CAPÍTULO XCVIII / O MÉDICO AIRES
Um dia pareceu
à mãe que a filha andava nervosa. Interrogou-a e apenas
descobriu que Flora padecia de vertigens e esquecimentos. Foi justamente
um dia em que Aires lá apareceu de visita, com recados de
Natividade. A mãe falou-lhe primeiro e confiou-lhe os seus
sustos. Pediu-lhe que a interrogasse também. Aires fez de
médico, e, quando a moça apareceu e a mãe os
deixou na sala, cuidou de a interrogar cautelosamente.
Vão propósito, porque ela mesma iniciou a conversação,
queixando-se de dor de cabeça. Aires observou que dor de
cabeça era moléstia de moça bonita, e, tendo
confessado que este dito era banal, descobriu-lhe o motivo. Não
queria perder a ocasião de lhe dizer o que toda a gente sabia
e dizia, não só aqui, como em Petrópolis.
- Por que não vai a Petrópolis? concluiu.
- Espero fazer outra viagem mais longa. muito longa...
- Para o outro mundo, aposto?
- Acertou.
- Já tem bilhete de passagem?
- Comprarei no dia do embarque.
- Talvez não ache. Há grande concorrência para
aquelas paragens; melhor é comprar antes, e, se quer, eu
me encarrego disso; comprarei outro para mim, e iremos juntos. A
travessia, quando não há conhecidos, deve ser fastidiosa;
às vezes, os próprios conhecidos aborrecem, como sucede
neste mundo. As saudades da vida é que são agradáveis.
A gente de bordo é vulgar, mas o comandante impõe
confiança. Não abre a boca, dá as suas ordens
por gestos, e não consta que haja naufragado.
- O senhor está caçoando comigo; eu creio até
que estou com febre.
- Deixe ver.
Flora estendeu-lhe o pulso; ele, com ar profundo:
- Está; febre de quarenta e sete graus, a mão está
ardendo, mas isto mesmo prova que não é nada, porque
aquelas viagens fazem-se com as mãos frias. Há de
ser constipação, fale a sua mãe.
- Mamãe não cura.
- Pode curar, há remédios caseiros, em todo caso,
peça-lhe, e ela pode mandar chamar um médico.
- Médico dá tisanas, e eu não gosto de tisanas.
- Nem eu, mas tolero-as. Por que não experimenta a homeopatia,
que não tem gosto, como a alopatia?
- Qual é a que lhe parece melhor?
- A melhor? Só Deus é grande.
Flora sorriu, de um sorriso pálido, e o conselheiro percebeu
algo que não era tristeza de passagem ou de criança.
Novamente lhe falou de Petrópolis, mas não insistiu.
Petrópolis era a agravação do momento atual.
- Petrópolis tem o mal das chuvas, continuou. Eu, se fosse
a senhora, saía desta casa e desta rua; vá para outro
bairro, casa amiga, com sua mãe ou sem ela...
- Para onde? perguntou Flora ansiosa.
E ficou a olhar, esperando. Não tinha casa amiga, ou não
se lembrava, e queria que ele mesmo escolhesse alguma, onde quer
que fosse, e quanto mais longe, melhor. Foi o que ele leu nos olhos
parados. É ler muito, mas os bons diplomatas guardam o talento
de saber tudo o que lhes diz um rosto calado, e até o contrário.
Aires fora diplomata excelente, apesar da aventura de Caracas, se
não é que essa mesma lhe aguçou a vocação
de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia estar nestes dois verbos
parentes.
CAPÍTULO
XCIX / A TÍTULO DE ARES NOVOS
- Vou arranjar-lhe
uma casa boa, disse ele, à despedida.
Desde que estava em Petrópolis, Aires não ia jantar
a Andaraí, com a irmã, às quintas-feiras, segundo
ajustara e consta do capítulo XXXII. Agora foi lá,
e cinco dias depois Flora transferia-se para a casa dela, a título
de ares novos. D. Rita não consentiu que D. Cláudia
lhe levasse a filha, ela mesma a foi buscar a S. Clemente, e Aires
acompanhou as três.
A mocidade de Flora na casa de D. Rita foi como uma rosa nascida
ao pé do paredão velho. O paredão remoçou.
A simples flor, ainda que pálida, alegrou o barro gretado
e as pedras despidas. D. Rita vivia encantada; Flora pagava o agasalho
da dona da casa com tanta ingenuidade e graça, que esta acabou
por lhe dizer que a roubaria à mãe e ao pai, e foi
ainda ocasião de riso para as duas.
"Você me deu um lindo presente com esta moça,
escrevia D. Rita ao irmão; foi uma alma nova, e veio em boa
ocasião, porque a minha anda já caduca. É muito
docilzinha, conversa, toca e desenha que faz gosto, tem aqui tirado
riscos de várias coisas, e eu saio com ela para lhe mostrar
vistas apreciáveis. Às vezes, apresenta uma cara triste,
olha vagamente, e suspira; mas eu pergunto-lhe se são saudades
de S. Clemente, ela sorri e faz um gesto de indiferença.
Não lhe falo dos nervos, para a afligir, mas creio que vai
melhor..."
Flora também escreveu ao Conselheiro Aires, e as duas cartas
chegaram à mesma hora a Petrópolis. A de Flora era
um agradecimento grande e cordial, mal entremeado de alguma palavra
saudosa; confirmava assim a carta da outra, posto não a houvesse
lido. Aires comparou-as, lendo duas vezes a da moça para
ver se ela escondia mais do que transparecia do papel. Em suma,
confiava no remédio.
"Não os vendo, esquece-os", pensou ele; "e
na vizinhança houver alguém que pensa em gostar dela,
é possível que acabe casando".
Respondeu a ambas, na mesma noite, dizendo-lhes que na quinta-feira
iria almoçar com elas. A D. Cláudia escreveu mandando-lhe
a carta da irmã, e foi passar a noite em casa de Natividade,
a quem deu a ler as cinco cartas. Natividade aprovou tudo. Notava
só que os filhos não lhe escreviam, e deviam estar
desesperados.
- A Santa Casa cura, e a Biblioteca Nacional também, retorquiu
Aires.
Na quinta-feira, Aires desceu e foi almoçar a Andaraí.
Achou-as como as tinha lido nas cartas. Interrogou-as separadamente
para ouvir por boca as confissões do papel; eram as mesmas.
D. Rita parecia ainda mais encantada. Talvez a causa recente fosse
a confidência que fez a moça, na véspera. Como
falassem de cabelos, D. Rita referiu o que também consta
do cap. XXXII, isto é, que cortara os seus para os meter
no caixão do marido, quando o levaram a enterrar. Flora não
a deixou acabar; pegou-lhe das mãos e apertou-as muito.
- Nenhuma outra viúva faria isto, disse ela.
Aqui foi D. Rita que lhe pegou nas mãos, pô-las sobre
os seus ombros, e concluiu o gesto por um abraço. Todas as
pessoas louvaram-lhe a abnegação do ato; esta era
a primeira que a achou única. E daí outro abraço
longo, mais longo...
CAPÍTULO
C / DUAS CABEÇAS
Tão longo
foi o abraço que tomou o resto ao capítulo. Este começa
sem ele nem outro. O mesmo aperto de mão de Aires e Flora,
se foi demorado, também acabou. O almoço fez gastar
algum tempo mais que de costume, porque Aires, além de conversador
emérito, não se fartava de ouvir as duas, principalmente
a moça. Achava-lhe um toque de languidez, abatimento ou coisa
próxima, que não encontro no meu vocabulário.
Flora mostrou-lhe os desenhos que fizera, paisagens, figuras, um
pedaço da Estrada da Tijuca, um chafariz antigo, um Princípio
de casa. Era uma dessas casas, que alguém começou
muitos anos antes, e ninguém acabou, ficando só duas
ou três paredes, ruína sem história. Havia ainda
outros desenhos, uma revoada de pássaros, um vaso à
janela. Aires ia folheando, cheio de curiosidade e paciência;
a intenção da obra supria a perfeição,
e a fidelidade devia ser aproximada. Enfim, a moça atou os
cordões à pasta. Aires, parecendo-lhe que ficara um
desenho último e escondido, pediu que lho mostrasse.
- É um esboço, não vale a pena.
- Tudo vale a pena; quero acompanhar as tentativas da artista; deixe
ver.
- Não vale a pena...
Aires insistiu; ela não pôde recusar mais tempo, abriu
a pasta, e tirou um pedaço de papel grosso em que estavam
desenhadas duas cabeças juntas e iguais. Não teriam
a perfeição desejada por ela; não obstante,
dispensavam os nomes. Aires considerou a obra, durante alguns minutos,
e duas ou três vezes levantou os olhos para a autora. Flora
já os esperava, interrogativa; queria ouvir o louvor ou a
crítica, mas não ouviu nada. Aires acabou de observar
as duas cabeças, e pousou o desenho entre os papéis.
- Não lhe dizia que era um esboço? perguntou Flora,
a ver se lhe arrancava uma palavra.
Mas o ex-ministro preferiu não dizer nada. Em vez de achar
quase extinta a influência dos gêmeos, vinha dar com
ela feita consolação da ausência, tão
viva que bastava a memória, sem presença dos modelos.
As duas cabeças estavam ligadas por um veículo escondido.
Flora, vendo continuar o silêncio de Aires, compreendeu acaso
parte do que lhe passava no espírito. Com um gesto pronto,
pegou do desenho e deu-lho. Não lhe disse nada, menos ainda
escreveu qualquer palavra. Qualquer .que fosse, seria indiscreta.
Demais, era o único desenho a que ela não pôs
assinatura. Deu-lho como se fora um penhor de arrependimento. Em
seguida, atou novamente as fitas da pasta, enquanto Aires rasgava
calado o desenho e metia os pedaços no bolso. Flora ficou
por um instante parada, boca entreaberta mas logo lhe apertou a
mão, agradecida. Não pôde evitar que lhe caíssem
duas pequeninas lágrimas, - como outras tantas fitas que
lhe atavam para sempre a pasta do passado.
A imagem não é boa, nem verdadeira; foi a que acudiu
ao conselheiro, andando, ao voltar de Andaraí. Chegou a escrevê-la
no Memorial, depois riscou-a, e escreveu uma reflexão menos
definitiva: "Talvez seja uma lágrima para cada gêmeo."
"Pode acabar com o tempo, pensou ele indo para a barca de Petrópolis.
Não importa; é um caso embrulhado."
CAPÍTULO
CI / O CASO EMBRULHADO
Também
os gêmeos achavam o caso embrulhado. Quando iam a S. Clemente,
tinham notícias da moça, sem que lhes dessem certeza
do regresso. O tempo andava; não tardaria que consultassem
a sorte, como dois antigos.
A rigor, não contavam as semanas de interrupção,
uma vez que a escolha se não dava, e eles podiam trazer da
consulta o contrário da inclinação definitiva
da moça. Reflexão justa, posto que interessada. Cada
um deles não queria mais que prolongar a batalha, esperando
vencê-la. Entretanto, não confiavam um do outro este
pensamento gêmeo, como eles. Ambos se iam sentindo exclusivos,
a afeição tinha agora o seu pudor e necessidade de
calar. Já não falavam de Flora.
Nem só de Flora. Crescendo a oposição, recorriam
ao silêncio. Evitavam-se; se podiam, não comiam juntos;
se comiam juntos, diziam pouco ou nada. Às vezes, falavam
para tirar aos criados qualquer suspeita, mas não advertiam
que falavam mal e forçadamente, e que os criados iam comentar
as palavras e a expressão deles na copa. A satisfação
com que estes comunicavam os seus achados e conclusões é
das poucas que adoçam o serviço doméstico,
geralmente rude. Não chegavam, porém, ao ponto de
concluir tudo o que os ia tornando cada vez mais avessos, a ponto
de ódio que crescia com a ausência da mãe. Era
mais que Flora, como sabeis; eram as próprias pessoas inconciliáveis.
Um dia houve na copa e na cozinha grande novidade. Pedro, a pretexto
de sentir mais calor que Paulo, mudou de quarto e foi dormir mal
em outro não menos quente que o primeiro.
CAPÍTULO
CII / VISÃO PEDE MEIA SOMBRA
Entretanto,
a bela moça não os tirava da mesma alcova sua, por
mais que buscasse deveras fugir-lhes. A memória os trazia
pela mão, eles entravam e ficavam. Iam depois embora, ou
de si mesmos, ou empurrados por ela. Quando tornavam, era de surpresa.
Um dia; Flora aproveitou a presença para fazer um desenho
igual ao que dera ao conselheiro, mais perfeito agora, muito mais
acabado.
Também cansava. Então saía do quarto e ia para
o piano. Eles iam com ela, sentavam-se aos lados ou ficavam defronte,
em pé, e ouviam com atenção religiosa, ora
um noturno, ora uma tarantela. Flora tocava ao sabor de ambos, sem
deliberação; os dedos é que obedeciam à
mecânica da alma. Para os não ver, inclinava a cabeça
sobre o teclado; mas o campo da visão os guardava, se não
era a respiração que se fazia sentir defronte ou dos
lados. Tal era a sutileza dos seus sentidos.
Se fechava o piano e descia ao jardim, sucedia muita vez que os
ia achar ali, passeando, e a cumprimentavam com tão boa sombra,
que ela esquecia por instantes a impaciência. Depois, sem
que os mandasse, iam embora. Nos primeiros tempos, Flora tinha medo
que a houvessem abandonado de todo, e chamava-os dentro de si. Ambos
tornavam logo, tão dóceis, que ela acabou de se convencer
que a fuga não era fuga, nem eles sentiam desespero, e não
os evocou mais. No jardim era mais rápido o desaparecimento,
talvez pela extrema claridade do lugar. Visão pede meia sombra.
CAPÍTULO
CIII / O QUARTO
Sei, sei, três
vezes sei que há muitas visões dessas nas páginas
que lá ficam. Ulisses confessa a Alcinos que lhe é
enfadonho contar as mesmas coisas. Também a mim. Sou, porém,
obrigado a elas, porque sem elas a nossa Flora seria menos Flora,
seria outra pessoa que não conheci. Conheci esta, com as
suas obsessões ou como quer que lhes chames.
Nem por isso, nem ainda porque houvesse colhido algum abatimento
e nervos, deixava Flora de enfeitar muito, de se fazer mais linda,
e ter mais de um namorado incógnito, que suspirava por ela.
Não faltava quem a admirasse de passagem, e fosse vê-la,
quando menos, no banco verde, à porta do jardim, ao pé
da irmã de Aires. Pode ser que conhecesse algum, Gouveia,
por exemplo; em verdade, era como se os não visse.
Um deles valia mais que todos pela carruagem, - tirada por uma bela
parelha de cavalos, - capitalista do bairro. A casa dele era um
palacete, os móveis feitos na Europa, estilo império,
aparelhos de Sèvres e de prata, tapetes de Esmirna, e uma
vasta camara com dois leitos, um de solteiro, outro de casados.
O segundo esperava a esposa.
"A esposa há de ser esta", pensou ele um dia, ao
ver Flora.
Era maduro; trazia o rosto batido dos ventos da vida, a despeito
das muitas águas de toucador; ao corpo faltava aprumo, e
as maneiras não tinham graça nem naturalidade. Era
o Nóbrega, aquele da nota de dois mil-réis, nota fecunda,
que deitou de si muitas outras, mais de dois mil contos de réis.
Para as notas recentes, a avó perdia-se na noite dos tempos.
Agora os tempos eram claros, a manhã doce e pura.
Quando viu a moça, e fez a reflexão que lá
fica, estranhou-se a si próprio. Vira outras damas, e mais
de uma com escritos nos olhos, dizendo-lhe o vazio do coração.
Esta era a primeira que veramente lhe prendeu a vontade e lhe deteve
o pensamento. Tornou a vê-la; a gente vizinha notou porventura
a freqüência recente do capitalista. Enfim, Nóbrega
acabou por se fazer entrado na casa de D. Rita, com desgosto dos
seus habitantes, que assim se viam esquecidos do anfitrião.
Nóbrega, entretanto, dera ordens bastantes para que fossem
todos servidos e agasalhados, como se ele estivesse presente.
A ausência não lhe faria perder as loas dos amigos.
Ao contrário, os servos podiam dar testemunho do que todos
eles pensavam do "grande homem". Tal era o nome que lhe
aplicara o secretário particular, e pegou. Nóbrega
sabia pouca ortografia, nenhuma sintaxe, lições úteis,
decerto, mas que não valiam a moral, e a moral, diziam todos,
acompanhando o secretário, era o seu principal e maior mérito.
O fiel escriba acrescentava, que sendo preciso despir a camisa e
dá-la a um mendigo, Nóbrega o faria, ainda que a camisa
fosse bordada.
Agora mesmo, este amor era, ao cabo, um movimento de caridade. Em
pouco tempo, aquele gosto de relance passou a grande paixão,
tão grande que ele não a pôde conter, e resolveu
confessá-la. Hesitou se o faria à própria moça
ou à dona da casa. Não tinha ânimo para uma
nem outra. Uma carta supria tudo, mas a carta pedia língua,
calor e respeito. Se, ao menos, o gesto de Flora lhe dissesse alguma
coisa, ainda que pouca, vá; a carta seria então uma
resposta. Mas não lhe dizia nada o gesto da moça.
Era só cortês e gracioso; não ia além
dessas duas expressões.
D. Rita percebeu a inclinação de Nóbrega e
achou que era a melhor solução da vida para a hóspede.
Todas as incertezas, angústias e melancolias vinham acabar
nos braços de um ricaço, estimado, respeitado, dentro
de um palacete com uma carruagem às ordens... Ela mesma punha
em relevo este prêmio grande da loteria de Espanha.
Enfim, o secretário de Nóbrega redigiu com a melhor
linguagem que possuía uma carta em que o capitalista pedia
a D. Rita o favor de consultar a moça amada.
- Não escreva palavrinhas doces, recomendou ele ao secretário.
Gosto dessa moça com um sentimento de proteção,
antes que outra coisa. Não é carta de namorado. Estilo
grave...
- Uma carta seca, concluiu o secretário.
- Totalmente seca, não, emendou Nóbrega, uma carta
lisonjeira, sem esquecer que não sou criança.
Assim se cumpriu. Ia a cumprir-se demais; Nóbrega achou que
o estilo podia ser um tanto ameno; não fazia mal pôr
duas ou três palavras apropriadas ao objeto, beleza, coração,
sentimento... Assim se cumpriu finalmente, e a carta foi levada
ao seu destino. D. Rita ficou contentíssima. Justamente o
que ela queria. Tinha o plano feito de concluir, por ato seu, uma
história melancólica, a que daria, por derradeira
página, conclusão deslumbrante. Não pensou
em dizê-lo primeiro ao irmão, pela razão de
querer que ele recebesse a notícia completa, tudo feito e
acabado. Releu a carta; dispôs-se a ir logo, mas há
pessoas para quem o adágio que diz que "o melhor da
festa é esperar por ela", resume todo o prazer da vida.
D. Rita tinha essa opinião. Todavia, entendeu que tais cartas
não são das que se guardam largo tempo, nem aliás
das que se comunicam sem cautela. Esperou vinte e quatro horas.
Na manhã seguinte, depois de almoçadas, leu a carta
à moça. O natural é que Flora ficasse espantada.
Ficou, mas não tardou que risse, de um riso franco e sonoro,
como ainda não rira em Andaraí. D. Rita ficou espantadíssima.
Supunha que, não a pessoa, mas as vantagens e circunstâncias
pleiteassem a favor do candidato. Esquecia os seus cabelos entregues
à sepultura do marido. Deu conselhos à moça,
pôs em relevo a posição do pretendente, o presente
e o futuro, a situação esplêndida que lhe dava
este casamento, e por fim as qualidades morais de Nóbrega.
A moça escutou calada, e acabou rindo outra vez.
- A senhora sabe se serei feliz? perguntou.
- Creio que sim; agora, o futuro é que confirmará
ou não.
- Esperemos que o futuro chegue, conquanto me pareça muito
demorado. Não nego as qualidades daquele homem, parece bom,
e trata-me bem, mas eu não quero casar, D. Rita.
- Realmente, a idade... Mas nem, ao menos, quer pensar alguns dias?
- Está pensado.
D. Rita ainda esperou um dia. A resposta negativa, dado que Flora
viesse a mudar de opinião, podia ser uma desgraça
para esta. Uso os próprios termos dela, consigo, grande desgraça,
posição esplêndida, sentimento profundo. D.
Rita ia aos extremos, diante daquele rico-homem dos últimos
anos do século.
CAPÍTULO
CIV / A RESPOSTA
Não querendo
dar a resposta nua e crua, D. Rita consultou a moça, que
lhe respondeu simplesmente:
- Diga que não pretendo casar.
Quando Nóbrega recebeu as poucas linhas que D. Rita lhe mandou,
ficou assombrado. Não contava com recusa. Ao contrário,
era tão certa a aceitação que ele tinha já
um programa do noivado. Imaginava a moça, os olhos tímidos,
a boca cerrada, o céu que lhe cobriria a linda carinha, a
delicadeza dele, as palavras que lhe diria entrando em casa. Tinha
já composto uma invocação à Mãe
Santíssima, para que os fizesse felizes. "Dou-lhe carro,
dizia consigo, jóias, muitas jóias, as melhores jóias
do mundo..." Nóbrega não fazia idéia exata
do mundo; era expressão. "Hei de dar-lhe tudo, sapatinhos
de seda, meias de seda, que eu mesmo lhe calçarei..."
Estremecia de cor, ao calçar-lhe as meias. Beijava-lhe os
pés e os joelhos.
Tinha imaginado que ela, ao ler a carta, devia ficar tão
pasmada e agradecida, que nos primeiros instantes não pudera
responder a D. Rita; mas logo depois as palavras sairiam do coração
às golfadas. "Sim, senhora, queria, aceitava; não
pensara em outra coisa." Escreveria logo ao pai e à
mãe para lhes pedir licença; eles viriam correndo,
incrédulos, mas, vendo a carta, ouvindo a filha e D. Rita,
não duvidariam da verdade, e dariam o consentimento. Talvez
o pai lho fosse dar em pessoa. E nada, nada, nada, absolutamente
nada, uma simples recusa, uma recusa atrevida, por que enfim quem
era ela, apesar da beleza? uma criatura sem vintém, modestamente
vestida, sem brincos, nunca lhe vira brincos às orelhas,
duas perolazinhas que fossem. E por que é que lhe furaram
as orelhas, se não tinham brincos que lhe dar? Considerou
que às mais pobres meninas do mundo furam as orelhas para
os brincos que lhes possarn cair do céu. E vem esta, e recusa
os mais ricos brincos que o céu ia chover sobre ela...
Ao jantar, os amigos da casa notaram que ele estava preocupado.
De noite, ele e o secretário saíram a pé. Nóbrega
buscou em si o gesto mais frio e indiferente que pôde, quase
alegre, e anunciou ao secretário que Flora não queria
casar. Não se descreve a admiração do secretário,
em seguida a consternação, finalmente a indignação.
Nóbrega respondia magnânimo:
- Não foi por mal; foi talvez por se julgar abaixo, muito
abaixo da fortuna. Creia que é boa moça. Pode ser
também, quem sabe? por ter sido um mau conselho do coração.
Aquela moça é doente.
- Doente?
- Não afirmo; digo que pode ser.
O secretário afirmou.
- Só a doença, disse ele, explicará a ingratidão,
porque o ato é de pura ingratidão.
Aqui tornou a nota da indignação, nota sincera, como
as outras. Nóbrega gostou de ouvi-la; era um compadecimento.
No fim, cumpriu a idéia que trazia ao sair de casa; aumentou-lhe
o ordenado. Podia ser a paga da simpatia; o beneficiado foi mais
longe, achou que era o preço do silêncio, e ninguém
soube de nada.
CAPÍTULO
CV / A REALIDADE
A moléstia,
dada por explicação à recusa do casamento,
passou à realidade daí a dias. Flora adoeceu levemente;
D. Rita, para não alarmar os pais, cuidou de a tratar com
remédios caseiros; depois mandou chamar um médico,
o seu médico, e a cara que este fez não foi boa, antes
má. D. Rita, que costumava ler a gravidade das suas moléstias
no rosto dele, e sempre as achava gravíssimas, cuidou de
avisar os pais da moça. Os pais vieram logo. Natividade também
desceu de Petrópolis, não de vez; em cima, tinham
medo de algum movimento cá embaixo. Veio a visitar a moça,
e, a pedido desta, ficou alguns dias. - Só a senhora pode
me curar, disse Flora; não creio nos remédios que
me dão. As suas palavras é que são boas, e
os seus carinhos... Mamãe também, e D. Rita, mas não
sei, há uma diferença, uma coisa... Veja; parece-me
que até já rio.
- Já, já; ria mais.
Flora sorriu, ainda que daquele sorriso descorado que aparece na
boca do enfermo, quando a moléstia consente, ou ele força
a seriedade própria da dor. Natividade dizia-lhe palavras
de animação; fê-la prometer que iria convalescer
em Petrópolis. A enfermidade começou a ceder. D. Cláudia
aceitou a oferta de D. Rita, e lá ficou aposentada. Natividade
ia à noite para Botafogo e voltava de manhã Aires
descia de Petrópolis um dia sim, um dia não.
Também os gêmeos lá iam saber da enferma. Agora
mais que dantes, sentiam a fortaleza do vínculo que os prendia
à moça. Pedro, já médico, ainda que
sem prática, punha mais autoridade nas perguntas, concluía
melhor dos sintomas, mas as esperanças e os receios eram
de ambos. Algumas vezes, falavam mais alto que de costume e de conveniência.
A razão, por egoísta que fosse, era perdoável.
Supõe que os cartões de visita falassem; alguns, mais
sôfregos, proclamariam os seus nomes, para que soubessem logo
da presença, da cortesia e da ansiedade. Tal cuidado da parte
dos dois era inútil, porque ela sabia deles e recebia as
lembranças que lhe deixavam.
Flora ia assim passando os dias. Queria Natividade sempre ao pé
de si, pela razão que já deu, e por outra que não
disse, nem porventura soube, mas podemos suspeitá-la e imprimir.
Estava ali o ventre abençoado que gerara os dois gêmeos.
De instinto, achava nela algo particular. Quanto ao influxo que
exercia nela, por essa ou qualquer outra causa, não a sabia
Natividade; contentava-se em ver que, ainda agora, e em tal crise,
Flora não perdera a amizade que lhe tinha. Passavam as horas
juntas, falando, se não fazia mal falar, ou então
uma com as mãos da outra entre as suas. Quando Flora adormecia,
Natividade ficava a contemplá-la, com o rosto pálido,
os olhos fundos, as mãos quentes, mas sem perder a graça
dos dias da saúde. As outras entravam no quarto, pé
ante pé, esticavam os pescoços para vê-la dormir,
falavam por gestos ou tão baixo que só o coração
as adivinharia.
Quando pareceu melhorar, Flora pediu um pouco mais de luz e de céu.
Uma das duas janelas foi então escancarada, e a enferma encheu-se
de vida e riso. Não é que a Febre se fosse de todo.
Essa bruxa lívida estava ao canto do quarto, com os olhos
espetados nela; mas, ou de cansada, ou por obrigação
imposta, cochilava a miúdo, e longamente. Então a
enferma sentia só o calor do Mal, que o médico graduava
em trinta e nove ou trinta e nove e meio, depois de consultar o
termômetro. A Febre, ao ver esse gesto, ria sem escândalo,
ria para si.
CAPÍTULO
CVI / AMBOS QUAIS?
Ficamos no ponto
em que uma das janelas do quarto aumentou a dose de luz e de céu
que Flora pediu, sem embargo da febre, aliás pouca. O mais
que se passou valia a pena de um livro. Não foi logo, logo,
gastou longas horas e alguns dias. Houve tempo bastante para que
entre a vida e Flora se fizesse a reconciliação ou
a despedida. Uma e outra podiam ser extensas; também podiam
ser curtas. Conheci um homem que adoeceu velho, se não de
velho, e despendeu no rompimento final um tempo quase infinito.
Já pedia a morte, mas quando via o rosto descarnado da derradeira
amiga espiar da porta entreaberta, voltava o seu para outro lado
e engrolava uma cantiga da infância, para enganá-la
e viver.
Flora não recorria a tais cantigas, aliás tão
próximas. Quando via o céu e um pedaço de sol
no muro, deleitava-se naturalmente, e uma vez quis desenhar, mas
não lho consentiram. Se a morte a espiava da porta, tinha
um calefrio, é verdade, e fechava os olhos. Ao abri-los fitava
a triste figura, sem lhe fugir nem chamar por ela.
- Você amanhã está pronta, e de hoje a oito
dias, ou antes, vamos para Petrópolis, disse Natividade disfarçando
as lágrimas, mas a voz fazia o ofício dos olhos.
- Petrópolis? suspirou a doente.
- Lá terá muito que desenhar.
Eram sete horas da manhã. Na véspera, quando os gêmeos
saíram de lá, já tarde, os receios da morte
cresciam; mas não bastam receios, é preciso que a
realidade venha atrás deles; daí as esperanças.
Também não bastam esperanças, a realidade é
sempre urgente. A madrugada trouxe algum sossego; às sete
horas, depois daquelas palavras de Natividade, Flora pôde
dormir.
Quando Pedro e Paulo voltaram a Andaraí, a enferma estava
acordada, e o médico, sem dar grandes esperanças,
mandou fazer aplicações, que declarou enérgicas.
Todos tinham sinais de lágrimas. De noite, Aires apareceu
trazendo notícias de agitação na cidade.
- Que é?
- Não sei, uns falam de manifestações ao Marechal
Deodoro, outros de conspiração contra o Marechal Floriano.
Há alguma coisa.
Natividade pediu aos filhos que se não metessem em barulhos;
ambos prometeram e cumpriram. Ao ver o aspecto de algumas ruas,
grupos, patrulhas, armas, duas metralhadoras, Itamarati iluminado,
tiveram a curiosidade de saber o que houve e havia; vaga sugestão,
que não durou dois minutos. Correram a meter-se em casa,
e a dormir mal a noite. Na manhã seguinte os criados levaram
os jornais com as notícias da véspera.
- Veio algum recado de Andaraí? perguntou um.
- Não, senhor.
Ainda quiseram ler, por alto, alguma coisa. Não puderam;
estavam ansiosos de sair de casa e saber notícias da noite.
Posto levassem os jornais consigo, não leram claramente nem
seguidamente. Viram nomes de pessoas presas, um decreto, movimento
de gente e de tropas, tão confuso tudo, que deram por si
na casa de D. Rita, antes de entender o que houvera. Flora ainda
vivia.
- Mamãe, a senhora está mais triste hoje que estes
dias.
- Não fales tanto, minha filha, acudiu D. Cláudia.
Triste estou sempre que adoeces. Fica boa e verás.
- Fica, fica boa, interveio Natividade. Eu, em moça, tive
uma doença igual que me prostrou por duas semanas, até
que me levantei, quando já ninguém esperava.
- Então já não esperam que me levante?
Natividade quis rir da conclusão tão pronta, com o
fim de a animar. A doente fechou os olhos, abriu-os daí a
pouco, e pediu que vissem se estava com febre. Viram; tinha, tinha
muita.
- Abram-me a janela toda.
- Não sei se fará bem, ponderou D. Rita.
- Mal não faz, disse Natividade.
E foi abrir, não toda, mas metade da janela. Flora, posto
que já mui caída, fez esforço e voltou-se para
o lado da luz. Nessa posição ficou sem dar de si;
os olhos, a princípio vagos, entraram a parar, até
que ficaram fixos. A gente entrava no quarto devagar, e abafando
os passos, trazendo recados e levando-os; fora, espreitavam o médico.
- Demora-se; já devia cá estar, dizia Batista.
Pedro era médico, propôs-se a ir ver a enferma; Paulo,
não podendo entrar também, ponderou que seria desagradável
ao médico assistente; além disso, faltava-lhe prática.
Um e outro queriam assistir ao passamento de Flora, se tinha de
vir. A mãe, que os ouviu, saiu à sala, e, sabendo
o que era, respondeu negativamente. Não podiam entrar; era
melhor que fossem chamar o médico.
- Quem é? perguntou Flora, ao vê-la tornar ao quarto.
- São os meus filhos que queriam entrar ambos.
- Ambos quais? perguntou Flora.
Esta palavra fez crer que era o delírio que começava,
se não é que acabava, porque, em verdade, Flora não
proferiu mais nada. Natividade ia pelo delírio. Aires, quando
lhe repetiram o diálogo, rejeitou o delírio.
A morte não tardou. Veio mais depressa do que se receava
agora. Todas e o pai acudiram a rodear o leito, onde os sinais da
agonia se precipitavam. Flora acabou como uma dessas tardes rápidas,
não tanto que não façam ir doendo as saudades
do dia; acabou tão serenamente que a expressão do
rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de defunta que de
escultura. As janelas, escancaradas, deixavam entrar o sol e o céu.
CAPÍTULO
CVII / ESTADO DE SÍTIO
Não há
novidade nos enterros. Aquele teve a circunstância de percorrer
as ruas em estado de sítio. Bem pensado, a morte não
é outra coisa mais que uma cessação da liberdade
de viver, cessação perpétua, ao passo que o
decreto daquele dia valeu só por 72 horas. Ao cabo de 72
horas, todas as liberdades seriam restauradas, menos a de reviver.
Quem morreu, morreu. Era o caso de Flora; mas que crime teria cometido
aquela moça, além do de viver, e porventura o de amar,
não se sabe a quem, mas amar? Perdoai estas perguntas obscuras,
que se não ajustam, antes se contrariam. A razão é
que não recordo este óbito sem pena, e ainda trago
o enterro à vista...
CAPÍTULO
CVIII / VELHAS CERIMÔNIAS
Aqui vai a sair
o caixão. Todos tiram o chapéu, logo que ele assoma
à porta. Gente que passa, pára. Das janelas debruça-se
a vizinhança, em algumas atopeta-se, por serem as famílias
maiores que o espaço; às portas, os criados. Todos
os olhos examinam as pessoas que pegam nas alças do caixão,
Batista, Santos, Aires, Pedro, Paulo, Nóbrega.
Este, posto já não freqüentasse a casa, mandara
saber da enferma, e foi convidado a carregar o gracioso corpo. No
carro, em que levava o secretário, e era puxado pela mais
bela parelha do préstito, quase única, lembrava Nóbrega
ao secretário:
- Não lhe dizia eu que ela era doente? Era muito doente.
- Muito.
Não vou ao ponto de afirmar que teve prazer com a morte de
Flora, só por havê-lo feito acertar na notícia
da doença, estando ela perfeitamente sã. Mas que ninguém
fosse seu marido, foi uma espécie de consolação.
Houve mais; supondo que ela o tivesse aceitado e casassem, pensava
agora no esplêndido enterro que lhe faria. Desenhava na imaginação
o carro, o mais rico de todos, os cavalos e as suas plumas negras,
o caixão, uma infinidade de coisas que, à força
de compor, cuidava feitas. Depois o túmulo; mármore,
letras de ouro... O secretário, para o arrancar à
tristeza, falava dos objetos da rua.
- V. Exª lembra-se do chafariz que havia aqui há anos?
- Não, resmungava Nóbrega.
Ainda uma vez, não há novidade nos enterros. Daí
o provável tédio dos coveiros, abrindo e fechando
covas todos os dias. Não cantam, como os de Hamlet, que temperam
as tristezas do ofício com as trovas do mesmo ofício.
Trazem o caixão da cal e a colher para os convidados, e para
si as pás com que deitam a terra para dentro da cova. O pai
e alguns amigos ficaram ao pé da cova de Flora, a ver cair
a terra, a princípio com aquele baque soturno, depois com
aquele vagar cansativo, por mais que os pobres homens se apressem.
Enfim, caiu toda a terra, e eles puseram em cima as grinaldas dos
pais e dos amigos: "À nossa querida filha"; - À
nossa santa amiguinha Flora a saudosa amiga Natividade"; -
"À Flora, um amigo velho", etc. Tudo feito, vieram
saindo; o pai, entre Aires e Santos, que Ihe davam o braço,
cambaleava. Ao portão, foram tomando os carros e partindo.
Não deram pela falta de Pedro e Paulo que ficaram ao pé
da cova.
CAPÍTULO
CIX / AO PÉ DA COVA
Nenhum deles
contou o tempo gasto naquele lugar. Sabem só que foi de silêncio,
de contemplação e de saudade. Não digo, para
os não vexar agora, mas é possível que chorassem
também. Tinham um lenço na mão, enxugavam os
olhos; depois com os braços caídos, as mãos
prendendo o chapéu, olhavam aparentemente para as flores
que cobriam a sepultura, mas na realidade para a criatura que lá
estava embaixo.
Enfim, cuidaram de arrancar-se dali, e despedir-se da defunta, não
se sabe com que palavras, nem se eram as mesmas; o sentido seria
igual. Como estivessem defronte um do outro, acudiu-lhes a idéia
de um aperto de mão por cima da cova. Era uma promessa, um
juramento. Juntaram-se e vieram descendo, calados. Antes de chegar
ao portão, reduziram à palavra o gesto das mãos
feito sobre a cova. Que juravam a conciliação perpétua.
- Ela nos separou, disse Pedro; agora, que desapareceu, que nos
una.
Paulo confirmou de cabeça.
- Talvez, morresse para isso mesmo, acrescentou.
Depois, abraçaram-se. Gesto nem palavra traziam ênfase
ou afetação; eram simples e sinceros. A sombra de
Flora decerto os viu, ouviu e inscreveu aquela promessa de reconciliação
nas tábuas da eternidade. Ambos, por um impulso comum, voltaram
os olhos para ver ainda uma vez a cova de Flora, mas a cova ficava
longe e encoberta por grandes sepulcros, cruzes, colunas, um mundo
inteiro de gente passada, quase esquecida. O cemitério tinha
um ar meio alegre, com todas aquelas grinaldas de flores, baixo-relevos,
bustos, e a cor branca dos mármores e da cal. Comparado à
cova recente, parecia um renascimento de vida, que ficou deslembrada
a um canto da cidade.
Custou-lhes sair do cemitério. Não supunham estar
tão presos à defunta. Cada um deles ouvia a mesma
voz, com igual doçura e palavras especiais. Tinham chegado
ao portão e o carro veio buscá-los. A cara do cocheiro
era radiosa.
Não se explica esta expressão do cocheiro, senão
porque, inquieto da demora, não cuidando que os dois fregueses
ficassem tanto tempo ao pé da cova, entrara a recear que
tivessem aceitado o convite de algum amigo e voltado para casa.
Tinha já resolvido esperar poucos minutos mais, e ir embora;
mas a gorjeta? A gorjeta foi dobrada, como a dor e o amor; digamos,
gêmea.