ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
CAPÍTULO VIII / NEM CASAL, NEM GENERAL
Nem casal, nem
general. No dia sete de abril de 1870 veio à luz um par de
varões tão iguais, que antes pareciam a sombra um
do outro, se não era simplesmente a impressão do olho,
que via dobrado.
Tudo esperavam, menos os dois gêmeos, e nem por ser o espanto
grande, foi menor o amor. Entende-se isto sem ser preciso insistir,
assim como se entende que a mãe desse aos dois filhos aquele
pão inteiro e dividido do poeta; eu acrescento que o pai
fazia a mesma coisa. Viveu os primeiros tempos a contemplar os meninos,
a compará-los, a medi-los, a pesá-los. Tinham o mesmo
peso e cresciam por igual medida. A mudança ia-se fazendo
por um só teor. O rosto comprido, cabelos castanhos, dedos
finos e tais que, cruzados os da mão direita de um com os
da esquerda de outro, não se podia saber que eram de duas
pessoas. Viriam a ter gênio diferente, mas por ora eram os
mesmos estranhões. Começaram a sorrir no mesmo dia.
O mesmo dia os viu batizar.
Antes do parto, tinham combinado em dar o nome do pai ou da mãe,
segundo fosse o sexo da criança. Sendo um par de rapazes,
e não havendo a forma masculina do nome materno, não
quis o pai que figurasse só o dele, e meteram-se a catar
outros. A mãe propunha franceses ou ingleses, conforme os
romances que lia. Algumas novelas russas em moda sugeriram nomes
eslavos. O pai aceitava uns e outros, mas consultava a terceiros,
e não acertava com opinião definitiva. Geralmente,
os consultados trariam outro nome, que não era aceito em
casa. Também veio a antiga onomástica lusitana, mas
sem melhor fortuna. Um dia, estando Perpétua à missa,
rezou o Credo, advertiu nas palavras: "...os santos apóstolos
S. Pedro e S. Paulo", e mal pôde acabar a oração.
Tinha descoberto os nomes; eram simples e gêmeos. Os pais
concordaram com ela e a pendência acabou.
A alegria de Perpétua foi quase tamanha como a do pai e da
mãe, se não maior. Maior não foi, nem tão
profunda, mas foi grande, ainda que rápida. O achado dos
nomes valia quase que pela feitura das crianças. Viúva,
sem filhos, não se julgava incapaz de os ter, e era alguma
coisa nomeá-los. Contava mais cinco ou seis anos que a irmã.
Casara com um tenente de artilharia que morreu capitão na
Guerra do Paraguai. Era mais baixa que alta, e era gorda, ao contrário
de Natividade que, sem ser magra, não tinha as mesmas carnes,
e era alta e reta. Ambas vendiam saúde.
- Pedro e Paulo, disse Perpétua à irmã e ao
cunhado, quando rezei estes dois nomes, senti uma coisa no coração...
- Você será madrinha de um, disse a irmã.
Os pequenos, que se distinguiam por uma fita de cor, passaram a
receber medalhas de ouro, uma com a imagem de S. Pedro, outra com
a de S. Paulo. A confusão não cedeu logo, mas tarde,
lento e pouco, ficando tal semelhança que os advertidos se
enganavam muita vez ou sempre. A mãe é que não
precisou de grandes sinais externos para saber quem eram aqueles
dois pedaços de si mesma. As amas, apesar de os distinguirem
entre si, não deixavam de querer mal uma à outra,
pelo motivo da semelhança dos "seus filhos de criação".
Cada uma afirmava que o seu era mais bonito. Natividade concordava
com ambas.
Pedro seria médico, Paulo advogado; tal foi a primeira escolha
das profissões. Mas logo depois trocaram de carreira. Também
pensaram em dar um deles à engenharia. A marinha sorria à
mãe, pela distinção particular da escola. Tinha
só o inconveniente da primeira viagem remota; mas Natividade
pensou em meter empenhos com o ministro. Santos falava em fazer
um deles banqueiro, ou ambos. Assim passavam as horas vadias. Íntimos
da casa entravam nos cálculos. Houve quem os fizesse ministros,
desembargadores, bispos, cardeais...
- Não peço tanto, dizia o pai.
Natividade não dizia nada ao pé de estranhos, apenas
sorria, como se tratasse de folguedo de São João,
um lançar de dados e ler no livro de sortes a quadra correspondente
ao número. Não importa; lá dentro de si cobiçava
algum brilhante destino aos filhos. Cria deveras, esperava, rezava
às noites, pedia ao céu que os fizesse grandes homens.
Uma das amas, parece que a de Pedro, sabendo daquelas ânsias
e conversas, perguntou a Natividade por que é que não
ia consultar a cabocla do Castelo. Afirmou que ela adivinhava tudo,
o que era e o que viria a ser; conhecia o número da sorte
grande, não dizia qual era nem comprava bilhete para não
roubar os escolhidos de Nosso Senhor. Parece que era mandada de
Deus.
A outra ama confirmou as notícias e acrescentou novas. Conhecia
pessoas que tinham perdido e achado jóias e escravos. A polícia
mesma, quando não acabava de apanhar um criminoso, ia ao
Castelo falar à cabocla e descia sabendo; por isso é
que não a botava para fora, como os invejosos andavam a pedir.
Muita gente não embarcava sem subir primeiro ao morro. A
cabocla explicava sonhos e pensamentos, curava de quebranto...
Ao jantar, Natividade repetiu ao marido a lembrança das amas.
Santos encolhia os ombros. Depois examinou rindo a sabedoria da
cabocla; principalmente a sorte grande era incrível que,
conhecendo o número, não comprasse bilhete. Natividade
achou que era o mais difícil de explicar, mas podia ser invenção
do povo. On ne prete qu'aux riches, acrescentou rindo. O marido,
que estivera na véspera com um desembargador, repetiu as
palavras dele que "enquanto a polícia não pusesse
cobro ao escândalo..." O desembargador não concluíra.
Santos concluiu com um gesto vago.
- Mas você é espírita, ponderou a mulher.
- Perdão, não confundamos, replicou ele com gravidade.
Sim, podia consentir numa consulta espírita; já pensara
nela. Algum espírito podia dizer-lhe a verdade em vez de
uma adivinha de farsa... Natividade defendeu a cabocla. Pessoas
da sociedade falavam dela a sério. Não queria confessar
ainda que tinha fé, mas tinha. Recusando ir outrora, foi
naturalmente a insuficiência do motivo que lhe deu a força
negativa. Que importava saber o sexo do filho? Conhecer o destino
dos dois era mais imperioso e útil. Velhas idéias
que lhe incutiram em criança vinham agora emergindo do cérebro
e descendo ao coração. Imaginava ir com os pequenos
ao morro do Castelo, a título de passeio... Para quê?
Para confirmá-la na esperança de que seriam grandes
homens. Não lhe passara pela cabeça a predição
contrária. Talvez a leitora, no mesmo caso, ficasse aguardando
o destino; mas a leitora, além de não crer (nem todos
crêem) pode ser que não conte mais de vinte a vinte
e dois anos de idade, e terá a paciência de esperar.
Natividade, de si para si, confessava os trinta e um, e temia não
ver a grandeza dos filhos. Podia ser que a visse, pois também
se morre velha, e alguma vez de velhice, mas acaso teria o mesmo
gosto?
Ao serão, a matéria da palestra foi a cabocla do Castelo,
por iniciativa de Santos, que repetia as opiniões da véspera
e do jantar. Das visitas algumas contavam o que ouviam dela. Natividade
não dormiu aquela noite sem obter do marido que a deixasse
ir com a irmã à cabocla. Não se perdia nada;
bastava levar os retratos dos meninos e um pouco dos cabelos. As
amas não saberiam nada da aventura.
No dia aprazado meteram-se as duas no carro, entre sete e oito horas
com pretexto de passeio, e lá se foram para a Rua da Misericórdia.
Sabes já que ali se apearam, entre a Igreja de S. José
e a Câmara dos Deputados, e subiram aquela até à
Rua do Carmo, onde esta pega com a Ladeira do Castelo. Indo a subir,
hesitaram, mas a mãe era mãe, e já agora faltava
pouco para ouvir o destino. Viste que subiram, que desceram, deram
os dois mil-réis às almas, entraram no carro e voltaram
para Botafogo.
CAPÍTULO
IX / VISTA DE PALÁCIO
No Catete, o
coupé e uma vitória cruzaram-se e pararam a um tempo.
Um homem saltou da vitória e caminhou para o coupé.
Era o marido de Natividade, que ia agora para o escritório,
um pouco mais tarde que de costume, por haver esperado a volta da
mulher. Ia pensando nela e nos negócios da praça,
nos meninos e na Lei Rio Branco, então discutida na Câmara
dos Deputados; o banco era credor da lavoura. Também pensava
na cabocla do Castelo e no que teria dito à mulher...
Ao passar pelo Palácio Nova Friburgo, levantou os olhos para
ele com o desejo do costume, uma cobiça de possuí-lo,
sem prever os altos destinos que o palácio viria a ter na
República; mas quem então previa nada? Quem prevê
coisa nenhuma? Para Santos a questão era só possuí-lo,
dar ali grandes festas únicas, celebradas nas gazetas, narradas
na cidade entre amigos e inimigos, cheios de admiração,
de rancor ou de inveja. Não pensava nas saudades que as matronas
futuras contariam às suas netas, menos ainda nos livros de
crônicas, escritos e impressos neste outro século.
Santos não tinha a imaginação da posteridade.
Via o presente e suas maravilhas.
Já lhe não bastava o que era. A casa de Botafogo,
posto que bela, não era um palácio, e depois, não
estava tão exposta como aqui no Catete, passagem obrigada
de toda a gente, que olharia para as grandes janelas, as grandes
portas, as grandes águias no alto, de asas abertas. Quem
viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins
e os lagos... Oh! gozo infinito! Santos imaginava os bronzes, mármores,
luzes, flores, danças, carruagens, músicas, ceias...
Tudo isso foi pensado depressa, porque a vitória, embora
não corresse (os cavalos tinham ordem de moderar a andadura),
todavia, não atrasava as rodas para que os sonhos de Santos
acabassem. Assim foi que, antes de chegar à Praia da Glória,
a vitória avistou o coupé da família, e as
duas carruagens pararam, a curta distancia uma da outra, como ficou
dito.
CAPÍTULO
X / O JURAMENTO
Também
ficou dito que o marido saiu da vitória e caminhou para o
coupé, onde a mulher e a cunhada, adivinhando que ele vinha
ter com elas, sorriam de antemão.
- Não lhe digas nada, aconselhou Perpétua.
A cabeça de Santos apareceu logo, com as suíças
curtas, o cabelo rente, o bigode rapado. Era homem simpático.
Quieto, não ficava mal. A agitação com que
chegou, parou e falou, tirou-lhe a gravidade com que ia no carro,
as mãos postas sobre o castão de ouro da bengala,
e a bengala entre os joelhos.
- Então? então? perguntou.
- Logo digo.
- Mas que foi?
- Logo.
- Bem ou mal? Dize só se bem.
- Bem. Coisas futuras.
- É pessoa séria?
- Séria, sim; até logo, repetiu Natividade estendendo-lhe
os dedos.
Mas o marido não podia despegar-se do coupé; queria
saber ali mesmo tudo, as perguntas e as respostas, a gente que lá
estava à espera, e se era o mesmo destino para os dois, ou
se cada um tinha o seu. Nada disso foi escrito como aqui vai, devagar,
para que a ruim letra do autor não faça mal à
sua prosa. Não, senhor; as palavras de Santos saíram
de atropelo, umas sobre outras, embrulhadas, sem princípio
ou sem fim. A bela esposa tinha já as orelhas tão
afeitas ao falar do marido, mormente em lances de emoção
ou curiosidade, que entendia tudo, e ia dizendo que não.
A cabeça e o dedo sublinhavam a negativa. Santos não
teve remédio e despediu-se.
Em caminho, advertiu que, não crendo na cabocla, era ocioso
instar pela predição. Era mais; era dar razão
à mulher. Prometeu não indagar nada quando voltasse.
Não prometeu esquecer, e daí a teima com que pensou
muitas vezes no oráculo. De resto, elas lhe diriam tudo sem
que ele perguntasse nada, e esta certeza trouxe a paz do dia.
Não concluas daqui que os fregueses do banco padecessem alguma
desatenção aos seus negócios. Tudo correu bem,
como se ele não tivesse mulher nem filhos ou não houvesse
Castelo nem cabocla Não era só a mão que fazia
o seu ofício, assinando; a boca ia falando, mandando, chamando
e rindo, se era preciso. Não obstante, a ânsia existia
e as figuras passavam e repassavam diante dele; no intervalo de
duas letras, Santos resolvia uma coisa ou outra, se não eram
ambas a um tempo. Entrando no carro, à tarde, agarrou-se
inteiramente ao oráculo. Trazia as mãos sobre o castão,
a bengala entre os joelhos, como de manhã, mas vinha pensando
no destino dos filhos.
Quando chegou a casa, viu Natividade a contemplar os meninos, ambos
nos berços, as amas ao pé, um pouco admiradas da insistência
com que ela os procurava desde manhã. Não era só
fitá-los, ou perder os olhos no espaço e no tempo;
era beijá-los também e apertá-los ao coração.
Esqueceu-me dizer que, de manhã, Perpétua mudou primeiro
de roupa que a irmã e foi achá-la diante dos berços,
vestida como viera do Castelo.
- Logo vi que você estava com os grandes homens, disse ela.
- Estou, mas não sei em que é que eles serão
grandes.
- Seja em que for, vamos almoçar.
Ao almoço e durante o dia, falaram muita vez da cabocla e
da predição. Agora, ao ver entrar o marido, Natividade
leu-lhe a dissimulação nos olhos. Quis calar e esperar,
mas estava tão ansiosa de lhe dizer tudo, e era tão
boa, que resolveu o contrário. Unicamente não teve
o tempo de cumpri-lo; antes mesmo de começar, já ele
acabava de perguntar o que era. Natividade referiu a subida, a consulta,
a resposta e o resto; descreveu a cabocla e o pai.
- Mas então grandes destinos!
- Coisas futuras, repetiu ela.
- Seguramente futuras. Só a pergunta da briga é que
não entendo. Brigar por quê? E brigar como? E teriam
deveras brigado?
Natividade recordou os seus padecimentos do tempo da gestação,
confessando que não falou mais deles para o não afligir;
naturalmente é o que a outra adivinhou que fosse briga.
- Mas briga por quê?
- Isso não sei, nem creio que fosse nada mau.
- Vou consultar...
- Consultar a quem?
- Uma pessoa.
- Já sei, o seu amigo Plácido.
- Se fosse só amigo não consultava, mas ele é
o meu chefe e mestre, tem uma vista clara e comprida, dada pelo
céu... Consulto só por hipótese, não
digo os nossos nomes...
- Não! Não! Não!
- Só por hipótese.
- Não, Agostinho, não fale disto. Não interrogue
ninguém a meu respeito, ouviu? Ande, prometa que não
falará disto a ninguém, espíritas nem amigos.
O melhor é calar. Basta saber que terão sorte feliz.
Grandes homens, coisas futuras... Jure, Agostinho.
- Mas você não foi em pessoa à cabocla?
- Não me conhece, nem de nome; viu-me uma vez, não
me tornará a ver. Ande, jure!
- Você é esquisita. Vá lá, prometo. Que
tem que falasse, assim, por acaso?
- Não quero. Jure!
- Pois isto é coisa de juramento?
- Sem isso, não confio, disse ela sorrindo.
- Juro.
- Jure por Deus Nosso Senhor!
- Juro por Deus Nosso Senhor!
CAPÍTULO
XI / UM CASO ÚNICO!
Santos cria
na santidade do juramento; por isso, resistiu, mas enfim cedeu e
jurou. Entretanto, o pensamento não lhe saiu mais da briga
uterina dos filhos. Quis esquecê-la. Jogou essa noite, como
de costume; na seguinte, foi ao teatro; na outra a uma visita; e
tornou ao voltarete do costume, e a briga sempre com ele. Era um
mistério. Talvez fosse um caso único... único!
Um caso único! A singularidade do caso fê-lo agarrar-se
mais à idéia, ou a idéia a ele; não
posso explicar melhor este fenômeno íntimo, passado
lá onde não entra olho de homem, nem bastam reflexões
ou conjeturas. Nem por isso durou muito tempo. No primeiro domingo,
Santos pegou em si, e foi à casa do doutor Plácido,
Rua do Senador Vergueiro, uma casa baixa, de três janelas,
com muito terreno para o lado do mar. Creio que já não
existe: datava do tempo em que a rua era o Caminho Velho, para diferençar
do Caminho Novo.
Perdoa estas minúcias. A ação podia ir sem
elas, mas eu quero que saibas que casa era, e que rua, e mais digo
que ali havia uma espécie de clube, templo ou o que quer
que era espírita. Plácido fazia de sacerdote e presidente
a um tempo. Era um velho de grandes barbas, olho azul e brilhante,
enfiado em larga camisola de seda. Põe-lhe uma vara na mão,
e fica um mágico, mas, em verdade, as barbas e a camisola
não as trazia por lhe darem tal aspecto. Ao contrário
de Santos, que teria trocado dez vezes a cara, se não fora
a oposição da mulher Plácido usava as barbas
inteiras desde moço e a camisola há dez anos.
- Venha, venha, disse ele, ande ajudar-me a converter o nosso amigo
Aires; há meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas,
mas ele resiste.
- Não, não, não resisto, acudiu um homem de
cerca de quarenta anos, estendendo a mão ao recém-chegado.
CAPÍTULO
XII / ESSE AIRES
Esse Aires que
aí aparece conserva ainda agora algumas das virtudes daquele
tempo, e quase nenhum vício. Não atribuas tal estado
a qualquer propósito. Nem creias que vai nisto um pouco de
homenagem à modéstia da pessoa. Não, senhor,
é verdade pura e natural efeito. Apesar dos quarenta anos,
ou quarenta e dois, e talvez por isso mesmo, era um belo tipo de
homem. Diplomata de carreira, chegara dias antes do Pacífico,
com uma licença de seis meses.
Não me demoro em descrevê-lo. Imagina só que
trazia o calo do ofício, o sorriso aprovador, a fala branda
e cautelosa, o ar da ocasião, a expressão adequada,
tudo tão bem distribuído que era um gosto ouvi-lo
e vê-lo. Talvez a pele da cara rapada estivesse prestes a
mostrar os primeiros sinais do tempo. Ainda assim o bigode, que
era moço na cor e no apuro com que acabava em ponta fina
e rija, daria um ar de frescura ao rosto, quando o meio século
chegasse. O mesmo faria o cabelo, vagamente grisalho, apartado ao
centro. No alto da cabeça havia um início de calva.
Na botoeira uma flor eterna.
Tempo houve, - foi por ocasião da anterior licença,
sendo ele apenas secretário de legação, - tempo
houve em que também ele gostou de Natividade. Não
foi propriamente paixão; não era homem disso. Gostou
dela, como de outras jóias e raridades, mas tão depressa
viu que não era aceito, trocou de conversação.
Não era frouxidão ou frieza. Gostava assaz de mulheres
e ainda mais se eram bonitas A questão para ele é
que nem as queria à força, nem curava de as persuadir.
Não era general para escala à vista, nem para assédios
demorados; contentava-se de simples passeios militares, - longos
ou breves, conforme o tempo fosse claro ou turvo. Em suma, extremamente
cordato.
Coincidência interessante: foi por esse tempo que Santos pensou
em casá-lo com a cunhada, recentemente viúva. Esta
parece que queria. Natividade opôs-se, nunca se soube por
quê. Não eram ciúmes; invejas não .creio
que fossem. O simples desejo de o não ver entrar na família
pela porta lateral é apenas uma figura, que vale qualquer
das primeiras hipóteses negadas. O desgosto de cedê-lo
a outra, ou tê-los felizes ao pé de si, não
podia ser, posto que o coração seja o abismo dos abismos.
Suponhamos que era com o fim de o punir por havê-la amado.
Pode ser; em todo caso, o maior obstáculo viria dele mesmo.
Posto que viúvo, Aires não foi propriamente casado.
Não amava o casamento. Casou por necessidade do ofício;
cuidou que era melhor ser diplomata casado que solteiro, e pediu
a primeira moça que lhe pareceu adequada ao seu destino.
Enganou-se: a diferença de temperamento e de espírito
era tal que ele, ainda vivendo com a mulher, era como se vivesse
só. Não se afligiu com a perda; tinha o feitio do
solteirão.
Era cordato, repito, embora esta palavra não exprima exatamente
o que quero dizer. Tinha o coração disposto a aceitar
tudo, não por inclinação à harmonia,
senão por tédio à controvérsia. Para
conhecer esta aversão, bastava tê-lo visto entrar,
antes, em visita ao casal Santos. Pessoas de fora e da família
conversavam da cabocla do Castelo.
- Chega a propósito, conselheiro, disse Perpétua.
Que pensa o senhor da cabocla do Castelo?
Aires não pensava nada, mas percebeu que os outros pensavam
alguma coisa, e fez um gesto de dois sexos. Como insistissem, não
escolheu nenhuma das duas opiniões, achou outra, média,
que contentou a ambos os lados, coisa rara em opiniões médias.
Sabes que o destino delas é serem desdenhadas. Mas este Aires,
- José da Costa Marcondes Aires, - tinha que nas controvérsias
uma opinião dúbia ou média pode trazer a oportunidade
de uma pílula, e compunha as suas de tal jeito, que o enfermo,
se não sarava, não morria, e é o mais que fazem
pílulas. Não lhe queiras mal por isso; a droga amarga
engole-se com açúcar. Aires opinou com pausa, delicadeza,
circunlóquios, limpando o monóculo ao lenço
de seda, pingando as palavras a graves e obscuras, fitando os olhos
no ar, como quem busca uma lembrança, e achava a lembrança,
e arredondava com ela o parecer. Um dos ouvintes aceitou-o logo,
outro divergiu um pouco e acabou de acordo, assim terceiro, e quarto,
e a sala toda.
Não cuides que não era sincero, era-o. Quando não
acertava de ter a mesma opinião, e valia a pena escrever
a sua, escrevia-a. Usava também guardar por escrito as descobertas,
observações, reflexões críticas e anedotas,
tendo para isso uma série de cadernos, a que dava o nome
de Memorial. Naquela noite escreveu estas linhas:
"Noite em casa da família Santos, sem voltarete. Falou-se
na cabocla do Castelo. Desconfio que Natividade ou a irmã
quer consultá-la; não será decerto a meu respeito.
"Natividade e um Padre Guedes que lá estava, gordo e
maduro eram as únicas pessoas interessantes da noite. O resto
insípido, mas insípido por necessidade, não
podendo ser outra coisa mais que insípido. Quando o padre
e Natividade me deixavam entregue à insipidez dos outros,
eu tentava fugir-lhe pela memória, recordando sensações,
revivendo quadros, viagens, pessoas. Foi assim que pensei na Capponi,
a quem vi hoje pelas costas, na Rua da Quitanda. Conheci-a aqui
no finado Hotel de D. Pedro, lá vão anos. Era dançarina;
eu mesmo já a tinha visto dançar em Veneza. Pobre
Capponi! Andando o pé esquerdo saía-lhe do sapato
e mostrava no calcanhar da meia um buraquinho de saudade.
"Afinal tornei à eterna insipidez dos outros. Não
acabo de crer como é que esta senhora, aliás tão
fina, pode organizar noites como a de hoje. Não é
que os outros não buscassem ser interessantes, e, se intenções
valessem, nenhum livro os valeria; mas não o eram. por mais
que tentassem. Enfim, lá vão; esperemos outras noites
que tragam melhores sujeitos sem esforço algum. O que o berço
dá só a cova o tira, diz um velho adágio nosso.
Eu posso, truncando um verso ao meu Dante, escrever de tais insípidos:
Dico, che quando l'anima mal nata..."
CAPÍTULO
XIII / A EPÍGRAFE
Ora, aí
está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe quisesse
pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não é
somente um meio de completar as pessoas da narração
com as idéias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para
que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente
escuro.
Por outro lado, há proveito em irem as pessoas da minha história
colaborando nela, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade
espécie de troca de serviços, entre o enxadrista e
os seus trebelhos.
Se aceitas a comparação, distinguirás o rei
e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer de torre,
nem a torre de peão. Há ainda. a diferença
da cor, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha
de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida,
e assim vai o mundo. Talvez conviesse pôr aqui, de quando
em quando, como nas publicações do jogo, um diagrama
das posições belas ou difíceis. Não
havendo tabuleiro, é um grande auxílio este processo
para acompanhar os lances, mas também pode ser que tenhas
visão bastante para reproduzir na memória as situações
diversas. Creio que sim. Fora com diagramas! Tudo irá como
se realmente visses jogar a partida entre pessoa e pessoa, ou mais
claramente, entre Deus e o Diabo.
CAPÍTULO XIV / A LIÇÃO DO DISCÍPULO
- Fique, fique,
conselheiro, disse Santos apertando a mão ao diplomata. Aprenda
as verdades eternas.
- Verdades eternas pedem horas eternas, ponderou este, consultando
o relógio.
Um tal Aires não era fácil de convencer. Plácido
falou-lhe de leis científicas para excluir qualquer mácula
de seita, e Santos foi com ele. Toda a terminologia espírita
saiu fora, e mais os casos, fenômenos, mistérios, testemunhos,
atestados verbais e escritos... Santos acudiu com um exemplo: dois
espíritos podiam tornar juntos a este mundo; e, se brigassem
antes de nascer?
- Antes de nascer, crianças não brigam, replicou Aires,
temperando o sentido afirmativo com a entonação dubitativa.
- Então nega que dois espíritos? ...Essa cá
me fica, conselheiro! Pois que impede que dois espíritos?...
Aires viu o abismo da controvérsia, e forrou-se à
vertigem por uma concessão, dizendo:
- Esaú e Jacó brigaram no seio materno, isso é
verdade. Conhece-se a causa do conflito. Quanto a outros, dado que
briguem também, tudo está em saber a causa do conflito,
e não a sabendo, porque a Providência a esconde da
notícia humana... Se fosse uma causa espiritual, por exemplo...
- Por exemplo?
- Por exemplo, se as duas crianças quiserem ajoelhar-se ao
mesmo tempo para adorar o Criador. Aí está um caso
de conflito, mas de conflito espiritual, cujos processos escapam
à sagacidade humana. Também poderia ser um motivo
temporal. Suponhamos a necessidade de se acotovelarem para ficar
melhor acomodados; é uma hipótese que a ciência
aceitaria; isto é, não sei... Há ainda o caso
de quererem ambos a primogenitura.
- Para quê? perguntou Plácido.
- Conquanto este privilégio esteja hoje limitado às
famílias régias, à câmara dos lords e
não sei se mais, tem todavia um valor simbólico. O
simples gosto de nascer primeiro, sem outra vantagem social ou política,
pode dar-se por instinto, principalmente se as crianças se
destinarem a galgar os altos deste mundo.
Santos afiou o ouvido neste ponto, lembrando-se das "coisas
futuras". Aires disse ainda algumas palavras bonitas, e acrescentou
outras feias, admitindo que a briga podia ser. prenúncio
de graves conflitos na terra; mas logo temperou esse conceito com
este outro:
- Não importa; não esqueçamos o que dizia um
antigo, que "a guerra é a mãe de todas as coisas".
Na minha opinião, Empédocles, referindo-se à
guerra, não o fez só no sentido técnico. O
amor, que é a primeira das artes da paz, pode-se dizer que
é um duelo, não de morte, mas de vida, - concluiu
Aires sorrindo leve, como falava baixo, e despediu-se.
CAPÍTULO
XV / "TESTE DAVID CUM SIBYLLA"
- E Então?
disse Santos. Não é que o conselheiro, em vez de aprender,
ensina-nos? Eu acho que ele deu algumas razões boas.
- Quando menos, plausíveis, completou mestre Plácido.
- Foi pena que se despedisse, continuou Santos, mas felizmente o
meu caso é com o senhor. Venho consultá-lo, e as suas
luzes são as verdadeiras do mundo.
Plácido agradeceu sorrindo. Não era novo o elogio,
ao contrário; mas ele estava tão acostumado a ouvi-lo
que o sorriso era já agora um sestro. Não podia deixar
de pagar com essa moeda aos seus discípulos.
- Trata-se...
- Trata-se disto. Aquela hipótese que eu formulei é
um fato real; sucedeu com os meus filhos.
- Como?
- É o que me parece, e vim justamente para que me explique.
Nunca lhe falei por temer que achasse absurdo, mas tenho pensado,
e suspeito que tal briga se deu, e que é um caso extraordinário.
Santos expôs então a consulta, gravemente, com um gesto
particular que tinha de arregalar os olhos para arregalar a novidade.
Não esqueceu nem escondeu nada; contou a própria ida
da mulher ao Castelo, com desdém, é verdade, mas ponto
por ponto. Plácido ouvia atento, perguntando, voltando atrás,
e acabou por meditar alguns minutos. Enfim, declarou que o fenômeno,
caso se houvesse dado, era raro, se não único, mas
possível. Já o fato de se chamarem Pedro e Paulo indicava
alguma rivalidade, porque esses dois apóstolos brigaram também.
- Perdão, mas o batismo...
- Foi posterior, sei, mas os nomes podem ter sido predestinados,
tanto mais que a escolha dos nomes veio, como o senhor me disse,
por inspiração à tia dos meninos.
- Justamente.
- D. Perpétua é muito devota.
- Muito.
- Creio que os próprios espíritos de S. Pedro e S.
Paulo houvessem escolhido aquela senhora para inspirar os nomes
que estão no Credo; advirta que ela reza muitas vezes o Credo,
mas foi naquela ocasião que se lembrou deles.
- Exato, exato!
O doutor foi à estante e tirou uma Bíblia, encadernada
em couro, com grandes fechos de metal. Abriu a Epístola de
S. Paulo aos Gálatas, e leu a passagem do capitulo II, versículo
11, em que o apóstolo conta que, indo a Antioquia, onde estava
S. Pedro, "resistiu-lhe na cara".
Santos leu e teve uma idéia. As idéias querem-se festejadas,
quando são belas, e examinadas, quando novas; a dele era
a um tempo nova e bela. Deslumbrado, ergueu a mão e deu uma
palmada na folha, bradando:
- Sem contar que este número onze do versículo, composto
de dois algarismos iguais, 1 e 1, é um número gêmeo,
não lhe parece?
- Justamente. E mais: o capítulo é o segundo, isto
é, dois, que é o próprio número dos
irmãos gêmeos.
Mistério engendra mistério. Havia mais de um elo íntimo,
substancial, escondido, que ligava tudo. Briga, Pedro e Paulo, irmãos
gêmeos, números gêmeos, tudo eram águas
de mistério que eles agora rasgavam, nadando e bracejando
com força. Santos foi mais ao fundo; não seriam os
dois meninos os próprios espíritos de S. Pedro e de
S. Paulo, que renasciam agora, e ele, pai dos dois apóstolos?...
A fé transfigura; Santos tinha um ar quase divino, trepou
em si mesmo, e os olhos, ordinariamente sem expressão, pareciam
entornar a chama da vida. Pai de apóstolos! E que apóstolos!
Plácido esteve quase, quase a crer também, achava-se
dentro de um mar torvo, soturno, onde as vozes do infinito se perdiam,
mas logo lhe acudia que os espíritos de S. Pedro e S. Paulo
tinham chegado à perfeição; não tornariam
cá. Não importa; seriam outros, grandes e nobres.
Os seus destinos podiam ser brilhantes; tinha razão a cabocla,
sem saber o que dizia.
- Deixe às senhoras as suas crenças da meninice, concluiu;
se elas têm fé na tal mulher do Castelo, e acham que
é um veículo de verdade, não as desminta por
hora. Diga-lhes que eu estou de acordo com o seu oráculo.
Teste David cum Sibylla.
- Digo, digo! escreva a frase.
Plácido foi à secretária, escreveu o verso,
e deu-lhe o papel, mas já então Santos advertira que
mostrá-lo à mulher era confessar a consulta espírita,
e naturalmente o perjúrio. Referiu ao amigo os escrúpulos
de Natividade e pediu que calassem tudo.
- Estando com ela, não lhe diga o que se passou entre nós.
Saiu logo depois, arrependido da indiscrição, mas
deslumbrado da revelação. Ia cheio de números
da Escritura, de Pedro e Paulo, de Esaú e Jacó. O
ar da rua não espanou a poeira do mistério; ao contrário,
o céu azul, a praia sossegada, os montes verdes como que
o cercavam e cobriam de um véu mais transparente e infinito.
A rixa dos meninos, fato raro ou único, era uma distinção
divina. Contrariamente à esposa, que cuidava somente da grandeza
futura dos filhos, Santos pensava no conflito passado.
Entrou em casa, correu aos pequenos, e acarinhou-os com tão
estranha expressão, que a mãe desconfiou alguma coisa,
e quis saber o que era.
- Não é nada, respondeu ele rindo.
- É! alguma coisa, anda, acaba.
- Que há de ser?
- Seja o que for, Agostinho, acaba.
Santos pediu-lhe que se não zangasse, e contou tudo, a sorte,
a rixa, a Escritura, os apóstolos, o símbolo, tudo
tão espalhadamente, que ela mal pôde entender, mas
entendeu ao final, e replicou com os dentes cerrados:
- Ah! você! você!
- Perdoa, amiguinha; estava tão ansioso de saber a verdade...
E nota que eu creio na cabocla, e o doutor também; ele até
me escreveu isto em latim, concluiu tirando e lendo o papelinho:
Teste David cum Sibylla.
CAPÍTULO
XVI / PATERNALISMO
Daí a
pouco, Santos pegou na mão da mulher, que a deixou ir à
toa, sem apertar a dele; ambos fitavam os meninos, tendo esquecido
a zanga para só ficarem pais.
Já não era espiritismo, nem outra religião
nova; era a mais velha de todas, fundada por Adão e Eva,
à qual chama, se queres, paternalismo. Rezavam sem palavras,
persignavam-se sem dedos, uma espécie de cerimônia
quieta e muda, que abrangia o passado e o futuro. Qual deles era
o padre, qual o sacristão, não sei, nem é preciso.
A missa é que era a mesma, e o evangelho começava
como o de S. João (emendado): "No princípio era
o amor, e o amor se fez carne." Mas venhamos aos nossos gêmeos.
CAPÍTULO
XVII / TUDO O QUE RESTRINJO
Os gêmeos,
não tendo que fazer, iam mamando. Nesse ofício portavam-se
sem rivalidade, a não ser quando as amas estavam às
boas, e eles mamavam ao pé um do outro; cada qual então
parecia querer mostrar que mamava mais e melhor, passeando os dedos
pelo seio amigo, e chupando com alma. Elas, à sua parte,
tinham glória dos peitos e os comparavam entre si; os pequenos,
fartos, soltavam afinal os bicos e riam para elas.
Se não fosse a necessidade de pôr os meninos em pé,
crescidos e homens, espraiava este capítulo. Realmente, o
espetáculo, posto que comum, era belo. Os peraltas nutriam-se
ao contrário dos pais, sem as artes do cozinheiro, nem a
vista das comidas e bebidas, todas postas em cristais e porcelanas
para emendar ou colorir a dura necessidade de comer. A eles nem
se lhes via a comida; a boca ligada ao peito não deixava
aparecer o leite. A natureza mostrava-se satisfeita pelo riso ou
pelo sono. Quando era o sono, cada uma levava o seu menino ao berço,
e ia cuidar de outra coisa. Este cotejo dar-me-ia três ou
quatro páginas sólidas.
Uma página bastava para os chocalhos que embelezavam os pequenos,
como se fosse a própria música do céu. Eles
sorriam, estendiam as mãos, alguma vez zangavam-se com as
negaças, mas tanto que lhos davam, calavam-se, e se não
podiam tocar não se zangavam por isso. A propósito
de chocalhos, diria que esses instrumentos não deixam memória
de si; alguém que os veja em mãos de crianças,
se parecer que lhe lembram os seus, cai logo no engano, e adverte
que a recordação há de ser mais recente, alguma
arenga do ano passado, se não foi a vaca de leite da véspera.
A operação de desmamar, podia fazer-se em meia linha,
mas as lástimas das amas, as despedidas, as bichas de ouro
que a mãe deu a cada uma delas, como um presente final, tudo
isso exigia uma boa página ou mais. Poucas linhas bastariam
para as amas-secas, porquanto não diria se eram altas nem
baixas, feias ou bonitas. Eram mansas, zelosas do ofício,
amigas dos pequenos, e logo uma da outra. Cavalinhos de pau, bandeirolas,
teatros de bonecos, barretinas e tambores, toda a quinquilharia
da infância ocuparia muito mais que o lugar de seus nomes.
Tudo isso restrinjo só para não enfadar a leitora
curiosa de ver os meus meninos homens e acabados. Vamos vê-los,
querida. Com pouco, estão crescidos e fortes. Depois, entrego-os
a si mesmos; eles que abram a ferro ou língua, ou simples
cotovelos, o caminho da vida e do mundo.
CAPÍTULO
XVIII / DE COMO VIERAM CRESCENDO
Eei-los que
vêm crescendo. A semelhança, sem os confundir já,
continuava a ser grande. Os mesmos olhos claros e atentos, a mesma
boca cheia de graça, as mãos finas, e uma cor viva
nas faces que as fazia crer pintadas de sangue. Eram sadios; excetuada
a crise dos dentes, não tiveram moléstia alguma, porque
eu não conto uma ou outra indigestão de doces, que
os pais lhes davam, ou eles tiravam às escondidas. Eram ambos
gulosos, Pedro mais que Paulo, e Paulo mais que ninguém.
Aos sete anos eram duas obras-primas, ou antes uma só em
dois volumes, como quiseres. Em verdade, não havia por toda
aquela praia, nem por Flamengos ou Glórias, Cajus e outras
redondezas, não havia uma, quanto mais duas crianças
tão graciosas. Nota que eram também robustos. Pedro
com um murro derrubava Paulo; em compensação, Paulo
com um pontapé deitava Pedro ao chão. Corriam muito
na chácara por aposta. Alguma vez quiseram trepar às
árvores, mas a mãe não consentia; não
era bonito. Contentavam-se de espiar cá de baixo a fruta.
Paulo era mais agressivo, Pedro mais dissimulado, e, como ambos
acabavam por comer a fruta das árvores, era um moleque que
a ia buscar acima, fosse a cascudo de um ou com promessa de outro.
A promessa não se cumpria nunca; o cascudo, por ser antecipado,
cumpria-se sempre, e às vezes com repetição
depois do serviço. Não digo com isto que um e outro
dos gêmeos não soubessem agredir e dissimular; a diferença
é que cada um sabia melhor o seu gosto, coisa tão
óbvia que custa escrever.
Obedeciam aos pais sem grande esforço, posto fossem teimosos.
Nem mentiam mais que outros meninos da cidade. Ao cabo, a mentira
é alguma vez meia virtude. Assim é que, quando eles
disseram não ter visto furtar um relógio da mãe,
presente do pai, quando eram noivos, mentiram conscientemente, porque
a criada que o tirou foi apanhada por eles em plena ação
de furto. Mas era tão amiga deles! e com tais lágrimas
lhes pediu que não dissessem a ninguém, que os gêmeos
negaram absolutamente ter visto nada. Contavam sete anos. Aos nove,
quando já a moça ia longe, é que descobriram,
não sei a que propósito, o caso escondido. A mãe
quis saber por que é que eles calaram outrora; não
souberam explicar-se, mas é claro que o silêncio de
l878 foi obra da afeição e da piedade, e daí
a meia virtude, porque é alguma coisa pagar amor com amor.
Quanto à revelação de 1880 só se pode
explicar pela distância do tempo. Já não estava
presente a boa Miquelina; talvez já estivesse morta. Demais,
veio tão naturalmente a referência...
- Mas, por que é que vocês até agora não
me disseram? teimava a mãe.
Não sabendo mais que razão dessem, um deles, creio
que Pedro, resolveu acusar o irmão:
- Foi ele, mamãe!
- Eu? redargüiu Paulo. Foi ele, mamãe, ele é
que não disse nada.
- Foi você!
- Foi você! Não minta!
- Mentiroso é ele!
Cresceram um para o outro. Natividade acudiu prestemente, não
tanto que impedisse a troca dos primeiros murros. Segurou-lhe os
braços a tempo de evitar outros, e, em vez de os castigar
ou ameaçar, beijou-os com tamanha ternura que eles não
acharam melhor ocasião de lhe pedir doce. Tiveram doce; tiveram
também um passeio, à tarde, no carrinho do pai.
Na volta estavam amigos ou reconciliados. Contaram à mãe
o passeio, a gente da rua, as outras crianças que olhavam
para eles com inveja, uma que metia o dedo na boca, outra no nariz,
e as moças que estavam às janelas, algumas que os
acharam bonitos Neste último ponto divergiam, porque cada
um deles tomava para si só as admirações, mas
a mãe interveio:
- Foi para ambos. Vocês são tão parecidos, que
não podia senão para ambos. E sabem por que é
que as moças elogiaram vocês? Foi por ver que iam amigos,
chegadinhos um ao outro. Meninos bonitos não brigam, ainda
menos sendo irmãos. Quero vê-los quietos e amigos,
brincando juntos sem rusga nem nada. Estão entendendo?
Pedro respondeu que sim; Paulo esperou que a mãe repetisse
a pergunta, e deu igual resposta. Enfim, porque esta mandasse, abraçaram-se,
mas foi um abraçar sem gosto, sem força, quase sem
braços; encostaram-se um ao outro, estenderam as mãos
às costas do irmão, e deixaram-nas cair.
De noite, na alcova, cada um deles concluiu para si que devia os
obséquios daquela tarde, o doce, os beijos e o carro, à
briga que tiveram, e que outra briga podia render tanto ou mais.
Sem palavras, como um romance ao piano, resolveram ir à cara
um do outro, na primeira ocasião. Isto que devia ser um laço
armado à ternura da mãe, trouxe ao coração
de ambos uma sensação particular, que não era
só consolo e desforra do soco recebido naquele dia. mas também
satisfação de um desejo íntimo, profundo, necessário.
Sem ódio, disseram ainda algumas palavras de cama a cama,
riram de uma ou outra lembrança da rua, até que o
sono entrou com os seus pés de lã e bico calado, e
tomou conta da alcova inteira.