ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
CAPÍTULO LXXIII / UM ELDORADO
No cais Pharoux
esperavam por eles três carruagens, - dous coupés e
um landau, com três belas parelhas de cavalos. A gente Batista
ficou lisonjeada com a fineza da gente Santos, e entrou no landau.
Os gêmeos foram cada um no seu coupé. A primeira carruagem
tinha o seu cocheiro e o seu lacaio, fardados de castanho, botões
de metal branco, em que se podiam ver as armas da casa. Cada uma
das outras tinha apenas o cocheiro, com igual libré. E todas
três se puseram a andar, estas atrás daquela, os animais
batendo rijo e compassado, a golpes certos, como se houvessem ensaiado,
por longos dias, aquela recepção. De quando em quando,
encontravam outros trens, outras librés, outras parelhas,
a mesma beleza e o mesmo luxo.
A capital oferecia ainda aos recém-chegados um espetáculo
magnífico. Vivia-se dos restos daquele deslumbramento e agitação,
epopéia de ouro da cidade e do mundo, porque a impressão
total é que o mundo inteiro era assim mesmo. Certo, não
lhe esqueceste o nome, encilhamento, a grande quadra das empresas
e companhias de toda espécie. Quem não viu aquilo
não viu nada. Cascatas de idéias, de invenções,
de concessões rolavam todos os dias, sonoras e vistosas para
se fazerem contos de réis, centenas de contos, milhares,
milhares de milhares, milhares de milhares de milhares de contos
de réis. Todos os papéis, aliás ações,
saíam frescos e eternos do prelo. Eram estradas de ferro,
bancos, fábricas, minas, estaleiros, navegação,
edificação, exportação, importação,
ensaques, empréstimos, todas as uniões, todas as regiões,
tudo o que esses nomes comportam e mais o que esqueceram. Tudo andava
nas ruas e praças, com estatutos, organizadores e listas.
Letras grandes enchiam as folhas públicas, os títulos
sucediam-se, sem que se repetissem, raro morria, e só morria
o que era frouxo, mas a princípio nada era frouxo. Cada ação
trazia a vida intensa e liberal, alguma vez imortal, que se multiplicava
daquela outra vida com que a alma acolhe as religiões novas.
Nasciam as ações a preço alto, mais numerosas
que as antigas crias da escravidão, e com dividendos infinitos.
Pessoas do tempo, querendo exagerar a riqueza, dizem que o dinheiro
brotava do chão, mas não é verdade. Quando
muito, caía do céu. Cândido e Cacambo... Ai,
pobre Cacambo nosso! Sabes que é o nome daquele índio
que Basílio da Gama cantou no Uruguai. Voltaire pegou dele
para o meter no seu livro, e a ironia do filósofo venceu
a doçura do poeta. Pobre José Basílio! tinhas
contra ti o assunto estreito e a língua escusa. O grande
homem não te arrebatou Lindóia, felizmente, mas Cacambo
é dele, mais dele que teu, patrício da minha alma.
Candido e Cacambo, ia eu dizendo, ao entrarem no Eldorado, conta
Voltaire que viram crianças brincando na rua com rodelas
de ouro, esmeralda e rubi; apanharam algumas, e na primeira hospedaria
em que comeram quiseram pagar o jantar com duas delas. Sabes que
o dono da casa riu às bandeiras despregadas, já por
quererem pagar-lhe com pedras do calçamento, já porque
ali ninguém pagava o que comia, era o governo que pagava
tudo. Foi essa hilaridade do hospedeiro, com a liberalidade atribuída
ao Estado, que fez crer iguais fenômenos entre nós,
mas é tudo mentira.
O que parece ser verdade é que as nossas carruagens brotavam
do chão. As tardes, quando uma centena delas se ia enfileirar
no Largo de S. Francisco de Paula, à espera das pessoas,
era um gosto subir a Rua do Ouvidor, parar e contemplá-las.
As parelhas arrancavam os olhos à gente; todas pareciam descer
das rapsódias de Homero, posto fossem corcéis de paz.
As carruagens também. Juno certamente as aparelhara com suas
correias de ouro, freios de ouro, rédeas de ouro, tudo de
ouro incorruptível. Mas nem ela nem Minerva entravam nos
veículos de ouro para os fins da guerra contra Ílion.
Tudo ali respirava a paz. Cocheiros e lacaios, barbeados e graves,
esperando tesos e compostos, davam uma bela idéia do ofício.
Nenhum aguardava o patrão, deitado no interior dos carros,
com as pernas de fora. A impressão que davam era de uma disciplina
rígida e elegante, aprendida em alta escola e conservada
pela dignidade do indivíduo.
"Casos há, - escrevia o nosso Aires - em que a impassibilidade
do cocheiro na boléia contrasta com a agitação
do dono no interior carruagem, fazendo crer que é o patrão
que, por desfastio, trepou à boléia e leva o cocheiro
a passear."
CAPÍTULO
LXXIV / A ALUSÃO DO TEXTO
Antes de continuar,
é preciso dizer que o nosso Aires não se referia vagamente
ou de modo genérico a algumas pessoas, mas a uma só
pessoa particular. Chamava-se então Nóbrega; outrora
não se chamava nada, era aquele simples andador das almas
que encontrou Natividade e Perpétua na Rua de S. José,
esquina da Misericórdia. Não esqueceste que a recente
mãe deitou uma nota de dois mil-réis à bacia
do andador. A nota era nova e bela; passou da bacia à algibeira,
no fundo de um corredor, não sem algum combate.
Poucos meses depois, Nóbrega abandonou as almas a si mesmas,
e foi a outros purgatórios, para os quais achou outras opas,
outras bacias e finalmente outras notas, esmolas de piedade feliz.
Quero dizer que foi a outras carreiras. Com pouco deixou a cidade,
e não se sabe se também o país. Quando tornou,
trazia alguns pares de contos de réis, que a fortuna dobrou,
redobrou e tresdobrou. Enfim, alvoreceu a famosa quadra do "encilhamento".
Esta foi a grande opa, a grande bacia, a grande esmola, o grande
purgatório. Quem já sabia do andador das almas? A
antiga roda perdera-se na obscuridade e na morte. Ele era outro;
as feições não eram as mesmas, senão
as que o tempo lhe veio compondo e melhorando.
Se a grande bacia, ou qualquer das outras recebeu notas que tivessem
o destino da primeira, é o que se não sabe, mas é
possível. Foi por esse tempo que Aires o viu de carro, quase
a sair pela portinhola fora, cumprimentando muito, espiando tudo.
Como o cocheiro e o lacaio (creio que eram escoceses) salvassem
a dignidade pessoal da casa, Aires fez a observação
do fim do outro capítulo, sem nenhuma intenção
geral.
Posto não achasse já nenhum conhecido antigo, Nóbrega
tinha medo de tornar ao bairro, onde andara a pedir para as primeiras
almas. Um dia, porém, tais foram as saudades dele que pensou
em afrontar o perigo e lá foi. Tinha cócegas de mirar
as ruas e as pessoas, recordava as casas e as lojas, um barbeiro,
os sobrados de grade de pau, onde apareciam tais e tais moças...
Quando ia a ceder, teve outra vez medo e enfiou por outra parte.
Só passava de carro; depois quis ver tudo a pé, devagar,
parando, se fosse possível, e revivendo o extinto.
Lá se foi a pé; desceu pela Rua de S. José,
dobrou a da Misericórdia, foi parar à Praia de Santa
Luzia, tornou pela Rua de D. Manuel, enfiou de beco em beco. A princípio
olhava de esguelha, rápido, os olhos no chão. Aqui
via a loja de barbeiro, e o barbeiro era outro. Dos sobrados de
grade de pau debruçaram-se ainda moças, velhas e meninas
e nenhuma era a mesma. Nóbrega foi-se animando e encarando.
Talvez esta velha fosse moça, há vinte anos; a moça
talvez mamasse, e dá agora de mamar a outra criança.
Nóbrega acabou parando e andando devagar.
Voltou mais vezes. Só as casas, que eram as mesmas, pareciam
reconhecê-lo, e algumas quase que lhe falavam. Não
é poesia. O ex-andador sentia necessidade de ser conhecido
das pedras, ouvir-se admirar delas, contar-lhes a vida, obrigá-las
a comparar o modesto de outrora com o garrido de hoje, e escutar-lhes
as palavras mudas: "Vejam, manas, é ele mesmo."
Passava por elas, fitava-as, interrogava-as, quase ria, quase as
tocava para sacudi-las com força: "Falem, diabos, falem!"
Não confiaria de homem aquele passado, mas às paredes
mudas, às grades velhas, às portas gretadas, aos lampiões
antigos, se os havia ainda, tudo o que fosse discreto, a tudo quisera
dar olhos, ouvidos e boca, uma boca que só ele escutasse,
e que proclamasse a prosperidade daquele velho andador.
Uma vez, viu a Matriz de S. José aberta e entrou. A igreja
era a mesma, aqui estão os altares, aqui está a solidão,
aqui está o silêncio. Persignou-se, mas não
orou; olhava só a um lado e outro, andando na direção
do altar-mor. Tinha receio de ver aparecer o sacristão, podia
ser o mesmo, e conhecê-lo. Ouviu passos, recuou depressa e
saiu.
Ao subir pela Rua de S. José, encostou-se à parede,
para deixar passar uma carroça. A carroça subiu a
calçada, ele refugiou-se num corredor. O corredor podia ser
qualquer; aquele era o próprio em que ele fez a operação
da nota de dois mil-réis de Natividade. Olhou bem, era o
mesmo. Ao fundo estavam os três ou quatro degraus da primeira
escada que dobrava à esquerda e pegava com a grande. Sorriu
do acaso reviu por um instante aquela manhã, viu no ar a
nota de dois mil-réis. Outras lhe teriam vindo às
mãos por maneiras assim fáceis, mas nunca lhe esqueceu
aquela graciosa folha gravada com tantos símbolos, números,
datas e promessas, entregue por uma senhora desconhecida, sabe Deus
se a própria Santa Rita de Cássia. Era a sua particular
devoção. Sem dúvida, trocou a nota e gastou-a,
mas as partes dispersas não foram senão levar a outras
notas um convite para a algibeira do dono, e todas acudiram a mancheias,
obedientes e caladas, para que não as ouvissem crescer.
Por mais que ele olhasse pela vida dentro, não achava igual
obséquio do Céu, ou sequer do inferno. Mais tarde,
se alguma jóia lhe levou os olhos, não lhe levou as
mãos. Tinha aprendido a respeitar o alheio, ou ganhara com
que o comprar. A nota de dois mil-réis... Um dia. ousando
mais, chamou-lhe presente de Nosso Senhor.
Não, leitor, não me apanhas em contradição.
Eu bem sei que a princípio o andador das almas atribuiu a
nota ao prazer que a dama traria de alguma aventura. Ainda me lembram
as palavras dele: "Aquelas duas viram passarinho verde!"
Mas se agora atribuía a nota à proteção
da santa, não mentia então nem agora. Era difícil
atinar com a verdade. A única verdade certa eram os dois
mil-réis. Nem se pode dizer que era a mesma em ambos os tempos.
Então, a nota de dois mil-réis equivalia, pelo menos,
a vinte (lembra-te dos sapatos velhos do homem); agora não
subia de uma gorjeta de cocheiro.
Também não há contradição em
pôr a santa agora e a namorada outrora. Era mais natural o
contrário, quando era maior a intimidade dele com igreja.
Mas, leitor dos meus pecados, amava-se muito em 1871, como já
se amava em 1861, 1851 e 1841, não menos que em 1881, 1891
e 1901. O século dirá o resto. E depois, é
preciso não esquecer que a opinião do andador das
almas acerca de Natividade foi anterior ao gesto do corredor, quando
ele agasalhou a nota na algibeira. É duvidoso que, depois
do gesto, a opinião fosse a mesma.
CAPÍTULO
LXXV / PROVÉRBIO ERRADO
Pessoa a quem
li confidencialmente o capítulo passado, escreve-me dizendo
que a causa de tudo foi a cabocla do Castelo. Sem as suas predições
grandiosas, a esmola de Natividade seria mínima ou nenhuma,
e o gesto do corredor não se daria por falta de nota. "A
ocasião faz o ladrão", conclui o meu correspondente.
Não conclui mal. Há todavia alguma injustiça
ou esquecimento, porque as razões do gesto do corredor foram
todas pias. Além disso, o provérbio pode estar errado.
Uma das afirmações de Aires, que também gostava
de estudar adágios, é que esse não estava certo.
- Não é a ocasião que faz o ladrão,
dizia ele a alguém; o provérbio está errado.
A forma exata deve ser esta: "A ocasião faz o furto;
o ladrão nasce feito."
CAPÍTULO
LXXVI / TALVEZ FOSSE A MESMA!
Nóbrega
saiu enfim do corredor, mas foi obrigado a deter-se, porque uma
mulher lhe estendia a mão:
- Meu senhor, uma esmolinha por amor de Deus!
Nóbrega meteu a mão no bolso do colete e pegou um
níquel, entre dois que lá havia, um de tostão,
outro de dois. Pegou o primeiro, mas indo a dar-lho, mudou de idéia;
não deu o níquel; disse à velha que esperasse,
e entrou mais fundo no corredor. De costas para a rua, introduziu
a mão na algibeira das calças e sacou um maço
de dinheiro; procurou e achou uma nota de dois mil-réis,
não nova, antes velha, tão velha como a mendiga que
a recebeu espantada, mas tu sabes que o dinheiro não perde
com a velhice.
- Tome lá, murmurou ele.
Quando a mendiga voltou do espanto, Nóbrega acabava de restituir
o maço à algibeira e ia a querer sair. O que a mendiga
então disse veio entremeado de lágrimas:
- Meu senhor! Obrigada, meu senhor! Deus lhe pague! A Virgem Santíssima...
E beijava a nota, e queria beijar a mão que lhe dera a esmola,
mas ele a escondeu, como no Evangelho, murmurando que não,
que se fosse embora. Em verdade, a palavra da mendiga tinha um som
quase místico, uma espécie de melodia do Céu,
um coro de anjos e fazia bem fitar-lhe os olhos encarquilhados,
a mão trêmula, segurando a nota. Nóbrega não
esperou que ela se fosse, saiu, desceu a rua, com as bênçãos
da mulher atrás de si; dobrou a esquina, a passo rápido,
e aí foi pensando não se sabe em quê.
Atravessou a praça, passou a catedral e a Igreja do Carmo,
e chegou ao Carceler, onde entregou as botas a um italiano para
que lhas engraxasse. Mentalmente, olhava para cima ou para baixo,
para a direita ou para esquerda, - em todo caso para longe, - e
acabou murmurando esta frase, que tanto podia referir-se à
nota como à mendiga, mas provavelmente era à nota:
- Talvez fosse a mesma.
Nenhum obséquio, por ínfimo que seja, esquece ao beneficiado.
Há exceções. Também há casos
em que a memória dos obséquios aflige, persegue e
morde, como os mosquitos; mas não é regra. A regra
é guardá-los na memória, como as jóias
nos seus escrínios; comparação justa, porque
o obséquio é muita vez alguma jóia, que o obsequiado
esqueceu de restituir.
CAPÍTULO
LXXVII / HOSPEDAGEM
A família
Batista foi aposentada em casa de Santos. Natividade não
pôde ir a bordo, e o marido estava ocupado em "lançar
uma companhia"; mandaram recado pelos filhos que a casa de
Botafogo tinha já os quartos preparados. Desde que o carro
se pôs a andar, Batista confessou que ia ficar constrangido
por alguns dias.
- Numa casa de pensão era melhor, até que nos despejassem
a de S. Clemente.
- Que queria você? Não havia remédio senão
aceitar, ponderou a mulher.
Flora não disse nada, mas sentia o contrário do pai
e da mãe. Pensar, não pensou; ia tão atordoada
com a vista dos rapazes que as idéias não se enfileiraram
naquela forma lógica do pensamento. A própria sensação
não era nítida. Era uma mistura de opressivo e delicioso,
de turvo e claro, uma felicidade truncada, uma aflição
consoladora, e o mais que puderes achar no capítulo das contradições.
Eu nada mais lhe ponho. Nem ela saberia dizer o que sentia. Teve
alucinações extraordinárias.
Agora o que é mister dizer é que a idéia da
hospedagem cabe toda aos dois jovens doutores. Que eles eram já
doutores, posto não houvessem ainda encetado a carreira de
advogado nem de médico. Viviam do amor da mãe e da
bolsa do pai, inesgotáveis ambos. O pai abanou as orelhas
à lembrança, mas os gêmeos insistiram pelo obséquio,
a tal ponto que a mãe, contente de os ver de acordo, saiu
do silêncio e concordou com eles. A idéia de ter a
pequena ao pé de si, por alguns dias, e discernir qual era
o melhor aceito, e o que deveras a amava, pode ser que também
influísse na adoção do voto, mas não
afirmo nada a tal respeito. Também não asseguro que
tivesse grande gosto em agasalhar a mãe e o pai de Flora.
Não obstante, o encontro foi cordial de parte a parte. Foi
um abraçar, um beijar, um perguntar, um trocar de mimos que
não acabava mais. Todos estavam mais gordos, outra cor, outro
ar. Flora era um encanto para Natividade e Perpétua; nenhuma
destas sabia aonde iria parar aquela moça tão senhoril,
tão esbelta, tão...
- Não digam o resto, interrompeu a moça sorrindo;
eu tenho a mesma opinião.
Santos recebeu-os, à tarde, com a mesma cordialidade, --
talvez menos aparente, mas tudo se desculpa a quem anda com grandes
negócios .
- Uma idéia sublime, disse ele ao pai de Flora; a que lancei
hoje foi das melhores, e as ações valem já
ouro. Trata-se de lã de carneiro, e começa pela criação
deste mamífero nos campos do Paraná. Em cinco anos
poderemos vestir a América e a Europa. Viu o programa nos
jornais?
- Não, não leio jornais daqui desde que embarquei.
- Pois verá!
No dia seguinte, antes de almoçar, mostrou ao hóspede
o programa e os estatutos. As ações eram maços
e maços, e Santos ia dizendo o valor de cada um. Batista
somava mal, em regra; daquela vez, pior. Mas os algarismos cresciam
à vista, trepavam uns nos outros, enchiam o espaço,
desde o chão até as janelas, e precipitavam-se por
elas abaixo, com um rumor de ouro que ensurdecia. Batista saiu dali
fascinado, e foi repetir tudo à mulher.
CAPÍTULO
LXXVIII / VISITA AO MARECHAL
D. Cláudia,
quando ele acabou, perguntou-lhe com simplicidade:
- Você vai hoje ao marechal?
Batista, caindo em si:
- Naturalmente.
Tinham ajustado que ele iria ter com o presidente da República
explicar-lhe a comissão que exercera, toda reservada, e,
sem embargo, imparcial. Diria o espírito de concórdia
com que andou e a estima que adquiriu. Em seguida, falaria da conveniência
de um governo que, pela fortaleza e pela liberdade, excedesse o
do generalíssimo; e uma frase final bem estudada.
- Isso na ocasião, disse Batista.
- Não, é melhor levá-la feita. Eu lembrei-me
desta: "Creia V. Exª que Deus está com os fortes
e os bons."
- Sim, não é má. Você pode acrescentar
um gesto que indique o Céu.
- Isso é que não. Você sabe que eu não
dou para gestos, não sou ator. Eu, sem mexer um pé;
inspiro respeito.
D. Cláudia dispensou o gesto; não era essencial. Quis
que ele escrevesse a frase, mas lá estava de cor. Batista
tinha boa memória.
Naquele mesmo dia. Batista foi ao Marechal Floriano. Não
disse nada às pessoas da casa; contaria tudo na volta. D.
Cláudia também calou, era por pouco tempo; ficou esperando
ansiosa. Esperou duas mortais horas, chegou a imaginar que lhe tivessem
encarcerado o esposo, por intrigas. Não era devota, mas o
medo inspira devoção, e ela rezou consigo. Enfim,
chegou Batista. Ela correu a recebê-lo, alvoroçada,
pegou-lhe na mão e recolheram-se ao quarto. Perpétua
(vede o que são testemunhos pessoais na história!)
exclamou enternecida:
- Parecem dois pombinhos!
Batista contou que a recepção foi melhor do que esperava,
conquanto o marechal não lhe dissesse nada, mas escutou-o
com interesse. A frase? A frase saiu bem, apenas com uma emenda.
Não estando certo se ele preferia bons a fortes, ou se fortes
a bons...
- Deviam ser as duas palavras, interrompeu a mulher.
- Sim, mas lembrou-me empregar uma terceira: "Creia V. Exª
que Deus está com os dignos!"
Com efeito, a última palavra podia abranger as duas, e trazia
esta vantagem de dar à frase um arranjo pessoal dele.
- Mas o marechal que disse?
- Não disse nada, ouviu-me com atenção obsequiosa
e chegou a sorrir, - um sorriso leve, um sorriso de acordo...
- Ou seria... Quem sabe... Você não andou bem, decerto.
Comigo ele diria alguma coisa. Você expôs tudo, conforme
tínhamos combinado?
- Tudo.
- Expôs as razões da comissão, o desempenho,
a nossa moderação?...
- Tudo, Cláudia.
- E o aperto de mão do marechal?
- Não estendeu a mão, a princípio; fez um gesto
de cabeça; eu é que estendi a minha, dizendo: Sempre
às ordens de Vossa Exª.
- E ele?
- Ele apertou-me a mão.
- Apertou bem?
- Você sabe, não podia ser um apertão de amigo,
mas deve ter sido cordial.
- E nenhuma palavra? Um passe bem, ao menos?
- Não, nem era preciso. Cortejei-o e saí.
D. Cláudia deixou-se estar pensando. A recepção
não lhe pareceu que fosse má, mas podia ser melhor.
Com ela, seria muito melhor.
CAPÍTULO
LXXIX / FUSÃO, DIFUSÃO, CONFUSÃO...
Atrás
falei das alucinações de Flora. Realmente, eram extraordinárias.
Em caminho, depois do desembarque, não obstante virem os
gêmeos separados e sós, cada um no seu coupé,
cismou que os ouvia falar; primeira parte da alucinação.
Segunda parte: as duas vozes confundiam-se, de tão iguais
que eram, e acabaram sendo uma só. Afinal, a imaginação
fez dos dois moços uma pessoa única.
Este fenômeno não creio que possa ser comum. Ao contrário,
não faltará quem absolutamente me não creia,
e suponha invenção pura o que é verdade puríssima.
Ora, é de saber que, durante a comissão do pai, Flora
ouviu mais de uma vez as duas vozes que se fundiam na mesma voz
e mesma criatura. E agora, na casa de Botafogo, repetia-se o fenômeno.
Quando ouvia os dois, sem os ver, a imaginação acabava
a fusão do ouvido pela da vista, e um só homem lhe
dizia palavras extraordinárias.
Tudo isto não é menos extraordinário, concordo.
Se eu consultasse o meu gosto, nem os dois rapazes fariam um só
mancebo, nem a moça seria uma só donzela. Corrigiria
a natureza desdobrando Flora. Não podendo ser assim, consinto
na unificação de Pedro e Paulo. Porquanto, esse efeito
de visão repetia-se ao pé deles, tal qual na ausência,
quando ela se deixava esquecer do lugar, e soltava a rédea
a si mesma. Ao piano, à palestra, ao passeio na chácara,
à mesa de jantar, tinha dessas visões repentinas e
breves, e das quais ela mesma sorria, a princípio.
Se alguém quiser explicar este fenômeno pela lei da
hereditariedade supondo que ele era a forma afetiva da variação
política da mãe de Flora, não achará
apoio em mim, e creio que em ninguém. São coisas diversas.
Conheceis os motivos de D. Cláudia; a filha teria outros
que ela própria não sabia. O único ponto de
semelhança é que, tanto na mãe como na filha,
o fenômeno era agora mais freqüente, mas em relação
à primeira vinha do atropelo dos acontecimentos exteriores.
Nenhuma revolução se faz como a simples passagem de
uma sala a outra; as mesmas revoluções chamadas de
palácio trazem alguma agitação que fica por
certo prazo, até que a água volte ao nível.
D. Cláudia cedia à inquietação dos tempos.
A filha obedeceria a outra causa qualquer, que se não podia
descobrir logo, nem sequer entender. Era um espetáculo misterioso,
vago, obscuro, em que as figuras visíveis se faziam impalpáveis,
o dobrado ficava único, o único desdobrado, uma fusão,
uma confusão, uma difusão...
CAPÍTULO
LXXX / TRANSFUSÃO, ENFIM
Uma transfusão,
tudo o que puder definir melhor, pela repetição e
graduação das formas e dos estados, aquele particular
fenômeno, podes empregá-lo no outro e neste capítulo.
Dito o fenômeno, é preciso dizer também que
Flora, a princípio, achava-lhe graça. Minto; nos primeiros
tempos, como estava longe, não lhe achou nada; depois, sentiu
uma espécie de susto ou vertigem, mas logo que se acostumou
a passar de dois a um e de um a dois, pareceu-lhe graciosa a alternação,
e chegava a evocá-la com o propósito de divertir a
vista. Afinal nem isto era preciso, a alternação fazia-se
de si mesma. Umas vezes era mais lenta que outras, alguma instantânea.
Não eram tão freqüentes que confinassem com o
delírio. Enfim, ela se foi acostumando e deleitando.
Uma ou outra vez, na cama, antes de dormir, repetia-se o fenômeno,
depois de muita resistência da parte dela, que não
queria perder o sono. Mas o sono vinha, e o sonho completava a vigília.
Flora passeava então pelo braço do mesmo garção
amado, Paulo se não Pedro, e ambos iam admirar estrelas e
montanhas, ou então o mar, que suspirava ou tempestuava,
e as flores e as ruínas. Não era raro ficarem os dois
a sós, diante de uma nesga de céu, claro de luar,
ou todo repregado de estrelas como um pano azul escuro. Era à
janela, supõe; vinha de fora a cantiga dos ventos mansos,
um espelho grande, pendente da parede, reproduzia as figuras dela
e dele, confirmando a imaginação dela. Como era sonho,
a imaginação trazia espetáculos desconhecidos,
tais e tantos que mal se podia crer bastasse o espaço de
uma noite. E bastava. E sobrava. Sucedia que Flora acordava de repente,
perdia o quadro e o vulto, e persuadia-se que era tudo ilusão,
e raro então dormia. Se era cedo, erguia-se, andava, cansava-se,
até adormecer novamente e sonhar outra coisa.
Outras vezes, a visão ficava sem o sonho, e diante dela uma
só figura esbelta, com a mesma voz namorada, o mesmo gesto
súplice. Uma noite, indo a deitar-lhe os braços sobre
os ombros com o fim inconsciente de cruzar os dedos atrás
do pescoço, a realidade, posto que ausente, clamou pelos
seus foros, e o único moço se desdobrou nas duas pessoas
semelhantes.
A diferença deu às duas visões de acordada
um tal cunho de fantasmagoria que Flora teve medo e pensou no Diabo.
CAPÍTULO
LXXXI / AI, DUAS ALMAS...
Anda, Flora,
ajuda-me, citando alguma coisa, verso ou prosa, que exprima a tua
situação. Cita Goethe, amiga minha, cita um verso
do Fausto, adequado:
Ai, duas almas no meu seio moram!
A mãe dos gêmeos, a bela Natividade, podia havê-lo
citado também, antes deles nascerem, quando elas os sentia
lutando dentro em Si mesma:
Ai, duas almas no meu seio moram!
Nisto as duas se parecem, - uma os concebeu, outra os recolheu.
Agora, como é que se dá ou se dará a escolha
de Flora, nem o próprio Mefistófeles no-lo explicaria
de modo claro e certo. O verso basta:
Ai, duas almas no meu seio moram!
Talvez aquele velho Plácido, que lá deixamos nas primeiras
páginas, chegasse a deslindar estas outras. Doutor em matérias
escuras e complicadas, sabia muito bem o valor dos números,
a significação dos gestos não só visíveis
como invisíveis, a estatística da eternidade a divisibilidade
do infinito. Era já morto desde alguns anos. Hás de
lembrar-te que ele, consultado pelo pai de Pedro e Paulo, acerca
da hostilidade original dos gêmeos, explicou-a prontamente.
Morreu no seu ofício; expunha a três discípulos
novos a correspondência das letras vogais com os sentidos
do homem. quando caiu de bruços e expirou.
Já então os adversários de Plácido,
- que os tinha na própria seita, - afirmavam haver ele aberrado
da doutrina, e, por natural efeito, enlouquecido. Santos nunca se
deixou ir com esses divergentes da causa comum, que acabaram formando
outra igrejinha em outro bairro, onde pregavam que a correspondência
exata não era entre as vogais e os sentidos, mas entre os
sentidos e as vogais. Esta outra fórmula, parecendo mais
clara, fez com que muitos discípulos da primeira hora acompanhassem
os da última, e proclamem agora, como conclusão final,
que o homem é um alfabeto de sensações.
Venceram estes, ficando mui poucos fiéis à doutrina
do velho Plácido. Evocado algum tempo depois de morto, confessou
ele ainda uma vez a sua fórmula, como a única das
únicas, e excomungou a quantos pregassem o contrário.
Aliás, os dissidentes já o haviam excomungado também,
declarando abominável a sua memória, com aquele ódio
rijo, que fortalece alguma vez o homem contra a frouxidão
da piedade.
Talvez o velho Plácido deslindasse o problema em cinco minutos.
Mas para isso era preciso evocá-lo, e o discípulo
Santos cuidava agora de umas liquidações últimas
e lucrativas. Não só de fé vive o homem, mas
também de pão e seus compostos e similares.
CAPÍTULO
LXXXII / EM S. CLEMENTE
Ao cabo de poucas
semanas, a família Batista saiu da casa Santos, e tornou
à Rua de S. Clemente. A despedida foi terna, as saudades
começaram antes da separação, mas a afeição,
o costume, a estima, - a necessidade, em suma, de se verem a miúdo
compensaram a melancolia, e a gente Batista levou promessa de que
a gente Santos iria vê-la daí a poucos dias.
Os gêmeos cumpriram cedo a promessa. Um deles, parece que
Paulo, foi lá nessa mesma noite com recado da mãe
para saber se tinham chegado bem. Disseram-lhe que sim, acrescentando
Batista, para abreviar a visita, que estavam bastante cansados.
Os olhos de Flora desmentiram esta afirmação; mas
dentro em pouco achavam-se não menos tristes que alegres.
A alegria vinda da prontidão de Paulo, a tristeza da ausência
de Pedro. Quisera-os ambos naturalmente; mas, como é que
as duas sensações se mostravam a um tempo; eis o que
não entenderás bem nem mal. Certamente, os olhos iam
diversas vezes para a porta, e uma vez pareceu à moça
ouvir rumor na escada; tudo ilusão. Mas estes gestos que
Paulo não viu, tão contente estava de se haver adiantado
ao irmão, não eram tais que a fizessem esquecer o
irmão presente.
Paulo saiu tarde, não só para o fim de aproveitar
a ausência de Pedro, mas ainda porque Flora o fazia demorar,
com o intuito de ver se o outro chegava. Assim que, a mesma dualidade
de sensação enchia os olhos da moça, até
a hora da despedida, em que a parte triste foi maior que a alegre,
pois que eram duas ausências, em vez de uma. Conclui o que
quiseres, minha dona; ela recolheu-se para dormir, e reconheceu
que, se não dorme com uma tristeza na alma, muito menos com
duas.
CAPÍTULO
LXXXIII / A GRANDE NOITE
Há muito
remédio contra a insônia. O mais vulgar é contar
de um até mil, dois mil, três mil ou mais, se a insônia
não ceder logo. É remédio que ainda não
fez dormir ninguém, ao que parece, mas não importa.
Até agora, todas as aplicações eficazes contra
a física vão de par com a noção de que
a tísica é incurável. Convém que os
homens afirmem o que não sabem, e, por ofício, o contrário
do que sabem; assim se forma esta outra incurável, a Esperança.
Flora, incurável também, se não preferes a
definição de inexplicável, que lhe deu Aires,
a graciosa Flora teve naquela noite a sua insônia. Mas foi
um tanto culpa sua. Em vez de se deitar quietinha e dormir com os
anjos, achou melhor velar com um dos dois deles, e gastar uma parte
da noite, à janela ou sentada, a recordar e a pensar, a cotejar
e a completar, metida no roupão de linho, com os cabelos
atados para dormir.
A princípio pensou no que lá estivera, e evocou todas
as suas graças, realçadas pela virtude particular
de a ter ido ver à noite, sem embargo de se terem visto de
manhã. Sentia-se grata. Toda a conversação
foi ali repetida na solidão da alcova, com as entonações
diversas, o vário assunto, e as interrupções
freqüentes, ora dos outros, ora dela mesma. Ela, em verdade,
só interrompia, para pensar no ausente, - e portanto não
fazia mais que converter o diálogo em monólogo, o
qual por sua vez acabava em silêncio e contemplação.
Agora, pensando em Paulo, queria saber por que é que o não
escolhia para noivo. Tinha uma qualidade a mais, a nota aventurosa
do caráter, e esta feição não lhe desprazia.
Inexplicável ou não, deixava-se levar pelos ímpetos
do rapaz, que queria trocar o mundo e o tempo por outros mais puros
e felizes. Aquela cabeça, apenas masculina, era destinada
a mudar a marcha do Sol, que andava errado. A Lua também.
A Lua pedia um contacto mais freqüente com os homens, menos
quartos, não descendo o minguante de metade. Visível
todas as noites, sem que isso acarretasse a decadência das
estrelas, continuaria modestamente o ofício do Sol, e faria
sonhar os olhos insones ou só cansados de dormir. Tudo isso
cumpriria a alma de Paulo, faminta de perfeição. Era
um bom marido, em suma. Flora cerrou as pálpebras, para vê-lo
melhor, e achou-o a seus pés, com as mãos dela entre
as suas, risonho e extático.
- Paulo! meu querido Paulo!
Inclinou-se, para vê-lo de mais perto, e não perdeu
o tempo nem a intenção. Visto assim; era mais belo
que simplesmente conversando das coisas vulgares e passageiras.
Enfiou os olhos nos olhos, e achou-se dentro da alma do rapaz. O
que lá viu não soube dizê-lo bem; foi tudo tão
novo e radiante que a pobre retina da moça não podia
fitar nada com segurança nem continuidade. As idéias
faiscavam como saindo de um fogareiro à força de abano,
as sensações batiam-se em duelo, as reminiscências
subiam frescas, algumas saudades, e ambições principalmente,
umas ambições de asas largas, que faziam vento só
com agitá-las. Sobre toda essa mescla e confusão chovia
ternura, muita ternura...
Flora recolheu os olhos, Paulo estava na mesma postura; mas do lado
da porta, metido na penumbra, a figura de Pedro aparecia, não
menos bela, mas um tanto triste. Flora sentiu-se tocada daquela
tristeza. Parece que, se amasse exclusivamente o primeiro, o segundo
podia chorar lágrimas de sangue, sem lhe merecer a menor
simpatia. Que o amor, conforme as ninfas antigas e modernas, não
tem piedade. Quando há piedade para outro, dizem elas, é
que o amor ainda não nasceu de verdade, ou já morreu
de todo, e assim o coração não lhe importa
vestir essa primeira camisa do afeto. Perdoa a figura; não
é nobre, nem clara, mas a situação não
me dá tempo de ir à cata de outra.
Pedro aproximou-se, a passo lento, ajoelhou-se também e tomou-lhe
as mãos que Paulo apertava entre as suas. Paulo ergueu-se
e sumiu-se pela outra porta. O quarto tinha duas. A cama ficava
entre elas. Talvez Paulo fosse bramindo de cólera; ela é
que não ouviu nada, tão docemente vivo era o gesto
de Pedro, já agora sem melancolia, e os olhos tão
extáticos como os do irmão. Não eram tais que
saíssem, como os deste, às aventuras. Tinham a quietação
de quem não queria mais sol nem lua que esses que andam aí,
que se contenta de ambos, e, se os acha divinos, não cuida
de os trocar por novos. Era a ordem, se queres, a estabilidade,
o acordo entre si e as coisas, não menos simpáticos
ao coração da moça, ou por trazerem a idéia
de perpétua ventura, ou por darem a sensação
de uma alma capaz de resistir.
Nem por isso os olhos de Flora deixaram de penetrar os de Pedro,
até chegar à alma do rapaz. O motivo secreto desta
outra entrada podia ser o escrúpulo de cotejar as duas para
julgá-las, se não era somente o desejo de não
parecer menos curiosa de uma que de outra. Ambas as razões
são boas, mas talvez nenhuma fosse verdadeira. O gosto de
fitar os olhos de Pedro era tão natural que não exigia
intenção particular nenhuma, e bastava fitá-los
para escorregar e cair dentro da alma namorada. Era gêmea
da outra; não lhe viu mais nem menos que nesta.
Unicamente, - e aqui toco o ponto escabroso do capítulo,
- achou cá alguma coisa indefinível que não
sentira lá; em compensação sentiu lá
outra que não se lhe deparou cá. Indefinível,
não esqueças. E escabroso porque nada há pior
que falar de sensações sem nome. Crede-me, amigo meu,
e tu, não menos amiga minha, crede-me que eu preferia contar
as rendas do roupão da moça, os cabelos apanhados
atrás, os fios do tapete, as tábuas do tecto e por
fim os estalinhos da lamparina que vai morrendo... Seria enfadonho,
mas entendia-se.
Sim, a lamparina ia morrendo, mas ainda podia dar luz ao regresso
de Paulo. Quando Flora o viu entrar e ajoelhar-se outra vez, ao
pé do irmão, e ambos dividirem entre si as mãos
dela, mansos e cordatos, ficou longamente atônita. Obra de
um credo, como diziam os nossos antigos, quando havia mais religião
que relógios. Voltando a si, puxou as mãos, estendeu-as
depois sobre a cabeça deles, como se lhes apalpasse a diferença,
o quid, o algo, o indefinível. A lamparina ia morrendo...
Pedro e Paulo falavam-lhe por exclamações, por exortações,
por súplicas, a que ela respondia mal e tortamente, não
que os não entendesse, mas por não os agravar, ou
acaso por não saber a qual deles diria melhor. A última
hipótese tem ar de ser a mais provável. Em todo caso,
é o prólogo do que sucedeu, quando a lamparina chegou
aos últimos arrancos.
Tudo se mistura à meia claridade; tal seria a causa da fusão
dos vultos, que de dois que eram, ficaram sendo um só. Flora,
não tendo visto sair nenhum dos gêmeos, mal podia crer
que formassem agora uma só pessoa, mas acabou crendo, mormente
depois que esta única pessoa solitária parecia completá-la
interiormente, melhor que nenhuma das outras em separado. Era muito
fazer e desfazer, mudar e transmudar. Pensou enganar-se, mas não;
era uma só pessoa, feita das duas e de si mesma, que sentia
bater nela o coração. Estava tão cansada de
emoções que tentou erguer-se e ir fora, mas não
pôde; as pernas pareciam de chumbo e coladas ao solo. Assim
esteve até que a lamparina, ao canto, morreu de todo. Flora
teve um sobressalto na poltrona, e ergueu-se:
- Que é isto?
A lamparina apagou-se. Foi acendê-la. Viu então que
estava sem um nem outro, sem dois nem um só fundido de ambos.
Toda a fantasmagoria se desfizera. A lamparina (agora nova) alumiava
o seu quarto de dormir, e a imaginação criara tudo.
Foi o que ela supôs, e o leitor sabe. Flora compreendeu que
era tarde, e um galo confirmou essa opinião, cantando; outros
galos fizeram a mesma coisa.
- Ora, meu Deus! exclamou a filha de Batista.
Meteu-se na cama, e, se não dormiu logo, também não
se demorou muito; não tardou a estar com os anjos. Sonhou
com o canto dos galos, uma carroça, um lago, uma cena de
viagem do mar, um discurso e um artigo. O artigo era de verdade.
A mãe veio acordá-la, às dez horas da manhã,
chamando-lhe dorminhoca, e ali mesmo, na cama, lhe leu uma folha
da manhã que recomendava o marido ao governo. Flora ouviu
satisfeita; acabara a grande noite.
CAPÍTULO
LXXXIV / O VELHO SEGREDO
Natividade dormiu
tranqüila, em Botafogo, mas acordou pensando nos filhos e na
moça de S. Clemente. Viera reparando nos três. Parecera-lhe
antes que Flora não aceitava um nem outro, logo depois que
os aceitava a ambos, e mais tarde um e outro alternadamente. Concluiu
que ainda não sentiria nada particular e decisivo; naturalmente
iria com os tempos, a ver qual destes a merecia deveras. Eles é
que pareciam sentir igual inclinação e igual ciúme.
Daí alguma possível catástrofe. A separação
não suprimiria tudo; mas, além de que, separadas as
famílias, nem tudo seria presente a seus olhos, as visitas
podiam ser menos freqüentes e até raras. Tinha assim
o que quisera.
Ao demais, ia chegando o tempo de ir para Petrópolis; propriamente,
chegara. Natividade cuidava de subir com os filhos. Sempre haveria
lá no alto damas elegantes, diversões, alegria. Podia
ser até que eles achassem noivas, e bastava uma para um.
O que ficasse sem ela teria a liberdade de desposar Flora. Cálculos
de mãe; vieram outros que os modificaram, e outros que os
restauraram. Quem for mãe que lhe atire a primeira pedra.
Nenhuma outra mãe atirou a primeira pedra à nossa
amiga. Quero crer que a razão disto não foi senão
a própria discrição de Natividade. Suspeitas
e cálculos iam ficando no coração dela. Calou
tudo e esperou.
Ao cabo, Flora cada vez gostava mais de Natividade. Queria-lhe como
se ela fosse sua mãe, duplamente mãe, uma vez que
não escolhera ainda nenhum dos filhos. A causa podia ser
que as duas índoles se ajustassem melhor que entre Flora
e D. Cláudia. A princípio, sentiu não sei que
inveja amiga, antes desejo, quando via que as formas da outra, embora
arruinadas pelo tempo, ainda conservavam alguma linha da escultura
antiga. Pouco a pouco, foi descobrindo em si mesma o intróito
de uma beleza, que devia ser longa e fina, e de uma vida que podia
ser grande...
Flora conhecia a predição da cabocla do Castelo, relativamente
aos dois gêmeos. A predição não era já
segredo para ninguém. Santos falara dela em tempo, apenas
ocultando a subida de Natividade ao Castelo; emendou a verdade,
dizendo que a cabocla é que viera a Botafogo. O resto foi
revelado em confiança, como ao finado Plácido, e ainda
depois de alguma luta. Três ou quatro vezes investiu e recuou.
Um dia. a língua deu sete voltas na boca, e o segredo saiu
medroso e sussurrado, mas perdeu o medo pelo gosto de mostrar que
os rapazes seriam grandes. Enfim, o segredo foi esquecendo. Mas
Perpétua, por isto ou aquilo, contou-o agora à moça
Batista, que a ouviu incrédula. Que podia saber a cabocla
do futuro?
- Sabia, e a prova é que adivinhou outras coisas, que não
posso contar e eram verdadeiras. Você não imagina como
o diacho da cabocla via longe. E tinha uns olhos de espetar o coração.
- Não acredito, D. Perpétua. Pois agora o futuro da
gente... E grandes como?
- Isso não disse por mais que Natividade lhe perguntasse;
disse só que seriam grandes e subiriam muito. Talvez venham
a ser ministros de Estado.
Perpétua parecia haver comprado os olhos à cabocla.
Enfiava-os pela amiga abaixo, até o coração,
que aliás não batia com força nem apressado,
mas tão regular como de costume. Entretanto, não sendo
impossível que os dois rapazes chegassem aos altos deste
mundo, Flora deixou de objetar e aceitou a predição,
sem outra palavra mais que um gesto, - sabes, creio, - um gesto
de boca, fazendo descair os cantos dela, levantando os ombros levemente,
e espalmando as mãos, como se dissesse: Enfim, pode ser.
Perpétua acrescentou que, mudado o regímen, era natural
que Paulo chegasse primeiro à grandeza, - e aqui espetou
bem os olhos. Era um modo de apanhar os sentimentos de Flora, acenando-lhe
com a elevação de Paulo, pois bem podia ser que viesse
a amar antes o destino que a pessoa. Não achou nada. Flora
continuou a não se deixar ler. Não lhe atribuas isto
a cálculo, não era cálculo. Seriamente, não
pensava em nada acima de si.