ESAÚ
E JACÓ
Machado de Assis
CAPÍTULO LXII / "ARE NO D."
- Mas, S. Exª
está almoçando, dizia o criado no patamar da escada
a alguém que pedia para falar ao conselheiro.
Era falso, Aires acabava justamente de almoçar; mas o criado
sabia que o amo gostava de saborear o charuto depois do almoço,
sem interrupção. Agora estava no canapé e ouviu
o diálogo do patamar. A pessoa insistia em dizer uma palavrinha.
- Não pode ser.
- Bem, eu espero; logo que S. Exª acabe...
- O melhor é voltar depois; não mora ali defronte?
Pois volte daqui a uma hora ou duas...
A pessoa era o Custódio e foi para casa, mas o velho diplomata,
sabendo quem era, não esperou que acabasse o charuto; mandou-lhe
dizer que viesse. Custódio saiu, correu; subiu e entrou assombrado.
- Que é isso, Sr. Custódio? disse-lhe Aires. O senhor
anda a fazer revoluções?
- Eu, senhor? Ah! senhor! Se V. Exª soubesse...
- Se soubesse o quê?
Custódio explicou-se. Vá, resumamos a explicação.
Na véspera, tendo de ir abaixo, Custódio foi à
Rua da Assembléia, onde se pintava a tabuleta. Era já
tarde; o pintor suspendera o trabalho. Só algumas das letras
ficaram pintadas, - a palavra Confeitaria e a letra d. A letra o
e a palavra Império estavam só debuxadas a giz. Gostou
da tinta e da cor, reconciliou-se com a forma, e apenas perdoou
a despesa. Recomendou pressa. Queria inaugurar a tabuleta no domingo.
Ao acordar de manhã não soube logo do que houvera
na cidade, mas pouco a pouco vieram vindo as notícias, viu
passar um batalhão, e creu que lhe diziam a verdade os que
afirmavam a revolução e vagamente a república.
A princípio, no meio do espanto, esqueceu-lhe a tabuleta.
Quando se lembrou dela, viu que era preciso sustar a pintura. Escreveu
às pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete
dizia só isto: "Pare no D." Com efeito, não
era preciso pintar o resto, que seria perdido, nem perder o princípio,
que podia valer. Sempre haveria palavra que ocupasse o lugar das
letras restantes. "Pare no D."
Quando o portador voltou trouxe a notícia de que a tabuleta
estava pronta.
- Você viu-a pronta?
- Vi, patrão.
- Tinha escrito o nome antigo?
- Tinha, sim, senhor: "Confeitaria do Império."
Custódio enfiou um casaco de alpaca e voou à Rua da
Assembléia. Lá estava a tabuleta, por sinal que coberta
com um pedaço de chita; alguns rapazes que a tinham visto,
ao passar na rua, quiseram rasgá-la; o pintor, depois de
a defender com boas palavras, achou mais eficaz cobri-la. Levantada
a cortina, Custódio leu: "Confeitaria do Império."
Era o nome antigo, o próprio, o célebre, mas era a
destruição agora; não podia conservar um dia
a tabuleta, ainda que fosse em beco escuro, quanto mais na Rua do
Catete...
- O senhor vai despintar tudo isto, disse ele.
- Não entendo. Quer dizer que o senhor paga primeiro a despesa.
Depois, pinto outra coisa.
- Mas que perde o senhor em substituir a última palavra por
outra? A primeira pode ficar, e mesmo o d... Não leu o meu
bilhete?
- Chegou tarde.
- E por que pintou, depois de tão graves acontecimentos?
- O senhor tinha pressa, e eu acordei às cinco e meia para
servi-lo. Quando me deram as notícias, a tabuleta estava
pronta. Não me disse que queria pendurá-la domingo?
Tive de pôr muito secante na tinta, e além da tinta,
gastei tempo e trabalho.
Custódio quis repudiar a obra, mas o pintor ameaçou
de pôr o número da confeitaria e o nome do dono na
tabuleta, e expô-la assim, para que os revolucionários
lhe fossem quebrar as vidraças do Catete. Não teve
remédio senão capitular. Que esperasse: ia pensar
na substituição; em todo caso, pedia algum abate no
preço. Alcançou a promessa do abate e voltou a casa.
Em caminho, pensou no que perdia mudando de título, - uma
casa tão conhecida, desde anos e anos! Diabos levassem a
revolução! Que nome lhe poria agora? Nisso lembrou-lhe
o vizinho Aires e correu a ouvi-lo.
CAPÍTULO
LXIII / TABULETA NOVA
Referí-lo
o que lá fica atrás, Custódio confessou tudo
o que perdia no título e na despesa, o mal que lhe trazia
a conservação do nome da casa, a impossibilidade de
achar outro, um abismo, um suma. Não sabia que buscasse;
faltava-lhe invenção e paz de espírito. Se
pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha ele com política?
Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado,
respeitado, e principalmente respeitador da ordem pública...
- Mas o que é que há? perguntou Aires.
- A república está proclamada.
- Já há governo?
- Penso que já; mas diga-me V. Exª: ouviu alguém
acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto...
Uma fatalidade! Venha em meu socorro. Excelentíssimo. Ajude-me
a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome
todo pintado. - "Confeitaria do Império", a tinta
é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho,
para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse
acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas
hei de perder o dinheiro que gastei? V. Exª crê que,
se ficar "Império", venham quebrar-me as vidraças?
- Isso não sei.
- Realmente, não há motivo, é o nome da casa,
nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo.
- Mas pode pôr "Confeitaria da República"...
- Lembrou-me isso, em caminho, mas também me lembrou que,
se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto
em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.
- Tem razão... Sente-se.
- Estou bem.
- Sente-se e fume um charuto.
Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a
cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades
lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento
do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S.
Exª, com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia
salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título
que iria com ambas as hipóteses, - "Confeitaria do Governo."
- Tanto serve para um regímen como para outro.
- Não digo que não, e, a não ser a despesa
perdida... Há porém, uma razão contra. V. Exª
sabe que nenhum governo deixa de ter oposição. As
oposições, quando descerem à rua, podem implicar
comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta; entretanto,
o que eu procuro é o respeito de todos.
Aires compreendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o vizinho
não queria barulhos à porta, nem malquerenças
gratuitas, nem ódios de quem quer que fosse; mas, não
o afligia menos a despesa que teria de fazer de quando em quando,
se não achasse um título definitivo, popular e imparcial.
Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além
de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguém lhe compraria
uma tabuleta condenada. Já era muito ter o nome e o título
no Almanaque de Laemmert, onde podia lê-lo algum abelhudo
e ir com outros, puni-lo do que estava impresso desde o princípio
do ano...
- Isso não, interrompeu Aires; o senhor não há
de recolher a edição de um almanaque.
E depois de alguns instantes:
- Olhe, dou-lhe uma idéia. que pode ser aproveitada, e, se
não a achar boa, tenho outra à mão; e será
a última. Mas eu creio que qualquer delas serve. Deixe a
tabuleta pintada como está, e à direita, na ponta,
por baixo do título, mande escrever estas palavras que explicam
o título: "Fundada em 1860." Não foi em
1860 que abriu a casa?
- Foi, respondeu Custódio.
- Pois...
Custódio refletia. Não se lhe podia ler sim nem não;
atônito, a boca entreaberta, não olhava para o diplomata,
nem para o chão nem para as paredes ou móveis, mas
para o ar. Como Aires insistisse, ele acordou a confessou que a
idéia era boa. Realmente, mantinha o título e tirava-lhe
o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a
outra idéia podia ser igual ou melhor, e quisera comparar
as duas.
- A outra idéia não tem a vantagem de pôr a
data à fundação da casa, tem só a de
definir o título, que fica sendo o mesmo, de uma maneira
alheia ao regímen. Deixe-lhe estar a palavra império
e acrescente-lhe embaixo, ao centro, estas duas, que não
precisam ser graúdas: das leis. Olhe, assim, concluiu Aires,
sentando-se à secretária, e escrevendo em uma tira
de papel o que dizia.
Custódio leu, releu e achou que a idéia era útil;
sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito;
sendo as letras de baixo menores; podiam não ser lidas tão
depressa e claramente com as de cima, e estas é que se meteriam
pelos olhos ao que passasse. Daí a que algum político
ou sequer inimigo pessoal não entendesse logo, e... A primeira
idéia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro:
pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação,
fazia timbre em ser antigo. Quem sabe se não era pior que
nada?
- Tudo é pior que nada.
- Procuremos.
Aires achou outro título, o nome da rua, "Confeitaria
do Catete." sem advertir que, havendo outra confeitaria na
mesma rua, era atribuir exclusivamente à do Custódio
a designação local. Quando o vizinho lhe fez tal ponderação,
Aires achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos
do homem; mas logo depois descobriu que o que fez falar o Custodio
foi a idéia de que esse título ficava comum às
duas casas. Muita gente não atinaria com o título
escrito e compraria na primeira que lhe ficasse à mão,
de maneira que só ele faria as despesas da pinturas e ainda
por cima perdia a freguesia. Ao perceber isto, Aires não
admirou menos a sagacidade de um homem que em meio de tantas tribulações;
contava os maus frutos de um equívoco. Disse-lhe então
que o melhor seria pagar a despesa feita e não pôr
nada, a não ser que preferisse o seu próprio nome:
"Confeitaria do Custódio". Muita gente certamente
lhe não conhecia a casa por outra designação.
Um nome; o próprio nome do dono, não tinha significação
política ou figuração história, ódio
nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimens,
e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis
de Santa Clara; menos ainda a vida do proprietário e dos
empregados. Por que é que não adotava esse alvitre?
Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, Custódio
em vez de Império, mas as revoluções trazem
sempre despesas.
- Sim vou pensar, Excelentíssimo. Talvez convenha esperar
um ou dois dias, a ver em que param as modas, disse Custódio
agradecendo.
Curvou-se, recuou e saiu. Aires foi à janela para vê-lo
atravessar a rua. Imaginou que ele levaria da casa do ministro aposentado
um ilustre particular que faria esquecer por instantes a crise da
tabuleta. Nem tudo são despesas na vida, e a glória
das relações podia amaciar as agruras deste mundo.
Não acertou desta vez. Custódio atravessou a rua,
sem parar nem olhar para trás, e enfiou pela confeitaria
dentro com todo o seu desespero.
CAPÍTULO
LXIV / PAZ!
Que, em meio
de tão graves sucessos, Aires tivesse bastante pausa e claridade
para imaginar tal descoberta no vizinho, só se pode explicar
pela incredulidade com que recebera as notícias. A própria
aflição de Custódio não lhe dera fé.
Vira nascer e morrer muito boato falso. Uma de suas máximas
é que o homem vive para espalhar a primeira invenção
de rua, e que tudo se fará crer a cem pessoas juntas ou separadas.
Só às duas horas da tarde, quando Santos lhe entrou
em casa, acreditou na queda do império.
- É verdade, conselheiro, vi descer as tropas pela Rua do
Ouvidor, ouvi as aclamações à república.
As lojas estão fechadas, os bancos também, e o pior
é se se não abrem mais, se vamos cair na desordem
pública; é uma calamidade.
Aires quis aquietar-lhe o coração. Nada se mudaria;
o regímen, sim, era possível, mas também se
muda de roupa sem trocar de pele. Comércio é preciso.
Os bancos são indispensáveis. No sábado, ou
quando muito na segunda-feira, tudo voltaria ao que era na véspera,
menos a constituição.
- Não sei, tenho medo, conselheiro.
- Não tenha medo. A baronesa já sabe o que há?
- Quando eu saí de casa, não sabia, mas agora é
provável.
- Pois vá tranqüilizá-la; naturalmente está
aflita.
Santos receava os fuzilamentos; por exemplo, se fuzilassem o imperador,
e com ele as pessoas de sociedade? Recordou que o Terror... Aires
tirou-lhe o Terror da cabeça. As ocasiões fazem as
revoluções, disse ele, sem intenção
de rimar, mas gostou que rimasse, para dar forma fixa à idéia.
Depois lembrou a índole branda do povo. O povo mudaria de
governo, sem tocar nas pessoas. Haveria lances de generosidade.
Para provar o que dizia referiu um caso que lhe contara um velho
amigo, o Marechal Beaurepaire Rohan. Era no tempo da Regência.
O imperador fora ao Teatro de S. Pedro de Alcântara. No fim
do espetáculo, o amigo, então moço, ouviu grande
rumor do lado da Igreja de S. Francisco, e correu a saber o que
era. Falou a um homem, que bradava indignado, e soube dele que o
cocheiro do imperador não tirara o chapéu no momento
em que este chegara à porta para entrar no coche; o homem
acrescentou: "Eu sou ré..." Naquele tempo os republicanos
por brevidade eram assim chamados. "Eu sou ré, mas não
consinto que faltem ao respeito a este menino!"
Nenhuma feição de Santos mostrou apreciar ou entender
aquele rasgo anônimo. Ao contrário, todo ele parecia
entregue ao presente, ao momento, ao comércio fechado, aos
bancos sem operações, ao receio de uma suspensão
total de negócios, durante prazo indeterminado. Cruzava e
descruzava as pernas. Afinal ergueu-se e suspirou.
- Então, parece-lhe?...
- Que descanse.
Santos aceitou o conselho, mas vai muito do aceitar ao cumprir,
e a aparência era mui diversa do coração. O
coração batia-lhe. A cabeça via esboroar-se
tudo. Quis despedir-se, mas fez duas ou três investidas antes
de pousar o pé fora do gabinete e caminhar para a escada.
Instava pela certeza. Conquanto tivesse visto e ouvido a república,
podia ser... Em todo caso, a paz é que era necessária,
e haveria paz? Aires inclinava-se a crer que sim, e novamente o
convidou a descansar.
- Até logo, concluiu.
- Por que não vai lá jantar conosco?
- Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois,
talvez, ou amanhã. Vá, vá tranqüilizar
a baronesa, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses
brigam, com certeza; vá pô-los em ordem.
- O senhor podia ajudar-me nisso. Vá lá de noite.
- Pode ser; se puder, vou. Amanhã com certeza.
Santos saiu; tinha o carro à espera, entrou e seguiu para
Botafogo. Não levava a paz consigo, não a poderia
dar à mulher, nem à cunhada, nem aos filhos. Quisera
chegar a casa, por medo da rua, mas quisera também ficar
na rua, por não saber que palavras nem que conselhos daria
aos seus. O espaço do carro era pequeno e bastante para um
homem; mas, enfim, não viveria ali a tarde inteira. Ao demais,
a rua estava quieta. Via gente à porta das lojas. No Largo
do Machado viu outra que ria, alguma calada, havia espanto, mas
não havia propriamente susto.
CAPÍTULO
LXV / ENTRE OS FILHOS
Quando Santos
chegou a casa, Natividade estava inquieta, sem notícia exata
e definitiva dos acontecimentos. Não sabia da república.
Não sabia do marido nem dos filhos. Aquele saíra antes
dos primeiros rumores, estes iam fazer a mesma coisa, logo que os
boatos chegaram. O primeiro gesto da mãe foi para impedir
que os filhos saíssem, mas não pôde, era tarde.
Não os podendo reter, pegou-se com a Virgem Maria, a fim
de que os poupasse, e esperou. A irmã fez o mesmo. Era perto
de meio-dia; foi então que os minutos entraram a parecer
séculos.
A ânsia da mãe era naturalmente maior que a da tia.
Natividade via andar o tempo com ferros aos pés. Não
havia alvoroço que atasse um par de asas àquelas horas
longas do relógio da casa, nem aos do cinto, o dela e o da
irmã; todos eles coxeavam de ambos os ponteiros. Enfim, ouviu
na areia do jardim as rodas de um carro; era Santos.
Natividade acudiu ao patamar da escada. Santos subiu, e as mãos
de ambos estenderam-se e agarraram-se. Longa vida conjunta acaba
por fazer da ternura uma coisa grave e espiritual. Entretanto, parece
que o gesto do marido não foi original, mas secundário,
filho ou imitativo do da mulher. Pode ser que a corda da sensibilidade
fosse menos vibrante na lira dele que na dela, posto que muitos
anos atrás, aquele outro gesto no coupé, quando voltavam
da missa de S. Domingos, lembras-te... Sobre isto escrevi agora
algumas linhas, que não ficariam mal, se as acabasse, mas
recuo a tempo, e risco-as. Não vale a pena ir à cata
das palavras riscadas. Menos vale supri-las.
Que nos bastam as quatro mãos apertadas. Natividade perguntou
pelos filhos. Santos opinou que não tivesse medo. Não
havia nada; tudo parecia estar como no dia anterior, as ruas sossegadas,
as caras mudas. Não correria sangue, o comércio ia
continuar. Toda a animação de Aires tinha agora brotado
nele, com a mesma verdura e o mesmo estilo.
Os filhos chegaram tarde, cada um por sua vez, e Pedro mais cedo
que Paulo. A melancolia de um ia com a alma da casa, a alegria de
outro destoava desta, mas tais eram uma e outra que, apesar da expansão
da segunda, não houve repressão nem briga. Ao jantar,
falaram pouco. Paulo referia os sucessos amorosamente. Conversara
com alguns correligionários e soube do que se passara à
noite e de manhã, a marcha e a reunião dos batalhões
no campo, as palavras de Ouro Preto ao Marechal Floriano, a resposta
deste, a aclamação da República. A família
ouvia e perguntava, não discutia, e esta moderação
contrastava com a glória de Paulo. O silêncio de Pedro
principalmente era como um desafio. Não sabia Paulo que a
própria mãe é que pedira ao irmão com
muitos beijos, motivo que em tal momento, ia com o aperto do coração
do rapaz.
O coração de Paulo, ao contrário, era livre,
deixava circular o sangue, como a felicidade. Os sentimentos republicanos,
em que os princípios se incrustavam, viviam ali tão
fortes e quentes, que mal deixavam ver o abatimento de Pedro e o
acanhamento da outra gente sua. Ao fim do jantar, bebeu à
República, mas calado, sem ostentação, apenas
olhando para o teto, e levantando o copo um tantinho mais que de
costume. Ninguém replicou por outro gesto ou palavra.
Certamente, o moço Pedro quis dizer alguma frase de piedade
relativamente ao regímen imperial e às pessoas de
Bragança, mas a mãe quase que não tirava os
olhos dele, como impondo ou pedindo silêncio. Demais, ele
não cria nada mudado; a despeito de decretos e proclamações,
Pedro imaginava que tudo podia ficar como dantes, alterado apenas
o pessoal do governo. Custa pouco, dizia ele baixinho à mãe,
ao deixarem a mesa; é só o imperador falar ao Deodoro.
Paulo saiu, logo depois do jantar, prometendo vir cedo. A mãe,
receosa de o ver metido em barulhos, não queria que ele saísse;
mas outro receio fê-la consentir, e este era que os dois irmãos
brigassem finalmente. Assim um medo vence a outro, e a gente acaba
por dar o que negou. Não é menos certo que ela raciocinou
alguns minutos antes de resolver, do mesmo modo que eu escrevi uma
página antes da que vou escrever agora; mas ambos nós,
Natividade e eu, acabamos por deixar que os atos se praticassem,
sem oposição dela, nem comentário meu.
CAPÍTULO
LXVI / O BASTO E A ESPADILHA
Vieram amigos
da casa, trazendo notícias e boatos. Variavam pouco e geralmente
não havia opinião segura acerca do resultado. Ninguém
sabia se a vitória do movimento era um bem, se um mal, apenas
sabiam que era um fato. Daí a ingenuidade com que alguém
propôs o voltarete do costume, e a boa vontade de outros em
aceitá-lo. Santos, embora declarasse que não jogava,
mandou pôr as cartas e os tentos, mas os outros opinaram que
sempre faltava um parceiro, e sem ele, não havia graça.
Quis resistir; não era bonito que no próprio dia em
que o regímen caíra ou ia cair, entregasse o espírito
a recreações de sociedade... Não pensou isto
em voz alta nem baixa, mas consigo, e talvez o leu no rosto da mulher.
Acharia um pretexto para resistir, se buscasse algum, mas amigos
e cartas não deixavam buscar nada. Santos acabou aceitando.
Provavelmente era essa mesma a inclinação íntima.
Muitas há que precisam ser atraídas cá fora
como um favor ou concessão da pessoa. Enfim, o basto e a
espadilha fizeram naquela noite o seu ofício, como as mariposas
e os ratos, os ventos e as ondas, o lume das estrelas e o sono dos
cidadãos.
CAPÍTULO
LXVII / A NOITE INTEIRA
Saindo de casa,
Paulo foi à de um amigo, e os dois entraram a buscar outros
da mesma idade e igual intimidade. Foram aos jornais, ao quartel
do campo, e passaram algum tempo diante da casa de Deodoro. Gostavam
de ver os soldados, a pé ou a cavalo, pediam licença,
falavam-lhes, ofereciam cigarros. Era a única concessão
destes; nenhum lhes contou o que se passara, nem todos saberiam
nada.
Não importa, iam cheios de si. Paulo era o mais entusiasta
e convicto. Aos outros valia só a mocidade, que é
um programa, mas o filho de Santos tinha frescas todas as idéias
do novo regímen, e possuía ainda outras que não
via aceitar; bater-se-ia por elas. Trazia até o desejo de
achar alguém na rua, que soltasse um grito, já agora
sedicioso, para lhe quebrar a cabeça com a bengala. Note-se
que esquecera ou perdera a bengala. Não deu por falta dela;
se desse, bastavam-lhe os braços e as mãos.
Propôs cantarem a Marselhesa; os outros não quiseram
ir tão longe, não por medo, senão de cansados.
Paulo, que resistia mais que eles à fadiga, lembrou-lhes
esperar a aurora.
- Vamos esperá-la do alto de um morro, ou da Praia do Flamengo;
teremos tempo de dormir amanhã.
- Eu não posso, disse um.
Os outros repetiram a recusa, e assentaram de ir para suas casas.
Era perto de duas horas Paulo acompanhou-os a todos, e só
depois de ver o último recolhido foi sozinho para Botafogo.
Quando entrou, deu com a mãe que esperava por ele, inquieta
e arrependida de o haver deixado sair. Paulo não achou desculpa
e censurou a mãe por não dormir, à espera dele.
Natividade confessou que não teria sono, antes de o saber
em casa são e salvo. Falavam baixo e pouco; tendo-se beijado
antes, beijaram-se depois e despediram-se.
- Olha, disse Natividade, se achares Pedro acordado não lhe
contes nem lhe perguntes nada; dorme, e amanhã saberemos
tudo e o mais que se passar esta noite.
Paulo entrou no quarto pé ante pé. Era ainda aquele
vasto quarto em que os dois gêmeos brigaram por causa de duas
velhas gravuras; Robespierre e Luís XVI. Agora, havia mais
que os retratos, uma revolução de poucas horas e um
governo fresco. Obedecendo ao conselho da mãe, Paulo não
quis saber se Pedro dormia, posto desconfiasse que não. Efetivamente,
não. Pedro viu as cautelas de Paulo, e cumpriu também
os conselhos da mãe; fingiu que não via nada. Até
aí os conselhos; mas um pouco de glória fez com que
Paulo cantarolasse entre os dentes, baixinho, para si, a primeira
estrofe da Marselhesa que os amigos tinham recusado fora:
Allons, enfants de la patrie,
Le jour de gloire est arrivé!
Pedro percebeu antes pela toada que pela letra, e concluiu que a
intenção do outro era afligi-lo. Não era, mas
podia ser. Vacilou entre a réplica e o silêncio, até
que uma idéia fantástica lhe atravessou o cérebro,
cantarolar, também baixinho, a segunda parte da estrofe:
"Entendez-vous dans vos campagnes...", que alude às
tropas estrangeiras, mas desviada do natural sentido histórico,
para restringi-la às tropas nacionais. Era um desforço
vago, a idéia passou depressa. Pedro contentou-se de simular
a indiferença suprema do sono. Paulo não acabou a
estrofe; despiu-se agitado, sem tirar o pensamento da vitória
dos seus sonhos políticos. Não se meteu logo na cama;
foi primeiro à do irmão, a ver se dormia. Pedro respirava
tão naturalmente, como se não perdera nada. Teve ímpeto
de acordá-lo, bradar-lhe que perdera tudo, se alguma coisa
era a instituição derribada. Recuou a tempo e foi
meter-se entre os lençóis.
Nenhum dormia. Enquanto o sono não chegava, iam pensando
nos acontecimentos do dia; ambos espantados de como foram fáceis
e rápidos. Depois cogitavam no dia seguinte e nos efeitos
últeriores. Não admira que não chegassem à
mesma conclusão.
- Como diabo é que eles fizeram isto, sem que ninguém
desse pela coisa? refletia Paulo. Podia ter sido mais turbulento.
Conspiração houve, decerto, mas uma barricada não
faria mal. Seja como for, venceu-se a campanha. O que é preciso
é não deixar esfriar o ferro, batê-lo sempre,
e renová-lo. Deodoro é uma bela figura. Dizem que
a entrada do marechal no quartel, e a saída, puxando os batalhões,
foram esplêndidas. Talvez fáceis demais; é que
o regímen estava podre e caiu por si...
Enquanto a cabeça de Paulo ia formulando essas idéias,
a de Pedro ia pensando o contrário; chamava ao movimento
um crime.
- Um crime e um disparate, além de ingratidão; o imperador
devia ter pegado os principais cabeças e mandá-los
executar. Infelizmente, as tropas iam com eles. Mas nem tudo acabou.
Isto é fogo de palha; daqui a pouco está apagado,
e o que antes era torna a ser. Eu acharei duzentos rapazes bons
e prontos, e desfaremos esta caranguejola. A aparência é
que dá um ar de solidez, mas isto é nada. Hão
de ver que o imperador não sai daqui, e, ainda que não
queira, há de governar; ou governará a filha, e, na
falta dela, o neto. Também ele ficou menino e governou. Amanhã
é tempo; por ora tudo são flores. Há ainda
um punhado de homens...
A reticência final dos discursos de ambos quer dizer que as
idéias se iam tornando esgarçadas, nevoentas e repetidas,
até que se perderam e eles dormiram. Durante o sono cessou
a revolução e a contra-revolução, não
houve monarquia nem república, D. Pedro II nem Marechal Deodoro,
nada que cheirasse a política. Um e outro sonharam com a
bela enseada de Botafogo, um céu claro, uma tarde clara e
uma só pessoa: Flora.
CAPÍTULO
LXVIII / DE MANHÃ!
Flora abriu
os olhos de ambos, e esvaiu-se tão depressa que eles mal
puderam ver a barra do vestido e ouvir uma palavrinha meiga e remota.
Olharam um para o outro, sem rancor aparente. O receio de um e a
esperança de outro deram tréguas. Correram aos jornais.
Paulo, meio tonto, temia alguma traição sobre a madrugada.
Pedro tinha uma idéia vaga de restauração,
e contava ler nas folhas um decreto imperial de anistia. Nem traição
nem decreto. A esperança e o receio fugiram deste mundo.
CAPÍTULO
LXIX / AO PIANO
Enquanto eles
sonhavam com Flora, esta não sonhou com a república.
Teve uma daquelas noites em que a imaginação dorme
também, sem olhos nem ouvidos, ou, quando muito, a retina
não deixa ver claro, e as orelhas confundem o som de um rio
com o latir de um cão remoto. Não posso dar melhor
definição, nem ela é precisa; cada um de nós
terá tido dessas noites mudas e apagadas.
Não sonhou sequer com música; e, aliás, tocara
antes algumas das suas páginas queridas. Não as tocou
somente por gostar delas, senão por fugir à consternação
dos pais, que era grande. Nenhum destes podia crer que as instituições
tivessem caído, outras nascido, tudo mudado. D. Cláudia
ainda apelava para o dia seguinte e perguntava ao marido se vira
bem, e o que é que vira; ele mordia os beiços, batia
na perna, erguia-se, dava alguns passos, e tornava a narrar os acontecimentos,
as notícias coladas às portas dos jornais, a prisão
dos ministros, a situação, tudo extinto, extinto,
extinto...
Flora não era avessa à piedade, nem à esperança,
como sabeis; mas não ia com a agitação dos
pais, e meteu-se com o seu piano e as suas músicas. Escolheu
não sei que sonata. Tanto bastou para lhe tirar o presente.
A música tinha para ela a vantagem de não ser presente,
passado ou futuro; era uma coisa fora do tempo e do espaço,
uma idealidade pura. Quando parava, sucedia-lhe ouvir alguma frase
solta do pai ou da mãe: "...Mas como foi que...?"
- "Tudo às escondidas..." - "Há sangue?"
Às vezes um deles fazia algum gesto, e ela não via
o gesto. O pai, com a alma trôpega, falava muito e incoerente.
A mãe trazia outro vigor. Já lhe sucedia calar por
instantes, como se pensasse, ao contrário do marido que,
em se calando, coçava a cabeça, apertava as mãos
ou suspirava, quando não ameaçava o tecto com o punho.
- Lá, lá, dó, ré, sol, ré, ré,
lá, ia dizendo o piano da filha, por essas ou por outras
notas, mas eram notas que vibravam para fugir aos homens e suas
dissensões.
Também se pode achar na sonata de Flora uma espécie
de acordo com a hora presente. Não havia governo definitivo.
A alma da moça ia com esse primeiro albor do dia. ou com
esse derradeiro crepúsculo da tarde, - como queiras, - em
que nada é tão claro ou tão escuro que convide
a deixar a cama ou acender velas. Quando muito, ia haver um governo
provisório. Flora não entendia de formas nem de nomes
A sonata trazia a sensação da falta absoluta de governo,
a anarquia da inocência primitiva naquele recanto do Paraíso
que o homem perdeu por desobediente, e um dia ganhará, quando
a perfeição trouxer a ordem eterna e única.
Não haverá então progresso nem regresso, mas
estabilidade. O seio de Abraão agasalhará todas as
coisas e pessoas, e a vida será um céu aberto. Era
o que as teclas lhe diziam sem palavras, ré, ré, lá,
sol, lá, lá, dó...
CAPÍTULO
LXX / DE UMA CONCLUSÃO ERRADA
Os sucessos
vieram vindo, à medida que as flores iam nascendo. Destas
houve que serviram ao último baile do ano. Outras morreram
na véspera. Poetas de um e outro regímen tiraram imagem
do fato para cantarem a alegria e a melancolia do mundo. A diferença
é que a segunda abafava os seus suspiros, enquanto a primeira
levava longe os seus tripúdios. O metal das trompas dava
outro som que o das harpas. As flores é que continuavam a
nascer e morrer, igual e regularmente.
D. Cláudia colheu as rosas do último baile do ano,
primeiro da República, e adornou a filha com elas. Flora
obedeceu e aceitou-as. Pai de família antes de tudo, Batista
acompanhou a esposa e a filha ao baile. Também lá
foi Paulo, pela moça e pelo regímen. Se, em conversa
com o ex-presidente de província, disse todo o bem que pensava
do Governo Provisório, não lhe ouviu palavras de acordo
nem de contestação. Não entrou mais fundo na
confissão do homem, porque a moça o atraía,
e ele gostava mais dela que do pai.
Flora viu uma semelhança entre o baile da ilha Fiscal e este,
apesar de particular e modesto. Este era dado por pessoa que vinha
dos tempos da propaganda e um dos ministros lá esteve, ainda
que só meia hora. Daí a ausência de Pedro, apesar
de convidado. Flora sentiu a falta de Pedro, como sentira a de Paulo
na ilha; tal era a semelhança das duas festas. Ambas traziam
a ausência de um gêmeo.
- Por que é que seu irmão não veio? perguntou
ela.
Paulo enfiou; depois de alguns instantes:
- Pedro é teimoso, disse. Teimou em recusar o convite. Crê
naturalmente que a monarquia levou a arte de dançar. Não
faça caso; é um lunático.
- Não diga isso.
- Acha também que a dança se foi com o império?
- Não, a prova é que estamos dançando. Não;
digo que lhe não chame nomes feios.
- Parece-lhe então que Pedro é um rapaz de juízo?
- Certamente, como o senhor.
- Mas...
Paulo ia a perguntar-lhe qual deles, tendo ela de jurar por um ou
por outro, lhe mereceria o juramento; mas recuou a tempo. Então
ela falou do calor, e ele achou que sim, que estava quente. Acharia
que estava frio, se ela se queixasse de frio. Flora, se só
cedesse à vista, era também capaz de aceitar todas
as opiniões de Paulo, para ir com ele. Em verdade, Paulo
tinha agora um ar brilhante e petulante, olhava por cima, firme
em que os seus escritos de um ano é que haviam feito a República,
posto que incompleta, sem certas idéias que expusera e defendera,
e teriam de vir um dia, breve. Tal ia dizendo à moça,
e ela escutava com prazer, sem opinião; era só o gosto
de o escutar. Quando a lembrança de Pedro surgia na cabeça
da moça, a tristeza empanava a alegria, mas a alegria vencia
de pressa a outra, e assim, acabou o baile. Então as duas,
tristeza e alegria, agasalharam-se no coração de Flora,
como as suas gêmeas que eram.
O baile acabou. O capítulo é que não acaba
sem que deixe um pouco de espaço a quem quiser pensar naquela
criatura. Pai nem mãe podiam entendê-la, os rapazes
também não, e provavelmente Santos e Natividade menos
que ninguém. Tu, mestra de amores ou aluna deles, tu, que
escutas a diversos, concluis que ela era...
Custa pôr o nome do ofício. Se não fosse a obrigação
de contar a história com as próprias palavras, preferia
calá-lo, mas tu sabes qual é ele, e aqui fica. Concluis
que Flora era namoradeira, e concluis mal.
Leitora, é melhor negar já isto que esperar pelo tempo.
Flora não conhecia as doçuras do namoro, e menos ainda
se podia dizer namoradeira de ofício. A namoradeira de ofício
é a planta das esperanças, e alguma vez das realidades,
se a vocação o impõe e a ocasião o permite.
Também é preciso ter em lembrança aquilo de
um publicista, filho de Minas e do outro século, que acabou
senador, e escrevia contra os ministros adversários: "Pitangueira
não dá manga". Não, Flora não dava
para namorados.
A prova disto é que no Estado em que viveu alguns meses de
1891, com o pai e a mãe, para o fim que direi adiante, ninguém
alcançou o menor dos seus olhares amigos ou sequer complacentes.
Mais de um rapaz consumiu o tempo em se fazer visto e atraído
dela. Mais de uma gravata, mais de uma bengala, mais de uma luneta
levaram-lhe as cores, os gestos e os vidros, sem obter outra coisa
que a atenção cortês e acaso uma palavra sem
valor.
Flora só se lembrava dos gêmeos. Se nenhum deles a
esqueceu, ela não os perdeu de memória. Ao contrário,
escrevia por todos os correios a Natividade para se fazer lembrada
de ambos. As cartas falavam pouco da terra ou da gente, e não
diziam mal nem bem. Usavam muito a palavra saudades, que cada um
dos dois gêmeos lia para si. Também eles a escreviam
nas cartas que mandavam a D. Cláudia e a Batista, com a mesma
intenção duplicada e misteriosa, que ela entendia
muito bem.
Tais eram de longe, ela e eles. A rixa velha, que os desunia na
vida, continuava a desuni-los no amor. Podiam amar cada um a sua
moça, casar com ela e ter os seus filhos, mas preferiam amar
a mesma, e não ver o mundo por outros olhos, nem ouvir melhor
verbo, nem diversa música, antes, durante e depois da comissão
do Batista.
CAPÍTULO
LXXI / A COMISSÃO
Lá me
escapou a palavra. Sim, foi uma comissão dada ao pai, e da
qual não sei nada, nem ela. Negócio reservado. Flora
chamava-lhe comissão do inferno. O pai, sem ir tão
fundo, concordava mentalmente com ela; verbalmente, desmentia a
definição.
- Não digas isso, Flora; é comissão de confiança
para fins nobremente políticos.
Creio que sim, mas daí a saber o objeto especial e real,
ia largo espaço. Também não se sabe como foi
parar às mãos de Batista aquele recado do governo.
Sabe-se que ele não desprezou a escolha, quando um amigo
íntimo correu a chamá-lo ao palácio do generalíssimo.
Viu que era reconhecer nele muita finura e capacidade de trabalho.
Não é menos certo, porém, que a comissão
entrava a aborrecê-lo, posto que na correspondência
oficial dissesse exatamente o contrário. Se tais papéis
mostrassem sempre o coração da gente, Batista, cujas
instruções eram, aliás, de concórdia,
parecia querer levar a concórdia a ferro e fogo; mas o estilo
não é o homem. O coração de Batista
fechava-se, quando ele escrevia, e deixava ir a mão adiante,
com a chave do coração apertada... "Já
é tempo, suspirava o músculo, já é tempo
de um lugar de governador."
Quanto a D. Cláudia, não queria ver acabada a comissão,
que restituía ao esposo a ação política;
faltava-lhe somente uma coisa, oposição. Nenhum jornal
dizia mal dele. Aquele prazer de ler todas as manhãs as descomposturas
dos adversários, lê-las e relê-las com os seus
nomes feios, como látegos de muitas pontas, que lhe rasgavam
as carnes e a excitavam ao mesmo tempo, esse prazer não lhe
dava a comissão reservada. Ao contrário, havia uma
espécie de aposta em achar o comissário justo, eqüitativo
e conciliador, digno de admiração, tipo cívico,
caráter sem mácula. Tudo isto ela conheceu outrora,
mas para lhe achar sabor foi sempre preciso que viesse entremeado
de ralhos e calúnias. Sem eles, era água insossa.
Também não tinha aquela parte de cerimônias
a que obrigava o sumo cargo, mas não lhe faltavam atenções,
e era alguma coisa.
CAPÍTULO
LXXII / O REGRESSO
Quando o Marechal
Deodoro dissolveu o congresso nacional, em 3 de novembro, Batista
recordou o tempo dos manifestos liberais, e quis fazer um. Chegou
a principiá-lo, em segredo, empregando as belas frases que
trazia de cor, citações latinas, duas ou três
apóstrofes. D. Cláudia reteve-o à beira do
abismo, com razões claras e robustas. Antes de tudo, o golpe
de Estado podia ser um benefício. Serve-se muita vez a liberdade
parecendo sufocá-la. Depois, era o mesmo homem que a havia
proclamado que convidava agora a nação a dizer o que
queria, e a emendar a constituição, salvo nas partes
essenciais. A palavra do generalíssimo, como a sua espada,
bastava a defender e consumar a obra principiada. D. Cláudia
não tinha estilo próprio, mas sabia comunicar o calor
do discurso ao coração de um homem de boa vontade.
Batista, depois de a escutar e pensar, bateu-lhe no ombro imperativamente:
- Tens razão, filha.
Não rasgou o papel escrito; queria guardá-lo como
simples lembrança, e a prova é que ia escrever uma
carta ao presidente. D. Cláudia também lhe tirou esta
idéia da cabeça. Não havia necessidade de lhe
mandar o seu sufrágio; bastava conservar-se na comissão.
- O governo não está satisfeito com você?
- Está.
- Vendo que você se conserva, conclui que aprova tudo, e basta.
- Sim, Cláudia, concordou ele após alguns instantes.
Ao contrário, qualquer coisa que escrevesse contra a assembléia
sediciosa que o Presidente acaba de dissolver, pareceria falta de
piedade. Paz aos mortos! Tens razão, filha.
Conservou-se calado, operando, fiel às instruções
recebidas. Vinte dias depois, o Marechal Deodoro passava o governo
às mãos do Marechal Floriano, o congresso era restabelecido
e todos os decretos do dia 3 anulados.
Ao saber de tais fatos, Batista pensou morrer. Ficou sem fala por
alguns instantes, e D. Cláudia não achou a menor parcela
de ânimo que lhe desse. Nenhum contara com a marcha rápida
dos acontecimentos, uns sobre outros, com tal atropelo que parecia
um bando de gente que fugia. Vinte dias apenas; vinte dias de força
e sossego, esperanças e grande futuro. Um dia mais e tudo
ruiu como casa velha.
Agora é que Batista compreendeu o erro de haver dado ouvidos
à esposa. Se tem acabado e publicado o manifesto no dia 4
ou 5, estaria com um documento de resistência na mão
para reivindicar um posto de honra qualquer, - ou só estima
que fosse. Releu o manifesto; chegou a pensar em imprimi-lo, embora
incompleto. Tinha conceitos bons, como este: "O dia da opressão
é a véspera da liberdade." Citava a bela Roland
caminhando para a guilhotina: "Ó liberdade, quantos
crimes em teu nome!" D. Cláudia fez-lhe ver que era
tarde, e ele concordou.
- Sim, é tarde. Naquele dia é que não era tarde,
vinha à hora própria, para o efeito certo.
Batista amarrotou o papel distraidamente; depois alisou-o e guardou-o.
Em seguida, fez um exame de consciência, profundo e sincero.
Não devia ter cedido; a resistência era o melhor; se
tem resistido às palavras da mulher, a situação
seria outra. Apalpou-se, achou que sim, que podia muito bem haver-lhe
trancado os ouvidos e passado adiante. Insistiu muito neste ponto.
Se pudesse, faria voltar atrás o tempo, e mostraria como
é que a alma escolhe de si mesma o melhor dos partidos. Não
era preciso saber nada do que anteriormente sucedeu; a consciência
dizia-lhe que, em situação idêntica à
do dia 3, faria outra coisa... Oh! com certeza! faria coisa muito
diversa, e mudaria o seu destino.
Um ofício ou telegrama veio arrancar Batista à comissão
política e reservada. A volta para o Rio de Janeiro foi breve
e triste, sem os epítetos que o haviam regalado por alguns
meses, nem acompanhamento de amigos. Só uma pessoa vinha
alegre, a filha, que rezara todas as noites pela terminação
daquele exílio.
- Parece que estás contente com o desastre de teu pai, disse-lhe
a mãe já a bordo.
- Não, mamãe; alegro-me de ver que acabou esta canseira.
Papai pode muito bem fazer política no Rio de Janeiro, onde
é muito apreciado. A senhora verá. Eu, se fosse papai,
apenas desembarcasse, ia logo ao marechal explicar tudo, mostrar
as instruções e dizer o que tinha feito; dizia mais
que a dispensa veio muito a propósito, a fim de não
parecer que ficara amofinado. Depois pedia-lhe para trabalhar lá
mesmo...
D. Cláudia, a despeito do amargor dos tempos, gostou de ver
que a filha pensava e dava conselhos em política. Não
advertiu, como fez o leitor, que a alma do discurso da moça
era não sair da capital, fazer aqui mesmo o seu congresso,
que em breve seria uma só assembléia legislativa,
como no Rio Grande do Sul; mas a qual das câmaras, Pedro ou
Paulo, caberia esse único poder político? Eis o que
ela mesma não sabia.
Ambos se lhe apresentaram a bordo, logo que o paquete entrou no
porto do Rio de Janeiro. Não foram em duas lanchas, foram
na mesma, e saltaram com tal presteza para a escada, que escaparam
de cair ao mar. Talvez fosse o melhor desfecho do livro. Ainda assim
não acaba mal o capítulo, porque a razão da
presteza com que eles saltaram para a escada foi a ambição
de ser o primeiro que cumprimentasse a moça; aposta de amor,
que ainda uma vez os igualou na alma dela. Enfim chegaram, e não
consta qual efetivamente a cumprimentou primeiro; pode ser que ambos.