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ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
 




E ambos me voltaram secamente as costas. Esta conversa assustou-me; contudo o meu irmão mais velho parecia convencido com a história do camarote, supus ter conseguido enganá-lo e que ele ficaria por ali; aliás, mesmo que tivessem dito mais coisas, salvo se me fechassem à chave, nada do mundo teria força bastante para me impedir de ir ao próximo encontro; tornava-se demasiadamente essencial explicar-me com o meu amante, para que algo no mundo pudesse privar-me de ir vê-lo.

Quanto a meu pai, era sempre o mesmo, idolatrando-me, não suspeitando de nenhum dos meus dissabores e nunca se metendo comigo. Como é cruel ter de enganar pais assim e como os remorsos que disso nascem semeiam de espinhos os prazeres que se obtêm à custa de traições desta espécie! Funesto exemplo, cruel paixão, pudésseis vós afastar dos meus erros as que se achem no mesmo caso que eu e possam as penas que me custaram os meus criminosos prazeres detê-las ao menos à beira do abismo se alguma vez conhecerem a minha deplorável história.

O dia fatal chega por fim, apanho Julie e esquivo-me como de costume, deixo-a em casa de minha tia e alcanço prontamente no meu fiacre a casa da Berceil. Desço... o silêncio, a obscuridade que reinam nesta casa, alarmam-me enormemente de início... nenhum rosto conhecido se me apresenta, só me aparece uma velha, que nunca vira mas que ia ver demasiadas vezes para minha infelicidade, que me diz para ficar na dependência onde estou, que o Senhor de..., nomeia-mo, virá já ali ter comigo.

Um frio universal apodera-se-me dos sentidos e caio em cima duma poltrona sem ter a força de dizer uma palavra; mal aí estou, apresentam-se os meus dois irmãos, de pistola em punho.

- Desgraçada! - exclamou o mais velho -, eis, pois, como tu nos enganas; se ofereces a mínima resistência, se dás um grito, considera-te morta. Segue-nos, vamos ensinar-te a trair ao mesmo tempo a família que desonras e o amante a quem te entregavas.

Ao ouvir estas últimas palavras, perdi o conhecimento e só recuperei os sentidos por me encontrar no fundo duma carruagem que me pareceu ir muito depressa, entre os meus dois irmãos e a velha de que acabo de falar, as pernas ligadas e as duas mãos apertadas num lenço; as lágrimas, retidas até então pelo excesso da dor, abriram passagem com abundância e fiquei uma hora num estado que, por muito culpada que fosse, enterneceria qualquer um que não os carrascos de quem dependia.

Não me falaram durante todo o tempo de viagem, imitei o seu silêncio e afundei-me na minha dor; chegamos, enfim, no dia seguinte às onze horas da manhã, entre Coucy e Noyon, a um castelo situado no fundo dum bosque, pertencente ao meu irmão mais velho; a viatura entrou no pátio, ordenar-me que lá ficasse até que os cavalos e os domésticos fossem afastados; então o meu irmão mais velho veio-me buscar. "Siga-me", disse-me brutalmente depois de me ter desatado... Obedeci tremendo... Meus Deus, qual é o meu susto ao ver o lugar de horror que me vai servir de retiro!

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