ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
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A Berceil recebeu-me à entrada da loja, sem me deixar entrar-lhe
em casa como costumava fazer.
- Menina - disse-me logo que me viu -, estou encantada por o Senhor
de... não poder vir esta tarde cedo, pois tenho uma coisa
a confiar-lhe que não ouso dizer a ele, uma coisa que exige
que saiamos as duas depressa um instante, o que não poderíamos
fazer se aqui estivesse.
- E de que se trata então, Senhora - disse eu um pouco assustada
com este começo.
- De um nada, Menina, de um nada - continuou a Berceil -, comece
por se acalmar, é a coisa mais simples do mundo; a minha
mãe deu pela sua intriga, é uma velha megera escrupulosa
como um confessor e que suporto por causa dos seus escudos; já
não quer decididamente que eu a receba, não me atrevo
a dizê-lo ao Senhor de..., mas eis o que pensei. Vou levá-la
imediatamente a casa duma das minhas colegas, mulher da minha geração
e tão segura como eu, travará conhecimento com ela;
se lhe agradar, confessará ao Senhor de... que lá
a levei, que é uma mulher honesta e que acha boa idéia
que os encontros passem a ser lá; se lhe desagradar, o que
estou longe de temer, como só nos demoraremos um instante,
ocultar-lhe-á a nossa visita; nesse caso incumbir-me-ei de
lhe dizer que já não posso ceder-lhe a casa e arranjarão
outras maneiras de se verem.
O que esta mulher me dizia era tão simples, o ar e o tom
que empregava tão naturais, a minha confiança tão
completa e a minha candura tão perfeita, que não achei
a mínima dificuldade em lhe conceder o que pedia; apenas
me ocorreram lamentações sobre a impossibilidade em
que ela estava, dizia, de continuar os seus serviços, mostrei-lhas
com todo o meu coração e saímos.
A casa onde me conduzia ficava na mesma rua, a sessenta ou oitenta
passos de distância no máximo da de Berceil; nada me
desagradou no exterior, um portão largo, belas sacadas para
a rua, um ar de decência e de limpeza por toda a parte; contudo,
uma voz secreta parecia gritar no fundo do meu coração
que um acontecimento singular me aguardava nesta fatal casa; sentia
uma espécie de repugnância a cada degrau que subia,
tudo me parecendo dizer: Onde vais desgraçada, afasta-te
destes lugares pérfidos... chegamos, porém, entramos
numa antecâmara muito bela onde não encontramos ninguém
e, daí, num salão que logo se fechou nas nossas costas,
como se houvesse alguém escondido atrás da porta...
Estremeci, estava muito sombrio nesse salão, mal se distinguia
para caminhar; não déramos três passos, senti-me
agarrada por duas mulheres, abriu-se então um gabinete e
vi um homem de cerca de cinqüenta anos no meio de duas outras
mulheres que gritaram às que me tinham agarrado:
- Dispam-na, dispam-na, e não a tragam aqui senão
toda nua.
Recuperada do desvairamento em que ficara quando as mulheres me
tinham deitado a mão e vendo que a minha salvação
dependia mais dos meus gritos do que dos meus temores, soltei-os
medonhos. A Berceil fez quanto pôde para me acalmar.
- É coisa dum minuto, Menina - dizia ela -, um pouco de condescendência,
rogo-lhe, far-me-á ganhar cinqüenta luíses.
- Megera infame - gritei -, não julgues negociar assim a
minha honra, vou-me atirar pela janela se não me fazes sair
já daqui.
- Só chegaria a um pátio que nos pertence e onde seria
apanhada, minha filha - disse uma destas celeradas, arrancando-me
as roupas -, assim, creia-me o melhor que tem a fazer é não
oferecer resistência...
Oh, Senhor, poupe-me o resto destes horríveis pormenores,
fui posta nua num instante, interceptaram-me os gritos por intermédio
de precauções bárbaras, e fui arrastada até
ao homem indigno que, não fazendo caso das lágrimas
e divertindo-se com as minhas resistências, só se preocupava
em apoderar-se da infeliz vítima a quem rasgava o coração;
duas mulheres não cessaram de me segurar e de me entregar
a este monstro que, senhor de fazer tudo o que queria, apenas extinguiu,
contudo, os fogos do seu culpado ardor com apalpadelas e beijos
impuros, que me deixaram sem injúrias...
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