ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
 |
| |
De início recusei ouvi-los mas logo fui fraca a ponto de
lhos perguntar. Esses meios, Senhor, eram ver-nos três vezes
por semana em casa duma tal Senhora Berceil, dona duma loja de modas
na Rua de Arcis, por cuja prudência e honestidade o Senhor
de... se comprometia como se fosse sua mãe.
- Visto que lhe permitem visitar a Senhora sua tia que mora, como
me disse, muito perto de lá, bastará fingir que vai
a casa dessa tia, fazer-lhe efetivamente curtas visitas e vir passar
o resto do tempo que lhe teria dedicado a casa da mulher que lhe
indiquei; a sua tia, interrogada, responderá que a recebeu
de fato no dia em que disser que a vai ver; trata-se apenas, pois,
de verificar o tempo das visitas e é o que pode ficar bem
certa que nunca se pensará fazer, desde que tenham confiança
em si.
Não lhe direi, Senhor, tudo o que objetei ao Senhor de...
para o desviar deste projecto e para lhe fazer sentir os inconvenientes;
para que serviria dar-lhe a conhecer as minhas resistências,
já que acabei por sucumbir?
Prometi ao Senhor de... tudo o que ele quis, vinte luíses
que deu a Julie sem eu saber ganharam a moça para os seus
interesses e eu apenas trabalhei para a minha perda.
Para a tornar ainda mais completa, para me inebriar mais tempo e
mais à vontade com o doce veneno que me percorria o coração,
fiz uma falsa confidência a minha tia, disse-lhe que uma jovem
dama minha amiga (a quem avisara e que devia responder em conformidade)
desejara ter para comigo a bondade de me levar três vezes
por semana ao seu camarote no Français, que não me
atrevia a contar ao meu pai com medo de que ele se opusesse mas
que lhe diria que vinha a casa dela e que lhe suplicava que me confirmasse;
após algumas objeções, a tia não pôde
resistir às minhas instâncias, concordamos que Julie
viria em meu lugar e que, ao voltar do espetáculo, a levaria
para entrarmos juntas em casa. Beijei-a muitas vezes: fatal cegueira
das paixões, agradeci-lhe por se prestar à minha perda,
por abrir a porta aos desregramentos que iam colocar-me a beira
da cova!
Os nossos encontros começaram, enfim, em casa da Berceil;
a loja era soberba, a casa muito decente e ela própria uma
mulher de cerca de quarenta anos à qual julguei poder dar
toda a confiança. Ai de mim, confiei demais nela e no meu
amante... o pérfido, é tempo de lho confessar, Senhor...
Na sexta vez que o vi nesta fatal casa, tomou um tal ascendente
sobre mim, soube seduzir-me a tal ponto que abusou da minha fraqueza
e tornei-me nos seus braços o ídolo da sua paixão
e a vítima da minha.
Cruéis prazeres, que já me custaram lágrimas
e de quantos remorsos me despedaçarão ainda a alma
até ao último instante de vida!
Um ano se passou nesta desastrosa ilusão, Senhor, acabava
de completar os meus dezessete anos; o pai falava-me todos os dias
num casamento e pode imaginar como eu estremecia a tais propostas,
quando uma fatal aventura veio, enfim, precipitar-me no abismo eterno
onde mergulhei. Triste permissão da Providência, sem
dúvida que quis que uma coisa de que eu não tivera
qualquer culpa servisse para me punir das faltas reais, a fim de
fazer ver que nunca lhe escapamos, que segue por toda a parte aquele
que cai em erro, e que é do acontecimento que ele menos suspeita
que faz nascer insensivelmente o que vai servir para a vingar.
O Senhor de... avisara-me certo dia de que um negócio inadiável
o privaria do prazer de passar as três horas completas que
tínhamos costume estar juntos, que viria contudo alguns minutos
antes do fim do encontro, ainda que, para não alterar o nosso
comportamento habitual, eu continuasse a passar em casa da Berceil
o mesmo tempo, que de fato, por uma hora ou duas, sempre me divertiria
mais com esta lojista e as empregadas do que sozinha em casa de
meu pai; julgava-me suficientemente segura desta mulher para descobrir
qualquer obstáculo ao proposto pelo meu amante; prometi,
por conseguinte, que viria, suplicando-lhe que não se fizesse
esperar muito. Garantiu-me que se desembaraçaria o mais cedo
possível e cheguei; oh, dia terrível para mim!
|