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ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
 




Uma tal precaução, uma oferta tão obsequiosa, tudo isso me fez lançar os olhos sobre o jovem com um pouco mais de interesse do que imaginara fazê-lo até então; achando-o dois ou três anos mais velho do que eu e com uma figura encantadora, corei ao agradecer-lhe e as feições inflamadas deste deus sedutor que faz hoje a minha infelicidade penetram-me no coração, antes de ter tempo de me opor.

Separamo-nos, mas julguei ver, na maneira como o Senhor de... me deixava, que lhe causara a mesma impressão que me acabava de produzir.

Regressei a casa de meu pai, nada disse e voltei no dia seguinte à mesma álea, conduzida por um sentimento mais forte do que eu, que me teria feito enfrentar todos os perigos que lá se pudessem encontrar... que digo eu, que talvez mos fizesse desejar, só para ter o prazer de ser salva pelo mesmo homem...

Pinto-lhe a minha alma, Senhor, talvez com demasiada ingenuidade mas prometeu-me indulgência e cada novo traço da minha história vai-lhe mostrar como dela preciso; não é a única imprudência que me verá fazer, não será a única vez em que precisarei da sua piedade.

O Senhor de... surgiu na álea seis minutos depois de mim e, abordando-me logo que me viu:

- Atrevo-me a perguntar-lhe, Menina - disse-me -, se a aventura de ontem não deu nas vistas e se não teve maçadas?

Assegurei-lhe que não, disse-lhe que aproveitara os seus conselhos, que lhe agradecia e que me alegrava por nada perturbar o prazer que sentia vindo assim respirar a frescura da manhã.

- Se nisso encontra alguns encantos, Menina - replicou o Senhor de... com o tom mais honesto -, os que têm a felicidade de aí a ver sentem-nos, sem dúvida, ainda mais vivos, e se tomei a liberdade de a aconselhar ontem a não deixar ao acaso nada que pudesse perturbar os seus passeios, o certo é que não me deve quaisquer agradecimentos; ouso garantir-lhe, Menina, que trabalhei menos por si do que a Menina por mim.

E os seus olhares, ao dizer isto, voltavam-se para os meus com tanta expressão... oh, Senhor, seria preciso que fosse a este homem tão gentil que eu devesse um dia as minhas desgraças! Respondi honestamente às suas palavras, a conversa entabulou-se, demos duas voltas juntos e o Senhor de... não me deixou sem solicitar que lhe revelasse a quem tivera a felicidade de prestar serviço na véspera; não julguei dever-lho ocultar, disse-me também quem era e separamo-nos.

Durante perto dum mês, Senhor, não cessamos de nos ver assim quase todos os dias e esse mês, como pode imaginar facilmente, não decorreu sem que nos confessássemos mutuamente os sentimentos que sentíamos e sem que jurássemos mantê-los sempre.

Enfim, o Senhor de... suplicou-me que lhe permitisse vê-lo num recanto menos incômodo do que um jardim público.

- Não me atrevo a apresentar-me em casa de seu pai, bela Émilie - disse-me ele -; nunca havendo tido a honra de conhecê-lo, em breve suspeitaria do motivo que me atraía a sua casa e em vez desta iniciativa ajudar os nossos projetos talvez muito os prejudicasse; mas se realmente for bastante boa, bastante generosa para não me querer deixar morrer de desgosto por nunca mais a ver conceder-me o que lhe ouso exigir, indicar-lhe-ei os meios.

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