ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
História da Menina de Tourville
Sou filha, Senhor,
do presidente de Tourville, demasiado conhecido e demasiado distinto
no seu estado para lhe ser um estranho. Desde há dois anos
que saí do convento, nunca mais abandonei a casa de meu pai;
tendo perdido a minha mãe muito nova, só ele se ocupava
da minha educação e posso afirmar que nada negligenciava
para me dar todas as graças e todos os atributos do meu sexo.
Estas atenções, estes projetos que o pai anunciava
de me casar o mais vantajosamente possível, talvez mesmo
um pouco de predileção, tudo isto, dizia eu, em breve
despertou a inveja dos meus irmãos, dos quais um, presidente
há três anos, acaba de completar vinte e seis anos
e o outro, conselheiro recente, terá daqui a pouco vinte
e quatro.
Não imaginava então ser tão fortemente odiada
por eles como hoje tenho de estar convencida; nada tendo feito para
merecer estes seus sentimentos, vivia no doce engano de que me dedicavam
os mesmos que o meu coração por eles inocentemente
formara. Oh, Céu misericordioso, como me iludia!
Excetuado o momento dedicado aos cuidados da minha educação,
desfrutava em casa de meu pai da maior liberdade; deixando a minha
conduta entregue a mim mesma, a nada me obrigava e tinha até,
desde há perto de dezoito meses, autorização
para passear de manhã com a criada de quarto ou no terraço
das Tulherias ou por entre as muralhas junto das quais habitamos
e de também fazer com ela, quer passeando a pé, quer
numa viatura de meu pai, algumas visitas a amigas minhas ou a parentes,
desde que não fosse a horas em que uma moça não
pode ficar sozinha num círculo social. Toda a causa das minhas
desgraças provém desta funesta liberdade, eis por
que dela lhe falo, Senhor, provesse a Deus nunca a ter tido.
Há um ano que passeando como acabo de lhe dizer com a criada
de quarto, que se chama Julie, numa álea obscura das Tulherias,
onde me supunha mais só do que no terraço e onde me
parecia que respirava um ar mais puro, abordam-nos seis jovens estouvados
e fazem-nos ver pela indignidade dos seus propósitos que
nos tomavam a ambas pelo que se chama mulheres da vida.
Horrivelmente embaraçada com uma tal cena, e não sabendo
como escapar-lhe, ia buscar a salvação na fuga, quando
um jovem que me habituara a ver muitas vezes passear sozinho quase
às mesmas horas que eu, e cujo exterior apenas revelava honestidade,
calhou a passar quando eu estava neste cruel embaraço.
- Senhor - gritei, chamando-o -, não tenho a honra de ser
sua conhecida mas encontramo-nos aqui quase todas as manhãs;
o que pode ver de mim deve tê-lo convencido, gabo-me, de que
não sou uma moça para aventuras; peço-lhe instantemente
que me dê a mão a fim de me conduzir a casa e de me
livrar destes bandidos.
O Senhor de..., permitir-me-á calar o seu nome, muitas razões
a tal me forçam, logo acorre, afasta os gaiatos que me rodeiam,
convence-os do seu erro pelo ar de delicadeza e de respeito com
que me aborda, toma-me o braço e conduz-me para fora do jardim.
- Menina - disse-me, pouco antes de chegarmos à nossa porta
-, acho prudente deixá-la aqui; se a levo a sua casa, será
preciso explicar porquê; talvez nasça daí a
proibição de passear sozinha; oculte, pois, o que
acaba de suceder e continue a vir como tem feito a esta mesma álea,
já que isso lhe agrada e os seus pais lho permitem. Não
deixarei um só dia de lá ir e encontrar-me-á
sempre pronto a perder a vida se for necessário, para me
opor a que perturbem a sua tranqüilidade.
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