ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
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- Menina - disse-lhe o conde -, trago-lhe ao mesmo tempo o autor
dos seus infortúnios e quem os vem reparar suplicando-lhe
de joelhos que não lhe recuse a sua mão.
A estas palavras, o marquês lança-se aos pés
da que adora, mas esta surpresa fora demasiadamente viva para Émilie;
ainda sem forças para a suportar, desmaiara nos braços
da mulher que a servia; à custa de atenções,
em breve recuperou, porém, o uso dos sentidos e, achando-se
nos braços do amante;
- Cruel homem - disse-lhe, vertendo uma torrente de lágrimas
-, que desgostos causou àquela que amava! Como a pôde
julgar capaz da infâmia de que ousou suspeitar? Émilie,
amando-o, podia ser vítima da sua fraqueza e da velhacaria
dos outros, nunca podia ser infiel.
- Oh, tu que eu adoro - exclamou o marquês -, perdoa um transporte
de ciúmes horrível fundado em aparências enganadoras,
temos agora todos bem a certeza, mas estas funestas aparências,
ai de mim, não eram, pois, contra ti?
- Devia estimar-me, Luxeuil, e não poderia julgar-me feita
para o enganar, devia escutar menos o seu desespero do que os sentimentos
que me orgulhava de lhe inspirar. Que este exemplo ensine ao seu
sexo que é quase sempre por demasiado amor... quase sempre
cedendo demasiado depressa que perdemos a estima dos nossos amantes...
Oh, Luxeuil, ter-me-ia amado melhor, se eu o tivesse amado com menos
entusiasmo; puniu-me pela minha fraqueza e o que deveria fortificar
o nosso amor foi o que o fez suspeitar do meu.
- Que tudo se
esqueça entre qualquer das partes - interrompeu o conde -;
Luxeuil, a sua conduta é lastimável e se não
se tivesse prontificado a repará-la há pouco, se não
tivesse conhecido essa vontade no seu coração, nunca
mais o quereria ver. Quando se gosta muito, diziam os nossos antigos
trovadores, mesmo que se ouça, mesmo que se veja alguma coisa
prejudicial à amiga, não se deve crer nem nas orelhas
nem nos olhos, só se deve escutar o coração.
Menina, aguardo o seu restabelecimento com impaciência - prosseguiu
o conde dirigindo-se a Émilie -, não a quero levar
de volta a casa de seus pais senão na qualidade de esposa
de meu filho e espero que não recusarão unir-se a
mim para reparar as suas desgraças; se não o fizerem,
ofereço-lhe a minha casa, Menina; o seu casamento será
aí celebrado e até ao meu último suspiro não
deixarei de ver em si uma nora querida de que sempre me sentirei
honrado, quer aprovem ou não o seu himeneu.
Luxeuil lançou-se ao pescoço do pai, a Menina de Tourville
desfez-se em lágrimas apertando as mãos do seu benfeitor
e deixaram-na repousar durante algumas horas duma cena cujo prolongamento
excessivo teria prejudicado o restabelecimento que se desejava com
tanto ardor.
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