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ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
 




Mal acabei de ler estas funestas palavras, recaí na agitação mais terrível...

"Não", dizia de mim para mim arrancando os cabelos, "não, cruel, nunca me amaste; se o mais leve sentimento houvesse inflamado o teu coração, não me terias condenado sem me ouvir, não me terias julgado culpada dum tal crime quando era a ti que eu adorava... Pérfido, é a tua mão que me entrega, é ela que me precipita nos braços dos carrascos que me vão fazer morrer pouco a pouco... e morrer sem te provar a minha inocência, morrer desprezada de tudo o que adoro, quando nunca o ofendi voluntariamente, quando nunca passei duma pateta e vítima, oh não, não, esta situação é demasiado cruel, está acima das minhas forças sustentá-la!"

E, lançando-me em lágrimas aos pés dos meus irmãos, implorei-lhes ou que me ouvissem ou que acabassem de fazer correr o meu sangue gota a gota para morrer imediatamente.

Consentiram ouvir-me, contei-lhes a minha história, mas desejavam perder-me e não me acreditaram, só me tratando ainda pior; após me terem, enfim, enchido de invectivas, após haverem recomendado às duas mulheres que executassem ponto por ponto as suas ordens sob ameaça de morte, deixaram-me, asseverando-me que não me esperavam voltar mais a ver.

Assim que partiram, as minhas duas guardiãs deixaram-me pão, água, e fecharam-me à chave, mas ao menos fiquei sozinha, podia entregar-me aos desvarios do meu desespero e senti-me menos desgraçada. Os primeiros impulsos de desespero levaram-me a tirar as ligaduras dos braços e a deixar-me morrer acabando de perder o sangue.

Mas a idéia horrível de cessar de viver sem provar a minha inocência ao meu amante, dilacerava-me com tamanha violência que nunca me pude resolver a esta decisão; um pouco de calma devolve a esperança... a esperança, este sentimento consolador que nasce sempre no meio das penas, presente divino que a natureza nos faz para as compensar ou as dulcificar...

"Não", disse para comigo, "não morrerei sem o ver, só para isso devo trabalhar, só com isso me devo preocupar; se ele persistir em crer-me culpada, será então tempo de morrer e fá-lo-ei pelo menos sem remorsos, pois é impossível que a vida possa ter encantos para mim quando tiver perdido o seu amor."

Tomada esta decisão, resolvi não negligenciar nenhum dos meios que me pudessem arrancar à odiosa residência. Havia quatro dias que me consolava com este pensamento, quando as minhas duas carcereiras reapareceram para renovar as minhas provisões e fazer-me perder ao mesmo tempo as poucas forças que elas me davam; sangraram-me ainda dos dois braços e deixaram-me de cama sem movimentos; no oitavo dia reapareceram e, como eu me lançasse a seus pés implorando-lhes misericórdia, apenas me sangraram dum braço.

Dois meses assim se passaram, durante os quais fui constantemente sujeita a sangrias alternadamente num e noutro braço, todos os quatro dias.

A força do meu temperamento sustinha-me, a minha idade, o excessivo desejo que sentia de escapar a esta terrível situação, a quantidade de pão que comia a fim de restaurar o meu esgotamento e de poder executar as minhas decisões, tudo me auxiliou e, logo no início do terceiro mês, muito feliz por haver perfurado uma muralha, por me ter introduzido, pela abertura feita, num quarto vizinho que estava aberto, e por me ter, enfim, evadido do castelo, tentava alcançar a pé como podia a estrada de Paris, quando as minhas forças me abandonaram totalmente no local onde me viu e obtive do Senhor o generoso socorro que o meu reconhecimento sincero lhe agradece e que ouso suplicar que mantenha para me voltar a pôr entre as mãos do meu pai e quem certamente iludiram e que nunca será tão bárbaro que me condene sem me permitir provar a minha inocência.

Convencê-lo-ei de que fui fraca mas verá que não fui tão culpada como as aparências parecem mostrar e graças a si, Senhor, terá não só trazido à vida uma infeliz criatura que não cessará de lhe agradecer, mas também devolvido a honra a uma família que a julga injustamente perdida.

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