ÉMILIE DE TOURVILLE
(ou "A Crueldade Fraternal")
por Marquês de Sade
Nada é
mais sagrado numa família do que a honra dos seus membros,
mas este tesouro chega a desbotar-se, por precioso que possa ser,
e os que estão interessados em preservá-lo deverão
fazê-lo encarregando-se eles próprios do papel humilhante
de perseguidores das infelizes criaturas que os ofendem?
Não seria razoável pôr em equação
os horrores com que atormentam a sua vítima e esta lesão
tantas vezes quimérica que se queixam de ter recebido? Qual,
enfim, é mais culpado aos olhos da razão, uma moça
fraca e enganada ou um parente qualquer que, para se erigir em vingador
duma família, se torna o carrasco desta infortunada? O acontecimento
que vamos pôr sob os olhos dos nossos leitores fará,
talvez, decidir a questão.
O conde de Luxeuil, tenente-general, homem de cerca de cinqüenta
e seis a cinqüenta e sete anos, regressava dum posto situado
numa das suas terras da Picardia quando, ao passar pela floresta
de Compiégne, por volta das seis duma tarde do fim de Novembro,
ouviu gritos de mulher que lhe pareceram provir dos lados duma das
estradas vizinhas da principal que atravessava; detém-se
e ordena ao criado de quarto que corria ao lado da cadeirinha que
fosse ver o que se passava.
Informam-no de que se trata duma moça de dezesseis a dezessete
anos, afogada em sangue, sem que fosse, todavia, possível
distinguir onde se encontravam os ferimentos e que implorava socorro;
o próprio conde logo se apeia, voa para junto da desafortunada,
sente igualmente dificuldade, por causa da falta de luz, em distinguir
donde pode vir o sangue que perde mas, das respostas que recebe,
vê por fim que é da veia dos braços onde se
costuma fazer a sangria.
- Menina - disse o conde, depois de ter assistido a criatura dentro
do que lhe era possível -, não estou aqui em situação
de lhe perguntar as causas das suas infelicidades e a Menina não
está também em estado de mas contar; suba para a minha
viatura, peço-lhe, e que os nossos únicos cuidados
sejam agora para si, os de se tranqüilizar e, para mim, os
de auxiliá-la.
Dizendo isto o Senhor de Luxeuil, ajudado pelo criado de quarto,
transporta a pobre moça para a cadeirinha, e partem.
Mal esta interessante pessoa se viu em segurança, quis balbuciar
algumas expressões de reconhecimento mas o conde, suplicando-lhe
para não falar, disse-lhe:
- Amanhã, Menina, amanhã contar-me-á, espero,
tudo a seu respeito mas hoje, pela autoridade que me confere sobre
si a minha idade e a alegria que senti por lhe ser útil,
peço-lhe instantemente que apenas pense em acalmar-se.
Chegam; para evitar dar nas vistas, o conde manda envolver a sua
protegida num capote de homem e fá-la conduzir pelo criado
de quarto a um apartamento cômodo situado num dos extremos
do seu palácio, onde a vem ver, assim que acabou de receber
as efusões da mulher e do filho que o esperavam para cear
nessa noite.
O conde, ao vir visitar a sua doente, levou consigo um cirurgião;
a jovem é examinada, encontram-na num abatimento indizível,
a palidez do rosto quase parecia anunciar que lhe restavam apenas
alguns instantes de vida, embora não tivesse qualquer ferimento;
a sua fraqueza provinha, disse ela, da enorme quantidade de sangue
que diariamente perdera nos últimos três meses mas,
quando ia relatar ao conde a causa sobrenatural desta perda prodigiosa,
caiu de fraqueza e o cirurgião declarou que deviam deixá-la
tranqüila e contentarem-se em lhe administrar reconstituintes
e cordiais.
A nossa jovem infortunada passou uma noite bastante boa mas durante
seis dias não se achou em condições de informar
o seu benfeitor dos acontecimentos que lhe diziam respeito; no sétimo
dia, ao fim da tarde, ignorando ainda toda a gente na casa do conde
que ela aí estivesse escondida, e não sabendo ela
mesma, devido às precauções tomadas, onde se
encontrava, suplicou ao conde que a ouvisse e que lhe concedesse,
sobretudo, a sua indulgência, quaisquer que fossem as faltas
que lhe confessasse.
O Senhor de Luxeuil tomou assento, garantiu à protegida que
nunca lhe retiraria o interesse que ela nascera para despertar,
e a nossa bela aventureira começou assim a história
das suas desgraças.
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