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Crônica do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
 


A MORTE DESTE CONDE SUCCEDIDA NO MAR QUANDO SE RETIRAVA PARA LISBOA.


Do Prado mais ameno a flor mais pura,
Que em fragrâncias o alento há desatado,
Hoje a fortuna insípida há roubado
A pompa, o ser, a gala, a formosura.


Flor foste, ó Conde, a quem a desventura
Por decreto fatal do iníquio fado
Quis dar-te como flor do melhor Prado
Tumba no mar, nas águas sepultura.


Porque menos decente o monumento
Poderias achar no infeliz caso
De ver extinto tanto luzimento.


Por magnânimo herói no final prazo
Somente na extensão desse elemento
Terias como sol decente ocaso.



AO MESMO ASSUMPTO.


Em essa de cristal campanha errante
Da morte um peito ilustre foi vencido,
Mágoa, que o mar chorava fementido
Com lágrimas de neve, ou de diamante.


Neste teatro horrível, e inconstante
Aos rigores do tempo pôs rendido
A sua pompa o Prado mais florido,
Fim a seu curso o sol mais rutilante.


Como Prado em tormentas inundado,
Como sol, que apressado a esfera corre,
Teve o seu fim nas águas destinado.


Por que se bem se adverte, ou se discorre,
Se o mar inunda, se sepulta o prado,
E se fenece o sol, nas ondas morre.



AO MESMO ASSUMPTO.


No Reino de Netuno submergido
Nos campos de Anfitrite sepultado
Tem a Sorte a mais bela Flor, que o Prado
Em sua amenidade há produzido.


Os realces ilustres tem perdido,
porque a Parca os alentos lhe há roubado,
cuja memória os mares têm chorado,
cuja lembrança as águas têm sentido.


Mas se de flor, ó Conde a preminência
Gozavas em teu florido viver,
Que muito não tivesses existência!


Pois a flor, que mais pompa vem a ter
Se pondera em uma hora sem falência
Sujeita à pensão fera de morrer.


AO MESMO ASSUMPTO.



Nasce el sol de los astros presidente
Principe en las espheras conocido,
Y aunque el dia le mira el mas luzido,
La noche se le atreve irreverente.


Sirve le de sepulchro transparente
El mar, pension fatal de haver nascido,
Pues el que en todo un ciclo nó ha cabido,
Le viene a ser el mar urna decente.


Sol fuiste, Conde ilustre, en la nobleza,
A quien la triste noche se le atreve,
Pues es el morir del sol naturaleza.


Hallaste como el sol tumba de nieve,
Pues siendo corto el sol à tu grandeza,
Solo à tal sol tal urna se le deve.



AO GOVERNADOR ANTONIO LUIZ GLZ. DA CAMARA COUTINHO EM DIA DE REYS OBSEQUEA O POETA PEDINDOLHE EM NOME DE HUM AMIGO HUMA DAQUELLAS ESMOLLAS, QUE SUA MAGESTADE CONSIGNA DO REAL THESOURO CADA HUM ANNO PARA OS HOMENS DE BEM, A QUE CHAMÃO MERCÉ ORDINARIA.



Num dia próprio a liberalidades,
No qual o Rei dos Reis aos Reis aceita,
Não é muito, que quem Rei vos respeita,
Vos troque a Senhoria em majestades.


Obriga-me a pedir calamidades
A que o meu fado triste me sujeita,
Obriga-vos a dar a mão perfeita,
Com que sabeis matar necessidades.


Chegaram hoje os Reis do diversório
A tributar incenso, mirra, e ouro,
Fazendo do presépio um oratório:


Se guiou aos três Reis Planeta Louro,
Guie-me a minha estrela o peditório,
Com que na vossa mão ache um tesouro.



EMPENHA O POETA PARA CONSEGUIR ESTA MERCÉ AO CAPITÃO DA GUARDA LUIZ FERREYRA DE NORONHA SEU PARTICULAR CRIADO.



Senhor: se quem vem, não tarda,
vim eu em boa ocasião,
pois da Guarda o capitão
é Anjo da minha guarda:
vossa presença galharda,
vossa dócil natureza
bem mostram, que sois na empresa
da minha fortuna imensa
capitão pela defensa
Anjo pela gentileza.


Obrigado a tão bom trato,
que em mim é lance infalível,
o desempenho impossível
temo, que me faça ingrato:
mas como já me precato
de tão previsto desar,
que eu não basto a desviar,
sirva de escusa, ou perdão,
que não falta à gratidão,
quem se peja de faltar.



Na Corte em era oportuna
vistes a minha abastança,
hoje vereis a mudança
da minha infausta fortuna:
de estrela tão importuna
dera uma justa querela,
porque hajais de corrige-la:
mas no mundo é já patente,
que como sábio, e prudente
dominastes minha estrela.


Mudei-me de ponto a ponto
de Portugal ao Brasil,
lá deixo infortúnios mil,
acho cá ditas sem conto:
co’as ditas é, que de ponto
a desgraça lá passada,
e a graça considerada
está em vós, meu capitão,
que a dita está na eleição
da sombra, a que está chegada.



A PEDITORIO DOS PRETOS DE NOSSA SENHORA DO ROSARIO FEZ O POETA O SEGUINTE MEMORIAL PARA O MESMO GOVERNADOR, IMPETRANDO LICENÇA PARA SAIREM MASCARADOS À HUMA OSTENTAÇÃO MILITAR, A QUE CHAMAVÃO ALARDE.


Senhor: Os Negros Juízes
da Senhora do Rosário
fazem por uso ordinário
alarde nestes Países:
como são tão infelizes,
que por seus negros pecados
andam sempre emascarados
contra a lei da policia,
ante Vossa Senhoria
pedem licença prostrados.


A um General Capitão
suplica a Irmandade preta,
que não irão de careta,
mas descarados irão:
todo o negregado Irmão
desta Irmandade bendita
pede, que se lhe permita
ir ao alarde enfrascados,
não de pólvora atacados,
calcados de jeribita.



OUTRO MEMORIAL POR HUM SEU SOBRINHO, QUE DESEJAVA SENTAR PRAÇA DE SOLDADO.


Senhor: deste meu Sobrinho
afirmou um Padre tolo,
que é furado do miolo,
sendo o tal Padre o tolinho:
não é doudo, nem doudinho,
falando na realidade,
mas se hei de dizer verdade,
e nada hei de encobrir,
anda morto por servir
aqui Sua Majestade.


Pode Vossa Senhoria,
se nisto acertar deseja,
permitir, que o Moço seja
soldado de Infantaria:
e se alcançar algum dia,
que falei afeiçoado,
eu me dou por condenado,
e sem recurso nenhum
a servir sem soldo algum
em lugar deste Soldado.



AO MESMO GOVERNADOR SUBTILMENTE REMOQUEIA O POETA AO DESCUIDAR-SE DE SUA HONRADA SUPPLICA SOBRE A MERCÊ ORDINÁRIA, LEMBRANDOLHE, QUE Á DERA A HUM SOLDADO RIDÍCULO CHAMADO O FARIA, POR QUEM NAQUELLE TEMPO CANTAVÃO OS CHULOS "A MULHER DO FARIA VAY PARA ANGOLLA".



Sei eu, Senhor, que Vossa Senhoria
Mandou dar ao Faria um bom vestido,
Sendo, que mais o tinha merecido
A mulher do mesmíssimo Faria


Provo: todo o prazer, gosto, e alegria,
Que se tem do Faria deduzido,
O deu sempre a Mulher, nunca o Marido.
Que ela ia pra Angola, e ele não ia.


Assim que se a Mulher vai para Angola,
E ele fica na infame lupanária,
Sua ausência cruel pondo à viola:


Tiro por conseqüência temerária,
Que à Mulher se lhe deve dar a esmola,
Que em crítico se diz mercê ordinária.



TORNA O POETA A INVOCAR LUIZ FERREYRA DE NORONHA.


Se da Guarda pareceis
Anjo sobre capitão,
não é novidade não,
que de males nos livreis:
dobrado ofício fazeis
em qualquer nossa aflição,
pois com nobre coração
nos livrais amante interno,
se como Anjo do inferno,
do mais como capitão.




ATHE AQUI NÃO ERA AINDA VINDA A MERCÉ ORDINÁRIA. E NO DIA, EM QUE O GOVERNADOR FEZ ANNOS LHE MANDOU O SEGUINTE SONETO.


Quem, Senhor, celebrando a vossa idade,
Os anos com prazer vos vai contando,
Parece, que vos vai aproximando
Para lograr tal dia a vossa herdade.


Se a conta vos chegara a eternidade,
Contente vo-la iria numerando,
Mas dá-me desprazer a conta, quando
Temo a raia tocar da mortandade.


Com olhos sempre postos na Ordinária
Vos dou os parabéns sem falso engano
De ver-vos contrastando a sorte vária.


Mas se por fim me dais o desengano
(que em vós seria cousa extraordinária)
Direi, que em tal dia fará um ano.



A D. JOÃO DALENCASTRE VINDO DO GOVERNO DE ANGOLLA, ASSISTINDO NO MESMO PALACIO, QUEIXANDO-SE, DE QUE O POETA O NÃO VISITASSE, E PEDINDOLHE HUMA SATYRA POR OBSEQUIO.


A quem não dá aos fiéis
perdão, se lhe há de outorgar,
eu hoje vos hei de dar,
pedindo me perdoeis:
dou-vos, o que mais quereis,
e o que pedis por favor,
que quando chega um Senhor
a pedir, por não mandar,
mal lhe podia eu faltar
cuma sátira em louvor.


Não fui beijar-vos a mão,
e dar-vos a bem chegada,
porque nessa alta morada
nunca tive introdução:
até agora a indignação
não quis tão altivo trato,
mas hoje é quase distrato,
porque em todo mundo inteiro
de fidalgo, e de escudeiro
são brincos de cão com gato.


Os Fidalgos, e os Senhores
faltos de jurisdição
fazem tudo, e tudo dão
a amigos, e servidores:
os que jogam de maiores
por sangue, e não por poder
fazem jogo de entreter:
porque o sangue desigual
sempre brota ao natural,
e o mando bota a perder.


Perdoai a digressão,
porque esta prolixidade
é boa luz da verdade,
e escusa a sátira então:
quando se ofreça ocasião,
meu Senhor, de que eu vos veja
(na Igreja, ou na rua seja)
hei de prender-vos os pés,
e estai certo, que essa vez
vos não valerá a Igreja.


Estou na minha quintinha,
que é chácara soberana,
ora comendo a banana,
jogando ora a laranjinha:
nem vizinho, nem vizinha
tenho, porque sempre cansa
quem vê tudo, e nada alcança,
e na cidade são raros
os olhos, que não são claros,
se olhos são de vizinhança.


Mas inda que desterrado
me tem o fado, e a sorte
por um Juiz de má morte,
de quem não tenho apelado:
é hoje, que sois chegado,
Senhor, o tempo, em que apele;
fazei, que El-Rei o desvele
pagar o serviço meu,
pois é bizarro, e só
eu não vim muito pago dele.



A JOÃO PLZ. DA CAMARA COUTINHO FILHO DO MESMO GOVERNADOR TOMANDO POSSE DE HUMA GINETA EM DIA DE S. JOÃO BAPTISTA, E LHE ASSISTIO DE SARGENTO D. JOÃO DE LANCASTRO SEU THIO VINDO DO GOVERNO DE ANGOLLA.


No culto, que a terra dava,
equivocava-se a vista,
se celebrava o Batista,
se ao Coutinho festejava:
um e outro João estava
arrojando à sua planta
tanto aplauso, e festa tanta:
mas viu-se, que ao mesmo dia,
em que o Batista caía,
o Coutinho se levanta.


Viu-se, que um João Batista
na terça-feira caíra,
e que outro João subira
a imperar esta conquista:
mas não se enganou a vista
por desacerto, ou desgraça,
antes com divina traça
se notou, e se advertiu,
que se um com graça caiu,
outro nos caiu em graça.


Braba ocorrência se achou
no martirológio então,
o dia era de um João,
e outro João lhe levou:
toda a cidade assentou
por razão, se por carinho
ser mais acerto, e alinho
preferir entre dous grandes
como um Silva a um Fernandes
a um Batista um Coutinho.


Mais ocorrências se leram,
porque pasmasse a Bahia,
dous num dia há cada dia,
mas três nunca concorreram:
três de um nome então vieram,
e qual mais para aplaudido,
e assim confuso, e sentido
ficou com tão nova traça
restaurada a nossa Praça
e o Calendário aturdido.


Se de um só João no dia
se abalava a cristandade,
por três de tal qualidade
quem se não abalaria!
tudo quanto então se via,
se via com grande abalo,
um mar de fogo a cavalo,
a pé um Etna de flores,
e por ver tantos primores
o Céu dava tanto estalo.


A ver o grande Alencastro
quem não fez do aperto graça:
se saiu o sol à praça
fazer praça a tanto Astro?
o bronze pois, e alabastro
por solenizar a glória
consentirão, que esta história
fique por mais segurança
nos arquivos da lembrança
nos volumes da memória.



AO MESMO ASSUMPTO.


Entre aplausos gentis com luz preclara
Resplandece do sol a monarquia,
E o Príncipe da Luz, que o céu regia
Estático a carroça ardente pára.


E com razão: pois vê, se bem repara,
outro novo Faetonte neste dia,
E sente arder o mundo, como ardia,
Quando ao filho o governo delegara.


Pare pois, e repare, que o decreta
Astréia, porque aprenda no alto pólo
Ditames de luzir deste Planeta.


Sua fama andará de pólo a pólo,
Pois o Jove, que empunha uma gineta,
Faetonte é na luz, no garbo Apolo.


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