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Crônica do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
 


A PRIZÃO QUE FEZ ESTE GOVERNADOR À SEU CREADO O BRAÇO FORTE.


Preso entre quatro paredes
me tem Sua Senhoria
por golotão de despachos,
por fundidor de mentiras.
Dizem, que sou um velhaco,
e mentem por vida minha,
que o velhaco era o Governo,
e eu sou a velhacaria.

Quem pensara, e quem dissera,
quem cuidara, e quem diria,
que um braço de prata velha
pouca prata, e muita liga!
Tanto mais que o Braço Forte
fosse forte, que poria
um cabo de calabouço,
e um soldado de golilha!

Porém eu de que me espanto,
se nesta terra maldita
pode uma onça de prata
mais que dez onças de alquímia.
Quem me chama de ladrão,
erra o trincho à minha vida,
fui assassino de furtos,
mandavam-me, obedecia.

Despachavam-me a furtar;
eu furtava, e abrangia,
e são boas testemunhas
inventários, e partilhas.
Eu era o ninho de guincho,
que sustentava, e mantinha
com suor das minhas unhas
mais de dez aves rapinhas.

O Povo era, quem comprava,
o General, quem vendia,
eu triste era o corretor
de tão torpes mercancias.
Vim depois a enfadar,
que sempre no mundo fica
aborrecido o traidor,
e a traição muito bem vista.

Plantar de fora o ladrão,
quando a ladroíce fica,
será limpeza de mãos,
mas de mãos mui pouco limpas.
Eles cobraram o seu
dinheiro, açúcar, farinha,
até a mim me embolsaram
nesta hedionda enxovia.

Se foi bem feito, ou mal feito,
o sabe toda a Bahia,
mas se a traição ma fizeram,
com eles a traição fica.
Eu sou sempre o Braço Forte,
e nesta prisão me anima,
que se é casa de pecados,
os meus foram ninharias.

Todo este mundo é prisão,
todo penas, e agonias,
até o dinheiro está preso
em um saco, que o oprima.
A pipa é prisão do vinho,
e da água fugitiva
(sendo tão leve, ligeira)
é prisão qualquer quartinha.

Os muros de pedra, e cal
são prisão de qualquer vila,
d'alma é prisão o corpo,
do corpo é qualquer almilha.
A casca é prisão das fruitas,
da rosa é prisão a espinha,
o mar é prisão da terra,
a terra é prisão das minas.

É cárcere do ar um odre,
do fogo é qualquer pedrinha,
e até um céu de outro céu
é uma prisão cristalina.
Na formosura, e donaire
de uma muchacha divina
está presa a liberdade,
e na paz a valentia.

Pois se todos estão presos,
que me cansa, ou me fadiga,
vendo-me em casa d'EI-Rei
junto à Sua Senhoria?
Chovam prisões sobre mim,
pois foi tal minha mofina,
que, a quem dei cadeias d'ouro,
de ferro mas gratifica.




A DESPEDIDA DO MAO GOVERNO QUE FEZ ESTE GOVERNADOR.


Senhor Antão de Sousa de Meneses,
Quem sobe a alto lugar, que não merece,
Homem sobe, asno vai, burro parece,
Que o subir é desgraça muitas vezes.


A fortunilha autora de entremezes
Transpõe em burro o Herói, que indigno cresce
Desanda a roda, e logo o homem desce,
Que é discreta a fortuna em seus reveses.


Homem (sei eu) que foi Vossenhoria,
Quando o pisava da fortuna a Roda,
Burro foi ao subir tão alto clima.


Pois vá descendo do alto, onde jazia,
Verá, quanto melhor se lhe acomoda
Ser home em baixo, do que burro em cima.

SUCCEDE A ESTE GOVERNADOR O MARQUEZ DAS MINAS
COM SEU FILHO O CONDE DO PRADO, DESFAZENDO TODAS
AS SUAS OBRAS, E MANDANDO VIR OS PRINCIPAES DA BAHIA
DO DESTERRO, EM QUE ANDAVÃO, PELA MORTE, QUE OUTROS
DERAM AO ALCAYDE MÔR FRANCISCO TELLES.




MOTE



De flores, e pedras finas
floresce, e enriquece o Estado,
floresce sim pelo Prado,
e enriquece pelas Minas:

As Aves, que peregrinas
aos montes se retiraram,
nesta manhã já cantaram
com tão doce melodia,
que a noite se tornou dia,
porque as penas se acabaram.


Já da Primavera entrou
a alegre serenidade,
com que toda a tempestade
do triste inverno acabou:
já Saturno declinou
nas operações malignas,
com influências benignas
Júpiter predominante
nos promete ano abundante
De flores, e pedras finas.


Se destes aspectos tais
bem se calcula a figura,
teremos grande fartura,
não há de haver fome mais:
mostras temos, e sinais
de um tempo muito abastado:
porque bem considerado
dele tem o próprio efeito;
já vemos, que a seu respeito
Floresce, e enriquece o Estado.


Para ser enriquecido
este Estado, e florescente,
temos a causa patente
no Planeta referido:
nem se equivoca o sentido
no efeito aqui declarado:
porque sendo bem notado
o estado, como parece,
se pelo mais não floresce,
Floresce sim pelo Prado.


Pelo Prado flor a flor
se vai a terra esmaltando,
com que o clima está mostrando
temperamento melhor:
do Luminar superior
por tais influências dignas
sendo as pedras, e boninas
da terra únicos primores
pois se esmalta pelas flores,
E enriquece pelas Minas.


Na terra já se exprimentam
virações tão temperadas,
que as aves determinadas
tornar aos ninhos intentam:
já não sentem, nem lamentam
tempestuosas ruínas,
pois com salvas matutinas
se mostram tão prazenteiras,
que mais parecem caseiras
As aves, que peregrinas.


Sua peregrinação
influxo foi de Saturno,
Planeta sempre noturno,
e muito importuno então:
todas nessa conjunção
seus doces ninhos deixaram,
e tanto se recearam
do nocivo temporal,
que escolhendo o menor mal,
Aos montes se retiraram.


Porém tanto que sentiram
haver no tempo mudança,
sem receio, e sem tardança
aos ninhos se reduziram:
outros ares advertiram,
outra clemência notaram,
com que alegres publicaram
dos astros os movimentos,
e com festivos acentos
Nesta manhã já cantaram.


Cantaram para mostrar
com repetidas cadências
singulares excelências
de um Planeta singular:
tal doçura no cantar
não se ouviu nesta Bahia,
ouvindo-se na harmonia
modulações tão suaves,
que nunca cantaram aves
com tão doce melodia.


Cada qual com voz sonora
nos mutetes, que cantavam,
por mil modos explicavam
de todo estado a melhora:
cada instante, e cada hora
a música mais se ouvia;
no Prado resplandecia
por modo maravilhoso
um lustre tão luminoso
que a noite se tornou dia.


Entre as aves modulantes,
que este nosso País tem
todas cantavam o bem,
de que são participantes:
dos males, que foram dantes,
todas também se queixaram;
assim que todas mostraram
com alegrias notórias,
que começaram as glórias,
Porque as penas se acabaram.



A SEU FILHO O CONDE DO PRADO, DE QUEM ERA O POETA BEM VISTO, ESTANDO RETIRADO NA PRAYA GRANDE, LHE DÁ CONTA DOS MOTIVOS, QUE TEVE PARA SE RETIRAR DA CIDADE, E AS GLORIAS, QUE PARTICIPA NO RETIRO.



Daqui desta Praia grande,
Onde à cidade fugindo,
conventual das areias
entre os mariscos habito:
A vós, meu Conde do Prado,
a vós, meu Príncipe invicto,
Ilustríssimo Mecenas
de um Poeta tão indigno.

Enfermo de vossa ausência
quero curar por escrito
sentimentos, e saudades,
lágrimas, penas, suspiros.
Quero curar-me convosco,
porque é discreto aforismo,
que a causa das saudades
se empenhe para os alívios.

Ausentei-me da Cidade,
porque esse Povo maldito
me pôs em guerra com todos,
e aqui vivo em paz comigo.
Aqui os dias me não passam,
porque o tempo fugitivo,
por ver minha solidão,
pára em meio do caminho.

Graças a Deus, que não vejo
neste tão doce retiro
hipócritas embusteiros,
velhacos entremetidos.
Não me entram nesta palhoça
visitadores prolixos,
políticos enfadonhos,
cerimoniosos vadios.

Uns néscios, que não dão nada,
senão enfado infinito,
e querem tirar-me o tempo,
que me outorga Jesu Cristo.
Visita-me o lavrador
sincero, simples, e liso,
que entra co'a boca fechada,
e sai co queixo caído.

En amanhecendo Deus,
acordo, e dou de focinhos
co sol sacristão dos céus
toca aqui, toca ali signos.
Dou na varanda um passeio,
ouço cantar passarinhos
docemente, ao que eu entendo,
exceto a letra, e o tonilho.

Vou-me logo para a praia,
e vendo os alvos seixinhos,
de quem as ondas murmuram
por mui brancos, e mui limpos:
os tomo em minha desgraça
por exemplo expresso, e vivo,
pois ou por limpo, ou por branco
fui na Bahia mofino.

Queimada veja eu a terra,
onde o torpe idiotismo
chama aos entendidos néscios,
aos néscios chama entendidos.
Queimada veja eu a terra
onde em casa, e nos corrilhos
os asnos me chamam d'asno,
parece cousa de riso.
eu sei um clérigo zote
parente em grau conhecido
destes, que não sabem musa,
mau grego, e pior latino:
Famoso em cartas, e dados
mais que um ladrão de caminhos,
regatão de piaçavas,
e grande atravessa-milhos:

Ambicioso, avarento,
das próprias negras arnigo
só por fazer a gaudere,
o que aos outros custa jimbo.
Que se acaso em mim lhe falam,
torcendo logo o focinho,
ninguém me fale nesse asno,
responde com todo o siso.
Pois agora (pergunto eu)
se Job fora ainda vivo
sofrera tanto ao diabo,
como eu sofro este percito?

Também sei, que um certo Beca
no pretório presidindo,
onde é salvage em cadeira,
me pôs asno de banquinho.
Por sinal que eu respondi,
a quem me trouxe este aviso,
se fosse asno, como eu sou,
que mal fora a esse Ministro.

Eu era lá em Portugal
sábio, discreto, e entendido,
Poeta melhor, que alguns,
douto como os meus vizinhos.
Chegando a esta cidade,
logo não fui nada disto:
porque o direito entre o torto
parece, que anda torcido.

Sou um herege, um asnote,
mau cristão, pior ministro,
mal entendido entre todos,
de nenhum bem entendido.
Tudo consiste em ventura,
que eu sei de muitos delitos
mais graves que os meus alguns,
porém todos sem castigo.

Mas não consiste em ventura,
e se o disse, eu me desdigo;
pois consiste na ignorância
de Idiotas tão supinos.
De noite vou tomar fresco,
e vejo em seu epiciclo
a lua desfeita em quartos
como ladrão de caminhos.

O que passo as mais das noites,
não sei, e somente afirmo,
que a noite mais negra, escura
em claro a passo dormindo.
Faço versos mal limados
a uma Moça como um brinco,
que ontem foi alvo dos olhos,
hoje é negro dos sentidos.

Esta é a vida, que passo,
e no descanso, em que vivo,
me rio dos Reis de Espanha
em seu célebre retiro.
Se, a quem vive em solidão,
chamou beato um gentio,
espero em Deus, que hei de ser
por beato inda benquisto.

Mas aqui, e em toda a parte
estou tão oferecido
às cousas do vosso gosto,
como de vosso serviço.



AO CONDE DO PRADO EMBARCANDO-SE PARA PORTUGAL EM COMPANHIA DE SEU PAY, DEPOlS DE TER ACABADO O TEMPO DE SEU GOVERNO LHE FAZ O POETA ESTAS SAUDOSAS DESPEDIDAS.



Generoso Dom Francisco,
mais que Conde Rei do prado,
porque se a Rosa é Rainha,
rei sois vóis, pois sois o Cravo.
Majestoso ramilhete
por cuja causa logramos
trinta e seis meses de flores,
que um mês fizeram de Maio.

Luminar esclarecido,
em quem tanto estão brilhando
as luzidas excelências
desses ascendentes Astros.
Ouvi de meus sentimentos
a voz, inda que o reparo
note, que para a matéria
o instrumento é mui baixo.

Ouvi meus saudosos tonos,
que é bem, Senhor Soberano,
que, quem deu assunto à solfa,
se digne de ouvir os cantos.
Neste papel ponde os olhos,
pois já quisestes dignar-vos
de verdes da minha Musa
noutro tempo outro traslado.

Naquele tempo, então digo,
quando escapei são, e salvo
por vosso bom patrocínio
de mil testemunhos falsos.
Quando viu toda a Bahia
no decurso de três anos
sempre em flor vosso carinho,
nunca murcho o vosso agrado

Aqui mil órgãos quisera,
para que com mil meatos
sempre ferisse os encômios,
onde soam os aplausos.
Mas inda assim não podiam
entender-se os vôos tanto,
que não ficassem sucintos
para elogios tão altos.

Aquele ligeiro monstro,
que nas presunções de alado
pelas plumas marca os vôos,
pelos vôos mede os passos.
Só pode com nova tuba
referir em pregões altos
os timbres da vossa pompa,
as prendas do vosso garbo.

Referirá, Senhor Conde,
que sempre os feitos preclaros
têm por doação dos tempos
da Fama os maiores brados.
Esta vai com grande empenho
desta Praça, para dar-vos
sobre as aras do meu trono
da memória os holocaustos.

Digo, que vai desta Praça,
onde em público teatro
vemos do melhor governo
os mais heróicos ensaios.
Do Mestre as prerrogativas
toquei em hino mais amplo
por ver-se nas lições suas
da pena o primeiro aparo.

Aqui dos seus documentos
nada digo, nada trato,
que pois o assunto é só vosso,
só convosco agora falo.
Só convosco, porque o gênio,
que é para pouco trabalho,
mal pode ser juntamente
Jardineiro, e Lapidário.

Tanto que vos embarcastes,
logo então fiquei notando,
que na falta do presente
se conhece o bem passado.
Por vossa ausência às escuras
fica a terra, e não me espanto,
de que quando o sol se ausenta,
se ausente da Luz os raios.


A vista dos nossos olhos
éreis; com que fica claro,
pois, meu Senhor, vos perdemos,
que sem vós cegos ficamos.
A vossa falta sentimos
geralmente neste estado,
que sentir-se a grande perda
efeito é muito ordinário.

Sente o grande, que não tem
o Prado alegre em Palácio,
o gentil Cravo na rua,
a Flor brilhante no Campo.
Sente igualmente o pequeno
não ter em seus desamparos
abrigo para a tormenta
e tábua para o naufrágio.

Eu sinto, e sentimos todos,
que fosse tão breve o prazo
dos objetos para a vista,
da vista para os regalos.
Mas não podia o triênio,
sendo um bem dos bens humanos,
deixar de incluir o logro
nos termos de momentâneo.

Nesta suposição nossa
concorrem motivos vários
uns por parte dos alívios,
outros em favor dos prazos.
Mas prevalecem as penas,
que os corações magoados,
quando a dor mais dissimulam,
então estão mais penando.

Não permita vossa ausência,
no sentimento intervalos,
que no mal sempre contino
nunca desconsolos faltam.
Vossa saudade gememos
nossa solidão choramos
se na solidão chorosos,
na saudade solitários.

Nesta assistência tão breve
nos mostrou o desengano
não ser para pecadores
o comércio de tal Anjo.


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