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Crônica do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
 


AO CONDE DE ERICEYRA D. LUIZ DE MENEZES PEDINDO LOUVORES
AO POETA NÃO LHE ACHANDO ELLE PRESTIMO ALGUM.




Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.



Na quinta torce agora a porca o rabo:
A sexta vá também desta maneira,
na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.
Agora nos tercetos que direi?
Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,
Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.
Nesta vida um soneto já ditei,
Se desta agora escapo, nunca mais;
Louvado seja Deus, que o acabei.



CENSURA QUE FAZ O POETA DESTE TAL CONDE NA SUA DESASTRADA MORTE, LANÇANDO-SE DA JANELLA DO SEU JARDIM, ONDE ACABOU MISERAVELMENTE POR ALTOS JUIZOS DE DEOS.



Tanta virtude excelente
de animoso, e de alentado,
de valeroso soldado,
e de cortesão valente,
viu o mundo, e soube a gente,
que inda que em santo podia
transformar-se a Senhoria,
o Conde o não conseguiu,
porque de noite caiu,
e o Santo cai no seu dia.


Se o Conde caiu de noite,
como o teremos por Santo,
quando a queda um tanto, ou quanto,
teve do divino açoite:
quis Deus, que o Conde se afoite,
porque visse o bom Soldado,
que o Conde de puro honrado
quis, que o visse a própria terra,
quanto arrojado na guerra,
na paz tão precipitado.


Ícaro da nossa guerra
ares corta o Conde só,
Ícaro caiu no Pó,
e o Conde caiu na terra:
se, porque o rio o enterra,
o nome lhe ficou dado
de Ícaro ter sepultado:
assim porque a terra dura
deu ao Conde sepultura,
ficou a terra um condado.


De cera, e pluma se val
Ícaro para viver,
e o Conde para morrer
valeu-se do natural:
quanto a força artificial
da natureza é sobrada
fica a do Conde adiantada,
porque Ícaro quando bóia
faz tragédia de tramóia,
e o Conde de capa, e espada.


Tinha o Conde de morrer;
todo o mortal nisto pára,
e se ele se não matara,
quem lho havia de fazer?
fez bem o Conde a meu ver,
quando ao jardim se arrojou,
e entre as flores expirou:
vento é a vida em rigor,
e como o Conde era flor,
entre as flores acabou.


Se ignorou alguns sentidos,
porque tanto mal se urdiu,
era valido, e caiu,
que o cair é dos validos:
tão certos são, e sabidos
no monte, no lar, na praça
estes reveses da graça,
que é já dos Palácios lei,
que quem da graça d’EI-Rei
cai, cai da sua desgraça.


AO MESMO ASSUMPTO E PELO MESMO CASO.


Nesse precipício, Conde,
fostes Ícaro segundo,
bem que a Dédalo no mundo
vossa fama corresponde:
em parte caístes, onde
como Ícaro morrestes,
mas a Dédalo excedestes
nesses labirintos tristes,
em fazer no que caístes,
e em cair, no que fizestes.


Caiu o Conde, e se diz,
que foi por um caso atroz,
porém já corre outra voz,
que a esta se contradiz:
que foram uns frenesis
do juízo descortês:
mas eu digo desta vez
ouvindo do baque o truz,
que o juízo ao Conde induz
ter caído, no que fez.


ESTRIBILHO


Aqui jaz, em que lhe pes,
quem tudo fez com má sorte,
e só na hora da morte
caiu naquilo, que fez.



A MORTE DO ILLUSTRISSIMO MARQUEZ DE MARIALVA. GENERAL
DAS ARMAS DE PORTUGAL SOBRE AS PALAVRAS DA ESCRIPTURA
"PLANDITE ANTE EXEQUIAS ABNER; FIPSE FLEVIT DAVID SUPER
TUMULUM ABNER."




Quando a morte de Abner David sentia,
Mandou a seus vassalos, que chorassem,
E que em lágrimas todos publicassem
Quanto o Reino Ihe deve, e o Rei devia.


Cada qual seu tormento repetia,
Sem querer, que os dos outros o igualassem
E todos procuravam, que mostrassem
As lágrimas dilúvio, a dor porfia.


Pois se a morte de Abner se sente tanto,
Só por ser General valente, e forte,
Que move o Reino, e Rei a tanto pranto:


Lamente Portugal, e sinta a Corte
A morte de Marialva, porque espanto
Foi do mundo, e o pudera ser da Morte.




EPITAFIO AO CORAÇÃO DESTE MESMO GENERAL ENTERRADO
AOS PÉS D'EL REY D. JOÃO IV.




Aqui jaz o coração
Do mais valente Anibal,
que restaurou Portugal com a espada de co’a razão:
aos pés do Rei quarto João
lhe mandaram dar jazigo,
para que a todo o perigo
os dous unidos por lei
achasse o vassalo ao Rei,
e tivesse o Rei o amigo.



AO MESMO ASSUMPTO E PELOS MESMOS CONSOANTES



Aqui jaz o coração
do vassalo mais leal,
a quem deve Portugal
o quarto Rei Dom João:
e assim com justa razão
lhe dão a seus pés jazigo,
porque a todo o perigo
unidos os dous por lei
achasse a lealdade o Rei,
tivesse o vassalo amigo.



AO MESMO MARQUEZ SENDO ENTERRADO EM TREZ PARTES.
O CORPO EM CATANHÉDE; O CORAÇÃO EM S. VICENTE DE FORA; E OS INTESTINOS EM SAM JOSÉ DE RIBA MAR.




Em três partes enterrado
está o corpo do Marquês
de Marialva: porque em dez
mil seu nome é venerado:
e foi destino acertado,
que em tanta parte estivesse,
para que o mundo soubesse,
que este valeroso Marte
morto assiste em qualquer parte,
como se ainda vivesse.



HOMENS DE BEM

... homem de bem...

Manuel Pereira Rabelo, licenciado
O roubo, a injustiça, a tirania.



A MORTE DO GOVERNADOR MATHIAS DA CUNHA.


Ó caso o mais fatal da triste sorte!
Ó terrível pesar! ó dor imensa!
Quem viu, que em breves dias de doença
Acabasse valor, que era tão forte!


Quem viu prostrar-se a gala de Mavorte,
Que hoje em cinza se ve à morte apensa!
Que como se prostrou, logo a licença
Concedeu livremente ousada à morte.


Já se vê o valor, que esclarecido
Foi, em urnas de pedra sepultado
Do sujeito mais grave, e entendido.


À Parca rigorosa sujeitado,
Acabado já, e em cinzas consumido
o esforço, que se viu mais alentado.



AO MESMO ASSUMPTO.


Teu alto esforço, e valentia forte
Tanto a outro nenhum valor iguala,
Que teve o céu cobiça de lográ-lo,
Que teve inveja de vencê-la a morte.


O céu veio a lográ-la, mas por sorte,
Que por poder não pôde conquistá-la;
A morte por haver de contrastá-la
Vigor de lei tomou, e deu-lhe o corte.


Prêmios, que mereceste, e nunca viste,
Todos com teu valor os desprezaste,
E com os merecer lhe resististe.


O cargo, que na vida não lograste,
Esse o mofino é, órfão, e triste,
Pois te não falta a ti, tu lhe faltaste.



AO MESMO ASSUMPTO.



Quem há de alimentar de luz ao dia?
Quem de esplendor ilustrará a Nobreza?
Quem há de dar lições de gentileza
A toda a gentileza da Bahia?


Já feneceu do mundo a galhardia,
Melancólica jaz a natureza,
Vendo em pó reduzida a fortaleza,
E em cinzas desatada a fidalguia.


O Marte (digo), que ao combate expunha
O peito sem temor, que ao mundo assombra,
Sendo da paz terror, da guerra espanto.


Foi este o Senhor Matias da Cunha,
Que hoje nos dá tornado em fria sombra
Ao discurso pesar, aos olhos pranto.



DISCRIÇÃO, ENTRADA, E PROCEDIMENTO DO BRAÇO DE PRATA
ANTONIO DE SOUZA DE MENEZES GOVERNADOR DESTE ESTADO.




Oh não te espantes não, Dom Antonio,
Que se atreva a Bahia
Com oprimida voz, com plectro esguio
Cantar ao mundo teu rico feitio,
Que é já velho em Poetas elegantes
O cair em torpezas semelhantes.


Da Pulga acho, que Ovídio tem escrito,
Lucano do Mosquito,
Das Rãs Homero, e destes não desprezo,
Que escreveram matérias de mais peso
Do que eu, que canto cousa mais delgada
Mais chata, mais sutil, mais esmagada.


Quando desembarcaste da fragata,
Meu Dom Braço de Prata,
Cuidei, que a esta cidade tonta, e fátua
Mandava a Inquisição alguma estátua
Vendo tão espremida salvajola
Visão de palha sobre um Mariola.


O rosto de azarcão afogueado,
E em partes mal untado,
Tão cheio o corpanzil de godolhões,
Que o julguei por um saco de melões;
Vi-te o braço pendente da garganta,
E nunca prata vi com liga tanta.


O bigode fanado feito ao ferro
Está ali num desterro,
E cada pêlo em solidão tão rara,
Que parece ermitão da sua cara:
Da cabeleira pois afirmam cegos,
Que a mandaste comprar no arco dos pregos.


Olhos cagões, que cagam sempre à porta,
Me tem esta alma torta,
Principalmente vendo-lhe as vidraças
No grosseiro caixilho das couraças:
Cangalhas, que formaram luminosas
Sobre arcos de pipa duas ventosas.


De muito cego, e não de malquerer
A ninguém podes ver;
Tão cego és, que não vês teu prejuízo
Sendo cousa, que se olha com juízo:
Tu és mais cego, que eu, que te sussurro,
Que em te olhando, não vejo mais que um burro.


Chato o nariz de cocras sempre posto:
Te cobre todo o rosto,
De gatinhas buscando algum jazigo
Adonde o desconheçam por embigo:
Até que se esconde, onde mal o vejo
Por fugir do fedor do teu bocejo.


Faz-lhe tal vizinhança a tua boca,
Que com razão não pouca
O nariz se recolhe para o centro
Mudado para os baixos lá de dentro:
Surge outra vez, e vendo a bafarada
Lhe fica a ponta um dia ali engasgada.


Pernas, e pés defendem tua cara:
Valha-te; e quem cuidara,
Tomando-te a medida das cavernas
Se movesse tal corpo com tais pernas!
Cuidei, que eras rocim das alpujarras,
E já frisão te digo pelas garras.


Um casaquim trazias sobre o couro,
Qual odre, a quem o Touro
Uma, e outra cornada deu traidora,
E lhe deitou de todo o vento fora;
Tal vinha o teu vestido de enrugado,
Que o tive por um odre esfuracado.


O que te vir ser todo rabadilha
Dirá que te perfilha
Uma quaresma (chato percevejo)
Por Arenque de fumo, ou por Badejo:
Sem carne, e osso, quem há ali, que creia,
Senão que és descendente de Lampreia.


Livre-te Deus de um Sapateiro, ou Sastre,
Que te temo um desastre,
E é, que por sovela, ou por agulha
Arme sobre levar-te alguma bulha:
Porque depositando-te à justiça
Será num agulheiro, ou em cortiça.


Na esquerda mão trazias a bengala
ou por força, ou por gala:
No sovaco por vezes a metias,
Só por fazer enfim descortesias,
Tirando ao povo, quando te destapas,
Entonces o chapéu, agora as capas.


Fundia-se a cidade em carcajadas,
Vendo as duas entradas,
Que fizeste do Mar a Santo Inácio,
E depois do colégio a teu palácio:
O Rabo erguido em cortesias mudas,
Como quem pelo cu tomava ajudas.


Ao teu palácio te acolheste, e logo
Casa armaste de jogo,
Ordenando as merendas por tal jeito,
Que a cada jogador cabe um confeito:
Dos Tafuis um confeito era um bocado,
Sendo tu pela cara o enforcado.


Depois deste em fazer tanta parvoíce,
Que inda que o povo risse
Ao princípio, cresceu depois a tanto,
Que chegou a chorar com triste pranto:
Chora-te o nu de um roubador de falso,
E vendo-te eu direito, me descalço.


Xinga-te o negro, o branco te pragueja,
E a ti nada te aleija,
E por teu sensabor, e pouca graça
És fábula do lar, riso da praça,
Té que a bala, que o braço te levara,
Venha segunda vez levar-te a cara.



SUBTILEZA COM QUE O POETA SATYRIZA À ESTE GOVERNADOR.


Tempo, que tudo trasfegas,
fazendo aos peludos calvos,
e pelos tornar mais alvos
até os bigodes esfregas:
todas as caras congregas,
e a cada uma pões mudas,
tudo acabas, nada ajudas,
ao rico pões em pobreza,
ao pobre dás a riqueza,
só para mim te não mudas.


Tu tens dado em mal querer-me,
pois vejo, que dá em faltar-te
tempo só para mudar-te, s
e é para favorecer-me:
por conservar-me, e manter-me
no meu infeliz estado,
até em mudar-te hás faltado,
e estás tão constante agora,
que para minha melhora
de mudanças te hás mudado.


Tu, que esmaltas, e prateias
tanta gadelha dourada,
e tanta face encarnada
descoras, turbas, e afeias:
que sejas pincel, não creias,
senão dias já passados;
mas se esmaltes prateados
branqueiam tantos cabelos,
como, branqueando pêlos,
não me branqueias cruzados?


Se corres tão apressado,
como paraste comigo?
corre outra vez, inimigo,
que o teu curso é meu sagrado:
corre para vir mudado,
não pares por mal de um triste:
porque, se pobre me viste,
paraste há tantas auroras,
bem de tão infaustas horas
o teu relógio consiste.


O certo é, seres um caco,
um ladrão da mocidade,
por isso nesta cidade
corre um tempo tão velhaco:
farinha, açúcar, tabaco
no teu tempo não se alcança,
e por tua intemperança
te culpa o Brasil inteiro,
porque sempre és o primeiro
móvel de qualquer mudança.


Não há já, quem te suporte;
e quem armado te vê
de fouce, e relógio, crê,
que és o percussor da morte:
vens adiante de sorte,
e com tão fino artifício,
que à morte forras o ofício;
pois ao tempo de morrer,
não tendo já que fazer,
perde a morte o exercício.


Se o tempo consta de dias,
que revolve o céu opaco,
como tu, tempo velhaco,
constas de velhacarias?
não temas, que as carestias,
que de ti se hão de escrever,
te darão a aborrecer
tanto as futuras idades,
que, ouvindo as tuas maldades,
a cara te hão de torcer.


Se, porque penas me dês,
paras cruel, e inumano,
o céu santo, e soberano
te fará mover os pés:
esse azul móvel, que vês,
te fará ser tão corrente,
que não parando entre a gente,
preveja a Bahia inteira,
que há de correr a carreira
com pregão de delinqüente.


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