Crônica
do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
SOLILOQUIO DE Me. VIOLANTE DO CEO AO DIVINISSIMO SACRAMENTO: GLOZADO
PELO POETA, PARA TESTEMUNHO DE SUA DEVOÇÃO, E CREDITO
DA VENERAVEL RELIGIOSA.
MOTE
Soberano Rei da Glória, que
nesse doce sustento sendo
todo entendimento
quisestes ficar memória.
Numa cruz vos exaltastes,
meu Deus, para padecer,
e nas ânsias de morrer
ao Eterno Pai clamastes:
sangue com água brotastes
do lado para memória,
e como consta da História,
quisestes morrer constante
por serdes tão fino amante,
Soberano Rei da Glória.
Se na glória, em que reinais,
amante vos concedeis
bem mostrais, no que fazeis,
que extremosamente amais:
mas se em pão vos disfarçais,
dando-vos por alimento,
o entendimento,
onde assistis com mais luz?
mas direis, doce Jesus
Que nesse doce sustento.
Sabendo enfim, que morríeis,
amante vos entregastes,
e no Horto, quando orastes
ânsias de morte sentíeis:
já, divino Amor, sabíeis,
da vossa morte o tormento,
e já desde o nascimento
todo o saber comprendestes,
porque, Senhor, já nascestes
Sendo todo entendimento.
Vivas lembranças deixastes
da vossa morte, Senhor,
e para maior amor
mesmo em lembrança ficastes:
numa ceia apresentastes
vosso corpo em tanta glória,
que para contar a história
da vossa morte, e tormento,
no divino Sacramento
Quisestes ficar memória.
MOTE
Sol, que estando abreviado
nesse cândido Oriente,
abonais o mais ardente,
ostentando o mais nevado.
Sendo Sol, que dominais
dos céus a máquina fera,
em tão limitada esfera,
como esse Sol ostentais?
creio, que a entender nos dais,
meu Redentor extremado,
que em lugar tão limitado
só o amor caber se atreve
como num círculo breve
Sol, que estando abreviado
Bem nesse lugar tão breve
vemos com tanto arrebol
abrasar-se tanto sol
nos epiciclos da neve:
muito a vosso amor se deve,
pois como Sol no nascente
pelo cristal transparente
divinamente ilustrais,
e todo vos abrasais
Nesse cândido Oriente.
Todo neve na brancura,
todo sol, no que brilhais,
como sol nos abrasais,
sendo neve na frescura:
mas tanto o divino apura
no cristal o transparente,
que ali fazendo patente
o quanto estais empenhado,
de fino amor abrasado
Abonais o mais ardente.
Nascem desempenhos tais
desses divinos primores,
que em requintados amores
todo a nós nos dedicais:
mas bem que vos empenhais,
vejo-vos mui bem trajado
nessa gala de encarnado,
que tomastes de Maria,
agora por bizarria
Ostentando o mais nevado.
MOTE
Emblema de amor mais puro,
enigna de amor mais raro,
que sendo à vista tão claro,
sois também à vista escuro.
Depois de crucificado
vos admirei, bom Senhor,
fino retrato do amor,
quando vos vi retratado:
então de um iluminado
sanguinosamente escuro,
se bem que estou mui seguro
das finezas do Calvário,
vos contemplei no sudário
Emblema de amor mais puro
E suposto o pensamento
se pasma do escuro enigma,
mais o mistério sublima
vendo-vos no Sacramento:
ali meu entendimento
conhecendo-vos tão claro,
melhor esforça o reparo
de que estais tão luzido,
quando melhor comprendido
Enigma de amor mais raro
Que no Sacramento estais
todo, e toda a divindade,
conheço com realidade,
suposto que o disfarçais:
para que vos ocultais
nesse mistério tão raro,
se a maravilha reparo,
penetrando-vos atento,
mais claroao entendimento,
Que sendo à vista tão claro?
Que se de neve coberto
fica o divino admirado,
bem se pode um disfarçado
conhecer melhor ao perto:
porém vós andais tão certo,
e tanto em recatos puro,
que se ver-vos me asseguro
nesse disfarce, em que andais,
inda que patente estais,
Sois também à vista escuro.
MOTE
Agora que entre candores
a vosso amor dais a palma,
escutai, Senhor, uma alma,
que por vós morre de amores.
Todo amante, e todo digno
vos veio estar neste trono,
prestando ao amor de abono
quilates do ardor mais fino:
porém, Senhor, se contino
abrasado estais de amores,
entre tantos resplandores,
que por fineza ocultais,
vede, que nos abrasais
Agora, que entre candores.
De amor tão qualificado
digo, ó cordeiro bendito,
que vos aclame infinito
tanto espírito elevado:
que eu vos não louvo ajustado,
bem que supra afetos d'alma,
pois meu amor nesta calma,
sendo do vosso vencido,
reconheço, que subido
A vosso amor dais a palma.
Mas por amor tão subido
ouvi, como tenro amante,
este pecador constante,
que se chega arrependido:
seja de vós admitido
o pranto, em que se desalma
para crédito da palma,
que dais a vossos amores,
dos humildes pecadores
Escutai, Senhor, uma alma.
Ouvi desta alma humilhada,
Senhor, um fraco conceito,
e é, que entreis em meu peito
a fazer vossa morada:
achareis de boa entrada
tormentos, ânsias, e dores,
que deram os malfeitores
em toda a vossa paixão,
e vereis um coração,
Que por vós morre de amores.
MOTE
Escutai vossos efeitos
em grosseiras humildades
que para vós as verdades
têm mais valor, que os conceitos.
Já sei, meu Senhor, que vivo
depois que em meu peito entrastes,
porque logo me deixastes
ardendo em um fogo ativo:
agora tenho motivo
para melhorar conceitos,
quando dos vossos respeitos
palpita meu peito o ardor,
e para ver vosso amor
Escutai vossos efeitos
Mas se o infinito ardor
pode atalhar, quanto diga,
sempre o meu termo periga
nas eloqüências de amor:
cale-se a língua melhor
em tantas dificuldades,
vos intenta ponderar,
mil erros lhe haveis de achar
Em grosseiras humildades.
Quem, Senhor, na confissão
andara tão acertado,
que do mais leve pecado
soubera ter contrição:
que de todo o coração
com assaz de realidades
sentira essas propriedades
confessando, o que mandais,
pois sei, que não quereis mais
Que para vós as verdades.
Bem advertido, Senhor,
estou, que sois lince vós,
e que penetrais em nós
os movimentos de amor:
tanto conheceis a dor,
que temos em nossos peitos,
que sendo de amor efeitos
os verdadeiros sinais,
convosco verdades tais
Têm mais valor, que os conceitos.
MOTE
Exercite os mais subidos,
quem busca humanos agrados,
que sempre são levantados,
os que são de vós ouvidos.
Oh quem tivera empregados
em vós, meu Amor divino,
cuidados, que de contino
se multiplicam cuidados:
fazei, que a vós levantados
se acreditem de luzidos
pensamentos, que abatidos
seguem do mundo os enganos,
e que deixando os humanos,
Exercite os mais subidos.
Quem conquistando, Senhor,
vosso amor, perdera a vida,
porque a dá por bem perdida
quem a perde em vosso amor!
Se eu, terníssimo Pastor,
acudira a vossos brados,
então sim, que os meus cuidados
coroara de alta dita,
já que fino se acredita
Quem busca humanos agrados.
Porque aqueles, que vos amam,
e em tais delícias se enlevam,
o prêmio consigo levam,
e filhos vossos se aclamam:
que como no amor se inflamam,
os que são vossos amados,
já purificados
por filhos do vosso amor,
quem há de negar, Senhor,
Que sempre são levantados?
Quem de contino a bradar
por vós no maior rigor
nas enchentes desse amor
não acha de graça um mar?
quero com ânsias mostrar
a dor, a pena, os gemidos;
pois sendo a vós repetidos,
serão de vós bem lembrados,
que são bem-aventurados
Os que são de vós ouvidos.
MOTE
Ai Senhor, quem alcançara
um bem tão alto, e divino,
que de meus ais o contino
a tais ouvidos chegara!
Ai meu Deus, quem merecera
trazer-vos tão dentro d'alma,
que abrasado em viva calma
do vosso amor falecera!
Ai Senhor, quem padecera
por vós, e só vos amara!
ai quem por vós desprezara
tanta enganosa ruína,
e vossa graça divina
Ai Senhor, quem alcançara.
Ai quem fora tão ditoso,
que soubera bem amar-vos,
e na ação de conquistar-vos
rejeitara o mais custoso!
quem, Senhor, tão sequioso
todo amante, e todo fino
elevara o seu destino
a beber da fonte clara,
que desta sorte lograra,
Um bem tão alto, e divino.
Quem disposto a padecer
por vós buscara os retiros.
onde com ais, e suspiros
soubera por vós morrer!
quem sabendo comprender
desse vosso amor o fino
se elevara peregrino
por um amor de tal porte,
que me dera a melhor sorte,
Que de meus ais o contino!
Só então fora feliz,
e fora então venturoso,
se conhecera ditoso,
que meus suspiros ouvis:
se minha dor admitis,
ditoso então me chamara;
oh se de uma dor tão rara
ouvísseis um só gernido,
e se um ai enternecido
A tais ouvidos chegara!
MOTE
Porém justamente espera
cada qual chegar-vos logo,
porque a suspiros de fogo
nunca nos negais esfera.
Esta alma, meu Redentor,
que vos busca peregrina,
por vossa grasa divina
suspira em contlnua dor:
diz, e protesta, Senhor,
que se mil vidas tivera,
todas por vós as perdera,
e não só não se embaraça
no pedir da vossa graça,
Porém justamente espera.
Espera, e não estranheis
o confiar de um preverso,
que pertende já converso,
que a todos, Senhor, salveis:
peço-vos, que nos livreis
desse dilúvio de fogo;
ouvi por todos meu rogo,
inda que vos não compete,
que todos juntos, promete
Cada qual chegar-vos logo.
Porque se abrasado o peito
vosso amor está chamando,
não é muito, que chorando
seja cada qual desfeito:
bem posso formar conceito
desta causa, Senhor, logo,
pois vós ouvistes meu rogo,
e atendeis à minha mágoa,
porque vós venceis com água
Porque a suspiros de fogo.
Arde meu peito em calor,
se bem estou anelando,
quando me estou abrasando
em tanto fogo de amor:
se se realça o ardor,
que um peito amante verbera
quem o favor não espera
de tanto carinho ao rogo,
se a chamas de ativo fogo
Nunca vos negais esfera?
MOTE
Ai meu bem! ai meu Esposo!
ai Senhor Sacramentado!
que mal pode o disfarçado
ocultar o poderoso.
Ai meu Deus, que já não sei
vendo, que vos ausentais,
dizer, como me deixais
neste abismo, em que fiquei
ai Senhor! e que farei
para alcançar venturoso,
o que por menos ditoso
perdi, ou talvez de indigno:
ai meu Redentor divino!
Ai meu bem! ai meu Esposo
Ai Senhor, que me deixais
nesta dura soledade
morto na realidade,
bem que vivo me vejais:
mistérios de amor guardais,
porque estais inda encerrado
em dar-me a vida empenhado,
e do vosso amor a palma:
ai amante da minha alma!
Ai Senhor Sacramentado!
Se nos disfarces metido
roubar as almas quereis,
que importa, vos disfarceis,
ficando à vista o vestido?
mas de que (já conhecido
pelo vestido encarnado)
vos importa o rebuçado:
pois conhecido o poder,
tanta luz escurecer
Que mal pode o disfarçado.
Diáfano, e transparente
esse cristal puro, e fino
com resguardar o divino
declara o onipotente:
tanto nele permanente
está sempre o majestoso,
que então brilha mais lustroso
pelas veias do cristal,
e oculta instrumento tal
Ocultar o poderoso.
MOTE
Ai que bem se deixa ver
nessa Hóstia, Rei Supremo,
que quanto é maior o extremo,
tanto é maior o poder.
Cuidei que não permitisse
vosso poder sublimado,
que estando assim disfarçado,
tão claramente vos visse:
mas porque bem arguísse,
qual seja o vosso poder,
breve cheguei a colher
pelo cristal transparente,
o que em vós como acidente
Ai que bem se deixa ver!
Bendito seja, e louvado,
pelo que tem de amoroso,
um Deus, que é tão poderoso,
um Senhor tão sublimado:
deixar de ser exaltado
poder tão grande, não temo,
pois se vê de extremo a extremo,
que a grandeza, que se sabe
cabendo em vós, toda cabe
Nessa Hóstia, Rei Supremo.
Exaltada a Majestade
seja de um Rei tão divino,
e louvada de contino
tão suprema divindade:
porque, Senhor, na verdade
dessas profundezas temo,
quando a razão, Rei Supremo,
responde à minha rudeza
(sobre o subir da grandeza)
Que quanto é maior o extremo.
E colhida a admiração
no Sacramento está visto
quando Pão, ser todo Cristo
quando Cristo, todo Pão
unido na Encarnação
ao divino e humano ser
e sendo imortal morrer
um Deus, que tanto se humilha
sendo grande a maravilha
Tanto é maior o poder
MOTE
Porque, quem em pão se encerra
Ser divino, e Ser humano,
que muito que soberano
fabricasse o céu, e a terra.
Se no pão vos disfarçais,
por cobrir vossa grandeza,
já do pão na natureza
toda a grandeza expressais.
melhor no pão publicais
o poder a toda a terra,
pasme o mar, e trema a serra,
e reconheça o percito,
que o Pão é Deus infinito;
Porque quem em pão se encerra?
Neste Pão sacramentado,
que dos Anjos é sustento,
têm as almas grande alento
por meio de um só bocado:
perdoa a todo o pecado
por mais torpe, e desumano,
e eu me confesso tirano,
porque me não arrependo
se estou no Pão conhecendo
Ser divino, e ser humano.
Na Ceia se apresentou
o Senhor com realidade,
neste Pão da divindade,
que a todos sacramentou:
se a cada um transformou,
passando a divino o humano
que muito, que o desumano
pecador já convertido
seja aos Anjos preferido?
Que muito, que soberano?
Quem assim o permitiu
com tão alta onipotência,
que o pó da suma indigência
sobre as esferas subiu:
quem este pó preferiu
à luz, que luzes desterra,
que muito a contrária guerra
pacifique aos elementos?
que muito, que a seus intentos
Fabricasse o Céu, e a terra?
MOTE
Que muito, que vivo alento
desse a um barro insensível
um Deus, que lhe foi possível
dar-se a si mesmo em sustento.
De um barro frágil, e vil,
Senhor, o homem formastes,
cuja obra exagerastes
por engenhosa, e sutil:
graças vos dou mil a mil,
pois em conhecido aumento
tem meu ser o fundamento
na razão, em que se estriba,
se lhe infundis alma viva,
Que muito, que vivo alento.
Depois de feita a escultura,
e por um Deus acabada,
obra não houve extremada
como a humana criatura:
ali para mais ventura
(sendo o barro assaz terrível)
alma lhe deu infalível,
e me admira ver, que aquela
alma, que ali fez tão bela
Desse a um barro insensível.
Possível lhe foi fazer
este Arquiteto divino
participando do Trino
aquela alma a seu prazer:
para mais se engrandecer
engrandeceu o insensível,
desatando-se passível
daquele sagrado nó,
que apertava três, e só
Um Deus, que lhe foi possível.
Foi grandeza do poder
aquele querer mostrar
sendo divino encarnar
para humano vir nascer:
e foi grandeza o morrer
um Deus, que é todo portento;
e se bem no Sacramento
se adverte grande fineza,
de seu poder foi grandeza
Dar-se a si mesmo em sustento.
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