Crônica
do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
QUEIXAS DA SUA MESMA VERDADE.
Quer-me mal esta cidade......pela verdade,
Não há, quem me fale, ou veja............
de inveja, E se alguém me mostra amor....é temor.
De maneira, meu Senhor,
que me hão de levar a palma
meus três inimigos d'alma
Verdade, Inveja, e Temor.
Oh quem soubera as mentiras....do milimbiras,
Fora aqui senhor do bolo.......
como tolo, E feito tolo, e velhaco.....fora um caco.
Meteria assim no saco
Servindo, andando e correndo
as ligas, que vão fazendo
Milimbiras, Tolo, e Caco.
Tirara cinzas tiranas......das bananas
Outro se os meus dez réis......de pastéis
E porque isento não
fosse........até do doce.
Teria assim, com que almoce
o meu amancebamento,
pois lhe basta por sustento
Bananas, Pastéis, e Doce.
Prendas, que a empenhar obrigo.......pelo amigo,
Dobrar-lhe eu o valor......e primor,
Cobrando em dous bodegões.......os tostões.
E seus donos asneirões
ao desfazer da moeda
perdem da mesma assentada
Amigo, Primor, Tostões.
Ao jimbo, que se lhe conta.......boa conta,
E já por amigo vejo...... sem ter pejo,
Pois lhe tira de corrida.......a medida.
Mas verdadeira, ou mentida
a conta ajustada vem,
sendo um homen, que não tem,
Conta, Pejo, nem Medida.
Dever-me-ão camaradas.....mil passadas,
E o triste do
companheiro....
o dinheiro,
E à conta das minhas
brasas........as casas.
Assim lhe empatara as vazas,
pois o mesmo, que eu devia,
por força me deveria
Passadas, Dinheiro, e Casas.
TORNA A DEFINIR O POETA OS MAOS MODOS DE OBRAR NA GOVERNANÇA
DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.
Que falta nesta
cidade?......Verdade
Que mais por sua
desonra........Honra
Falta mais que se lhe
ponha......Vergonha.
O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
Quem a pôs neste
socrócio?......Negócio
Quem causa tal
perdição?......Ambição
E o maior desta
loucura?.......Usura.
Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.
Quais são os seus doces objetos?.....
Pretos
Tem outros bens mais
maciços?..........Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?...........
Mulatos.
Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.
Quem faz os círios
mesquinhos?........Meirinhos
Quem faz as farinhas
tardas?.........Guardas
Quem as tem nos
aposentos?...........Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos,
E que justiça a resguarda?..........
Bastarda
É grátis
distribuída?............
Vendida
Quem tem, que a todos
assusta?........Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa,
o que EL-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.
Que vai pela
clerezia?...
Simonia
E pelo membros da
Igreja?.......Inveja
Cuidei, que mais se lhe
punha?.....Unha.
Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.
E nos Frades há
manqueiras?......Freiras
Em que ocupam os
serões?......Sermões
Não se ocupam em
disputas?.......Putas.
Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.
O açúcar já se
acabou?.......Baixou
E o dinheiro se
extinguiu?.......Subiu
Logo já
convalesceu?......
Morreu.
À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.
A Câmara não
acode?............
Não pode
Pois não tem todo o
poder?...........
Não quer
É que o governo
convence?...........Não vence.
Quem haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.
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