Crônica
do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
AO PADRE MANUEL ALVARES CAPELLÃO DA MARAPÉ REMOQUEANDO
AO POETA HUMA PEDRADA QUE LHE DERAM DE NOYTE ESTANDO SE PROVENDO:
E PERGUNTANDOLHE PORQUE SE NÃO SATYRIZAVA DELLA! ESCANDALIZADO,
E PICADO, PORQUE O POETA HAVIA SATYRIZADO OS CLERIGOS, QUE VINHÃO
DE PORTUGAL.
Não me espanto, que você,
meu Padre, e meu camarada,
me desse a sua cornada
sendo rês de Marapé:
mas o que lhe lembro, é,
que se acaso a carapuça
da sátira se lhe aguça,
e na testa se ajustou,
a chuçada eu não lhe dou,
você se meta na chuça.
E se por estes respeitos
diz, que versos não farei
à pedrada, que eu levei
quando fazia os meus feitos:
agora os dará por feitos,
pois eu de boga arrancada
a uma, e outra pedrada
os faço, à que levei já,
e à que agora você dá,
que é inda maior pedrada.
Era pelo alto serão,
fazia um luar tremendo,
quando eu estava fazendo
ou câmara, ou vereação:
não sei, que notícia então
teve um Moço, um boa-peça,
pôs-se à janela com pressa
tão sem propósito algum,
que quis ter comigo um
quebradeiro de cabeça.
Cum torrão na mão se apresta,
e tirando-o com seu momo
me fez o memento homo,
pondo-me a terra na testa:
fez-me uma pequena fresta,
de que arto Sangue corria,
mas eu disse, quem seria
um Médico tão sem lei,
que primeiro me purguei,
do que levasse a sangria.
Ergui-me com pressa tanta,
que um amigo me gritou,
inda agora se purgou,
tão depressa se levanta?
Sim, Senhor, de que se espanta?
Se este Médico, este tramposo
é médico tão forçoso,
que faz levantar num dia
depois de curso, e sangria
ao doente mais mimoso.
Este caso, e desventura
foi na verdade, contado,
e sendo eu por mim curado,
o Moço me deu a cura:
com uma, e outra brabura
jurei, e prometi, que
lhe daria um pontapé:
mas o Moço acautelado
me deixou calamocado
para servir a você.
ENTRA AGORA O POETA A SATIRIZAR O DITO PADRE.
Reverendo Padre Alvar,
basta, que por vossos modos
saís a campo por todos
os Mariolas de altar?
mal podia em vos falar,
quem notícia, nem suspeita
tem dasno de tão má seita:
mas como vos veio ao justo
a sátira, estais com susto,
de que por vós fora feita.
Convosco a minha camena
não fala, se vos não poupa,
porque sois mui fraca roupa
para alvo da minha pena:
se alguém se queima, e condena,
por que vê, que os meus apodos
vão frisando por seus modos,
ninguém os tome por si,
um pelo outro isso si,
que assim frisarão com todos.
Vós com malícia veloz
aplicai-o a um coitado,
que este tal terá cuidado
de vo-lo aplicar a vós:
desta aplicação atroz
de um por outro, e outro por um,
como não livrar nenhum,
ninguém do Poeta então
se virá a queixar, senão
do poema que é comum.
Bonetes na minha mão,
como os lanço ao ar direitos,
caindo em vários sujeitos
nuns servem, e noutros não:
não consiste o seu senão,
nem menos está o seu mal
na obra, ou no oficial,
está na torpe cabeça,
que se ajusta, e endereça
pelos moldes de obra tal.
E pois, Padre, vos importa
nos meus moldes não entrar,
deveis logo endireitar
a cabeça, que anda torta:
mas sendo uma praça morta,
e um zotíssimo ignorante
vir-vos-á a Musa picante
a vós, Padre mentecapto,
de molde como sapato,
e ajustada como um guante.
Outra vez vos não metais
sentir alheios trabalhos,
que dirão, que comeis alhos
galegos, pois vos queimais:
e porque melhor saibais,
que os zotes, de que haveis dor,
são de abatido valor,
vede nos vossos sentidos,
quais serão os defendidos,
sendo vós o defensor.
AO PADRE MANUEL DOMINGUES LOUREYRO QUE REHUSANDO IR POR CAPELLÃO
PARA ANGOLLA POR ORDEM DE SUA ILUSTRISSIMA, FOY AO DEPOIS PREZO, E
MALTRATADO, PORQUE RESISTIO AS ORDENS DO MESMO PRELADO.
Para esta Angola enviado
vem por força do destino,
um marinheiro ao divino,
ou mariola sagrado:
com ser no monte gerado
o espírito lhe notei,
que com ser besta de lei,
tanto o ser vilão esconde,
que vem da vila do conde
morar na casa d'EI-Rei.
Por não querer embarcar
com ousadia sobeja
atado das mãos da Igreja
veio ao braço secular:
a empuxões, e a gritar
deu baque o Padre Loureiro:
riu-se muito o carcereiro,
mas eu muito mais me ri,
pois nunca Loureiro vi
enxertado em Limoeiro.
No argumento, com que vem
da navegação moral,
diz bem, e argumenta mal,
diz mal, e argumenta bem:
porém não cuide ninguém,
que com tanta matinada
deixou de fazer jornada,
porque a sua teima astuta
o pôs de coberta enxuta,
mas mal acondicionada.
O Mestre, ou o capitão
(diz o Padre Fr. Orelo),
que há de levar um capelo,
se não levar capelão:
vinha branco, e negro pão
diz, que no mar fez a guerra,
pois logo sem razão berra,
quando na passada mágoa
trouxe vinho como água,
e farinha como terra.
Com gritos a casa atroa,
e quando o caso distinga,
quer vomitar na moxinga,
antes que cagar na proa:
querer levá-lo a Lisboa
com brandura, e com carinho,
mas o Padre é bebedinho,
e ancorado a porfiar
diz, que não quer navegar
salvo por um mar de vinho.
Aquentou muito a História
sobre outras ações velhacas
ter-lhe aborcado as patacas .-
o magano do Chicória:
mas sendo a graça notória,
diz o Padre na estacada,
que ficarão a pancada,
quando um, e outro desfeche
se o Loureiro de escabeche,
o Chicória de selada.
AO VIGARIO DA MADRE DE DEOS MANUEL RODRIGUES SE QUEYXA O POETA
DE TREZ CLERIGOS QUE LHE FORAM A CASA PELA FESTA DO NATAL, ONDE TAMBEM
ELLE ESTAVA E COM GALANTARIA O PERSUADE, A QUE SACUDA OS HOSPEDES
FORA DE CASA PELO GASTO, QUE FAZIAM.
Padre, a casa está abrasada,
porque é mais danosa empresa
pôr três bocas numa mesa,
que trezentas numa espada:
esta trindade sagrada,
com que toda a case abafa
a tomara ver já safa,
porque à casa não convém
trindade, que em si contém
três Pessoas, e uma estafa.
Vós não podeis sem dar pena
pôr à mesa três Pessoas,
nem sustentar três coroas
em cabeça tão pequena:
se a fortuna vos condena,
que vejais a casa rasa
com gente, que tudo abrasa,
não sofro, que desta vez
vos venham coroas três
fazer princípio de casa.
Se estamos na Epifania,
e os três coroas são Magos,
hão de fazer mil estragos
no caju, na valancia:
mágica é feitiçaria,
e a terra é tão pouco esperta,
e a gentinha tão incerta,
que os três a vosso pesar
não vos hão de oferta dar,
e hão de mamar-vos a oferta.
O incenso, o ouro, a mirra
que eles vos hão de deixar,
é, que vos hão de mirrar,
se vos não defende um irra:
o Crasto por pouco espirra,
porque é dado a valentão,
e se lhe formos à mão
no comer, e no engolir,
aqui nos há de frigir
como postas de cação.
AOS MESMOS PADRES HOSPEDES ENTRE OS QUAIS VINHA O Pe PERICO, QUE
ERA PEQUENINO.
Vierarn Sacerdotes dous e meio
Para a casa do grande sacerdote,
Dous e meio couberam em um bote,
Notável carga foi para o granjeiro.
O barco, e o Arrais, que ia no meio,
Tanto que em terra pôs um, e outro zote,
Se foi buscar a vida a todo o trote,
Deixando a carga, o susto, e o recreio.
Assustei-me em ver tanta clerezia,
Que como o trago enfermo de remela,
Cuidei, vinham rezar-me a agonia.
Porém ao pôr da mesa, e postos nela,
Entendi, que vieram da Bahia
Não mais que por papar a cabidela.
AO MESMO VIGARIO GALANTEA O POETA FAZENDO CHISTES DE HUM MIMO,
QUE LHE MANDÁRA BRITES HUMA GRACIOSA COMADRE SUA, ENTRE O QUAL
VINHA PARA O POETA HUM CAJÚ.
Ao Padre Vigário a flor,
ao pobre Doutor o fruito,
há nisto, que dizer, muito,
e dirá muito o Doutor:
tenho por grande favor,
que a título de compadre
deis, Brites, a flor ao Padre:
mas dando-me o fruito a mim,
o que se me deu assim,
é força, que mais me quadre.
Quadra-me, que o fruito influa,
que uma flor, que eu não queria,
Se dê, a quem principia
e o fruito, a quem continua:
se o fruito faz, que se argua,
que eu sou o dono da planta,
a flor seja tanto, ou quanta,
sempre o dono a quer perdida,
porque pelo chão caída
faz, que o fruito se adianta.
Quem é do fruito Senhor
sabe as Leis d'agricultura,
que todo o fruito assegura,
e despreza toda a flor:
e inda que chamam favor
dar a sua flor a Dama
àquele, por quem se inflama
eu entendo de outro modo,
e ao fruito mais me acomodo,
que honra, e proveito se chama.
Porque na testa vos entre
o mistério, que isto encerra,
quem me dá o fruito da terra,
me pode dar do seu ventre:
e porque se reconcentre
este vaticínio imundo
no vosso peito fecundo,
digo qual bem augureiro,
que quem me deu o primeiro,
me pode dar o segundo.
O Padre andou muito tolo
em vos estimar a flor,
porque era folha o favor,
e o meu todo era miolo:
com meu favor me consolo
de sorte, e tão por inteiro,
que afirmou por derradeiro,
que um favor, e outro suposto,
eu levo de vós o gosto,
e o Padre vigário o cheiro.
Eu do Vigário zombei,
porque vejo, que levou
uma flor, que se murchou,
e eu o fruito vos papei:
este exemplo lhe gravei,
y este desengaño doy
dela dicha, em que me estoy
cantando a su flor ansi,
que ayer maravilla fui,
y oy sombra mia aun no soy.
AO CELEBRE FR. JOANNICO COMPREHENDIDO EM LISBOA EM CRIMES DE SODOMITA.
Furão das tripas, sanguessuga humana,
cuja condição grave, meiga, e pia,
sendo cristel dos Santos algum dia,
hoje urinol dos presos vive ufana.
Fero algoz já descortês profana
Sua imagem do nicho da enxovia,
Que esse amargoso traje em profecia
Com a lombriga racional se dana.
Ah, Joanico fatal, em que horoscopos,
Ou porque à costa, ou porque à vante deste,
Da camandola Irmão quebraste os copos.
Enfim Papagaio humano te perdeste,
Ou porque enfim darias nos cachopos,
Ou porque em culis mundi te meteste.
A FR. PASCOAL QUE SENDO ABBADE DE N. S. DAS BROTAS HOSPEDOU ALI COM
GRANDEZA A D. ANGELA, E SEUS PAYS, QUE FORAM DE ROMARIA À AQUELLE
SANTUARIO.
Prelado de tan alta perfecion,
Que supo em un aplauso, en un festin
Congregar en su casa um serafin
Cercado de tan alta relacion:
Ya mas tenga en su cargo dissension,
Ni en sus Fraylecitos vea motin:
Ninguno Hijuelo suyo sea ruin,
Y los crie en su santa bendicion.
Llena estè la cosina de sarten,
Y siempre el refectorio abunde en pan,
Que bien merece Frayle tan de bien.
A quien el sacro bago se le dan
Regir la casa santa de Belen,
Y que ya sela quite al soliman.
A FR. THOMAZ D'APRESENTAÇÃO PREGANDO EM TERMOS LACÔNICOS
A PRIMEYRA DOMINGA DA QUARESMA.
Padre Tomás, se Vossa Reverência
Nos pregar as Paixões desta arte mesma,
Viremos a emender, que na Quaresma
Não há mais pregador do que vossência.
Pregar com tão lacônica eloqüência
Em um só quarto, o que escrevo em resma,
À fé, que o não fazia Frei Ledesma,
Que pregava uma resma de abstinência.
Quando pregar o vi, vi um São Francisco,
Senão mais eficaz, menos chagado,
E de o ter por um Anjo estive em risco.
Mas como no pregar é tão azado,
Achei, que no evangélico obelisco
É Cristo no burel ressuscitado.
HUM AMIGO DESTE RELIGIOSO PEDIO AO POETA SUAS APROVAÇÕES
SOBRE A MESMA PREDICA, A PEDITORIO DO MESMO PREGADOR NESTE.
MOTE
Louvar vossas orações
é próprio do Pregador,
e a mim me dá mais temor
o Pregador, que os sermões.
Só o vosso entendimento
vos pode Tomás louvar,
e eu se pudera imitar
qualquer vosso pensamento:
para mostrar seu talento
fez um círculo em borrões
Apeles com dous carvões;
quem vira uma risca vossa?
Riscai vós, para que eu possa
Louvar vossas orações.
A causa é melhor, que o efeito
na boa filosofia,
e assim é vossa energia
menor, que o vosso sujeito:
logo se no humano peito
não há alcançar o primor
nas obras de tal autor,
mal a causa alcançarão,
pois o pregar do sermão
É próprio do Pregador.
Se louvo vossa alta idéia,
sou culpado em me atrever,
e sou culpado em meter,
a fouce em seara alheia:
nesta empresa, em que receia
entrar o engenho major,
entra o néscio sem pavor,
porque a louca valentia
dá ao néscio a ousadia,
E a mim me dá mais temor.
Ou cobarde, ou atrevido,
ou ousado, ou não ousado
hei de dizer empenhado,
o que calava entendido:
um amigo a vós rendido
pede a vossas orações
as minhas aprovações,
e eu calando lhe obedeço,
porque fique em maior preço
O Pregador, que os sermões.
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