Crônica
do Viver Baiano Seiscentista
Gregório de Matos
A OUTRO VIGARIO DE CERTA FREGUEZIA, CONTRA QUEM SE
AMOTINÁVAM OS FREGUEZES POR SER MUYTO AMBICIOSO.
Reverendo vigário,
Que é título de zotes ordinário,
Como sendo tão bobo,
E tendo tão larguíssimas orelhas,
Fogem vossas ovelhas
De vós, como se fôsseis voraz Lobo.
O certo é, que sois Pastor danado,
E temo, que se a golpe vem de fouce,
Vos há de cada ovelha dar um couce:
Sirva de exemplo a vosso desalinho,
O que ovelhas têm feito ao Padre Anjinho,
Que por sua tontice, e sua asnia
o tem já embolsado na euxovia;
Porém a vós, que sois fidalgo asneiro,
Temo, que hão de fazer-vos camareiro.
Quisestes tosquear o vosso gado,
E saístes do intento tosqueado;
Não vos cai em capelo,
O que o provérbio tantas vezes canta,
Que quem ousadamente se adianta.
Em vez de tosquear fica sem pêlo?
Intentastes sangrar toda a comarca,
Mas ela vos sangrou na veia d'arca
Pois ficando faminto, e sem sustento,
Heis de buscar a dente qual jumento
Erva para o jantar, e para a ceia,
E se talvez o campo a escasseia,
Mirrado heis de acabar no campo lhano,
Fazendo quarentena todo o ano:
Mas então poderá vossa porfia
Declarar aos Fregueses cada dia.
Sois tão grande velhaco,
Que a pura excomunhão meteis no saco:
Já diz a freguesia,
Que tendes de Saturno a natureza,
Pois os Filhos tratais com tal crueza,
Que os comeis, e roubais, qual uma harpia;
Valha-vos; mas quem digo, que vos valha?
Valha-vos ser um zote, e um canalha:
Mixelo hoje de chispo,
Ontem um passa-aqui do Arcebispo.
Mas oh se Deus a todos nos livrara
De Marão com poder, vilão com vara!
Fábula dos rapazes, e bandarras,
conto do lar, cantiga das guitarras.
Enquanto vos não parte algum corisco,
Que talvez vos despreza como cisco,
E fugindo a vileza desse couro,
Vos vai poupando a cortadora espada,
Azagaia amolada,
A veloz seta, o rápido pelouro:
Dizei a um confessor dos aprovados,
Vossos torpes pecados,
Que se bem o fazeis, como é preciso
Fareis um dia cousa de juízo:
E uma vez confessado,
Como vos tenha Deus já perdoado,
Todos vos perdoaremos
Os escândalos mil, que de vós temos,
E comendo o suor de vosso rosto
Dareis a Deus prazer, aos homens gosto.
AO VIGARIO ANTONIO MARQUES DE PERADA ENCOMENDADO NA
IGREJA DA Va DE S. FRANCISCO AMBICIOSO, E DESCONHECIDO.
Da tua Perada mica
não te espantes, que me enoje,
porque é força, que a entoje
sendo doce de botica:
o gosto não se me aplica
a uma conserva afamada,
e em botes tão redomada,
que sempre por ter que almoces,
achas para tão maus doces
a tutia preparada.
Se tua Tia arganaz
te fez essa alcomonia,
com colher não ta faria,
com espátula ta faz:
criaste-te de rapaz
co pingue dessas redomas,
e hoje tal asco lhe tomas,
que tendo uma herança rica
hás raízes da botica,
contudo não tens, que comas.
Teu juízo é tão confuso,
que quando a qualquer cristão
lhe entra o uso de rezão,
de então lhe perdeste o uso:
sempre foste tão obtuso,
que já desde estudantete
te tinham por um doudete,
porque eras visto por alto,
na fala falso contralto,
na vista fino falsete.
Correndo os anos cresceste,
e se dizia em sussurro,
que era o teu crescer de burro,
pois cresceste, e aborreceste:
logo em tudo te meteste,
querendo ser eminente
nas artes, que estuda a gente,
mas deixou-te a tua asnia
Abel na filosofia,
na poesia inocente.
Deram-te as primeiras linhas
versos de tão baixa esfera,
que o seu menor erro era
serem feitos às Negrinhas:
com estas mesmas pretinhas,
por mais que te desbatizes,
gastaste os bens infelizes
do Marquês fino herbolário,
porque todo o Boticário
é mui rico de raízes.
Sendo um zote tão supino,
és tão confiado alvar,
que andas por i a pregar
geringonças ao divino:
pregas como um capuchino,
porque essa traça madura
um curado te assegura,
crendo Sua Senhoria,
que a botica te daria
as virtudes pare a cura.
Mas ele se acha enganado,
porque vê evidentemente,
que os botes para um doente
são, mas não pare um curado:
entraste tao esfaimado
a comer do sacrifício,
que todo o futuro ofício
cantaste sobre fiado,
pelo tirar de contado
ao dono do benefício.
Nenhuma outra cousa é
este andar dos teus alparques,
mais que ser Filho de Marques
vizinho da Santa Sé:
outro da mesma ralé
tão Marques, e tão bribante
te serve agora de Atlante,
porque para conjurer-se,
é facil de congregar-se
um com outro semelhante.
AO PADRE DAMASO DA SYLVA PARENTE DO POETA, E SEU OPPOSTO, HOMEM
DESBOCCADO, E PRESUNÇOSO COM GRANDES IMPLUSOS DE SER SER VIGARIO,
SENDO POR ALGUM TEMPO EM NOSSA SENHORA DO LORETO.
Dâmaso, aquele madraço,
que em pés, mãos, e mais miúdos
pode bem dar seis, e ás
ao major Frisão de Hamburgo:
Cuja boca é mentideiro,
onde acode todo o vulgo
a escutar sobre la tarde
las mentiras como punho:
Mentideiro freqüentado
de quantos senhores burros
perdem o nome de limpos
pela amizade de um sujo.
Cuja língua é relação
aonde acham os mais puros
para acusar um fiscal
para cortar um verdugo.
Zote muito parecido
aos vícios todos do mundo,
pois nunca os alheios corta,
sem dar no seu próprio escudo:
Santo Antônio de baeta,
que em toda a parte do mundo
os casos, que sucederam,
viu, e foi presente a tudo:
O Padre papa jantares,
hóspede tão importuno,
que para todo o banquete
traz sempre de trote o bucho:
Professo da providência,
que sem lograr bazaruco,
para passar todo um ano
nem dous vinténs faz de custo:
Que os amigos o sustentam,
e lhe dão como de juro
o jantar, quando lhes cabe
a cada qual por seu turno.
Essa vez, que tem dinheiro,
que é de sete em sete lustros:
três vinténs com um tostão,
ou dous tostões quando muito:
Com um vintém de bananas,
e de farinha dous punhos,
para passar dia, e meio
tem certo o pão, e conduto:
Lisonjeiro sem recato
adulador sem rebuço,
que por papar-lhe um jantar
de um sacristão faz um Núncio:
De um Tambor um General,
um Branco de um Mamaluco,
de uma senzala um palácio,
e um galeão de um pantufo.
Em passando a ocasião,
tendo já repleto o bucho,
desanda co'a taramela,
e a todos despe de tudo:
Outro sátiro de Esopo,
Que co mesmo bafo astuto
Esfriava o caldo quente,
E aquentava o frio punho:
O Zote, que tudo sabe
O grande Jurisconsulto
Dos Litígios fedorentos
Desta cidade monturo:
O Bártolo de improviso,
O subitâneo Licurgo,
Que anoitece um sabe-nada,
E amanhece um sabe-tudo:
O Letrado gratis dato,
e o que com saber infuso
quer ser Legista sem mestre,
canonista sem estudo:
Agraduado de douto
na academia dos burros,
que é braba universidade
para doutorar brandúzios:
desaforado sem susto,
entremetido sem riso,
e sem desar abelhudo:
Filho da puta com dita,
alcoviteiro sem lucro,
cunhado do Mestre-Escola,
parente que preza muito.
Fraquíssimo pelas mãos,
e valentão pelo vulto,
no corpo um grande de Espanha,
no sangue escória do mundo.
Este tal, de quem falamos,
como tem grandes impulsos
de ser batiza-crianças,
para ser soca-defuntos:
A Majestade d'El-Rei
tem já com mil esconjuros
ordenado, que o não colem
nem numa igreja de juncos.
Ele por matar desejos
foi-se ao adro devoluto
da Senhora do Loreto,
onde está Pároco intruso:
Ouvir é um grande prazer,
e vê-lo é um gosto sumo,
quando diz "os meus fregueses"
sem temor de um abrenuntio.
Item é um grande prazer
nas manhãs, em que madrugo
vê-lo repicar o sino,
para congregar o vulgo.
E como ninguém acode,
se fica o triste mazulo
em solitária estação
dizendo missa aos defuntos:
Quando o Frisão considero,
o menos que dele cuido,
é ser Pároco boneco
feito de trapos imundos.
RETRATO DO MESMO CLERIGO.
Pois me enfada o teu feitio,
quero, Frisão, neste dia
retratar-te em quatro versos
as maravi, maravi, maravilhas.
Ouçam, olhem, venham, venham, verão
o Frisão, da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
A cara é um fardo de arroz,
que por larga, e por comprida
é ração de um Elefante
vindo da Índia.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas
A boca desempenada
é a ponte de Coimbra,
onde não entram, nem saem,
mais que mentiras.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
Não é a língua de vaca
por maldizente, e maldita,
mas pelo muito, que corta
de Tiriricas.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
No corpanzil torreão
a natureza prevista
formou a fresta da boca
para guarita.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
Quisera as mãos comparar-lhe
às do Gigante Golias,
se as do Gigante não foram
tão pequeninas.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas
Os ossos de cada pé
encher podem de relíquias
para toda a cristandade
as sacristias.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
É grande conimbricense,
sem jamais pôr pé em Coimbra,
e sendo ignorante sabe
mais que galinha.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
Como na lei de Mafoma
não se argumenta, e se briga
ele, que não argumenta,
tudo porfia.
Ouçam, olhem,
venham, venham, verão
o Frisão da Bahia,
que está retratado
às maravi, maravi, maravilhas.
AO MESMO CLERIGO APPELLIDANDO DE ASNO AO POETA
adre Frisão, se vossa Reverência
Tem licença do seu vocabulário
Para me pôr um nome incerto, e vário,
Pode fazê-lo em sua consciência:
Mas se não tem licença, em penitência
De ser tão atrevido, e temerário
Lhe quero dar com todo o Calendário,
Mais que a testa lhe rompa, e a paciência.
Magano, infame, vil alcoviteiro,
Das dodas corretor por dous tostões,
E enfim dos arreitaços alveitar:
Tudo isto é notório ao mundo inteiro,
Se não seres tu obra dos culhões
De Duarte Garcia de Bivar.
AO MESMO COM PRESUNÇÕES DE SABIO, E INGENHOSO.
Este Padre Frisão, este sandeu
Tudo o demo lhe deu, e lhe outorgou,
Não sabe musa musae, que estudou,
Mas sabe as ciências, que nunca aprendeu.
Entre catervas de asnos se meteu,
E entre corjas de bestas se aclamou,
Naquela Salamanca o doutorou,
E nesta salacega floresceu.
Que é um grande alquimista, isso não nego,
Que alquimistas do esterco tiram ouro,
Se cremos seus apógrafos conselhos.
E o Frisão as Irmãs pondo ao pespego,
Era força tirar grande tesouro,
Pois soube em ouro converter pentelhos.
A OUTRO CLERIGO AMIGO DO FRIZÃO, QUE SE DEZIA ESTAR AMANCEBADO
DE PORTAS ADENTRO COM DUAS MULHERES COM HUMA NEGRA, E OUTRA MULATA.
A vós, Padre Baltasar,
vão os meus versos direitos,
porque são vossos defeitos
mais que as areias do mar:
e bem que estais num lugar
tão remoto, e tão profundo
com concubinato imundo,
como sois Padre Miranda,
o vosso pobre tresanda
pelas conteiras do mundo.
Cá temos averiguado,
que os vossos concubinatos
são como um par de sapatos
um negro, outro apolvilhado:
de uma, e outra cor calçado
saís pela porta fora,
hora negra, e parda hora,
que um zote camaleão
toda a cor toma, senão
que a da vergonha o não cora.
Vossa luxúria indiscreta
é tão pesada, e violenta,
que em dous putões se sustenta
uma Mulata, e uma Preta:
cuma puta se aquieta
o membro mais desonesto,
porém o vosso indigesto,
há mister na ocasião
a negra para trovão,
e a parda para cabresto.
Sem uma, e outra cadela
não se embarca o Polifemo,
porque a negra o leva a remo,
e a mulata o leva a vela:
ele vai por sentinela,
porque elas não dêem a bomba;
porém como qualquer zomba
do Padre, que maravilha,
que elas disponham da quilha,
e ele ao feder faça tromba.
Elas sem mágoa, nem dor
lhe põem os cornos em pinha,
porque a puta, e a galinha,
têm o ofício de pôr:
ovos a franga pior,
cornos a puta mais casta,
e quando a negra se agasta,
e co Padre se disputa,
lhe diz, que antes quer ser puta,
que fazer com ele casta.
A negrinha se pespega
cum amigão de corona,
que sempre o Frisão se entona,
que ao maior amigo apega:
a mulatinha se esfrega
cum mestiço requeimado
destes do pernil tostado,
que a cunha do mesmo pau
em obras de bacalhau
fecha como cadeado.
Com toda esta cornualha
diz ele cego do amor,
que as negras tudo é primor,
e as brancas tudo canalha:
isto faz a erva, e palha,
de que o burro se sustenta,
que um destes não se contenta
salvo se lhe dão por capa
para a rua numa gualdrapa,
para a cama uma jumenta.
Há bulhas mnito renhidas
em havendo algum ciúme,
porque ele sempre presume
de as ver sempre presumidas:
mas elas de mui queridas
vendo, que o Padre de borra
em fogo de amor se torra,
andam por negar-lhe a graça
elas com ele de massa,
se ele com elas à porra.
Veio uma noite de fora,
e achando em seu vitupério
a mulata em adultério
tocou alarma por fora:
e por que pegou com mora
no raio do chumbo ardente,
foi-se o cão seguramente:
que como estava o coitado
tão leve, e descarregado
se pôde ir livremente.
Porque é grande demandão
o senhor zote Miranda,
que tudo, o que vê demanda,
seja de quem for o chão:
por isso o Padre cabrão
de contino está a jurar
que os cães lhe hão de pagar,
e que as fodas, que tem dado,
lhas hão de dar de contado,
e ele as há de recadar.
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