CRISÁLIDAS
Machado de Assis
MONTE ALVERNE9
AO PADRE MESTRE A. J. DA SILVEIRA SARMENTO
(1858)
Morreu! - Assim
baqueia a estátua erguida
No alto do pedestal;
Assim o cedro das florestas virgens
Cai pelo embate do corcel dos ventos
Na hora do temporal.
Morreu ! - Fechou-se
o pórtico sublime
De um paço secular;
Da mocidade a romaria augusta
Amanhã ante as pálidas ruínas
Há de vir meditar!
Tinha na fronte
de profeta ungido
A inspiração do céu.
Pela escada do púlpito moderno
Subiu outrora festival mancebo
E Bossuet desceu!
Ah! que perdeste
num só homem, claustro!
Era uma augusta voz;
Quando essa boca divinal se abria,
Mais viva a crença dissipava na alma
Uma dúvida atroz!
Era tempo? -
a argila se alquebrava
Num áspero crisol;
Corrido o véu pelos cansados olhos
Nem via o sol que lhe contava os dias,
Ele - fecundo sol!
A doença
o prendia ao leito infausto
Da derradeira dor;
A terra reclamava o que era terra,
E o gelo dos invernos coroava
A fronte do orador.
Mas lá
dentro o espírito fervente
Era como um fanal;
Não, não dormia nesse régio crânio
A alma gentil do Cícero dos púlpitos,
- Cuidadosa Vestal!
Era tempo! -
O romeiro do deserto
Pára um dia também;
E ante a cidade que almejou por anos
Desdobra um riso nos doridos lábios,
Descansa e passa além!
Caíste!
- Mas foi só a argila, o vaso,
Que o tempo derrubou;
Não todo à essa foi teu vulto olímpico;
Como deixa o cometa uma áurea cauda,
A lembrança ficou!
O que hoje resta
era a terrena púrpura
Daquele gênio-rei;
A alma voou ao seio do infinito,
Voltou à pátria das divinas glórias
O apóstolo da lei.
Pátria,
curva os joelhos ante esses restos
Do orador imortal!
Por esses lábios não falava um homem,
Era uma geração, um século inteiro,
Grande, monumental!
Morreu! - Assim
baqueia a estátua erguida
No alto do pedestal;
Assim o cedro das florestas virgens
Cai pelo embate do corcel dos ventos
Na hora do temporal!
AS VENTOINHAS. (1863)
Com seus olhos vaganaus,
Bons de dar, bons de tolher.
SÁ DE MIRANDA
A mulher é
um catavento,
Vai ao vento,
Vai ao vento que soprar;
Como vai também ao vento
Turbulento,
Turbulento e incerto o mar.
Sopra o sul:
a ventoinha
Volta azinha,
Volta azinha para o sul;
Vem taful; a cabecinha
Volta azinha,
Volta azinha ao meu taful.
Quem lhe puser
confiança,
De esperança,
De esperança mal está;
Nem desta sorte a esperança
Confiança,
Confiança nos dará.
Valera o mesmo
na areia
Rija ameia,
Rija ameia construir;
Chega o mar a vai a ameia
Com a areia,
Com a areia confundir.*
Ouço
dizer de umas fadas
Que abraçadas,
Que abraçadas como irmãs
Caçam almas descuidadas...
Ah que fadas!
Ah que fadas tão vilãs!
Pois, como essas
das baladas,
Umas fadas,
Umas fadas dentre nós,
Caçam, como nas baladas;
E são fadas,
E são fadas de alma e voz.
É que
- como o catavento,
Vão ao vento,
Vão ao vento que lhes der;
Cedem três coisas ao vento:
Catavento,
Catavento, água e mulher.
ALPUJARRA10 (Mickiewicz- 1862)
Jaz em ruínas o torrão dos mouros;
Pesados ferros o infeliz arrasta;
Inda resiste a intrépida Granada;
Mas em Granada a peste assola os povos.
C'um punhado
de heróis sustenta a luta
Fero Almansor nas torres de Alpujarra;
Flutua perto a hispânica bandeira;
Há-de o sol d'amanhã guiar o assalto.
Deu sinal, ao
romper do dia, o bronze;
Arrasam-se trincheiras e muralhas;
No alto dos minaretes erguem-se as cruzes;
Do castelhano a cidadela é presa.
Só, e
vendo as coortes destroçadas,
O valente Almansor após a luta
Abre caminho entre as imigas lanças,
Foge e ilude os cristãos que o perseguiam.
Sobre as quentes
ruínas do castelo,
Entre corpos e restos da batalha,
Dá um banquete o Castelhano, e as presas
E os despojos pelos seus reparte.
Eis que o guarda
da porta fala aos chefes:
"Um cavaleiro, diz, de terra estranha
Quer falar-vos; - notícias importantes
Declara que vos traz, e urgência pede."
Era Almansor,
o emir dos Cauçulmanos,
Que, fugindo ao refúgio que buscara,
Vem entregar-se às mãos do castelhano,
A quem só pede conservar a vida.
"Castelhanos,
exclama, o emir vencido
No limiar do vencedor se prostra;
Vem professar a vossa fé e culto
E crer no verbo dos profetas vossos.
Espalhe a fama
pela terra toda
Que um árabe, que um chefe de valentes,
Irmão dos vencedores quis tornar-se,
E vassalo ficar de estranho cetro!"
Cala no ânimo
nobre ao Castelhano
Um ato nobre... O chefe comovido,
Corre a abraçá-lo, e à sua vez os outros
Fazem o mesmo ao novo companheiro.
Às saudações
responde o emir valente
Com saudações. Em cordial abraço
Aperta ao seio o comovido chefe,
Toma-lhe as* mãos e pende-lhe dos lábios.
Súbito
cai, sem forças, nos joelhos;
Arranca do turbante, e com a mão trêmula
O enrola aos pés do chefe admirado,
E junto dele arrasta-se por terra.
Os olhos volve
em torno e assombra a todos:
Tinha azuladas, lívidas as faces,
Torcidos lábios por feroz sorriso,
Injetados de sangue ávidos olhos.
"Desfigurado
e pálido me vedes,
Ó infiéis! Sabeis o que vos trago?
Enganei-vos: eu volto de Granada,
E a peste fulminante aqui vos trouxe."
Ria-se ainda
- morto já - e ainda
Abertos tinha as pálpebras e os lábios:
Um sorriso infernal de escárnio impresso
Deixara a morte nas feições do morto.
Da medonha cidade
os castelhanos
Fogem. A peste os segue. Antes que a custo
Deixado houvessem de Alpujarra a serra,
Sucumbiram os últimos soldados.