O CORTIÇO
Aluisio Azevedo
CAPÍTULO II
E durante dois anos o cortiço prosperou de dia para dia, ganhando
forças, socando-se de gente. E ao lado o Miranda assustava-se,
inquieto com aquela exuberância brutal de vida, aterrado defronte
daquela floresta implacável que lhe crescia junto da casa, por
debaixo das janelas, e cujas raízes, piores e mais grossas do que
serpentes, minavam por toda a parte, ameaçando rebentar o chão
em torno dela, rachando o solo e abalando tudo.
Posto que lá na Rua do Hospício os seus negócios
não corressem mal, custava-lhe a sofrer a escandalosa fortuna do
vendeiro "aquele tipo! um miserável, um sujo, que não
pusera nunca um paletó, e que vivia de cama e mesa com uma negra!"
À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando
ele, recolhendo-se fatigado do serviço, deixava-se ficar estendido
numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia,
a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação
forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem
receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava com o
seu fartum de bestas no coito.
E depois, fechado no quarto de dormir, indiferente e habituado às
torpezas carnais da mulher, isento já dos primitivos sobressaltos
que lhe faziam, a ele, ferver o sangue e perder a tramontana, era ainda
a prosperidade do vizinho o que lhe obsedava o espírito, enegrecendo-lhe
a alma com um feio ressentimento de despeito.
Tinha inveja do outro, daquele outro português que fizera fortuna,
sem precisar roer nenhum chifre; daquele outro que, para ser mais rico
três vezes do que ele, não teve de casar com a filha do patrão
ou com a bastarda de algum fazendeiro freguês da casa!
Mas então, ele Miranda, que se supunha a última expressão
da ladinagem e da esperteza; ele, que, logo depois do seu casamento, respondendo
para Portugal a um ex-colega que o felicitava, dissera que o Brasil era
uma cavalgadura carregada de dinheiro, cujas rédeas um homem fino
empolgava facilmente; ele, que se tinha na conta de invencível
matreiro, não passava afinal de um pedaço de asno comparado
com o seu vizinho! Pensara fazer-se senhor do Brasil e fizera-se escravo
de uma brasileira mal-educada e sem escrúpulos de virtude! Imaginara-se
talhado para grandes conquistas, e não passava de uma vitima ridícula
e sofredora!... Sim! no fim de contas qual fora a sua África?...
Enriquecera um pouco, é verdade, mas como? a que preço?
hipotecando-se a um diabo, que lhe trouxera oitenta contos de réis,
mas incalculáveis milhões de desgostos e vergonhas! Arranjara
a vida, sim, mas teve de aturar eternamente uma mulher que ele odiava!
E do que afinal lhe aproveitar tudo isso? Qual era afinal a sua grande
existência? Do inferno da casa para o purgatório do trabalho
e vice-versa! Invejável sorte, não havia dúvida!
Na dolorosa incerteza de que Zulmira fosse sua filha, o desgraçado
nem sequer gozava o prazer de ser pai. Se ela, em vez de nascer de Estela,
fora uma enjeitadinha recolhida por ele, é natural que a amasse
e então a vida lhe correria de outro modo; mas, naquelas condições,
a pobre criança nada mais representava que o documento vivo do
ludíbrio materno, e o Miranda estendia até à inocentezinha
o ódio que sustentava contra a esposa.
Uma espiga a tal da sua vida!
- Fui uma besta! resumiu ele, em voz alta, apeando-se da cama, onde se
havia recolhido inutilmente.
E pôs-se a passear no quarto, sem vontade de dormir, sentindo que
a febre daquela inveja lhe estorricava os miolos.
Feliz e esperto era o João Romão! esse, sim, senhor! Para
esse é que havia de ser a vida!... Filho da mãe, que estava
hoje tão livre e desembaraçado como no dia em que chegou
da terra sem um vintém de seu! esse, sim, que era moço e
podia ainda gozar muito, porque, quando mesmo viesse a casar e a mulher
lhe saísse uma outra Estela, era só mandá-la para
o diabo com um pontapé! Podia fazê-lo! Para esse é
que era o Brasil!
- Fui uma besta! repisava ele, sem conseguir conformar-se com a felicidade
do vendeiro. Uma grandíssima! No fim de contas que diabo possuo
eu?... Uma casa de negócio, da qual não posso separar-me
sem comprometer o que lá está enterrado! um capital metido
numa rede de transações que não se liquidam nunca,
e cada vez mais se complicam e mais me grudam ao estupor desta terra,
onde deixarei a casca! Que tenho de meu, se a alma do meu crédito
é o dote, que me trouxe aquela sem-vergonha, e que a ela me prende
como a peste da casa comercial me prende a esta Costa d'África?
Foi da supuração fétida destas idéias que
se formou no coração vazio do Miranda um novo ideal - o
título. Faltando-lhe temperamento próprio para os vícios
fortes que enchem a vida de um homem; sem família a quem amar e
sem imaginação para poder gozar com as prostitutas, o náufrago
agarrou-se àquela tábua, como um agonizante, consciente
da morte, que se apega à esperança de uma vida futura. A
vaidade de Estela, que a principio lhe tirava dos lábios incrédulos
sorrisos de mofa, agora lhe comprazia à farta. Procurou capacitar-se
de que ela com efeito herdara sangue nobre, que ele, por sua vez, se não
o tinha herdado, trouxera-o por natureza própria, o que devia valer
mais ainda; e desde então principiou a sonhar com um baronato,
fazendo disso o objeto querido da sua existência, muito satisfeito
no intimo por ter afinal descoberto uma coisa em que podia empregar dinheiro,
sem ter, nunca mais, de restituí-lo à mulher, nem ter de
deixá-lo a pessoa alguma.
Semelhante preocupação modificou-o em extremo. Deu logo
para fingir-se escravo das conveniências, afetando escrúpulos
sociais, empertigando-se quanto podia e disfarçando a sua inveja
pelo vizinho com um desdenhoso ar de superioridade condescendente. Ao
passar-lhe todos os dias pela venda, cumprimentava-o com proteção,
sorrindo sem rir e fechando logo a cara em seguida, muito sério.
Dados os primeiros passos para a compra do título, abriu a casa
e deu festas. A mulher, posto que lhe apontassem já os cabelos
brancos, rejubilou com isso.
Zulmira tinha então doze para treze anos e era o tipo acabado da
fluminense; pálida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas
mucosas do nariz, das pálpebras e dos lábios, faces levemente
pintalgadas de sardas. Respirava o tom úmido das flores noturnas,
uma brancura fria de magnólia; cabelos castanho-claros, mãos
quase transparentes, unhas moles e curtas, como as da mãe, dentes
pouco mais claros do que a cútis do rosto, pés pequenos,
quadril estreito, mas os olhos grandes e negros, vivos e maliciosos.
Por essa época, justamente, chegava de Minas, recomendado ao pai
dela, o filho de um fazendeiro importantíssimo que dava belos lucros
à casa comercial de Miranda e que era talvez o melhor freguês
que este possuía no interior.
O rapaz chamava-se Henrique, tinha quinze anos e vinha terminar na Corte
alguns preparatórios que lhe faltavam para entrar na academia de
medicina. Miranda hospedou-o no seu sobrado da Rua do Hospício
mas o estudante queixou-se, no fim de alguns dias, de que ai ficava mal
acomodado, e o negociante, a quem não convinha desagradar-lhe,
carregou com ele para a sua residência particular de Botafogo.
Henrique era bonitinho, cheio de acanhamentos, com umas delicadezas de
menina. Parecia muito cuidadoso dos seus estudos e tão pouco extravagante
e gastador, que não despendia um vintém fora das necessidade
de primeira urgência. De resto, a não ser de manhã
para as aulas, que ia sempre com o Miranda, não arredava pé
de casa senão em companhia da família deste. Dona Estela,
no cabo de pouco tempo, mostrou por ele estima quase maternal e encarregou-se
de tomar conta da sua mesada, mesada posta pelo negociante, visto que
o Henriquinho tinha ordem franca do pai.
Nunca pedia dinheiro; quando precisava de qualquer coisa, reclamava-a
de Dona Estela, que por sua vez encarregava o marido de comprá-la,
sendo o objeto lançado na conta do fazendeiro com uma comissão
de usurário. Sua hospedagem custava duzentos e cinqüenta mil-réis
por mês, do que ele todavia não tinha conhecimento, nem queria
ter. Nada lhe faltava, e os criados da casa o respeitavam como a um filho
do próprio senhor.
À noite, às vezes, quando o tempo estava bom, Dona Estela
saia com ele, a filha e um moleque, o Valentim, a darem uma volta até
à praia, e, em tendo convite para qualquer festa em casa das amigas,
levava-o em sua companhia.
A criadagem da família do Miranda compunha-se de Isaura, mulata
ainda moça, moleirona e tola, que gastava todo o vintenzinho que
pilhava em comprar capilé na venda de João Romão;
uma negrinha virgem, chamada Leonor, muito ligeira e viva, lisa e seca
como um moleque, conhecendo de orelha, sem lhe faltar um termo, a vasta
tecnologia da obscenidade, e dizendo, sempre que os caixeiros ou os fregueses
da taverna, só para mexer com ela, lhe davam atracações:
"Óia, que eu me queixo ao juiz de orfe!", e finalmente
o tal Valentim, filho de uma escrava que foi de Dona Estela e a quem esta
havia alforriado.
A mulher do Miranda tinha por este moleque uma afeição sem
limites: dava-lhe toda a liberdade, dinheiro, presentes, levava-o consigo
a passeio, trazia-o bem vestido e muita vez chegou a fazer ciúmes
à filha, de tão solicita que se mostrava com ele. Pois se
a caprichosa senhora ralhava com Zulmira por causa do negrinho! Pois,
se quando se queixavam os dois, um contra o outro, ela nunca dava razão
à filha! Pois, se o que havia de melhor na casa era para o Valentim!
Pois, se quando foi este atacado de bexigas e o Miranda, apesar das súplicas
e dos protestos da esposa, mandou-o para um hospital, Dona Estela chorava
todos os dias e durante a ausência dele não tocou piano,
nem cantou, nem mostrou os dentes a ninguém? E o pobre Miranda,
se não queria sofrer impertinências da mulher e ouvir sensaborias
defronte dos criados, tinha de dar ao moleque toda a consideração
e fazer-lhe humildemente todas as vontades.
Havia ainda, sob as telhas do negociante, um outro hóspede além
do Henrique, o velho Botelho. Este, porém, na qualidade de parasita.
Era um pobre diabo caminhando para os setenta anos; antipático,
cabelo branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo teor;
muito macilento, com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho
da pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre, perfeitamente
de acordo com o seu nariz adunco e com a sua boca sem lábios; viam-se-lhe
ainda todos os dentes, mas, tão gastos, que pareciam limados até
ao meio. Andava sempre de preto, com um guarda-chuva debaixo do braço
e um chapéu de Braga enterrado nas orelhas. Fora em seu tempo empregado
do comércio, depois corretor de escravos; contava mesmo que estivera
mais de uma vez na África, negociando negros por sua conta. Atirou-se
muito às especulações; durante a guerra do Paraguai
ainda ganhara forte, chegando a ser bem rico; mas a roda desandou e, de
malogro em malogro, foi-lhe escapando tudo por entre as suas garras de
ave de rapina. E agora, coitado, já velho, comido de desilusões,
cheio de hemorróidas, via-se totalmente sem recursos e vegetava
à sombra do Mirada, com quem por muitos anos trabalhou em rapaz,
sob as ordens do mesmo patrão, e de quem se conservara amigo, a
principio por acaso e mais tarde por necessidade.
Devorava-o, noite e dia, uma implacável amargura, uma surda tristeza
de vencido, um desespero impotente, contra tudo e contra todos, por não
lhe ter sido possível empolgar o mundo com as suas mãos
hoje inúteis e trêmulas. E, como o seu atual estado de miséria
não lhe permitia abrir contra ninguém o bico, desabafava
vituperando as idéias da época.
Assim, eram às vezes muito quentes as sobremesas do Miranda, quando,
entre outros assuntos palpitantes, vinha à discussão o movimento
abolicionista que principiava a formar-se em torno da lei Rio Branco.
Então o Botelho ficava possesso e vomitava frases terríveis,
para a direita e para a esquerda, como quem dispara tiros sem fazer alvo,
e vociferava imprecações, aproveitando aquela válvula
para desafogar o velho ódio acumulado dentro dele.
- Bandidos! berrava apoplético. Cáfila de salteadores!
E o seu rancor irradiava-lhe dos olhos em setas envenenadas, procurando
cravar-se em todas as brancuras e em todas as claridades. A virtude, a
beleza, o talento, a mocidade, a força, a saúde, e principalmente
a fortuna, eis o que ele não perdoava a ninguém, amaldiçoando
todo aquele que conseguia o que ele não obtivera; que gozava o
que ele não desfrutara; que sabia o que ele não aprendera.
E, para individualizar o objeto do seu ódio, voltava-se contra
o Brasil, essa terra que, na sua opinião, só tinha uma serventia:
enriquecer os portugueses, e que, no entanto, o deixara, a ele, na penúria.
Seus dias eram consumidos do seguinte modo: acordava às oito da
manhã, lavava-se mesmo no quarto com uma toalha molhada em espírito
de vinho; depois ia ler os jornais para a sala de jantar, à espera
do almoço; almoçava e saía, tomava o bonde e ia direitinho
para uma charutaria da Rua do Ouvidor, onde costumava ficar assentado
até às horas do jantar, entretido a dizer mal das pessoas
que passavam lá fora, defronte dele. Tinha a pretensão de
conhecer todo o Rio de Janeiro e os podres de cada um em particular. Às
vezes, poucas, Dona Estela encarregava-o de fazer pequenas compras de
armarinho, o que o Botelho desempenhava melhor que ninguém. Mas
a sua grande paixão, o seu fraco, era a farda, adorava tudo que
dissesse respeito a militarismo, posto que tivera sempre invencível
medo às armas de qualquer espécie, mormente às de
fogo. Não podia ouvir disparar perto de si uma espingarda, entusiasmava-se,
porém, com tudo que cheirasse a guerra; a presença de um
oficial em grande uniforme tirava-lhe lágrimas de comoção;
conhecia na ponta da língua o que se referia à vida de quartel;
distinguia ao primeiro lance de olhos o posto e o corpo a que pertencia
qualquer soldado e, apesar dos seus achaques, era ouvir tocar na rua a
corneta ou o tambor conduzindo o batalhão, ficava logo no ar, e,
muita vez, quando dava por si, fazia parte dos que acompanhavam a tropa.
Então, não tornava para casa enquanto os militares não
se recolhessem. Quase sempre voltava dessa loucura às seis da tarde,
moído a fazer dó, sem poder ter-se nas pernas, estrompado
de marchar horas e horas ao som da música de pancadaria. E o mais
interessante é que ele, ao vir-lhe a reação, revoltava-se
furioso contra o maldito comandante que o obrigava àquela estopada,
levando o batalhão por uma infinidade de ruas e fazendo de propósito
o caminho mais longo.
- Só parece, lamentava-se ele, que a intenção daquele
malvado era dar-me cabo da pele! Ora vejam! Três horas de marche-marche
por uma soalheira de todos os diabos!
Uma das birras mais cômicas do Botelho era o seu ódio pelo
Valentim. O moleque causava-lhe febre com as suas petulâncias de
mimalho, e, velhaco, percebendo quanto elas o irritavam, ainda mais abusava,
seguro na proteção de Dona Estela. O parasita de muito que
o teria estrangulado, se não fora a necessidade de agradar à
dona da casa.
Botelho conhecia as faltas de Estela como as palmas da própria
mão. O Miranda mesmo, que o via em conta de amigo fiel, muitas
e muitas vezes lhas confiara em ocasiões desesperadas de desabafo,
declarando francamente o quanto no intimo a desprezava e a razão
por que não a punha na rua aos pontapés. E o Botelho dava-lhe
toda a razão; entendia também que os sérios interesses
comerciais estavam acima de tudo.
- Uma mulher naquelas condições, dizia ele convicto, representa
nada menos que o capital, e um capital em caso nenhum a gente despreza!
Agora, você o que devia era nunca chegar-se para ela...
- Ora! explicava o marido. Eu me sirvo dela como quem se serve de uma
escarradeira!
O parasita, feliz por ver quanto o amigo aviltava a mulher, concordava
em tudo plenamente, dando-lhe um carinhoso abraço de admiração.
Mas por outro lado, quando ouvia Estela falar do marido, com infinito
desdém e até com asco, ainda mais resplandecia de contente.
- Você quer saber? afirmava ela, eu bem percebo quanto aquele traste
do senhor meu marido me detesta, mas isso tanto se me dá como a
primeira camisa que vesti! Desgraçadamente para nós, mulheres
de sociedade, não podemos viver sem esposo, quando somos casadas;
de forma que tenho de aturar o que me caiu em sorte, quer goste dele quer
não goste! Juro-lhe, porém, que, se consinto que o Miranda
se chegue às vezes para mim, é porque entendo que paga mais
à pena ceder do que puxar discussão com uma besta daquela
ordem!
O Botelho, com a sua encanecida experiência do mundo, nunca transmitia
a nenhum dos dois o que cada qual lhe dizia contra o outro; tanto assim
que, certa ocasião, recolhendo-se à casa incomodado, em
hora que não era do seu costume, ouviu, ao passar pelo quintal,
sussurros de vozes abafadas que pareciam vir de um canto afogado de verdura,
onde em geral não ia ninguém.
Encaminhou-se para lá em bicos de pés e, sem ser percebido,
descobriu Estela entalada entre o muro e o Henrique. Deixou-se ficar espiando,
sem tugir nem mugir, e, só quando os dois se separaram, foi que
ele se mostrou.
A senhora soltou um pequeno grito, e o rapaz, de vermelho que estava,
fez-se cor de cera; mas o Botelho procurou tranqüilizá-los,
dizendo em voz amiga e misteriosa:
- Isso é uma imprudência o que vocês estão fazendo!...
Estas coisas não é deste modo que se arranjam! Assim como
fui eu, podia ser outra pessoa... Pois numa casa em que há tantos
quartos, é lá preciso vir meterem-se neste canto do quintal?...
- Nós não estávamos fazendo nada! disse Estela, recuperando
o sangue-frio.
- Ah! tornou o velho, aparentando sumo respeito: então desculpe,
pensei que estivessem... E olhe que, se assim fosse, para mim seria o
mesmo, porque acho isso a coisa mais natural do mundo e entendo que desta
vida a gente só leva o que come!... Se vi, creia, foi como se nada
visse, porque nada tenho a cheirar com a vida de cada um!... A senhora
está moça, está na força dos anos; seu marido
não a satisfaz, é justo que o substitua por outro! Ah! isto
é, o mundo, e, se é torto, não fomos nós que
o fizemos torto!... Até certa idade todos temos dentro um bichinho
carpinteiro, que é preciso matar, antes que ele nos mate! Não
lhes doam as mãos!... apenas acho que, para outra vez, devem ter
um pouquinho mais de cuidado e...
- Está bom! basta! ordenou Estela.
- Perdão! eu, se digo isto, é para deixá-los bem
tranqüilos a meu respeito. Não quero, nem por sombra, que
se persuadam de que...
O Henrique atalhou, com a voz ainda comovida:
- Mas, acredite, seu Botelho, que...
O velho interrompeu-o também por sua vez, passando-lhe a mão
no ombro e afastando-o consigo:
- Não tenha receio, que não o comprometerei, menino!
E, como já estivessem distantes de Estela, segredou-lhe em tom
protetor: Não torne a fazer isto assim, que você se estraga...
Olhe como lhe tremem as pernas!
Dona Estela acompanhou-os a distancia, vagarosamente, afetando preocupação
em compor um ramalhete, cujas flores ela ia colhendo com muita graça,
ora toda vergada sobre as plantas rasteiras, ora pondo-se na pontinha
dos pés para alcançar os heliotrópios e os manacás.
Henrique seguiu o Botelho até ao quarto deste, conversando sem
mudar de assunto.
- Você então não fala nisto, hein? Jura? perguntou-lhe.
O velho tinha já declarado, a rir, que os pilhara em flagrante
e que ficara bom tempo à espreita.
- Falar o quê, seu tolo?... Pois então quem pensa você
que eu sou?... Só abrirei o bico se você me der motivo para
isso, mas estou convencido que não dará... Quer saber? eu
até simpatizo muito com você, Henrique! Acho que você
é um excelente menino, uma flor! E digo-lhe mais: hei de proteger
os seus negócios com Dona Estela...
Falando assim, tinha-lhe tomado as mãos e afagava-as.
- Olhe, continuou, acariciando-o sempre; não se meta com donzelas,
entende?... São o diabo! Por dá cá aquela palha fica
um homem em apuros! agora quanto às outras, papo com elas! Não
mande nenhuma ao vigário, nem lhe doa a cabeça, porque,
no fim de contas, nas circunstâncias de Dona Estela, é até
um grande serviço que você lhe faz! Meu rico amiguinho, quando
uma mulher já passou dos trinta e pilha a jeito um rapazito da
sua idade, é como se descobrisse ouro em pó! sabe-lhe a
gaitas! Fique então sabendo de que não é só
a ela que você faz o obséquio, mas também ao marido:
quanto mais escovar-lhe você a mulher, melhor ela ficará
de gênio, e por conseguinte melhor será para o pobre homem,
coitado! que tem já bastante com que se aborrecer lá por
baixo, com os seus negócios, e precisa de um pouco de descanso
quando volta do serviço e mete-se em casa! Escove-a, escove-a!
que a porá macia que nem veludo! O que é preciso é
muito juizinho, percebe? Não faça outra criançada
como a de hoje e continue para diante, não só com ela, mas
com todas as que lhe caírem debaixo da asa! Vá passando!
menos as de casa aberta, que isso é perigoso por causa das moléstias;
nem tampouco donzelas! Não se meta com a Zulmira! E creia que lhe
falo assim, porque sou seu amigo, porque o acho simpático, porque
o acho bonito!
E acarinhou-o tão vivamente dessa vez, que o estudante, fugindo-lhe
das mãos, afastou-se com um gesto de repugnância e desprezo,
enquanto o velho lhe dizia em voz comprimida:
- Olha! Espera! Vem cá! Você é desconfiado!...
CAPÍTULO III
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo,
não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada sete horas de
chumbo. Como que se sentiam ainda na indolência de neblina as derradeiras
notas da ultima guitarra da noite antecedente, dissolvendo-se à
luz loura e tenra da aurora, que nem um suspiro de saudade perdido em
terra alheia.
A roupa lavada, que ficara de véspera nos coradouros, umedecia
o ar e punha-lhe um farto acre de sabão ordinário. As pedras
do chão, esbranquiçadas no lugar da lavagem e em alguns
pontos azuladas pelo anil, mostravam uma palidez grisalha e triste, feita
de acumulações de espumas secas.
Entretanto, das portas surgiam cabeças congestionadas de sono;
ouviam-se amplos bocejos, fortes como o marulhar das ondas; pigarreava-se
grosso por toda a parte; começavam as xícaras a tilintar;
o cheiro quente do café aquecia, suplantando todos os outros; trocavam-se
de janela para janela as primeiras palavras, os bons-dias; reatavam-se
conversas interrompidas à noite; a pequenada cá fora traquinava
já, e lá dentro das casas vinham choros abafados de crianças
que ainda não andam. No confuso rumor que se formava, destacavam-se
risos, sons de vozes que altercavam, sem se saber onde, grasnar de marrecos,
cantar de galos, cacarejar de galinhas. De alguns quartos saíam
mulheres que vinham pendurar cá fora, na parede, a gaiola do papagaio,
e os louros, à semelhança dos donos, cumprimentavam-se ruidosamente,
espanejando-se à luz nova do dia.
Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração
tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam
a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura
de uns cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam
já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes
a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam,
suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não
se preocupavam em não molhar o pêlo, ao contrário
metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força
as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão.
As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de
cada instante, um entrar e sair sem tréguas. Não se demoravam
lá dentro e vinham ainda amarrando as calças ou as saias;
as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se
ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no
recanto das hortas.
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias acentuava-se;
já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído
compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer compras
na venda; ensarilhavam-se discussões e resingas; ouviam-se gargalhadas
e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se naquela
fermentação sangüínea, naquela gula viçosa
de plantas rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta
e nutriente da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação
de respirar sobre a terra.
Da porta da venda que dava para o cortiço iam e vinham como formigas,
fazendo compras.
Duas janelas do Miranda abriram-se. Apareceu numa a Isaura, que se dispunha
a começar a limpeza da casa.
- Nhá Dunga! gritou ela para baixo, a sacudir um pano de mesa;
se você tem cuscuz de milho hoje, bata na porta, ouviu?
A Leonor surgiu logo também, enfiando curiosa a carapinha por entre
o pescoço e o ombro da mulata.
O padeiro entrou na estalagem, com a sua grande cesta à cabeça
e o seu banco de pau fechado debaixo do braço, e foi estacionar
em meio do pátio, à espera dos fregueses, pousando a canastra
sobre o cavalete que ele armou prontamente. Em breve estava cercado por
uma nuvem de gente. As crianças adulavam-no, e, à proporção
que cada mulher ou cada homem recebia o pão, disparava para casa
com este abraçado contra o peito. Uma vaca, seguida por um bezerro
amordaçado, ia, tilintando tristemente o seu chocalho, de porta
em porta, guiada por um homem carregado de vasilhame de folha.
O zunzum chegava ao seu apogeu. A fábrica de massas italianas,
ali mesmo da vizinhança, começou a trabalhar, engrossando
o barulho com o seu arfar monótono de máquina a vapor. As
corridas até à venda reproduziam-se, transformando-se num
verminar constante de formigueiro assanhado. Agora, no lugar das bicas
apinhavam-se latas de todos os feitios, sobressaindo as de querosene com
um braço de madeira em cima; sentia-se o trapejar da água
caindo na folha. Algumas lavadeiras enchiam já as suas tinas; outras
estendiam nos coradouros a roupa que ficara de molho. Principiava o trabalho.
Rompiam das gargantas os fados portugueses e as modinhas brasileiras.
Um carroção de lixo entrou com grande barulho de rodas na
pedra, seguido de uma algazarra medonha algaraviada pelo carroceiro contra
o burro.
E, durante muito tempo, fez-se um vaivém de mercadores. Apareceram
os tabuleiros de carne fresca e outros de tripas e fatos de boi; só
não vinham hortaliças, porque havia muitas hortas no cortiço.
Vieram os ruidosos mascates, com as suas latas de quinquilharia, com as
suas caixas de candeeiros e objetos de vidro e com o seu fornecimento
de caçarolas e chocolateiras de folha-de-flandres. Cada vendedor
tinha o seu modo especial de apregoar, destacando-se o homem das sardinhas,
com as cestas do peixe dependuradas, à moda de balança,
de um pau que ele trazia ao ombro. Nada mais foi preciso do que o seu
primeiro guincho estridente e gutural para surgirem logo, como por encanto,
uma enorme variedade de gatos, que vieram correndo acercar-se dele com
grande familiaridade, roçando-se-lhe nas pernas arregaçadas
e miando suplicantemente. O sardinheiro os afastava com o pé, enquanto
vendia o seu peixe à porta das casinhas, mas os bichanos não
desistiam e continuavam a implorar, arranhando os cestos que o homem cuidadosamente
tapava mal servia ao freguês. Para ver-se livre por um instante
dos importunos era necessário atirar para bem longe um punhado
de sardinhas, sobre o qual se precipitava logo, aos pulos, o grupo dos
pedinchões.
A primeira que se pôs a lavar foi a Leandra, por alcunha a "Machona",
portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal
do campo. Tinha duas filhas, uma casada e separada do marido, Ana das
Dores, a quem só chamavam a "das Dores" e outra donzela
ainda, a Nenen, e mais um filho, o Agostinho, menino levado dos diabos,
que gritava tanto ou melhor que a mãe. A das Dores morava em sua
casinha à parte, mas toda a família habitava no cortiço.
Ninguém ali sabia ao certo se a Machona era viúva ou desquitada;
os filhos não se pareciam uns com os outros. A das Dores, sim,
afirmavam que fora casada e que largara o marido para meter-se com um
homem do comércio; e que este, retirando-se para a terra e não
querendo soltá-la ao desamparo, deixara o sócio em seu lugar.
Teria vinte e cinco anos.
Nenen dezessete. Espigada, franzina e forte, com uma proazinha de orgulho
da sua virgindade, escapando como enguia por entre os dedos dos rapazes
que a queriam sem ser para casar. Engomava bem e sabia fazer roupa branca
de homem com muita perfeição.
Ao lado da Leandra foi colocar-se à sua tina a Augusta Carne Mole,
brasileira, branca, mulher de Alexandre, um mulato de quarenta anos, soldado
de policia, pernóstico, de grande bigode preto, queixo sempre escanhoado
e um luxo de calças brancas engomadas e botões limpos na
farda, quando estava de serviço. Também tinham filhos, mas
ainda pequenos, um dos quais, a Jujú, vivia na cidade com a madrinha
que se encarregava dela. Esta madrinha era uma cocote de trinta mil-réis
para cima, a Léonie, com sobrado na cidade. Procedência francesa.
Alexandre, em casa, à hora de descanso, nos seus chinelos e na
sua camisa desabotoada, era muito chão com os companheiros de estalagem,
conversava, ria e brincava, mas envergando o uniforme, encerando o bigode
e empunhando a sua chibata, com que tinha o costume de fustigar as calças
de brim, ninguém mais lhe via os dentes e então a todos
falava teso e por cima do ombro. A mulher, a quem ele só dava "tu"
quando não estava fardado, era de uma honestidade proverbial no
cortiço, honestidade sem mérito, porque vinha da indolência
do seu temperamento e não do arbítrio do seu caráter.
Junto dela pôs-se a trabalhar a Leocádia, mulher de um ferreiro
chamado Bruno, portuguesa pequena e socada, de carnes duras, com uma fama
terrível de leviana entre as suas vizinhas.
Seguia-se a Paula, uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam
todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas
e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias. Era extremamente
feia, grossa, triste, com olhos desvairados, dentes cortados à
navalha, formando ponta, como dentes de cão, cabelos lisos, escorridos
e ainda retintos apesar da idade. Chamavam-lhe "Bruxa".
Depois seguiam-se a Marciana e mais a sua filha Florinda. A primeira,
mulata antiga, muito seria e asseada em exagero: a sua casa estava sempre
úmida das consecutivas lavagens. Em lhe apanhando o mau humor punha-se
logo a espanar, a varrer febrilmente, e, quando a raiva era grande, corria
a buscar um balde de água e descarregava-o com fúria pelo
chão da sala. A filha tinha quinze anos, a pele de um moreno quente,
beiços sensuais, bonitos dentes, olhos luxuriosos de macaca. Toda
ela estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade e não
cedia, nem à mão de Deus Padre, aos rogos de João
Romão, que a desejava apanhar a troco de pequenas concessões
na medida e no peso das compras que Florinda fazia diariamente à
venda.
Depois via-se a velha Isabel, isto é, Dona Isabel, porque ali na
estalagem lhe dispensavam todos certa consideração, privilegiada
pelas suas maneiras graves de pessoa que já teve tratamento: uma
pobre mulher comida de desgostos. Fora casada com o dono de uma casa de
chapéus, que quebrou e suicidou-se, deixando-lhe uma filha muito
doentinha e fraca, a quem Isabel sacrificou tudo para educar, dando-lhe
mestre até de francês. Tinha uma cara macilenta de velha
portuguesa devota, que já foi gorda, bochechas moles de pelancas
rechupadas, que lhe pendiam dos cantos da boca como saquinhos vazios;
fios negros no queixo, olhos castanhos, sempre chorosos engolidos pelas
pálpebras. Puxava em bandós sobre as fontes o escasso cabelo
grisalho untado de óleo de amêndoas doces. Quando saia à
rua punha um eterno vestido de seda preta, achamalotada, cuja saia não
fazia rugas, e um xale encarnado que lhe dava a todo o corpo um feitio
piramidal. Da sua passada grandeza só lhe ficara uma caixa de rapé
de ouro, na qual a inconsolável senhora pitadeava agora, suspirando
a cada pitada.
A filha era a flor do cortiço. Chamavam-lhe Pombinha. Bonita, posto
que enfermiça e nervosa ao último ponto; loura, muito pálida,
com uns modos de menina de boa família. A mãe não
lhe permitia lavar, nem engomar, mesmo porque o médico a proibira
expressamente.
Tinha o seu noivo, o João da Costa, moço do comércio,
estimado do patrão e dos colegas, com muito futuro, e que a adorava
e conhecia desde pequenita; mas Dona Isabel não queria que o casamento
se fizesse já. É que Pombinha, orçando aliás
pelos dezoito anos, não tinha ainda pago à natureza o cruento
tributo da puberdade, apesar do zelo da velha e dos sacrifícios
que esta fazia para cumprir à risca as prescrições
do médico e não faltar à filha o menor desvelo. No
entanto, coitadas! daquele casamento dependia a felicidade de ambas, porque
o Costa, bem empregado como se achava em casa de um tio seu, de quem mais
tarde havia de ser sócio, tencionava, logo que mudasse de estado,
restituí-las ao seu primitivo circulo social. A pobre velha desesperava-se
com o fato e pedia a Deus, todas as noites, antes de dormir, que as protegesse
e conferisse à filha uma graça tão simples que ele
fazia, sem distinção de merecimento, a quantas raparigas
havia pelo mundo; mas, a despeito de tamanho empenho, por coisa nenhuma
desta vida consentiria que a sua pequena casasse antes de "ser mulher",
como dizia ela. E "que deixassem lá falar o doutor, entendia
que não era decente, nem tinha jeito, dar homem a uma moça
que ainda não fora visitada pelas regras! Não! Antes vê-la
solteira toda a vida e ficarem ambas curtindo para sempre aquele inferno
da estalagem!"
Lá no cortiço estavam todos a par desta história:
não era segredo para ninguém. E não se passava um
dia que não interrogassem duas e três vezes a velha com estas
frases:
- Então? Já veio?
- Por que não tenta os banhos de mar?
- Por que não chama outro médico?
- Eu, se fosse a senhora, casava-os assim mesmo!
A velha respondia dizendo que a felicidade não se fizera para ela.
E suspirava resignada.
Quando o Costa aparecia depois da sua obrigação para visitar
a noiva, os moradores da estalagem cumprimentavam-no em silêncio
com um respeitoso ar de lástima e piedade, empenhados tacitamente
por aquele caiporismo, contra o qual não valiam nem mesmo as virtudes
da Bruxa.
Pombinha era muito querida por toda aquela gente. Era quem lhe escrevia
as cartas; quem em geral fazia o rol para as lavadeiras; quem tirava as
contas; quem lia o jornal para os que quisessem ouvir. Prezavam-na com
muito respeito e davam-lhe presentes, o que lhe permitia certo luxo relativo.
Andava sempre de botinhas ou sapatinhos com meias de cor, seu vestido
de chita engomado; tinha as suas joiazinhas para sair à rua, e,
aos domingos, quem a encontrasse à missa na igreja de São
João Batista, não seria capaz de desconfiar que ela morava
em cortiço.
Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado,
fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e
pobre, que lhe caia, numa só linha, até ao pescocinho mole
e fino. Era lavadeiro e vivia sempre entre as mulheres, com quem já
estava tão familiarizado que elas o tratavam como a uma pessoa
do mesmo sexo; em presença dele falavam de coisas que não
exporiam em presença de outro homem; faziam-no até confidente
dos seus amores e das suas infidelidades, com uma franqueza que o não
revoltava, nem comovia. Quando um casal brigava ou duas amigas se disputavam,
era sempre Albino quem tratava de reconciliá-los, exortando as
mulheres à concórdia. Dantes encarregava-se de cobrar o
rol das colegas, por amabilidade; mas uma vez, indo a uma república
de estudantes, deram-lhe lá, ninguém sabia por que, uma
dúzia de bolos, e o pobre diabo jurou então, entre lágrimas
e soluços, que nunca mais se incumbiria de receber os róis.
E daí em diante, com efeito, não arredava os pezinhos do
cortiço, a não ser nos dias de carnaval, em que ia, vestido
de dançarina, passear à tarde pelas ruas e à noite
dançar nos bailes dos teatros. Tinha verdadeira paixão por
esse divertimento; ajuntava dinheiro durante o ano para gastar todo com
a mascarada. E ninguém o encontrava, domingo ou dia de semana,
lavando ou descansando, que não estivesse com a sua calça
branca engomada, a sua camisa limpa, um lenço ao pescoço,
e, amarrado à cinta, um avental que lhe caia sobre as pernas como
uma saia. Não fumava, não bebia espíritos e trazia
sempre as mãos geladas e úmidas.
Naquela manhã levantara-se ainda um pouco mais lânguido que
do costume, porque passara mal a noite. A velha Isabel, que lhe ficava
ao lado esquerdo, ouvindo-o suspirar com insistência, perguntou-lhe
o que tinha.
Ah! muita moleza de corpo e uma pontada do vazio que o não deixava!
A velha receitou diversos remédios, e ficaram os dois no, meio
de toda aquela vida, a falar tristemente sobre moléstias.
E, enquanto, no resto da fileira, a Machona, a Augusta, a Leocádia,
a Bruxa, a Marciana e sua filha conversavam de tina a tina, berrando e
quase sem se ouvirem, a voz um tanto cansada já pelo serviço,
defronte delas, separado pelos jiraus, formava-se um novo renque de lavadeiras,
que acudiam de fora, carregadas de trouxas, e iam ruidosamente tomando
lugar ao lado umas das outras, entre uma agitação sem tréguas,
onde se não distinguia o que era galhofa e o que era briga. Uma
a uma ocupavam-se todas as tinas. E de todos os casulos do cortiço
saiam homens para as suas obrigações. Por uma porta que
havia ao fundo da estalagem desapareciam os trabalhadores da pedreira,
de onde vinha agora o retinir dos alviões e das picaretas. O Miranda,
de calças de brim, chapéu alto e sobrecasaca preta, passou
lá fora, em caminho para o armazém, acompanhado pelo Henrique
que ia para as aulas. O Alexandre, que estivera de serviço essa
madrugada, entrou solene, atravessou o pátio, sem falar a ninguém,
nem mesmo à mulher, e recolheu-se à casa, para dormir. Um
grupo de mascates, o Delporto, o Pompeo, o Francesco e o Andréa,
armado cada qual com a sua grande caixa de bugigangas, saiu para a peregrinação
de todos os dias, altercando e praguejando em italiano.
Um rapazito de paletó entrou da rua e foi perguntar à Machona
pela Nhá Rita.
- A Rita Baiana? Sei cá! Faz amanhã oito dias que ela arribou!
A Leocádia explicou logo que a mulata estava com certeza de pândega
com o Firmo.
- Que Firmo? interrogou Augusta.
- Aquele cabravasco que se metia às vezes alí com ela. Diz
que é torneiro.
- Ela mudou-se? perguntou o pequeno.
- Não, disse a Machona; o quarto está fechado, mas a mulata
tem coisas lá. Você o que queria?
- Vinha buscar uma roupa que está com ela.
- Não sei, filho, pergunta na venda ao João Romão,
que talvez te possa dizer alguma coisa.
- Ali?
- Sim, pequeno, naquela porta, onde a preta do tabuleiro está vendendo!
Ó diabo! olha que pisas a boneca de anil! Já se viu que
sorte? Parece que não vê onde pisa este raio de criança!
E, notando que o filho, o Agostinho, se aproximava para tomar o lugar
do outro que já se ia: Sai daí, tu também, peste!
Já principias na reinação de todos os dias? Vem para
cá, que levas! Mas, é verdade, que fazes tu que não
vais regar a horta do Comendador?
- Ele disse ontem que eu agora fosse à tarde, que era melhor.
- Ah! E amanhã, não te esqueças, recebe os dois mil-réis,
que é fim do mês. Olha! Vai lá dentro e diz a Nenen
que te entregue a roupa que veio ontem à noite.
O pequeno afastou-se de carreira, e ela lhe gritou na pista: E que não
ponha o refogado no fogo sem eu ter lá ido!
Uma conversa cerrada travara-se no resto da fila de lavadeiras a respeito
da Rita Baiana.
- É doida mesmo!... censurava Augusta. Meter-se na pândega
sem dar conta da roupa que lhe entregaram... Assim há de ficar
sem um freguês...
- Aquela não endireita mais!... Cada vez fica até mais assanhada!...
Parece que tem fogo no rabo! Pode haver o serviço que houver, aparecendo
pagode, vai tudo pro lado! Olha o que saiu o ano passado com a festa da
Penha!...
- Então agora, com este mulato, o Firmo, é uma pouca-vergonha!
Est'ro dia, pois você não viu? levaram ai numa bebedeira,
a dançar e cantar à viola, que nem sei o que parecia! Deus
te livre!
- Para tudo há horas e há dias!...
- Para a Rita todos os dias são dias santos! A questão é
aparecer quem puxe por ela!
- Ainda assim não e má criatura... Tirante o defeito da
vadiagem...
- Bom coração tem ela, até demais, que não
guarda um vintém pro dia de amanhã. Parece que o dinheiro
lhe faz comichão no corpo!
- Depois é que são elas!... O João Romão já
lhe não fia!
- Pois olhe que a Rita lhe tem enchido bem as mãos; quando ela
tem dinheiro é porque o gasta mesmo!
E as lavadeiras não se calavam, sempre a esfregar, e a bater, e
a torcer camisas e ceroulas, esfogueadas já pelo exercício.
Ao passo que, em torno da sua tagarelice, o cortiço se embandeirava
todo de roupa molhada, de onde o sol tirava cintilações
de prata.
Estavam em dezembro e o dia era ardente. A grama dos coradouros tinha
reflexos esmeraldinos; as paredes que davam frente ao Nascente, caiadinhas
de novo, reverberavam iluminadas, ofuscando a vista. Em uma das janelas
da sala de jantar do Miranda, Dona Estela e Zulmira, ambas vestidas de
claro e ambas a limarem as unhas, conversavam em voz surda, indiferentes
à agitação que ia lá embaixo, muito esquecidas
na sua tranqüilidade de entes felizes.
Entretanto, agora o maior movimento era na venda à entrada da estalagem.
Davam nove horas e os operários das fábricas chegavam-se
para o almoço. Ao balcão o Domingos e o Manuel não
tinham mãos a medir com a criadagem da vizinhança; os embrulhos
de papel amarelo sucediam-se, e o dinheiro pingava sem intermitência
dentro da gaveta.
- Meio quilo de arroz!
- Um tostão de açúcar!
- Uma garrafa de vinagre!
- Dois martelos de vinho!
- Dois vinténs de fumo!
- Quatro de sabão!
E os gritos confundiam-se numa mistura de vozes de todos os tons.
Ouviam-se protestos entre os compradores:
- Me avie, seu Domingos! Eu deixei a comida no fogo!
- Ó peste! dá cá as batatas, que eu tenho mais o
que fazer!
- Seu Manuel, não me demore, essa manteiga!
Ao lado, na casinha de pasto, a Bertoleza, de saias arrepanhadas no quadril,
o cachaço grosso e negro, reluzindo de suor, ia e vinha de uma
panela à outra, fazendo pratos, que João Romão levava
de carreira aos trabalhadores assentados num compartimento junto. Admitira-se
um novo caixeiro, só para o frege, e o rapaz, a cada comensal que
ia chegando, recitava, em tom cantado e estridente, a sua interminável
lista das comidas que havia. Um cheiro forte de azeite frito predominava.
O parati circulava por todas as mesas, e cada caneca de café, de
louça espessa, erguia um vulcão de fumo tresandando a milho
queimado. Uma algazarra medonha, em que ninguém se entendia! Cruzavam-se
conversas em todas as direções, discutia-se a berros, com
valentes punhadas sobre as mesas. E sempre a sair, e sempre a entrar gente,
e os que saiam, depois daquela comezaina grossa, iam radiantes de contentamento,
com a barriga bem cheia, a arrotar.
Num banco de pau tosco, que existia do lado de fora, junto à parede
e perto da venda, um homem, de calça e camisa de zuarte, chinelos
de couro cru, esperava, havia já uma boa hora, para falar com o
vendeiro.
Era um português de seus trinta e cinco a quarenta anos, alto, espadaúdo,
barbas ásperas, cabelos pretos e maltratados caindo-lhe sobre a
testa, por debaixo de um chapéu de feltro ordinário; pescoço
de touro e cara de Hércules, na qual os olhos, todavia, humildes
como os olhos de um boi de canga, exprimiam tranqüila bondade.
- Então ainda não se pode falar ao homem? perguntou ele,
indo ao balcão entender-se com o Domingos.
- O patrão está agora muito ocupado. Espere!
- Mas são quase dez horas e estou com um gole de café no
estômago!
- Volte logo!
- Moro na cidade nova. É um estirão daqui!
O caixeiro gritou então para a cozinha, sem interromper o que fazia:
- O homem que ai está, seu João, diz que se vai embora!
- Ele que espere um pouco, que já lhe falo! respondeu o vendeiro
no meio de uma carreira. Diga-lhe que não vá!
- Mas é que ainda não almocei e estou aqui a tinir!... observou
o Hércules com a sua voz grossa e sonora.
- Ó filho, almoce ai mesmo! Aqui o que não falta é
de comer. Já podia estar aviado!
- Pois vá lá! resolveu o homenzarrão, saindo da venda
para entrar na casa de pasto, onde os que lá se achavam o receberam
com ar curioso, medindo-o da cabeça aos pés, como faziam
sempre com todos os que ai se apresentavam pela primeira vez.
E assentou-se a uma das mesinhas, vindo logo o caixeiro cantar-lhe a lista
dos pratos.
- Traga lá o pescado com batatas e veja um martelo de vinho.
- Quer verde ou virgem?
- Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem
sem tempo!