O CORTIÇO
Aluisio Azevedo
CAPÍTULO XXII
Desde esse dia Bertoleza fez-se ainda mais concentrada e resmungona e
só trocava com o amigo um ou outro monossílabo inevitável
no serviço da casa. Entre os dois havia agora desses olhares de
desconfiança, que são abismos de constrangimento entre pessoas
que moram juntas. A infeliz vivia num sobressalto constante; cheia de
apreensões, com medo de ser assassinada; só comia do que
ela própria preparava para si e não dormia senão
depois de fechar-se à chave. À noite o mais ligeiro rumor
a punha de pé, olhos arregalados, respiração convulsa,
boca aberta e pronta para pedir socorro ao primeiro assalto.
No entanto, em redor do seu desassossego e do seu mal-estar, tudo ali
prosperava forte em grosso, aos contos de réis, com a mesma febre
com que dantes, em torno da sua atividade de escrava trabalhadeira, os
vinténs choviam dentro da gaveta da venda. Durante o dia paravam
agora em frente do armazém carroças e carroças com
fardos e caixas trazidos da alfândega, em que se liam as iniciais
de João Romão; e rodavam-se pipas e mais pipas de vinho
e de vinagre, e grandes partidas de barricas de cerveja e de barris de
manteiga e de sacos de pimenta. E o armazém, com as suas portas
escancaradas sobre o público, engolia tudo de um trago, para depois
ir deixando sair de novo, aos poucos, com um lucro lindíssimo,
que no fim do ano causava assombros. João Romão fizera-se
o fornecedor de todas as tabernas e armarinhos de Botafogo; o pequeno
comércio sortia-se lá para vender a retalho. A sua casa
tinha agora um pessoal complicado de primeiros, segundos e terceiros caixeiros,
além do guarda-livros, do comprador, do despachante e do caixa;
do seu escritório saiam correspondências em várias
línguas e, por dentro das grades de madeira polida, onde havia
um bufete sempre servido com presunto, queijo e cerveja, faziam-se largos
contratos comerciais, transações em que se arriscavam fortunas;
e propunham-se negociações de empresas e privilégios
obtidos do governo; e realizavam-se vendas e compras de papéis;
e concluíam-se empréstimos de juros fortes sobre hipotecas
de grande valor. E ali ia de tudo: o alto e o baixo negociante; capitalistas
adulados e mercadores falidos; corretores de praça, zangões,
cambistas; empregados públicos, que passavam procuração
contra o seu ordenado; empresários de teatro e fundadores de jornais,
em apuros de dinheiro; viúvas, que negociavam o seu montepio; estudantes,
que iam receber a sua mesada; e capatazes de vários grupos de trabalhadores
pagos pela casa; e, destacando-se de todos, pela quantidade, os advogados
e a gente miúda do foro, sempre inquieta, farisqueira, a meter
o nariz em tudo, feia, a papelada debaixo do braço, a barba por
fazer, o cigarro babado e apagado a um canto da boca.
E, como a casa comercial de João Romão, prosperava igualmente
a sua avenida. Já lá se não admitia assim qualquer
pé-rapado: para entrar era preciso carta de fiança e uma
recomendação especial. Os preços dos cômodos
subiam, e muitos dos antigos hóspedes, italianos principalmente,
iam, por economia, desertando para o "Cabeça-de-Gato"
e sendo substituídos por gente mais limpa. Decrescia também
o número das lavadeiras, e a maior parte das casinhas eram ocupadas
agora por pequenas famílias de operários, artistas e praticantes
de secretaria. O cortiço aristocratizava-se. Havia um alfaiate
logo à entrada, homem sério, de suíças brancas,
que cosia na sua máquina entre oficiais, ajudado pela mulher, uma
lisboeta cor de nabo, gorda, velhusca, com um principio de bigode e cavanhaque,
mas extremamente circunspecta; em seguida um relojoeiro calvo, de óculos,
que parecia mumificado atrás da vidraça em que ele, sem
mudar de posição, trabalhava, da manhã até
à tarde; depois um pintor de tetos e tabuletas, que levou a fantasia
artística ao ponto de fazer, a pincel, uma trepadeira em volta
da sua porta, onde se viam pássaros de várias cores e feitios,
muito comprometedores para o crédito profissional do autor; mais
adiante instalara-se um cigarreiro, que ocupava nada menos de três
números na estalagem e tinha quatro filhas e dois filhos a fabricarem
cigarros, e mais três operárias que preparavam palha de milho
e picavam e desfiavam tabaco. Florinda, metida agora com um despachante
de estrada de ferro, voltara para o São Romão e trazia a
sua casinha em muito bonito pé de limpeza e arranjo. Estava ainda
de luto pela mãe, a pobre velha Marciana, que ultimamente havia
morrido no hospício dos doidos. Aos domingos o despachante costumava
receber alguns camaradas para jantar, e como a rapariga puxava os feitios
da Rita Baiana, as suas noitadas acabavam sempre em pagode de dança
e cantarola, mas tudo de portas adentro, que ali já se não
admitiam sambas e chinfrinadas ao relento. A Machona quebrara um pouco
de gênio depois da morte de Agostinho e era agora visitada por um
grupo de moços do comércio, entre os quais havia um pretendente
à mão de Nenen, que se mirrava já de tanto esperar
a seco por marido. Alexandre fora promovido a sargento e empertigava-se
ainda mais dentro da sua farda nova, de botões que cegavam; a mulher,
sempre indiferentemente fecunda e honesta, parecia criar bolor na sua
moleza úmida e tinha um ar triste de cogumelo; era vista com freqüência
a dar de mamar a um pequerrucho de poucos meses, empinando muito a barriga
para a frente, pelo hábito de andar sempre grávida. A sua
comadre Léonie continuava a visitá-la de vez em quando,
aturdindo a atual pacatez daquele cenóbio com as suas roupas gritadoras.
Uma ocasião em que lá fora, um sábado à tarde,
produzira grande alvoroço entre os decanos da estalagem, porque
consigo levava Pombinha, que se atirara ao mundo e vivia agora em companhia
dela.
Pobre Pombinha! no fim dos seus primeiros dois anos de casada já
não podia suportar o marido; todavia, a principio, para conservar-se
mulher honesta, tentou perdoar-lhe a falta de espírito, os gostos
rasos e a sua risonha e fatigante palermice de homem sem ideal; ouviu-lhe,
resignada, as confidências banais nas horas íntimas do matrimônio;
atendeu-o nas suas exigências mesquinhas de ciumento que chora;
tratou-o com toda a solicitude, quando ele esteve a decidir com uma pneumonite
aguda; procurou afinar em tudo com o pobre rapaz: não lhe falou
nunca em coisas que cheirassem a luxo, a arte, a estética, a originalidade;
escondeu a sua mal-educada e natural intuição pelo que é
grande, ou belo, ou arrojado, e fingiu ligar interesse ao que ele fazia,
ao que ele dizia, ao que ele ganhava, ao que ele pensava e ao que ele
conseguia com paciência na sua vida estreita de negociante rotineiro;
mas, de repente, zás! faltou-lhe o equilíbrio e a mísera
escorregou, caindo nos braços de um boêmio de talento, libertino
e poeta, jogador e capoeira. O marido não deu logo pela coisa,
mas começou a estranhar a mulher, a desconfiar dela e a espreitá-la,
até que um belo dia, seguindo-a na rua sem ser visto, o desgraçado
teve a dura certeza de que era traído pela esposa, não mais
com o poeta libertino, mas com um artista dramático, que muitas
vezes lhe arrancara, a ele, sinceras lágrimas de comoção,
declamando no teatro em honra da moral triunfante e estigmatizando o adultério
com a retórica mais veemente e indignada.
Ah! não pôde iludir-se!... e, a despeito do muito que amava
à ingrata, rompeu com ela e entregou-a à mãe, fugindo
em seguida para São Paulo. Dona Isabel, que sabia já, não
desta última falcatrua da filha, mas das outras primeiras, que
bem a mortificaram, coitada! desfez-se em lágrimas, aconselhou-a
a que se arrependesse e mudasse de conduta; em seguida escreveu ao genro,
intercedendo por Pombinha, jurando que agora respondia por ela e pedindo-lhe
que esquecesse o passado e voltasse para junto de sua mulher. O rapaz
não respondeu à carta, e daí a meses, Pombinha desapareceu
da casa da mãe. Dona Isabel quase morre de desgosto. Para onde
teria ido a filha?... "Onde está? onde não está?
Procura daqui! procura daí!" Só a descobriu semanas
depois; estava morando num hotel com Léonie. A serpente vencia
afinal. Pombinha foi, pelo seu próprio pé, atraída,
meter-se-lhe na boca. A pobre mãe chorou a filha como morta, mas,
visto que os desgostos não lhe tiraram a vida por uma vez e, como
a desgraçada não tinha com que matar a fome, nem forças
para trabalhar, aceitou de cabeça baixa o primeiro dinheiro que
Pombinha lhe mandou. E, desde então, aceitou sempre, constituindo-se
a rapariga no seu único amparo da velhice e sustentando-a com os
ganhos da prostituição. Depois, como neste mundo uma criatura
a tudo se acostuma, Dona Isabel mudou-se para a casa da filha. Mas não
aparecia nunca na sala quando havia gente de fora; escondia-se; e, se
algum dos freqüentadores de Pombinha a pilhava de improviso, a infeliz,
com vergonha de si mesma, fingia-se criada ou dama de companhia. O que
mais a desgostava, e o que ela não podia tolerar sem apertos de
coração, era ver a pequena endemoninhar-se com champanha
depois do jantar e pôr-se a dizer tolices e a estender-se ali mesmo
no colo dos homens. Chorava sempre que a via entrar ébria, fora
de horas, depois de uma orgia; e, de desgosto em desgosto, foi-se sentindo
enfraquecer e enfermar, até cair de cama e mudar-se para uma casa
de saúde, onde afinal morreu.
Agora, as duas cocotes, amigas inseparáveis, terríveis naquela
inquebrantável solidariedade, que fazia delas uma só cobra
de duas cabeças, dominavam o alto e o baixo Rio de Janeiro. Eram
vistas por toda a parte onde houvesse prazer; à tarde, antes do
jantar, atravessavam o Catete em carro descoberto, com a Jujú ao
lado; à noite, no teatro, em um camarote de boca, chamavam sobre
si os velhos conselheiros desfibrados pela política e ávidos
de sensações extremas, ou arrastavam para os gabinetes particulares
dos hotéis os sensuais e gordos fazendeiros de café, que
vinham à corte esbodegar o farto produto das safras do ano, trabalhadas
pelos seus escravos. Por cima delas duas passara uma geração
inteira de devassos. Pombinha, só com três meses de cama
franca, fizera-se tão perita no ofício como a outra; a sua
infeliz inteligência, nascida e criada no modesto lodo da estalagem,
medrou logo admiravelmente na lama forte dos vícios de largo fôlego;
fez maravilhas na arte; parecia adivinhar todos os segredos daquela vida;
seus lábios não tocavam em ninguém sem tirar sangue;
sabia beber, gota a gota, pela boca do homem mais avarento, todo o dinheiro
que a vitima pudesse dar de si. Entretanto, lá na Avenida São
Romão, era, como a mestra, cada vez mais adorada pelos seus velhos
e fiéis companheiros de cortiço; quando lá iam, acompanhadas
por Jujú, a porta da Augusta ficava, como dantes, cheia de gente,
que as abençoava com o seu estúpido sorriso de pobreza hereditária
e humilde. Pombinha abria muito a bolsa, principalmente com a mulher de
Jerônimo, a cuja filha, sua protegida predileta, votava agora, por
sua vez, uma simpatia toda especial, idêntica à que noutro
tempo inspirara ela própria à Léonie. A cadeia continuava
e continuaria interminavelmente; o cortiço estava preparando uma
nova prostituta naquela pobre menina desamparada, que se fazia mulher
ao lado de uma infeliz mãe ébria.
E era, ainda assim, com essas esmolas de Pombinha, que na casa de Piedade
não faltava de todo o pão, porque já ninguém
confiava roupa à desgraçada, e nem ela podia dar conta de
qualquer trabalho.
Pobre mulher! chegara ao extremo dos extremos. Coitada! já não
causava dó, causava repugnância e nojo. Apagaram-se-lhe os
últimos vestígios do brio; vivia andrajosa, sem nenhum trato
e sempre ébria, dessa embriaguez sombria e mórbida que se
não dissipa nunca. O seu quarto era o mais imundo e o pior de toda
a estalagem; homens malvados abusavam dela, muitos de uma vez, aproveitando-se
da quase completa inconsciência da infeliz. Agora, o menor trago
de aguardente a punha logo pronta; acordava todas as manhãs apatetada,
muito triste, sem animo para viver esse dia, mas era só correr
à garrafa e voltavam-lhe as risadas frouxas, de boca que já
se não governa. Um empregado de João Romão que ultimamente
fazia as vezes dele na estalagem, por três vezes a enxotou, e ela,
de todas, pediu que lhe dessem alguns dias de espera, para arranjar casa.
Afinal, no dia seguinte ao último em que Pombinha apareceu por
lá com Léonie e deixou-lhe algum dinheiro, despejaram-lhe
os tarecos na rua.
E a mísera, sem chorar, foi refugiar-se, junto com a filha, no
"Cabeça-de-Gato" que, à proporção
que o São Romão se engrandecia, mais e mais ia-se rebaixando
acanalhado, fazendo-se cada vez mais torpe, mais abjeto, mais cortiço,
vivendo satisfeito do lixo e da salsugem que o outro rejeitava, como se
todo o seu ideal fosse conservar inalterável, para sempre, o verdadeiro
tipo da estalagem fluminense, a legitima, a legendária; aquela
em que há um samba e um rolo por noite; aquela em que se matam
homens sem a polícia descobrir os assassinos; viveiro de larvas
sensuais em que irmãos dormem misturados com as irmãs na
mesma lama; paraíso de vermes, brejo de lodo quente e fumegante,
donde brota a vida brutalmente, como de uma podridão.
CAPÍTULO
XXIII
À porta de uma confeitaria da Rua do Ouvidor, João Romão,
apurado num fato novo de casimira clara, esperava pela família
do Miranda, que nesse dia andava em compras.
Eram duas horas da tarde e um grande movimento fazia-se ali. O tempo estava
magnífico; sentia-se pouco calor. Gente entrava e saia, a passo
frouxo, da Casa Pascoal. Lá dentro janotas estacionavam de pé,
soprando o fumo dos charutos, à espera que desocupassem uma das
mesinhas de mármore preto; grupos de senhoras, vestidas de seda,
faziam lanche com vinho do Porto. Respirava-se um cheiro agradável
de essências e vinagres aromáticos; havia um rumor quente
e garrido, mas bem-educado; namorava-se forte, mas com disfarce, furtando-se
olhares no complicado encontro dos espelhos; homens bebiam ao balcão
e outros conversavam, comendo empadinhas junto às estufas; algumas
pessoas liam já os primeiros jornais da tarde; serventes, muito
atarefados, despachavam compras de doces e biscoitos e faziam, sem descansar,
pacotes de papel de cor, que os compradores levavam pendurados num dedo.
Ao fundo, de um dos lados do salão, aviavam-se grandes encomendas
de banquetes para essa noite, traziam-se lá de dentro, já
prontas, torres e castelos de balas e trouxas d'ovos e imponentes peças
de cozinha caprichosamente enfeitadas; criados desciam das prateleiras
as enormes baixelas de metal branco, que os companheiros iam embalando
em caixões com papel fino picado. Os empregados das secretarias
públicas vinham tomar o seu vermute com sifão; repórteres
insinuavam-se por entre os grupos dos jornalistas e dos políticos,
com o chapéu à ré, ávidos de noticias, uma
curiosidade indiscreta nos olhos. João Romão, sem deixar
a porta, apoiado no seu guarda-chuva de cabo de marfim, recebia cumprimentos
de quem passava na rua; alguns paravam para lhe falar. Ele tinha sorrisos
e oferecimentos para todos os lados; e consultava o relógio de
vez em quando.
Mas a família do Barão surgiu afinal. Zulmira vinha na frente,
com um vestido cor de palha justo ao corpo, muito elegante no seu tipo
de fluminense pálida e nervosa; logo depois Dona Estela, grave,
toda de negro, passo firme e ar severo de quem se orgulha das suas virtudes
e do bom cumprimento dos seus deveres. O Miranda acompanhava-as de sobrecasaca,
fitinha ao peito, o colarinho até ao queixo, botas de verniz, chapéu
alto e bigode cuidadosamente raspado. Ao darem com João Romão,
ele sorriu e Zulmira também; só Dona Estela conservou inalterável
a sua fria máscara de mulher que não dá verdadeira
importância senão a si mesma.
O ex-taverneiro e futuro visconde foi, todavia, ao encontro deles, cheio
de solicitude, descobrindo-se desde logo e convidando-os com empenho a
que tomassem alguma coisa.
Entraram todos na confeitaria e apoderaram-se da primeira mesa que se
esvaziou. Um criado acudiu logo e João Romão, depois de
consultar Dona Estela, pediu sanduíches, doces e moscatel de Setúbal.
Mas Zulmira reclamou sorvete e licor. E só esta falava; os outros
estavam ainda à procura de um assunto para a conversa; afinal o
Miranda que, durante esse tempo considerava o teto e as paredes, fez algumas
considerações sobre as reformas e novos adornos do salão
da confeitaria. Dona Estela dirigiu, de má, a João Romão
várias perguntas sobre a companhia lírica, o que confundiu
por tal modo ao pobre do homem, que o pôs vermelho e o desnorteou
de todo. Felizmente, nesse instante chegava o Botelho e trazia uma noticia:
a morte de um sargento no quartel; questão entre inferior e superior.
O sargento, insultado por um oficial do seu batalhão, levantara
a mão contra ele, e o oficial então arrancara da espada
e atravessara-o de lado a lado. Estava direito! Ah! ele era rigoroso em
pontos de disciplina militar! Um sargento levantara a mão para
um oficial superior!... devia ficar estendido ali mesmo, que dúvida!
E faiscavam-lhe os olhos no seu inveterado entusiasmo por tudo que cheirasse
a farda. Vieram logo as anedotas análogas; o Miranda contou um
fato idêntico que se dera vinte anos atrás e Botelho citou
uma enfiada deles interminável.
Quando se levantaram, João Romão deu o braço a Zulmira
e o Barão à mulher, e seguiram todos para o Largo de São
Francisco, lentamente, em andar de passeio, acompanhados pelo parasita.
Lá chegados, Miranda queria que o vizinho aceitasse um lugar no
seu carro, mas João Romão tinha ainda que fazer na cidade
e pediu dispensa do obséquio. Botelho também ficou; e, mal
a carruagem partiu, este disse ao ouvido do outro, sem tomar fôlego:
- O homem vai hoje, sabe? Está tudo combinado!
- Ah! vai? perguntou João Romão com interesse, estacando
no meio do largo. Ora graças! Já não é sem
tempo!
- Sem tempo! Pois olhe, meu amigo, que tenho suado o topete! Foi uma campanha!
- Há que tempo já tratamos disto!...
- Mas que quer você, se o homem não aparecia?... Estava fora!
Escrevi-lhe várias vezes, como sabe, e só agora consegui
pilhá-lo. Fui também à polícia duas vezes
e já lá voltei hoje; ficou tudo pronto! mas você deve
estar em casa para entregar a crioula quando eles lá se apresentarem...
- Isso é que seria bom se se pudesse dispensar... Desejava não
estar presente...
- Ora essa! Então com quem se entendem eles?... Não! tenha
paciência! é preciso que você lá esteja!
- Você podia fazer as minhas vezes...
- Pior! Assim não arranjamos nada! Qualquer dúvida pode
entornar o caldo! É melhor fazer as coisas bem feitas. Que diabo
lhe custa isto?... Os homenzinhos chegam, reclamam a escrava em nome da
lei, e você a entrega - pronto! Fica livre dela para sempre, e daqui
a dias estoura o champanha do casório! Hein, não lhe parece?
- Mas...
- Ela há de choramingar, fazer lamúrias e coisas, mas você
põe-se duro e deixe-a seguir lá o seu destino!... Bolas!
não foi você que a fez negra!...
- Pois vamos lá! creio que são horas.
- Que horas são?
- Três e vinte.
- Vamos indo.
E desceram de novo a Rua do Ouvidor até ao ponto dos bondes de
Gonçalves Dias.
- O de São Clemente não está agora, observou o velho.
Vou tomar um copo d'água enquanto esperamos.
Entraram no botequim do lugar e, para conversar assentados, pediram dois
cálices de conhaque.
- Olhe, acrescentou o Botelho; você nem precisa dizer palavra...
faça como coisa que não tem nada com isso, compreende?
- E se o homem quiser os ordenados de todo o tempo em que ela esteve em
minha companhia?...
- Como, filho, se você não a alugou das mãos de ninguém?!...
Você não sabe lá se a mulher é ou era escrava;
tinha-a por livre naturalmente; agora aparece o dono, reclama-a, e você
a entrega, porque não quer ficar com o que lhe não pertence!
Ela, sim, pode pedir o seu saldo de contas; mas para isso você lhe
dará qualquer coisa...
- Quanto devo dar-lhe?
- Aí uns quinhentos mil-réis, para fazer a coisa à
fidalga.
- Pois dou-lhos.
- E feito isso - acabou-se! O próprio Miranda vai logo, logo, ter
com você! Verá!
Iam falar ainda, mas o bonde de São Clemente acabava de chegar,
assaltado por todos os lados pela gente que o esperava. Os dois só
conseguiram lugar muito separados um do outro, de sorte que não
puderam conversar durante a viagem.
No Largo da Carioca uma vitória passou por eles, a todo o trote.
Botelho vergou-se logo para trás, procurando os olhos do vendeiro,
a rir-se com intenção. Dentro do carro ia Pombinha, coberta
de jóias, ao lado de Henrique; ambos muito alegres, em pândega.
O estudante, agora no seu quarto ano de medicina, vivia à solta
com outros da mesma idade e pagava ao Rio de Janeiro o seu tributo de
rapazola rico.
Ao chegarem à casa, João Romão pediu ao cúmplice
que entrasse e levou-o para o seu escritório.
- Descanse um pouco... disse-lhe.
- É, se eu soubesse que eles se não demoravam muito ficava
para ajudá-lo.
- Talvez só venham depois do jantar, tornou aquele, assentando-se
à carteira.
Um caixeiro aproximou-se dele respeitosamente e fez-lhe várias
perguntas relativas ao serviço do armazém, ao que João
Romão respondia por monossílabos de capitalista; interrogou-o
por sua vez e, como não havia novidade, tomou Botelho pelo braço
e convidou-o a sair.
- Fique para jantar. São quatro e meia, segredou-lhe na escada.
Já não era preciso prevenir lá defronte, porque agora
o velho parasita comia muitas vezes em casa do vizinho.
O jantar correu frio e contrafeito; os dois sentiam-se ligeiramente dominados
por um vago sobressalto. João Romão foi pouco além
da sopa e quis logo a sobremesa.
Tomavam café, quando um empregado subiu para dizer que lá
embaixo estava um senhor, acompanhado de duas praças, e que desejava
falar ao dono da casa.
- Vou já! respondeu este. E acrescentou para o Botelho: - São
eles!
- Deve ser, confirmou o velho.
E desceram logo.
- Quem me procura?... exclamou João Romão com disfarce,
chegando ao armazém.
Um homem alto, com ar de estróina, adiantou-se e entregou-lhe uma
folha de papel.
João Romão, um pouco trêmulo, abriu-a defronte dos
olhos e leu-a demoradamente. Um silêncio formou-se em torno dele;
os caixeiros pararam em meio do serviço, intimidados por aquela
cena em que entrava a polícia.
- Está aqui com efeito... disse afinal o negociante. Pensei que
fosse livre...
- É minha escrava, afirmou o outro. Quer entregar-ma?...
- Mas imediatamente.
- Onde está ela?
- Deve estar lá dentro. Tenha a bondade de entrar...
O sujeito fez sinal aos dois urbanos, que o acompanharam logo, e encaminharam-se
todos para o interior da casa. Botelho, à frente deles, ensinava-lhes
o caminho. João Romão ia atrás, pálido, com
as mãos cruzadas nas costas.
Atravessaram o armazém, depois um pequeno corredor que dava para
um pátio calçado, chegaram finalmente à cozinha.
Bertoleza, que havia já feito subir o jantar dos caixeiros, estava
de cócoras no chão, escamando peixe, para a ceia do seu
homem, quando viu parar defronte dela aquele grupo sinistro.
Reconheceu logo o filho mais velho do seu primitivo senhor, e um calafrio
percorreu-lhe o corpo. Num relance de grande perigo compreendeu a situação;
adivinhou tudo com a lucidez de quem se vê perdido para sempre:
adivinhou que tinha sido enganada; que a sua carta de alforria era uma
mentira, e que o seu amante, não tendo coragem para matá-la,
restituía-a ao cativeiro.
Seu primeiro impulso foi de fugir. Mal, porém, circunvagou os olhos
em torno de si, procurando escapula, o senhor adiantou-se dela e segurou-lhe
o ombro.
- É esta! disse aos soldados que, com um gesto, intimaram a desgraçada
a segui-los. - Prendam-na! É escrava minha!
A negra, imóvel, cercada de escamas e tripas de peixe, com uma
das mãos espalmada no chão e com a outra segurando a faca
de cozinha, olhou aterrada para eles, sem pestanejar.
Os policiais, vendo que ela se não despachava, desembainharam os
sabres. Bertoleza então, erguendo-se com ímpeto de anta
bravia, recuou de um salto e, antes que alguém conseguisse alcançá-la,
já de um só golpe certeiro e fundo rasgara o ventre de lado
a lado.
E depois embarcou para a frente, rugindo e esfocinhando moribunda numa
lameira de sangue.
João Romão fugira até ao canto mais escuro do armazém,
tapando o rosto com as mãos.
Nesse momento parava à porta da rua uma carruagem. Era uma comissão
de abolicionistas que vinha, de casaca, trazer-lhe respeitosamente o diploma
de sócio benemérito.
Ele mandou que os conduzissem para a sala de visitas.
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