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O CORTIÇO
Aluisio Azevedo


CAPÍTULO XIII


À proporção que alguns locatários abandonavam a estalagem, muitos pretendentes surgiam disputando os cômodos desalugados. Delporto e Pompeo foram varridos pela febre amarela e três outros italianos estiveram em risco de vida. O número dos hóspedes crescia, os casulos subdividiam-se em cubículos do tamanho de sepulturas, e as mulheres iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador. Uma família, composta de mãe viúva e cinco filhas solteiras, das quais destas a mais velha tinha trinta anos e a mais moça quinze, veio ocupar a casa que Dona Isabel esvaziou poucos dias depois do casamento de Pombinha.
Agora, na mesma rua, germinava outro cortiço ali perto, o "Cabeça-de-Gato". Figurava como seu dono um português que também tinha venda, mas o legitimo proprietário era um abastado conselheiro, homem de gravata lavada, a quem não convinha, por decoro social, aparecer em semelhante gênero de especulações. E João Romão, estalando de raiva, viu que aquela nova república da miséria prometia ir adiante e ameaçava fazer-lhe à sua, perigosa concorrência. Pôs-se logo em campo, disposto à luta, e começou a perseguir o rival por todos os modos, peitando fiscais e guardas municipais, para que o não deixassem respirar um instante com multas e exigências vexatórias; enquanto pela sorrelfa plantava no espírito dos seus inquilinos um verdadeiro ódio de partido, que os incompatibilizava com a gente do "Cabeça-de-Gato". Aquele que não estivesse disposto a isso ia direitinho para a rua, "que ali se não admitiam meias medidas a tal respeito! Ah! ou bem peixe ou bem carne! Nada de embrulho!" É inútil dizer que a parte contrária lançou mão igualmente de todos os meios para guerrear o inimigo, não tardando que entre os moradores da duas estalagens rebentasse uma tremenda rivalidade, dia a dia agravada por pequenas brigas e rezingas, em que as lavadeiras se destacavam sempre com questões de freguesia de roupa. No fim de pouco tempo os dois partidos estavam já perfeitamente determinados; os habitantes do "Cabeça-de-Gato" tomaram por alcunha o titulo do seu cortiço, e os de "São Romão", tirando o nome do peixe que a Bertoleza mais vendia à porta da taverna, foram batizados por "Carapicus". Quem se desse com um Carapicus não podia entreter a mais ligeira amizade com um cabeça-de-gato; mudar-se alguém de uma estalagem para outra era renegar idéias e princípios e ficava apontado a dedo; denunciar a um contrário o que se passava, fosse o que fosse, dentro do circulo oposto, era cometer traição tamanha, que os companheiros a puniam a pau. Um vendedor de peixe, que caiu na asneira de falar a um cabeça-de-gato a respeito de uma briga entre a Machona e sua filha, a das Dores, foi encontrado quase morto perto do cemitério de São João Batista. Alexandre, esse então não cochilava com os adversários: nas suas partes policiais figurava sempre o nome de um deles pelo menos, mas entre os próprios polícias havia adeptos de um e de outro partido; o urbano que entrava na venda do João Romão tinha escrúpulo de tomar qualquer coisa ao balcão da outra venda. Em meio do pátio do "Cabeça-de-Gato" arvorara-se uma bandeira amarela; os Carapicus responderam logo levantando um pavilhão vermelho. E as duas cores olhavam-se no ar como um desafio de guerra.
A batalha era inevitável. Questão de tempo.
Firmo, assim que se instaurara a nova estalagem, abandonou o quarto na oficina e meteu-se lá de súcia com o Porfiro, apesar da oposição de Rita, que mais depressa o deixaria a ele do que aos seus velhos camaradas de cortiço. Daí nasceu certa ponta de discórdia entre os dois amantes; as suas entrevistas tornavam-se agora mais raras e mais difíceis. A baiana, por coisa alguma desta vida, poria os pés no "Cabeça-de-Gato" e o Firmo achava-se, como nunca, incompatibilizado com os Carapicus. Para estarem juntos tinham encontros misteriosos num calojio de uma velha miserável da Rua de São João Batista, que lhe cedia a casa mediante esmolas. O capoeira fazia questão de ficar no "Cabeça-de-Gato", porque ai se sentia resguardado contra qualquer perseguição que o seu delito motivasse; de resto, Jerônimo não estava morto e, uma vez bem curado, podia vir sobre ele com gana. No "Cabeça-de-Gato", o Firmo conquistara rápidas simpatias e constituíra-se chefe de malta. Era querido e venerado; os companheiros tinham entusiasmo pela sua destreza e pela sua coragem; sabiam-lhe de cor a legenda rica de façanhas e vitórias. O Porfiro secundava-o sem lhe disputar a primazia, e estes dois, só por si, impunham respeito aos Carapicus, entre os quais, não obstante, havia muito boa gente para o que desse e viesse.
Mas ao cabo de três meses, João Romão, notando que os seus interesses nada sofriam com a existência da nova estalagem e, até pelo contrário, lucravam com o progressivo movimento de povo que se ia fazendo no bairro, retornou à sua primitiva preocupação com o Miranda, única rivalidade que verdadeiramente o estimulava.
Desde que o vizinho surgiu com o baronato, o vendeiro transformava-se por dentro e por fora a causar pasmo. Mandou fazer boas roupas e aos domingos refestelava-se de casaco branco e de meias, assentado defronte da venda, a ler jornais. Depois deu para sair a passeio, vestido de casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabelo à escovinha; pôs a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que ele agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Já não era o mesmo lambuzão! E não parou aí: fez-se sócio de um clube de dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a usar relógio e cadeia de ouro; correu uma limpeza no seu quarto de dormir, mandou soalhá-lo, forrou-o e pintou-o; comprou alguns móveis em segunda mão; arranjou um chuveiro ao lado da retrete; principiou a comer com guardanapo e a ter toalha e copos sobre a mesa; entrou a tomar vinho, não do ordinário que vendia aos trabalhadores, mas de um especial que guardava para seu gasto. Nos dias de folga atirava-se para o Passeio Público depois do jantar ou ia ao teatro São Pedro de Alcântara assistir aos espetáculos da tarde; do "Jornal do Comércio", que era o único que ele assinava havia já três anos e tanto, passou a receber mais dois outros e a tomar fascículos de romances franceses traduzidos, que o ambicioso lia de cabo a rabo, com uma paciência de santo, na doce convicção de que se instruía.
Admitiu mais três caixeiros; já não se prestava muito a servir pessoalmente à negralhada da vizinhança, agora até mal chegava ao balcão. E em breve o seu tipo começou a ser visto com freqüência na Rua Direita, na praça do comércio e nos bancos, o chapéu alto derreado para a nuca e o guarda-chuva debaixo do braço. Principiava a meter-se em altas especulações, aceitava ações de companhias de títulos ingleses e só emprestava dinheiro com garantias de boas hipotecas.
O Miranda tratava-o já de outro modo, tirava-lhe o chapéu, parava risonho para lhe falar quando se encontravam na rua, e às vezes trocava com ele dois dedos de palestra à porta da venda. Acabou por oferecer-lhe a casa e convidá-lo para o dia de anos da mulher, que era daí a pouco tempo. João Romão agradeceu o obséquio, desfazendo-se em demonstrações de reconhecimento, mas não foi lá.
Bertoleza é que continuava na cepa torta, sempre a mesma crioula suja, sempre atrapalhada de serviço, sem domingo nem dia santo; essa, em nada, em nada absolutamente, participava das novas regalias do amigo; pelo contrário, à medida que ele galgava posição social, a desgraçada fazia-se mais e mais escrava e rasteira. João Romão subia e ela ficava cá embaixo, abandonada como uma cavalgadura de que já não precisamos para continuar a viagem. Começou a cair em tristeza.
O velho Botelho chegava-se também para o vendeiro, e ainda mais do que o próprio Miranda. O parasita não saia agora depois do almoço para a sua prosa na charutaria, nem voltava à tarde para o jantar, sem deter-se um instante à porta do vizinho ou, pelo menos, sem lhe gritar lá de dentro: "Então, seu João, isso vai ou não vai?..." E tinha sempre uma frase amigável para lhe atirar cá de fora. Em geral o taverneiro acudia a apertar-lhe a mão, de cara alegre, e propunha-lhe que bebesse alguma coisa.
Sim, João Romão já convidava para beber alguma coisa. Mas não era à toa que o fazia, que aquele mesmo não metia prego sem estopa! Tanto assim que uma vez, em que os dois saíram à tardinha para dar um giro até à praia, Botelho, depois de falar com o costumado entusiasmo do seu belo amigo Barão e da virtuosíssima família deste, acrescentou com o olhar fito:
- Aquela pequena é que lhe estava a calhar, seu João!...
- Como? Que pequena?
- Ora morda aqui! Pensa que já não dei pelo namoro?... Maganão! O vendeiro quis negar, mas o outro atalhou:
- É um bom partido, é! Excelente menina... tem um gênio de pomba... uma educação de princesa: até o francês sabe! Toca piano como você tem ouvido... canta o seu bocado... aprendeu desenho... muito boa mão de agulha!... e...
Abaixou a voz e segredou grosso no ouvido do interlocutor:
- Ali, tudo aquilo é sólido!... Prédios e ações do banco!...
- Você tem certeza disso? Já viu?
- Já! Palavra d'honra!
Calaram-se um instante.
Botelho continuou depois:
- O Miranda é bom homem, coitado! tem lá as suas fumaças de grandeza, mas não o podemos criminar... são coisas pegadas da mulher; no entanto acho-o com boas disposições a seu respeito... e, se você souber levá-lo, apanha-lhe a filha...
- Ela talvez não queira...
- Qual o quê! Pois uma menina daquelas, criada a obedecer aos pais, sabe lá o que é não querer? Tenha você uma pessoa, de intimidade com a família; que de dentro empurre o negócio e verá se consegue ou não! Eu, por exemplo!
- Ah! se você se metesse nisso, que dúvida! Dizem que o Miranda só faz o que você quer...
- Dizem com razão.
- E você está resolvido a... ?
- A protegê-lo?... Sim, decerto: neste mundo estamos nós para servir uns aos outros!... apenas, como não sou rico...
- Ah! Isso é dos livros! Arranje-me você o negócio e não se arrependerá...
- Conforme, conforme...
- Creio que não me supõe um velhaco!...
- Pelo amor de Deus! Sou incapaz de semelhante sacrilégio!
- Então!...
- Sim, sim... em todo o caso falaremos depois, com mais vagar... Não é sangria desatada!
E desde então, com efeito, sempre que os dois se pilhavam a sós discutiam o seu plano de ataque à filha do Miranda. Botelho queria vinte contos de réis, e com papel passado a prazo de casamento; o outro oferecia dez.
- Bom! então não temos nada feito... resumiu o velho. Trate você do negócio só por si; mas já lhe vou prevenindo de que não conte comigo absolutamente... Compreende?
- Quer dizer que me fará guerra...
- Valha-me Deus, criatura! não faço guerra a ninguém! guerra está você a fazer-me, que não me quer deixar comer uma migalha da bela fatia que lhe vou meter no papo!... O Miranda hoje tem para mais de mil contos de réis! Agora, fique sabendo que a coisa não é assim também tão fácil, como lhe parece talvez...
- Paciência!
- O Barão há de sonhar com um genro de certa ordem!... Ai algum deputado... algum homem que faça figura na política aqui da terra!
- Não! melhor seria um príncipe!...
- E mesmo a pequena tem um doutorzinho de boa família, que lhe ronda muito a porta... E ela, ao que parece, não lhe faz má cara...
- Ah! nesse caso é deixá-los lá arranjar a vida!
- É melhor, é! Creio até que com ele será mais fácil qualquer transação...
- Então não falemos mais nisso! Está acabado!
- Pois não falemos!
Mas no dia seguinte voltaram à questão:
- Homem! disse o vendeiro; para decidir, dou-lhe quinze!
- Vinte!
- Vinte, não!
- Por menos não me serve!
- E eu vinte não dou!
- Nem ninguém o obriga... Adeuzinho!
- Até mais ver.
Quando se encontraram de novo, João Romão riu-se para o outro, sem dizer palavra. O Botelho, em resposta, fez um gesto de quem não quer intrometer-se com o que não é da sua conta.
- Você é o diabo!... faceteou aquele, dando-lhe no ombro uma palmada amigável. Então não há meio de chegarmos a um acordo?...
- Vinte!
- E, caso esteja eu pelos vinte, posso contar que...?
- Caso o meu nobre amigo se decida pelos vinte, receberá do Barão um chamado para lá ir jantar ao primeiro domingo; aceita o convite, vai, e encontrará o terreno preparado.
- Pois seja lá como você quer! mais vale um gosto do que quatro vinténs!
O Botelho não faltou ao prometido: dias depois do contrato selado e assinado, João Romão recebeu uma carta do vizinho, solicitando-lhe a fineza de ir jantar com ele mais a família.
Ah! que revolução não se feriu no espírito do vendeiro! passou dias a estudar aquela visita; ensaiou o que tinha que dizer, conversando sozinho defronte do espelho do seu lavatório; afinal, no dia marcado, banhou-se em varias águas, areou os dentes até fazê-los bem limpos, perfumou-se todo dos pés à cabeça, escanhoou-se com esmero, aparou e bruniu as unhas, vestiu-se de roupa nova em folha, e às quatro e meia da tarde apresentou-se, risonho e cheio de timidez, no espelhado e pretensioso salão de Sua Excelência.
Aos primeiros passos que dera sobre o tapete, onde seus grandes pés, afeitos por toda vida à independência do chinelo e do tamanco, se destacavam como um par de tartarugas, sentiu logo o suor dos grandes apuros inundar-lhe o corpo e correr-lhe em bagada pela fronte e pelo pescoço, nem que se o desgraçado acabasse de vencer naquele instante uma légua de carreira ao sol. As suas mãos vermelhas e redondas gotejavam, e ele não sabia o que fazer delas, depois que o Barão, muito solicito, lhe tomou o chapéu e o guarda-chuva.
Arrependia-se já de ter lá ido.
- Fique a gosto, homem! bradou-lhe o dono da casa. Se tem calor venha antes aqui para a janela. Não faça cerimônia! Ó Leonor! traz o vermute! Ou o amigo prefere tomar um copinho de cerveja?
João Romão aceitava tudo, com sorrisos de acanhamento, sem animo de arriscar palavra. A cerveja fê-lo suar ainda mais e, quando apareceram na sala Dona Estela e a filha, o pobre-diabo chegava a causar dó de tão atrapalhado que se via. Por duas vezes escorregou, e numa delas foi apoiar-se a uma cadeira que tinha rodízios; a cadeira afastou-se e ele quase vai ao chão.
Zulmira riu-se, mas disfarçou logo a sua hilaridade pondo-se a conversar com a mãe em voz baixa. Agora, refeita nos seus dezessete anos, não parecia tão anêmica e deslavada; vieram-lhe os seios e engrossara-lhe o quadril. Estava melhor assim. Dona Estela, coitada! é que se precipitava, a passos de granadeiro, para a velhice, a despeito da resistência com que se rendia; tinha já dois dentes postiços, pintava o cabelo, e dos cantos da boca duas rugas serpenteavam-lhe pelo queixo abaixo, desfazendo-lhe a primitiva graça maliciosa dos lábios; ainda assim, porém, conservava o pescoço branco, liso e grosso, e os seus braços não desmereciam dos antigos créditos.
À mesa, a visita comeu tão pouco e tão pouco bebeu, que os donos da casa a censuraram jovialmente, fingindo aceitar o fato como prova segura de que o jantar não prestava; o obsequiado pedia por amor de Deus que não acreditassem em tal e jurava sob palavra de honra que se sentia satisfeito e que nunca outra comida lhe soubera tão bem. Botelho lá estava, ao lado de um velhote fazendeiro, que por essa ocasião hospedava-se com o Miranda. Henrique, aprovado no seu primeiro ano de Medicina, fora visitar a família; em Minas. Isaura e Leonor serviam aos comensais, rindo ambas à socapa por verem ali o João da venda engravatado e com piegas de visita.
Depois do jantar apareceu uma família; conhecida, trazendo um rancho de moças; vieram também alguns rapazes; formaram-se jogos de prendas, e João Romão, pela primeira vez em sua vida, viu-se metido em tais funduras. Não se saiu mal todavia.
O chá das dez e meia correu sem novidade; e, quando enfim o neófito se pilhou na rua, respirou com independência, remexendo o pescoço dentro do colarinho engomado e soprando com alívio. Uma alegria de vitória transbordava-lhe do coração e fazia-o feliz nesse momento. Bebeu o ar fresco da noite com uma volúpia nova para ele e, muito satisfeito consigo mesmo, entrou em casa e recolheu-se, rejubilando com a idéia de que ia descalçar aquelas botas, desfazer-se de toda aquela roupa e atirar-se à cama, para pensar mais à vontade no seu futuro, cujos horizontes se rasgavam agora iluminados de esperança.
Mas a bolha do seu desvanecimento engelhou logo à vista de Bertoleza que, estendida na cama, roncava, de papo para o ar, com a boca aberta, a camisa soerguida sobre o ventre, deixando ver o negrume das pernas gordas e lustrosas.
E tinha de estirar-se ali, ao lado daquela preta fedorenta a cozinha e bodum de peixe! Pois, tão cheiroso e radiante como se sentia, havia de pôr a cabeça naquele mesmo travesseiro sujo em que se enterrava a hedionda carapinha da crioula?...
- Ai! ai! gemeu o vendeiro, resignando-se.
E despiu-se.
Uma vez deitado, sem animo de afastar-se da beira da cama, para não se encostar com a amiga, surgiu-lhe nítida ao espírito a compreensão do estorvo que o diabo daquela negra seria para o seu casamento.
E ele que até aí não pensara nisso!... Ora o demo!
Não pôde dormir; pôs-se a malucar:
Ainda bem que não tinham filhos! Abençoadas drogas que a Bruxa dera à Bertoleza nas duas vezes em que esta se sentiu grávida! Mas, afinal, de que modo se veria livre daquele trambolho? E não se ter lembrado disso há mais tempo!... parecia incrível!
João Romão, com efeito, tão ligado vivera com a crioula e tanto se habituara a vê-la ao seu lado, que nos seus devaneios de ambição pensou em tudo, menos nela.
E agora?
E malucou no caso até às duas da madrugada, sem achar furo. Só no dia seguinte, a contemplá-la de cócoras à porta da venda, abrindo e destripando peixe, foi que, por associação de idéias, lhe acudiu esta hipótese:
- E se ela morresse?...

CAPÍTULO XIV


Iam-se assim os dias, e assim mais de três meses se passaram depois da noite da navalhada. Firmo continuava a encontrar-se com a baiana na Rua de São João Batista, mas a mulata já não era a mesma para ele: apresentava-se fria, distraída, às vezes impertinente, puxando questão por dá cá aquela palha.
- Hum! hum! temos mouro na costa! rosnava o capadócio com ciúmes. Ora queira Deus que eu me engane!
Nas entrevistas apresentava-se ela agora sempre um pouco depois da hora marcada, e sua primeira frase era para dizer que tinha pressa e não podia demorar-se.
- Estou muito apertada de serviço! acrescentava à réplica do amante. Uma roupa de uma família que embarca amanhã para o Norte! Tem de ficar pronta esta noite! Já ontem fiz serão!
- Agora estás sempre apertada de serviço!... resmungava o Firmo.
- E que é preciso puxar por ele, filho! Ponha-me eu a dormir e quero, ver do que como e com que pago a casa! Não há de ser com o que levo daqui!
- Or'essa! Tens coragem de dizer que não te dou nada? E quem foi que te deu esse vestido que tens no corpo?!
- Não disse que nunca me desse nada, mas com o que você me dá não pago a casa e não ponho a panela no fogo! Também não lhe estou pedindo coisa alguma! Oh!
Azedavam-se deste modo as suas entrevistas, esfriando as poucas horas que os dois tinham para o amor. Um domingo, Firmo esperou bastante tempo e Rita não apareceu. O quarto era acanhado e sombrio, sem janelas, com um cheiro mau de bafio e umidade. Ele havia levado um embrulho de peixe frito, pão e vinho, para almoçarem juntos. Deu meio-dia e Firmo esperou ainda, passeando na estreiteza da miserável alcova, como um onça enjaulada, rosnando pragas obscenas; o sobrolho intumescido, os dentes cerrados. "Se aquela safada lhe aparecesse naquele momento, ele seria capaz de torcê-la nas mãos!"
À vista do embrulho da comida estourou-lhe a raiva. Deu um pontapé numa bacia de louça que havia no chão, perto da cama, e soltou um murro na cabeça.
- Diabo!
Depois assentou-se no leito, esperou ainda algum tempo, fungando forte, sacudindo as pernas cruzadas, e afinal saiu, atirando para dentro do quarto uma palavra porca.
Pela rua, durante o caminho, jurava que "aquela caro pagaria a mulata!" Um sôfrego desejo de castigá-la, no mesmo instante, o atraía ao cortiço de São Romão, mas não se sentiu com animo de lá ir, e contentou-se em rondar a estalagem. Não conseguiu vê-la; resolveu esperar até à noite para lhe mandar um recado. E vagou aborrecido pelo bairro, arrastando o seu desgosto por aquele domingo sem pagode. Às duas horas da tarde entrou no botequim do Garnisé, uma espelunca, perto da praia, onde ele costumava beber de súcia com o Porfiro. O amigo não estava lá. Firmo atirou-se numa cadeira, pediu um martelo de parati e acendeu um charuto, a pensar. Um mulatinho, morador no "Cabeça-de-Gato", veio assentar-se na mesma mesa e, sem rodeios, deu-lhe a noticia de que na véspera o Jerônimo, tivera alta do hospital.
Firmo acordou com um sobressalto.
- O Jerônimo?!
- Apresentou-se hoje pela manhã na estalagem.
- Como soubeste?
- Disse-me o Pataca.
- Ora ai está o que é! exclamou o capoeira, soltando um murro na mesa.
- Que é o quê? interrogou o outro.
- Nada! É cá comigo. Toma alguma coisa?
Veio novo copo, e Firmo resmungou no fim de uma pausa:
- É! não há dúvida! Por isto é que a perua ultimamente me anda de vento mudado!...
E um ciúme doido, um desespero feroz rebentou-lhe por dentro e cresceu logo como a sede de um ferido. "Oh! precisava vingar-se dela! dela e dele! O amaldiçoado resistiu à primeira, mas não lhe escaparia da segunda!"
- Veja mais um martelo de parati! gritou para o portuguesinho da espelunca. E acrescentou, batendo com toda a força o seu petrópolis no chão:
- E não passa de hoje mesmo!
Com o chapéu à ré, a gaforina mais assanhada que de costume, os olhos vermelhos, a boca espumando pelos cantos, todo ele respirava uma febre de vingança e de ódio.
- Olha! disse ao companheiro de mesa. Disto, nem pio lá com os Carapicus! Se abrires o bico dou-te cabo da pele! Já me conheces!
- Tenho nada que falar! Pra quê?
- Bom!
E ficaram ainda a beber.
Jerônimo, com efeito, tivera alta e tornara aquele domingo ao cortiço, pela primeira vez depois da doença. Vinha magro, pálido, desfigurado, apoiando-se a um pedaço de bambu. Crescera-lhe a barba e o cabelo, que ele não queria cortar sem ter cumprido certo juramento feito aos seus brios. A mulher fora buscá-lo ao hospital e caminhava ao seu lado, igualmente abatida com a moléstia do marido e com as causas que a determinaram. Os companheiros receberam-no compungidos, tomados de uma tristeza respeitosa; um silêncio fez-se em torno do convalescente; ninguém falava senão a meia voz; a Rita Baiana tinha os olhos arrasados d'água.
Piedade levou o seu homem para o quarto.
- Queres tomar um caldinho? perguntou-lhe. Creio que ainda não estás de todo pronto...
- Estou! contrapôs ele. Diz o doutor que preciso é de andar, para ir chamando força às pernas. Também estive tanto tempo preso à cama! Só de uma semana pra cá é que encostei os pés no chão!
Deu alguns passos na sua pequena sala e disse depois, tornando junto da mulher:
- O que me saberia bem agora era uma xicrinha de café, mas queria-o bom como o faz a Rita... Olha! pede-lhe que o arranje.
Piedade soltou um suspiro e saiu vagarosamente, para ir pedir o obséquio à mulata. Aquela preferência pelo café da outra doía-lhe duro que nem uma infidelidade.
- Lá o meu homem quer do seu café e torceu nariz ao de casa... Manda pedir-lhe que lhe faça uma xícara. Pode ser? perguntou a portuguesa à baiana.
- Não custa nada! respondeu esta. Com poucas está lá!
Mas não foi preciso que o levasse, porque daí a um instante, Jerônimo, com o seu ar tranqüilo e passivo de quem ainda se não refez de todo depois de uma longa moléstia, surgiu-lhe à porta.
- Não vale a pena estorvar-se em lá ir... Se me dá licença, bebo o cafezinho aqui mesmo...
- Entra, seu Jerônimo.
- Aqui ele sabe melhor...
- Você pega já com partes! Olha, sua mulher anda de pé atrás comigo! E eu não quero histórias!...
Jerônimo sacudiu os ombros com desdém.
- Coitada!... resmungou depois. Muito boa criatura, mas...
- Cala a boca, diabo! Toma o café e deixa de maldizência! É mesmo vicio de Portugal: comendo e dizendo mal!
O português sorveu com delícia um gole de café.
- Não digo mal, mas confesso que não encontro nela umas tantas coisas que desejava...
E chupou os bigodes.
- Vocês são tudo a mesma súcia! Bem tola é quem vai atrás de lábia de homem! Eu cá não quero mais saber disso... Ao outro despachei já!
O cavouqueiro teve um tremor de todo o corpo.
- Outro quem?! O Firmo?
Rita arrependeu-se do que dissera, e gaguejou:
- É um coisa-ruim! Não quero saber mais dele!... Um traste!
- Ele ainda vem cá? perguntou o cavouqueiro.
- Aqui? Qual! Nessa não caio! E se vier não lhe abro a porta! Ah! quando embirro com uma pessoa é que embirro mesmo!
- Isso é verdade, Rita?
- Quê? Que não quero saber mais dele? Esta que aqui está nunca mais fará vida com semelhante cábula! Juro por esta luz!
- Ele fez-lhe alguma?
- Não sei! não quero! acabou-se!
- É que então você tem outro agora...
- Que esperança! Não tenho, nem quero mais ter homem!
- Por que, Rita?
- Ora! não paga a pena!
- E... se você encontrasse um... que a quisesse deveras... para sempre?...
- Não é com essas!...
- Pois sei de um que a quer como Deus aos seus!...
- Pois diga-lhe que siga outro oficio!
Ela se chegou para recolher a xícara, e ele apalpou-lhe a cintura.
- Olha! Escuta!
Rita fugiu com uma rabanada, e disse rápido, muito a sério:
- Deixa disso. Pode tua mulher ver!
- Vem cá!
- Logo.
- Quando?
- Logo mais.
- Onde?
- Não sei.
- Preciso muito te falar...
- Pois sim, mas aqui fica feio.
- Onde nos encontramos então?
- Sei cá!
E, vendo que Piedade entrava, ela disfarçou, dizendo sem transição:
- Os banhos frios é que são bons para isso. Põem duro o corpo!
A outra, embesourada, atravessou em silêncio a pequena sala, foi ter com o marido e comunicou-lhe que o Zé Carlos queria falar-lhe, junto com o Pataca.
- Ah! fez Jerônimo. Já sei o que é. Até logo, Nhá Rita. Obrigado. Quando quiser qualquer coisa de nós, lá estamos.
Ao sair no pátio, aqueles dois vieram ao seu encontro. O cavouqueiro levou-os para casa, onde a mulher havia posto já a mesa do almoço, e com um sinal preveniu-os de que não falassem por enquanto sobre o assunto que os trouxera ali. Jerônimo comeu às pressas e convidou as visitas a darem um giro lá fora.
Na rua, perguntou-lhes em tom misterioso:
- Onde poderemos falar à vontade?
O Pataca lembrou a venda do Manuel Pepé, defronte do cemitério.
- Bem achado! confirmou Zé Carlos. Há lá bons fundos para se conversar.
E os três puseram-se a caminho, sem trocar mais palavras até à esquina.
Então está de pé o que dissemos?... indagou afinal aquele último.
De pedra e cal! respondeu o cavouqueiro.
- E o que é que se faz?
- Ainda não sei... Preciso antes de tudo saber onde o cabra é encontrado à noite.
- No Garnisé, afirmou o Pataca.
- Garnisé?
- Aquele botequim ali ao entrar da Rua da Passagem, onde está um galo à tabuleta.
- Ah! Defronte da farmácia nova...
- Justo! Ele vai lá agora todas as noites, e lá esteve ontem, que o vi, por sinal que num gole...
- Muito bêbado, hein?
- Como um gambá! Aquilo foi alguma, que a Rita Baiana lhe pregou de fresco!
Tinham chegado à venda. Entraram pelos fundos e assentaram-se sobre caixas de sabão vazias, em volta de uma mesa de pinho. Pediram parati com açúcar.
- Onde é que eles se encontravam?... informou-se Jerônimo, afetando que fazia esta pergunta sem interesse especial. Lá mesmo no São Romão?...
- Quem? A Rita mais ele? Ora o quê! Pois se ele agora é todo cabeça-de-gato!...
- Ela ia lá?
- Duvido! Então logo aquela! Aquela é Carapicus até o sabugo das unhas!
- Nem sei como ainda não romperam! interveio Zé Carlos, que continuou a falar a respeito da mulata, enquanto Jerônimo o escutava abstrato, sem tirar os olhos de um ponto.
O Pataca, como se acompanhasse o pensamento do cavouqueiro, disse-lhe emborcando o resto do copo:
- Talvez o melhor fosse liquidar a coisa hoje mesmo!...
- Ainda estou muito fraco... observou lastimoso o convalescente.
- Mas o teu pau está forte! E além disso cá estamos nós dois. Tu podes até ficar em casa, se quiseres...
- Isso é que não! atalhou aquele. Não dou o meu quinhão pelos dentes da boca!
- Eu cá também vou que o melhor seria pespegar-lhe hoje mesmo a sova... declarou o outro. Pão de um dia para outro fica duro!
- E eu estou-lhe com uma gana!... acrescentou o Pataca.
- Pois seja hoje mesmo! resolveu Jerônimo. E o dinheiro lá está em casa, quarenta pra cada um! Em seguida à mela corre logo o cobre! E ao depois vai a gente tomar uma fartadela de vinho fino!
- A que horas nos juntamos? perguntou Zé Carlos.
- Logo ao cair da noite, aqui mesmo. Está dito?
- E será feito, se Deus quiser!
O Pataca acendeu o cachimbo, e os três puseram-se a cavaquear animadamente sobre o efeito que aquela sova havia de produzir; a cara que o cabra faria entre três bons cacetes. "Então é que queriam ver até onde ia a impostura da navalha! Diabo de um calhorda que, por um - vai tu, irei eu - arrancava logo pelo ferro!..."
Dois trabalhadores, em camisa de meia, entraram na tasca e o grupo calou-se. Jerônimo fogueou um cigarro no cachimbo do Pataca e despediu-se, relembrando aos companheiros a hora da entrevista e atirando sobre a mesa um níquel de duzentos réis.
Foi direito para o cortiço.
- Fazes mal em andar por ai com este sol!... repreendeu Piedade, ao vê-lo entrar.
- Pois se o doutor me disse que andasse quanto pudesse...
Mas recolheu-se à casa, estirou-se na cama e ferrou logo no sono. A mulher, que o acompanhara até lá, assim que o viu dormindo, enxotou as moscas de junto dele, cobriu-lhe a cara com uma cambraia que servia para os tabuleiros de roupa engomada, e saiu na ponta dos pés, deixando a porta encostada.
Jantaram daí a duas horas. Jerônimo comeu com apetite, bebeu uma garrafa de vinho, e a tarde passaram-na os dois de palestra, assentados à frente de casa, formando grupo com a Rita e a gente da Machona. Em torno deles a liberdade feliz do domingo punha alegrias naquela tarde. Mulheres amamentavam o filhinho ali mesmo, ao ar livre, mostrando a uberdade das tetas cheias. Havia muito riso, muito parolar de papagaios; pequenos travessavam, tão depressa rindo como chorando; os italianos faziam a ruidosa digestão dos seus jantares de festa; ouviam-se cantigas e pragas entre gargalhadas. A Augusta, que estava grávida de sete meses, passeava solenemente o seu bandulho, levando um outro filho ao colo. O Albino, instalado defronte de uma mesinha em frente à sua porta, fazia, à força de paciência, um quadro, composto de figurinhas de caixa de fósforos, recortadas a tesoura e grudadas em papelão com goma-arábica. E lá em cima, numa das janelas do Miranda, João Romão, vestido de casimira clara, uma gravata à moda, já familiarizado com a roupa e com a gente fina, conversava com Zulmira que, ao lado dele, sorrindo de olhos baixos, atirava migalhas de pão para as galinhas do cortiço; ao passo que o vendeiro lançava para baixo olhares de desprezo sobre aquela gentalha sensual, que o enriquecera, e que continuava a mourejar estupidamente, de sol a sol, sem outro ideal senão comer, dormir e procriar.
Ao cair da noite, Jerônimo foi, como ficara combinado, à venda do Pepé. Os outros dois já lá estavam. Infelizmente, havia mais alguém na tasca. Tomaram juntos, pelo mesmo copo, um martelo de parati e conversaram em voz surda numa conspiração sombria em que as suas barbas roçavam umas com as outras.
- Os paus onde estão?... perguntou o cavouqueiro.
- Ali, junto às pipas... segredou o Pataca, apontando com disfarce para uma esteira velha enrolada. Preparei-os ainda há pouco... Não os quis muito grandes... Deste tamanho.
E abriu a mão contra a terra no lugar do peito.
- Estiveram de molho até agora... acrescentou, piscando o olho.
- Bom! aprovou Jerônimo, esgotando o copo com um último gole. Agora onde vamos nós! Parece-me ainda cedo para o Garnisé.
- Ainda! confirmou o Pataca. Deixemo-nos ficar por aqui mais um pouco e ao depois então seguiremos. Eu entro no botequim e vocês me esperam fora no lugar que marcamos... Se o cabra não estiver lá, volto logo a dizer-lhes, e, caso esteja, fico... chego-me para ele, procuro entrar em conversa, puxo discussão e afinal desafio-o pra rua; ele cai na esparrela, e então vocês dois surgem e metem-se na dança, como quem não quer a coisa! Que acham?
- Perfeito! aplaudiu Jerônimo, e gritou para dentro: - Olha mais um martelo de parati!
Em seguida enterrou a mão no bolso da calça e sacou um rolo grosso de notas.
- Podem enxugar à vontade! disse. Aqui ainda há muito com que...
E, ordenando as notas, separou oitenta mil-réis, em cédulas de vinte.
- Isto é o do ajuste! Este é sagrado! acrescentou, guardando-as na algibeira do lado esquerdo.
Depois separou ainda vinte mil-réis, que atirou sobre a mesa.
- Esse aí é para festejarmos a nossa vitória!
E fazendo do resto do seu dinheiro um bolo, que ele, um pouco ébrio, apertava nos dedos, agora, claros e quase descalejados, socou-o na algibeira do lado direito explicando entre dentes que ali ficava ainda bastante para o que desse e viesse, no caso de algum contratempo.
- Bravo! exclamou Zé Carlos. Isto é o que se chama fazer as coisas à fidalga! Haja contar comigo pra vida e pra morte!
O Pataca entendia que podiam tomar agora um pouco de cerveja.
- Cá por mim não quero, mas bebam-na vocês, acudiu Jerônimo.
- Preferia um trago de vinho branco, contraveio o terceiro.
- Tudo o que quiserem! franqueou aquele. Eu tomo também um pouco de vinho. Não! que o que estamos a beber não é dinheiro de navalhista, foi ganho ao sol e à chuva com o suor do meu rosto! É entornar pra baixo sem caretas, que este não pesa na consciência de ninguém!
- Então, à sua! brindou Zé Carlos, logo que veio o novo reforço. Pra que não torne você a dar que fazer à má casta dos boticários!
- À sua, mestre Jerônimo! concorreu o outro.
Jerônimo agradeceu e disse, depois de mandar encher os copos:
- Aos amigos e patrícios com quem me achei para o meu desforço!
E bebeu.
- À da S'ora Piedade de Jesus! reclamou o Pataca.
- Obrigado! respondeu o cavouqueiro, erguendo-se. Bem! Não nos deixemos agora ficar aqui toda a noite; mãos a obra! São quase oito horas.
Os outros dois esvaziaram de um trago o que ainda havia no fundo dos copos e levantaram-se também.
- É muito cedo ainda... obtemperou Zé Carlos, cuspindo de esguelha e limpando o bigode nas costas da mão.
- Mas talvez tenhamos alguma demora pelo caminho, advertiu o companheiro, indo buscar junto às pipas o embrulho dos cacetes.
- Em todo o caso vamos seguindo, resolveu Jerônimo, impaciente, nem se temesse que a noite lhe fugisse de súbito.
Pagou a despesa, e os três saíram, não cambaleando, mas como que empurrados por um vento forte, que os fazia de vez em quando dar para a frente alguns passos mais rápidos. Seguiram pela Rua de Sorocaba e tomaram depois a direção da praia, conversando em voz baixa, muito excitados. Só pararam perto do Garnisé.
- Vais tu então, não é? perguntou o cavouqueiro ao Pataca.
Este respondeu entregando-lhe o embrulho dos paus e afastando-se de mãos nas algibeiras, a olhar para os pés, fingindo-se mais bêbedo do que realmente estava.

Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV à Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI e Capítulo XII
Capítulo XIII e Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XVIII
Capítulo XIX e Capítulo XX
Capítulo XXI
Capítulo XXII e Capítulo XXIII