CORAÇÃO,
CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco
TERCEIRA PARTE
ESTÔMAGO
DE COMO ME CASEI
CAPÍTULO I
Procurei o refúgio
dos penates, o lar em que derivam bem-aventuradas as gerações
dos meus passados. Saboreei-me nas delícias do repouso, posto
que em volta de mim só visse as imagens da numerosa família
que descansava no pavimento da pequenina igreja. Lá estavam
todos, como operários, que findaram sua jeira e, ao entardecer,
encostaram a face ao pedestal da cruz e adormeceram.
Meditei no suave viver de meus pais e comparei-o às dores,
umas lastimáveis e outras ridículas, que me tinham delido
o coração, e desconcertado o aparelho de pensamento.
Viver segundo a razão, alvitre que os filósofos pregoam,
é bom de dizer-se e desejar-se, mas enquanto os filósofos
não derem uma razão a cada homem, e essa razão
igual à de todos os homens, o apostolado é de todo inútil.
Melhor avisados andam os moralistas religiosos, subordinando a humanidade
aos ditames de uma mesma fé; todavia - e sem menoscabo dos
preceitos evangélicos que altamente venero -, parece-me que
o homem, sincero crente, e devotado cristão, no meio destes
mouros, que vivem à luz do século, e meneiam os negócios
temporais a seu sabor, tal homem, se pedir a seu bom juízo
religioso a norma dos deveres a respeitar, e dos direitos a reclamar,
ganha créditos de parvo, e morre sequestrado dos prazeres da
vida, se quiser poupar-se ao desgosto de ser apupado, procurando-os.
Como sabem, eu nunca andei em boas-avenças com a religião
de meus pais; e por isso me abstenho de lhe imputar a responsabilidade
das minhas quedas, seja dos pináculos aéreos onde o
coração me alçou, seja do raso da razão,
onde as quedas, bem que baixas, são mais igminiosas. Eu comparo
o cair das alturas do coração à queda que se
dá dum garboso cavalo: quem nos vê cair pode ser que
nos deplore; mas decerto nos não acha ridículos. Ora,
o cair da baixeza dos cálculos racionais é coisa que
faz riso aos outros, e por isso muito comparável ao tombo que
damos dum ignóbil burro. O cavalo despenha-nos e, com as crinas
eriçadas, resfolga e arqueia-se com gentis corcovos. O burro,
depois que nos sacode pelas orelhas, não é raro escoicear-nos.
É o mesmo, se a comparação vos quadra, nas quedas
do amor e nas quedas do raciocínio. Das primeiras erguemo-nos
sacudindo as folhas secas de umas ilusões, enquanto outros
gomos vêm já desabrolhando na alma para mais tarde reflorirem.
Das segundas não há senão lama a sacudir e muita
pisadura a curar com o bálsamo do tempo e duma vida brutalmente
desapegada de tudo que ultrapassa o momento da sensação.
A este viver assim de convalescença é que eu, por não
sei que simpatia com a víscera essencial das nobilíssimas
funções animais e espirituais, denominei o estômago.
Não cuidem, porém, que eu hei-de consumir o restante
da minha individualidade em comer. Há faculdades que não
se obliteram imolando-as a uma única manifestação
da vida orgânica: o mais que pode fazer o espírito é
impulsioná-las, concentrá-las e convergi-las todas para
um ponto. De maneira que todas as minhas faculdades de ora em diante
em volta do estômago as rege, e não há-de alguma
idéia preocupar-me sem sair elaborada nas mesmas cinco horas
que os fisiologistas assinam às funções digestivas.
CAPÍTULO II
Logo que me aposentei para largo tempo na minha casa, curei de remover
e prevenir todos os empeços ao sessego das minhas digestões.
Quando esta providência falta, nenhum cálculo vinga.
Nenhuma semente vos desabrocha bem prosperada, se descurais o amanho
da terra. Antes sair com as mãos feridas do arroteamento de
carrascais e silvedos que ver abafados os renovos entre o mato. Notem
já que a minha linguagem vai adquirindo um corpo e cor e uma
certa consistência que não tinha. Os entendidos hão-de
achar que esta gravidade sentenciosa só pode dá-la uma
inteligência algum tanto espalmada pela pressão do estômago.
E assim é que se explicam os adiposos bacamartes do frade,
cujo intelecto se nutria e inflava nas roscas do cachaço, pedestal
digno daquelas grandes e repletas cabeças. A ci6encia do frade,
pois, era a ciência das funções alimentícias.
Todo o estômago, bem regulado, produz um génio.
Convinha-me, pois, vassourar da minha testada um influência
odiosa: era o regedor da freguesia que nunca ma havia perdoado os
artigos em que lhe excruciei a estúpida ferocidade contra recrutas.
A segunda vítima, destinada ao sacrifício da minha pachorrenta
paz, era o vigário.
Enquanto ao regedor, as dificuldades deviam ser enormes, visto que
todos os governos tinham achado nele um galopim, que vingava trezentos
e vinte sufrágios.
Era preciso contaminar-lhe os créditos com a broca da retórica.
Acerquei-me de três lavradores influentes da freguesia, expus-lhe
a decadência do País e a inevitável perda da independência
nacional, se continuássemos a dar o nosso voto irracionalmente
a deputados da confiança do regedor.
Dei em minha casa prelecções de direito constitucional
a estes e outros lavradores levados pelos primeiros. Feri faíscas
naquelas cabeças tapadas como pedreiras de mármore negro,
e posso afoitamente asseverar que nunca a eloquência fez maiores
milagres. Falei-lhes em nome do estômago, como Menénio
Agripa, no monte sagrado, aos romanos fugidiços de Roma. Compreenderam
o apólogo melhor que eu mesmo, e pediam-me com entusiasmo a
repetição da história. O meu fito, remedando
o meu ilustre predecessor no doutrinamento da plebe, mirava a convencê-la
de que o regedor da freguesia era o cancro do estômago social.
Facto admirável do instinto! Quando eu disse isto, levaram
todos a mão à barriga. E assim se prova que o órgão
mais sensível à eloquência é ela, e que
a humanidade sofredora é um estômago desconcertado, é
bem assim se prova que todos os regedores facciosos podem ser banidos
da confiança popular mediante o argumento do cancro, que eu
ofereço a todas as oposições.
Acertou de estar próxima a luta eleitoral. O regedor bateu
às portas dos eleitores com o macete das listas, e encontrou
em cada lavrador um doutrinário, um cidadão que falava
da liberdade do sufrágio com muito menos parvoiçadas
que a maior parte dos jornalistas. Enraivecido contra as minhas sugestões,
o funcionário oficiou ao governador civil pedindo-lhe autorização
para me prender. O governador civil deu a ordem pedida, mandando ao
secretário que a lavrasse, e citou a lei do código eleitoral
que me aplicava a captura. Ora, como quer que o secretário
folheasse o código e não encontrasse ao artigo, a autoridade
superior do distrito oficiou ao regedor lamentando com ele a impossibilidade
da minha prisão.
Seguiu-se perder o governo as eleições e o regedor adoeceu
de maleitas.
Passados meses, caiu o Ministério, caíram as autoridades,
e eu fui nomeado regedor.
Eis aqui o meu primeiro pulo na carreira política.
O meu velho inimigo, quando recebeu o ofício da demissão,
tremia como Mariano Faliero ouvindo as fatais badaladas de S. Marcos.
Um meu criado - para nada faltar à comparação
com o desastre do infausto doge - foi ao campanário da igreja
e repenicou o sino. Ao mesmo tempo, o meu vizinho Joaquim do Quinchoso
atirou aos astros dois foguetes de lágrimas, que tinha sisado
ao mordomo da festa do orago. Na aldeia próxima saiu à
rua o Tio Manuel da Bouça com o lombo, e o meu compadre João
da Fonte, que fora músico das milícias de Miranda, acordou
os ecos das serras com o seu trompão.
O ex-regedor, escorrendo o suor glacial da morte, ergueu-se sobre
os joelhos no seu catre, inteiriçou os braços descarnados;
e, quando ia morrer nos braços do vigário, comeu uma
perna de galinha, e salvou-se.
Mais um argumento da capacidade do estômago para afogar em si
as decepções da política!
Como a câmara electiva fosse dissolvida, decretou o poder executivo
novas eleições. Deram-se contra mim os pés o
vigário e o ex-regedor. A influ6encia do primeiro era temível.
Para contrariar-lha nas vésperas do sufrágio, industriei
o meu fiel criado a prender a consciência política do
padre com o cabresto do garrano do mesmo. O leitor acha dura de entender
esta metáfora. Foi assim: o meu criado entrou numa bouça,
onde pastava o garrano; tirou-o para o monte; desceu com ele a garganta
de duas montanhas, e foi prendê-lo num recôncavo de matagal
onde o vigário só pudesse encontrá-lo com tardias
informações dalgum pastor desgarrado por aquelas brenhas.
Cumpre, porém, dizer, em pró da minha equidade, que
o garrano, indigno de ser castigado com o amo, recebia todas as noites
porção de feno e bebia do arroio límpido que
lhe banhava os pés.
O vigário, azoado com a perda, e tolhido de ir arengar aos
paroquianos das aldeias vizinhas, sentiu-se baldo de entusiasmo e
patriotismo e deixou o seu correligionário em campo.
Venci as eleições por espantosa maioria. Disse-o o sino
a reboar por aquelas quebradas; disseram-no as violas e zabumbas de
sete aldeias: o ar incendiou-se de foguetes de três estalos,
e eu fiz subir às nuvens um balão, feito de jornais
em que eu fora redactor.
O garrano voltou, nesse mesmo dia, à porta do vigário,
que o estreitou ao peito em fervoroso amplexo e exclamou: - Fizeste-me
perder a eleição; mas para outra vez a ganharemos! Vem,
filho pródigo!
CAPÍTULO III
Dois meses depois recebi o hábito de Cristo, solicitado pelo
governador civil.
Seguiu-se a romaria de S. João, e eu levei o hábito.
O ex-regedor, quando me viu a cruz e a fitinha escarlate, estava encostado
a uma pipa bebendo o seu quartilho e discorrendo acerca do real-d'água
e quinto para a amortização das notas, que ele chamava
uma ladroeira. De repente, dá de cara comigo. Cai-lhe da mão
convulsa o copo, encosta a fronte pálida ao ombro da taverneira,
que tinha boas espáduas para suportar aquela esfera de granito,
e ia desmaiar, quando, ao chegarem-lhe aos beiços uma caneca
de água, ele disse que o mais acertado era chegarem-lhe vinho.
E, bebendo, recobrou-se de cores, ganhou o aprumo e, para disfarce,
deu um piparote no nariz da moça.
Deixá-lo lá com as suas foscas, o infeliz! Come-lhe
as entranhas o rancor político. Um dia virá em que ele,
descoroçoado de apanhar a regedoria, veja a Pátria pelos
olhos de Bruto e, com b pequeno, se deixe morrer duma fartadela de
rojões de porco, sem alguma esperança de renome entre
as vítimas do patriotismo. Não!, pobre tolo que tinhas
em ti uma alma tal e qual, ceteris paribus, como a dos grandes estadistas,
que se hão-de rir de tuas agonias: não, meu émulo
desditoso, a posteridade falará de ti, as gerações
provindouras lerão nesta página, mais durável
que o bronze das estátuas, o teu infortúnio e a minha
generosidade. Voere perenius victis!
O hábito de Cristo foi causa a episódios não
despiciendos nestas memórias.
No arraial de S. João andava o sargento-mor de Soutelo com
sua filha única, Tomásia.
Tomásia era mulher de carne e osso mais que o ordinário.
Vestia de amazona: mas ficava um pouco aquém dos limites da
elegância, porque era mais larga na cintura que nos ombros -
visível defeito do vestido. Tinha uns longes de cara admiráveis:
figurava-se-me uma flor de magnólia entre duas rocas de cerejas.
O sargento-mor, que também era cavaleiro de Cristo, desde 1812,
pensava desde muito casar Tomásia com cavaleiro da mesma ordem.
Conhecia-me ele de nome e formava de mim opinião desvantajosa:
não assim a moça que me tinha visto anos antes, numa
festa de Endoenças, e gostara de me ver com a opa verde de
irmão das almas, funcionando nas cerimónias da igreja.
A casa do sargento-mor rendia quinhentas medidas de centeio, meia
pipa de azeite e vinte carros de castanha; sustentava três juntas
de bois e quatro irmãos padres.
O leitor ignora, talvez, a jerarquia dum sargento-mor. Pensa que é
uma patente destas que enchem a cobiça do coração
de uma costureira ou criada de sala, a quem o sargento oferece sua
alma e oito vinténs diários de pré?
O sargento-mor das antigas milícias era um potentado, imediato
na jerarquia ao capitão-mor, com quem por igual se repartiam
os lombos e os respeitos sociais. O baque da monarquia absoluta, esmagando
com os privilégios o acatamento que os privilegiados incutiam,
respeitou o sargento-mor de Soutelo. Os povos reverenciavam-no no
teor antigo e testemunhavam seu acatamento presenteando-o com os lombos
dos cevados, tal e qual como nas ominosas eras em que o sargento e
o capitão-mores representavam, no aparelho gástrico
do absolutismo, um dos intestinos mais importantes - o recto, se quiserem.
Tomásia era um rapariga desempenada e com olhares derretidos.
De entendimento era escura, como quem não sabia ler, nem tivera,
alguma hora, desgosto de sua ignorância. Tinha vinte e seis
anos e nunca estivera doente. Nunca tomara chá nem café.
Almoçava caldo de ovos com talhadas de chouriço. O Sol,
ao nascer, nunca a surpreendeu em jejum. Trabalhava de portas adentro
com as criadas: fazia as barrelas, fabricava o pão, administrava
a salgadeira e vendia os cereais e as castanhas. Regularmente calçava
soquinhas debruadas de escarlate e sarapintadas de verde. As meias
eram de lã ou algodão azuis; mas não usava ligas,
de jeito que as meias caiam em refegos à roda do tornozelo
- o que não era feio. Nas romarias, calçava sapato de
fitas e trazia chapéu desabado com plumas brancas. Os pulsos
eram duma cana só, como lá dizem para exprimirem a força.
Cada palma de mão parecia uma lixa; e elogiar-lhe o cuidado
das unhas seria adulação indigna da minha sinceridade.
Dentes nunca os vi ricos de esmalte. Limpava-os com erva do monte,
que lá chamam mentrasto; e as pomadas das suas opulentas tranças
louras eram a água cristalina do tanque em que ela mergulhava
a cabeça todas as manhãs. Sentava-se depois à
sombra dum castanheiro, nos dias festivos, a pentear-se, e era belo
vê-la então coberta de seus cabelos até à
cintura, que moura mais linda a não sonharam poetas, em orvalhadas
de S. João, alisando as madeixas com pente de ouro.
Assim foi que eu a vi quando cheguei à janela do quarto em
que pernoitara na casa do sargento-mor, descendo eu duma feira onde
fora vender um macho e comprar bezerros para criação.
CAPÍTULO IV
O pai de tomásia, erguia a toalha da mesa, onde almoçámos,
às sete horas da manhã, sopa de ovos, salpicão,
batatas ensopadas com toucinho e toucinho cozido com batatas, disse-me
que sua filha estava casadeira e ele disposto a casá-la comigo,
se eu quisesse. Antes que eu respondesse, inventariou os seus cabedais,
o valor do património dos seus quatro irmãos padres,
os quais estavam presentes e unanimemente disseram que tudo deixavam
por escritura a sua sobrinha.
Pedi espera de alguns dias para responder; e a inst6ancias de todos,
passei aquele dia em Soutelo.
Tomásia, que tinha almoçado na cozinha, segundo o seu
costume, quando havia hóspedes em casa, apareceu-me, meia-hora
depois do almoço, perguntando-me se queria comer uma tigela
de requeijão e beber um pichel de vinho verde.
Gostei desta patriarcal franqueza e desci à cozinha, onde encontrei
sobre a mesa do escabelo, adorno da lareira, uma tigela vermelha vidrada
com requeijão e um pichel reluzente de estanho a transbordar
de espumoso vinho verde. Tomásia sentou-se do outro lado e
comeu e bebeu como a filha de Labão com Jacob.
Conversámos nestes termos também patriarcais:
- Quantos anos tem a Sra. Tomásia? - perguntei.
- Vinte e seis, feitos pela Santa Luzia.
- Muito bem empregados. Admiro que vossemecê não esteja
ainda casada!
- Ainda não é tarde.
- Também digo: mas quem é tão bonita como a Sra.
Tomásia onde quer acha um noivo.
- Sou sã e escorreita. Deus louvado. Se lhe pareço bonita,
isso é dos seus olhos. Coma uma colher de requeijão,
e beba, que o vinho está muito fresco.
- Está excelente, mas eu não posso mais.
- Então fraco homem é!
- Almocei contra o meu costume. Estou afeito a almoçar leves
de café ou chá.
- Credo! Vossemecê bebe chá por almoço?!
- Pois então!
- Ora essa! Cá em casa há chá, que o compra meu
tio padre João, mas é para as dores de barriga. À
minha boca nunca ele foi, em boa hora o diga!
- As comidas fortes dão-se bem com o seu estômago?
- Ora se dão! Nunca estive doente dois dias a fio.
- Costuma cear?
- Pudera não! Almoço, janto, merendo e ceio: é
o costume cá de casa; e vossemecê?
- Eu começo agora, desde que vim para a aldeia, a comer melhor;
mas não pude ainda habituar-me a cear.
- Pois quem não ceia, toda a noite rabeia: é ditado
dos velhos. Então não come mais?
- Mais nada.
- Pois se quer vir daí à casa da eira, eu vou lá
ver o que fazem os moços. Isto de servos, se a gente lhe tira
os olhos de cima, pegam a mandriar que não fazem nada. Quer
vir?
- Com muito gosto.
Tomásia encheu um grande cabaz de fruta e uma cabaça
de vinho.
- Levo isto aos moços - disse ela - porque eles, quando eu
chego à sua beira, estão sempre a olhar-me para as mãos.
- Se quer, eu levo a cabaz e o vinho - disse eu.
- Não é preciso: eu posso bem com isto.
- Ao menos deixe-me levar uma das coisas.
- Então leve a cabaça, que pesa menos.
Caminhámos ombro a ombro para a casa da eira. Tomásia
parou muitas vezes a saudar os velhos e velhas que ia encontrando.
Os velhos diziam-lhe:
- Deus te guarde, flor.
E as velhas já de longe vinham dizendo:
- Aí vem o anjinho do Céu, a mãe da pobreza.
E ela ia tirando do cabaz alguns punhados de fruta para dar às
que não a tinham de sua casa.
Passámos no adro da igreja.
Em frente da porta principal, Tomásia depôs o cesto sobre
o baixo muro do adro, fitou os olhos no santo, que tinha o seu nicho
sobre a padieira da porta, fez curta oração, benzeu-se
e tomou o cabaz.
Ao assomarmos ao beirado da eira, os criados, que andavam a limpar
o centeio com pás e peneiras, redobraram de canseira.
- Assim que nos lobrigaram - disse Tomásia -, olhe como eles
labutam! São uns calaceiros daquela casta!
E, levantando a voz, disse:
- Venham à fruta, a ver se refrescam. O serviço que
vocês todos seis Têm feito fazia-o eu sozinha com uma
perna às costas. Sempre estão umas rabaças, vocês!
Enquanto os criados comiam sofregamente as cerejas, as peras, os malápios
e os gelemendes, Tomásia, ora com a pá, ora com a peneira,
limpou uma rima de centeio, procurando a eminência mais ventilada
da eira. O vento sacudia-lhe levemente a fimbria da saia de chita
curta de grandes rofegos na cintura. Como erguia os braços
ao alto, as largas mangas da camisa arregaçavam até
aos ombros, e os folhos alvíssimos do peitilho, soprados pela
viração, descobriam-lhe o seio, até onde o vento
pode descobrir sem desairar o pudor.
Pareceu-me bonita assim, muito mais que vestida de amazona, calçada
de duraque, e implumada, qual a vi na romagem do S. João.
Voltaram os servos para o trabalho, e Tomásia veio sentar-se
ao pé de mim debaixo dum coberto de colmo.
- Está fatigada? - disse-lhe eu!
- Agora estou! Vim para aqui fazer-lhe um migalho de companhia e depois
torno lá. Hoje o pão há-de ficar nas tulhas,
custe o que custar.
- E deixa-me sozinho aqui?!
- Vossemecê, em se aborrecendo, vá para a casa, que lá
está o pai e os tios. Vá jogar a bisca com os padres,
que eles gostam muito. Sempre são!... Eu, se tivesse filhos,
padre, Deus me perdoe, que não havia de ser nenhum!
- Porquê? Tem zanga dos padres?
- Agora tenho; os padres são a imagem de Deus; mas não
fazem nada numa casa; dizem a sua missa, vão aos enterros e
às festas, mas coisa de botarem a mão a uma sachola
para tapar uma poça, ou cortar um agueiro, isso não
é capaz! Olhe vossemecê ali em minha casa quatro padres
duma assentada sem fazerem nada, a olharem uns pròs outros
e a lerem a gazeta de Lisboa... Eles aí vêm... é
milagre saírem de casa a esta hora! Vêm cá pr'amor
do Sr. Silvestre.
Chegam os quatro clérigos, e um deles vinha com a Nação
em punho, explicando aos outros um relanço difícil do
artigo de fundo.
Fui consultado acerca da passagem obscura, e o meu parecer esclareceu
as dúvidas. Tomásia, enquanto eu falava uma linguagem
para ela inapercebida, estava com os olhos postos em mim. Os padres
louvaram a minha esperteza, e o mais velho, oráculo dos outros,
disse:
- Ora o senhor, com esse talento que Deus lhe deu, devia ser realista!...
É uma ingratidão não defender a religião
de nossos pais quem tanto deve à Providência.
Redargui que respeitava a religião de nossos pais e que a política
era uma coisa incidental na vida das nações, de todo
o ponto estranho à religião.
Discutimos mansamente uma hora.
Tomásia fatigou-se logo de nos ouvir e foi trabalhar. |
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