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CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco



CAPÍTULO VII

A polícia correccional
Escrevi um artigo contra Anselmo Sanches, cuidando que assim vingava o género humano. Saiu o artigo na secção dos comunicados: o proprietário do jornal declinou a responsabilidade moral e legal da ofensa ao doutor. Rompeu-me assim das entranhas o ódio que as queimava:
Sr. Redactor:
Há casos em que o silêncio é um crime! À vista de infâmias que sobreexcedem e transbordam a paciência humana, não há aí peito de ferro que se contenha!
...............Nam quis iniquae
Tam patiens urbis, tam ferreus, ut teneat se...?
Aqui é o caso de dizer como o cantor de Camões:
Ergo-me a delatar tamanho crime
E eterna a voz me gelará nos lábios.
Vinde a mim, hipócritas!
Vinde ao sevo do escândalo, celerados que andais nas encruzilhadas assalteando a honra dos infelizes descautelosos!
Aqui tendes charco para vos rebalsardes, cerbos!
Aqui está um dos vossos, que apunhalou a alma dum marido, crucificou uma esposa ao madeiro de eterno opróbrio e sovou aos pés uma coroa virginal.
Isto era o exórdio, que os meus inimigos chamaram farfalhada. Seguia-se depois a exposição chã da protérvia de Anselmo Sanches, arranjada em três capítulos, cada um com uma epígrafe. A primeira era: Quousque tandem, Catilina?... Achou toda a gente literata muita novidade nesta passagem de Cícero a propósito de Anselmo. A segunda epígrafe era Proh pudor, proh dolor! - também nova. O terceiro capítulo rompia com o Me, me adsum qui feci, in me convertite ferrum. O todo era broslado de passagens latinas, que tornavam o meu artigo um parto de indignação e outro parto de sapiência.
Guardava eu as justas conveniências em embuçar os nomes das duas mulheres, que figuravam no quadro infesto à dignidade humana; mas abstive-me de cerimónias com o doutor.
O meu artigo levantou contra mim celeuma de pessoas honestas, e até jornais honestos me saíram de revés, acoimando-me de indiscreto, licencioso e causa ocasional de escândalo. É boa tolice esta! Uma gazeta sisuda, maravilhando-se de que eu fizesse queixumes, não sendo sequer marido da dama, aplicou-me os sabidos versos de Nicolau Tolentino:
Apóstolo impertinente
Pra que hás-de tu suar,
Se não sua o padecente?
Anselmo, como visse que a imprensa e a opinião pública estavam com ele contra o jornal, por abuso. O responsável declinou sobre mim, e eu fui sentar-me no banco dos réus em polícia correccional.
O advogado de acusação era um jurisperito de grande nomeada e uma gravidade de colarinhos assustadora. O meu patrono foi, nomeado ex-officio: era um bacharel verde em anos e sorvado em inteligência.
A acusação fez o penegírico dos séculos áureos em que não havia imprensa, nem as vidas das famílias estavam expostas aos enxovalhos de escrevinhadores devassos.
"Sr. Dr. Juiz de Direito!", exclama ele, "o santuário da família não pode continuar à mercê destes esfoladores de reputações! A mulher casada treme no pedestal da sua virtude; o esposo honrado, num país de imprensa livre, anda como ovos em peneira; a virgem honesta é estrangulada no seu decoro, quando se embala no inocente berço das suas afectuosas aspirações aos sacratíssimos, direitos da maternidade. (Neste ponto, o escrivão do processo limpou as lágrimas ao lenço vermelho do tabaco.) Sr. Dr. Juiz de Direito, prossegue o Demóstenes, com os braços em arco e o semblante em lavaredas de transporte. Todos temos mulher e filhas, filhas estremecidas e esposas ternas. Que importa a inviolabilidade destas santas afeições, se a pena do foliculário, estilando o negro fel da calúnia, nos verte no coração a peçonha da desordem doméstica e nos expõe às vaias públicas?! Um marido vive em boa paz com sua mulher: vem um refalsado escritor e diz-lhe: "Tua mulher é desleal!, tua mulher roubou-te os doces mimos!" Horrível, Sr. Dr. Juiz de Direito!, horrível! Desde este momento a paz da família é como diz Job; o esposo tornou-se a fábula do povo; e a esposa, maculada sem mácula, aí fica infamada em si e na sua posteridade, por todos os séculos dos séculos! O cidadão probo e laborioso, se cuida que a honradez de sua vida o há-de escoar dos tiros da calúnia, engana-se.
Aqui está o exemplo palpitante da actualidade. O Dr. Anselmo Sanches alcançou o quadragésimo ano de sua existência, sem que o ódio ou a inveja lho denegrisse com a baba pestilente da aleivosia. Todas as famílias se honraram de o terem na sua confiança. Em todas as casas honestas ele tem tido acesso como amigo, como irmão e como brasão das virtudes familiares em que ele é conselheiro, e baluarte, sem rebuço o digo, e baluarte -, hei-de chamar-lhe sem lisonja baluarte, paládio sancta sactorum, das virtudes das famílias suas relacionadas. Pois ei-lo aqui pedindo às leis que o justifiquem perante o mundo e impondo ao fel cuspido por infamadora boca que volte ao negro peito donde saiu!...
Esqueceu-me o restante do discurso, que não precisava deter-se mais para ganhar o bom êxito. Os espectadores, os escrivães, o juiz, os esbirros, as testemunhas de acusação, todos estavam comovidos, quando o meu advogado tomou a palavra e disse que eu escrevera um romance sem intenção de ofender designadamente pessoa nenhuma. Anselmo Sanches é um nome - argumentava o causídico - que eu inventara, sem talvez saber que ele já estivesse inventado, e tanto assim era que o seu cliente ficara pasmado de se ver citado aos tribunais para responder pelos involuntários devaneios da sua imaginação opulenta e já provada noutros muitos contos de que ninguém se queixara.
Isto fez sensação.
O doutor pediu licença para dizer que, se era verdade eu não o querer ofender, declarasse que todas as alusões, julgadas pela opinião pública em descrédito dele autor, eram um mero composto de fantasia.
O juiz voltou-se para mim e disse:
- Declara, pois, o Sr. Silvestre da Silva que é romance o seu artigo?
- Nada, não declaro.
- Como?! - tornou o juiz.
- O meu Anselmo Sanches é aquele - redargui apontando a grão-besta.
Este gesto, se fosse visto por gente fina, devia de produzir a comoção que faz nos espectadores o "Ninguém!" de D. João de Portugal apontando o seu retrato na tragédia de Garrett.
- Pois o Sr. Silvestre insiste em caluniar o cavalheiro que generosamente lhe perdoa?!
- Rejeito o perdão de quem o deve a Deus, e à sociedade, e ao seu amigo que atriçoou, à mulher do seu amigo que cobriu de ignomínia, à pupila do seu amigo, que debalde quer lavar nas lágrimas a nódoa eterna.
- Mas que testemunhas dá o senhor da verdade das suas acusações?
- Três - respondi.
- Quais?! Do processo não consta alguma, nem o senhor aduziu alguma em sua defesa.
- As minhas testemunhas depõem em silêncio.
- Isso é absurdo.
- Pois, Sr. Dr. Juiz, creia Vossa Senhoria no absurdo, como Tertuliano: "Quod absurdum, credo."
- Não tenho que ver com Tertuliano; provas de arguição é do que a lei conhece aqui. Quem são as três testemunhas?
- É um marido que está prostrado de vergonha e de aflição num leito. É a mulher deste marido, que está doida. É uma órfã, recolhida nas Ursulinas de Braga, que está... prostituída. São estas as três testemunhas.
Anselmo Sanches pôs os olhos no tecto e exclamou:
- Ó Céus!
- É a repetição da calúnia, que o Sr. Silvestre nos está dando? - interpelou o juiz.
O juiz recolheu-se ao santuário da sua consciência. Reinou profundo sossego de meia hora, finda a qual os autos passaram à mão do escrivão, que leu a sentença.
Fui condenado em cinquenta mil réis de multa, três meses de prisão e custas do processo.
Bati, como Galileu, o chão com o pé e disse: "Seja como for, o Sr. Sanches é um infame."
Paguei a multa e custas e remi o tempo de prisão a dinheiro.
Anselmo Sanches recebeu os emboras dos seus numerosos amigos.
A mim deram-me o epíteto de caluniador convicto. Os jornais acharam cordata a sentença e lamentaram que as aberrações do bom senso comprometessem a imprensa em semelhantes derrotas, desprestigiando-a e armando contra ela os inimigos.
Olhei em derredor de mim, procurando amigos que me roborassem a consciência da minha justiça, esmagada a coices de seus sacerdotes. Fugiam das minhas declamações os que me haviam excitado a verberar o doutor.
Tive então nojo mortal da sociedade e de mim, que Deus fizera dum barro menos vil, mas amassado no fel e vinagre do que se chama força da alma e desprezo do martírio.
Entendi que devia corrigir a obra do Criador. A minha primeira operação de reforma foi renunciar para sempre às manifestações da inteligência, e jurei comigo de nunca mais dar na estampa escrito que não abonasse uma conscienciosa parvoíce, talismã de tantos que aí correm, e à conta dos quais muitos meus colegas na imprensa se afortunaram e benquistaram com o mundo.
Acabou, pois, aqui, minha vida intelectual.
Nem já coração, nem cabeça. Principia agora o meu auspicioso reinado do estômago.
Nota
O autor remata aqui o período da sua vida de escritor, omitindo fases importantes e subsídios preciosos para a história literária das províncias do Norte. Em romance dispensam-se bem certas miudezas, que não deleitam, nem fazem chorar nem rir; é porém minha opinião que as menores coisas, na vida dum homem estremado do vulgo, são factos significativos.
Silvestre estudou conscienciosamente o viver íntimo da cidade heróica e enfeixou as suas observações sob o título O mundo Patarata, que, no seu modo de sentir, era sinónimo de mundo elegante.
No vigésimo oitavo caderno dos seus manuscritos li as seguintes páginas, que merecem entrar no templo da imortal memória com seu autor:
Se o mundo elegante no Porto será o mundo patarata de toda parte?
O mundo elegante é a sociedade polida, lustrada, envernizada no corpo e no pensamento, na acção e na palavra, na intenção e na obra.
Patarata quer dizer ostentação vã.
Elegância quer dizer escolha.
Poderão as duas coisas emparceirar-se num mesmo indivíduo, numa mesma classe?
É onde bate o ponto.
Demonstrado que ostentação vã é a máxima pataratice, o mundo elegante geme sob a pressão racionalista da lógica.
Por outro lado, evidenciada a urgência da patarata na vida real, como as visualidades na ilusão teatral, a pataratice é incremento da civilização.
É o luxo o estímulo das artes e da circulação do numerário - dizem os economistas infalíveis. A pataratice é a arte amestrada pelo aguilhão do luxo. Ora, se o mundo elegante é o consumidor das espécies, que constituem o luxo, e o fomentador da prosperidade das artes, segue-se que o mundo elegante é o mundo patarata.
Crê nisto toda pessoa que já ouviu dizer que há uma coisa chamada lógica pela qual se prova que o mundo cabe num cesto, se o cesto for maior que o mundo.
A elegância também é sinônimo de beleza.
A sociedade elegante não pode ser substancial e formalmente a sociedade bela.
A tomarmo-la assim, fumigaríamos com incenso derrancado olfactos modestos que já espirrariam contra a lisonja.
A lisonja é a assafétida das boas almas, das almas escolhidas, ou elegantes.
Na sociedade escolhida há pessoas que têm a consciência de serem feias.
Aí se compreendem todas as caras possíveis desde a malaia até à georgiana.
Todas as inteligências imagináveis.
Todas as progénies admissíveis na ordem da propagação.
Todas as virtudes, ainda as mais hipotéticas.
Há uma sociedade que não tem obrigação de ser outra coisa logo que é elegante.
A sua missão é andar à tona do mar revolto da vida como as alforrecas.
O pássaro é um animal volátil, o peixe é um animal nadador, o réptil é um animal rasteiro, o elegante é um animal... elegante.
Diz A. Karr que Deus fizera a fêmea e o homem fizera a mulher.
Ora, a mulher não se limitou a fazer do macho um homem: fez uma brochura dependente do engenho do encadernador.
O espírito subiu da glândula pineal para o frisado; o entendimento desceu a reluzir no polimento das botas; o coração entumecido enfumou os bofes da camisa; as aspirações grandiosas acolchetaram-se à abotoadura dos diamantes; os apertos de alma atribulada passaram para o atesamento da luva.
A alma, conquanto seja um ser imponderável, veste tafetás e lemistes, calça verniz, enluva-se de pelica, bamboa-se em coxins; e, se exercita algumas operações intelectuais e filosóficas, é quando se mete no estômago, como Diógenes na cuba.
Do mundo elegante são excluídas as pessoas de todos os sexos possíveis as quais não provarem que dependem como se tivessem para mais de doze mil cruzados de renda.
Se os têm ou não, essa averiguação incumbe aos lançadores da décima, impostos anexos e quinto para a amortização das notas.
Cá, o essencial e condicional é parecer que os tem; porquanto: A benigna lei económica da circulação monetária aceita como factos do dinheiro;
Porque a modista, o alfaiate, sapateiro, luveiro, boleeiro, camaroteiro, e os demais satélites do orbe elegante, são entes de índole tão sincera, que nem por pensamento suspeitam da má natureza dos mananciais donde a moeda deriva pelos meandros da sociedade escolhida.
Como quer que seja, a sociedade honesta não fica desairada encansando-se no mundo elegante. A pataratice de alguns raios postiços da boa roda não tem que ver com o eixo - a parte sã e legitimamente escolhida da alta sociedade.
O mundo elegante, na segunda cidade de Portugal, denota civilização muito adiantada.
Aqui é tudo asiático, menos o espírito que se ala quase nada às idealizações do Oriente.
Regalias materiais, fausto, cortesania, gentileza, puritanismo de raça, bizarria, donaire, feitiço de gestos e maneiras, é um pasmar o que por aí vai disso!
Não se explica a celeridade com que as camadas se desbastaram nestes últimos vinte anos. A que estava então no topo da jerarquia social ficou fazendo as mesuras solenes das velhas açafatas, por se não mesclar com o gracioso despejo da sociedade média. Esta, porém, com toda a punjança de um sangue novo, surgiu de salto, feita, e composta, como se o bom-tom lhe fosse herança de séculos.
É pasmoso!
As damas portuenses são muito mais iluminadas que os homens portuenses.
Entra-se num salão e admira-se o desembaraço das senhoras e o encolhimento canhestro dos galãs. O mais audaz encosta-se ao batente da porta e não ousa transpor o limiar sem que a rebecada do coro, núncia da primeira contradança, autorize a entrada em gorgolões, como a dos rapazes pela escola dentro.
Este acanhamento, porém, é de bom agouro.
Homens de talento e espírito são os que mais se acovardam diante de senhoras. No Porto há muito talento e espírito por força.
Os patetas, os lorpas, os atiradiços, são por via de regra os mais festeiros e festejados na sociedade, umas vezes com a cristã virtude da indulgência, outras com o riso zombeteiro da ironia.
Há por cá de tudo. Deus louvado!
E bom é que haja para que os tédios da uniformidade não volvam o mundo elegante às fórmulas dorminhocas da sociedade velha, em que o casquilho tomava a quinta chávena de chá, a pedido da dona da casa, e torcia um tendão a dançar o minuete, enquanto a menina fazia tossir ao cravo notas roufenhas, com grande aplauso e grandes abrimentos de boca, de seis velhas entendidas em cravo. Etc.
Não é menos valioso elemento, para quem se der a escrever a fisiologia do Porto, um artigo de Silvestre, que trasladamos dum jornal coevo. Dedica ele o seu escrito AS PESSOAS MELANCÓLICAS
Eureka!
Arquimedes.
Pela primeira vez, em minha vida, sinto a legítima vaidade de ser útil à humanidade padecente.
Por imprevisto acaso, entrei no grémio dos "humanitários", como agora se diz.
Oferece-se mais uma cabeça às bênçãos da humanidade por entre as cabeças do Hollowe dos unguentos, do inventor da Revalenta, do inspirado manipulador da pílula da família, do mirífico engenho que espremeu do fígado do bacalhau o óleo restaurador dos pulmões.
Declaro desde já que não inventei o remédio para a epizootia, nem os pós insecticidas, nem a cura do mormo real.
Os meus estudos patológicos actuam todos sobre a raça humana, posto que as enfermidades do gado vacum e suíno chamem de preferência a atenção do homem, animal carnívoro, que come o boi, porque o boi se não emancipou ainda e está dois séculos mais atrasado que o jumento, cuja emancipação é hoje indispensável.
De passagem direi que me espanta e indigna o desvelo que os governos empregam no exame das moléstias, que dizimam os animais prestantes para a cozinha.
É uma questão de estômago e não há aí questão de estômago que não avulte as proporções de uma questão nacional.
Se acontece grassar uma febre que devora centenares de pessoas, os conselhos de saúde descuram de averiguar os sintomas do andaço, não delegam visitadores às farmácias homicidas de província, nem aviltam os melhoramentos higiénicos de que depende a salubridade pública.
Adoece, porém, o boi, e para logo surgem os Hipócrates bovinos escrevendo aforismos e as corporações medicatrizes instauram congressos de sanidade e destacam membros científicos a vencerem tanto por dia.
Não se cura tão pressurosamente de valer ao homem, porque o homem não é comestível. Pois indivíduos há que comem o boi, e são por isso mais antropófagos que se comessem o homem.
Fecha-se a digressão impertinente.
No que eu trazia há muito empenhadas as minhas vigílias era no descobrimento dum antídoto contra a melancolia.
A medicina conhece uma doença moral chamada "hipocondria". Os sintomas desta enfermidade são as desordens digestivas, as flatulências, os espasmos, a exaltação da sensibilidade, os terrores pânicos, a impertinência dos sentimentos morais, etc. Os indivíduos mais inteligentes e mais imaginativos, quando irritados pelas paixões, ou fatigados pelo trabalho de espírito, são mais sujeitos a estes sucessos incuráveis, quando as influências morais os não curam.
Não era esta enfermidade, de origem corpórea, a que me preocupava. A malancolia, sem flatulência nem perturbações estomacais, a que tanto ataca os inteligentes como os idiotas, era esse o meu fito.
Horas e dias terríveis passam por nós como períodos negros da existência.
Cai-nos a fronte para o seio, onde o coração nos dói premido por mão de ferro. Não há lembrança feliz que possa estrelar-nos o caos da imaginação: não há raio de sol que faça abrir flor de esperança em nossa alma arada pelo desconforto.
Essa situação é comum a muitas pessoas: só não a conhecem aquelas que travam aliança ofensiva e defensiva com a estúpida alegria, contra as intermitências dolorosas do espírito.
O amador ditoso tem horas de melancolia terna: essas são as melhores da sua vida. Aí dele quando o murmúrio do regato, e a cruz do ermo, e a Lua espelhada nas águas, lhe dão humedecer os olhos de dulcíssimas lágrimas!
O amante infeliz tem sezões aflitivas que o excruciam e desesperam. Para esses dois, tão diferentes no padecer, há uma só panaceia: é o coração da mulher, essa divina botica de todos os bálsamos para todas as feridas, abertas na refrega das paixões nobres.
Mas, afora a melancolia do amor, há uma outra sem causa, sem preexistência dolorosa, sem antecedentes que possam indicar ao médico da alma os meios terapêuticos.
Sentem-na aqueles mesmos que a fortuna acaricia com todos os mimos deste mundo.
É a que mata os ricaços da Grã-Bretanha e a que tortura os ricos ociosos de todas as nações, onde há Sol e Lua, onde o céu é azul e a atmosfera diáfana.
Não é costume nosso matarmo-nos quando o aborrecimento da vida nos enjoa.
Em país algum seria maior a estatística dos suicídios do que em Portugal, se o tédio nos vencesse.
E no Porto?
Deus nos livre disso!
O vestíbulo do teatro lírico seria em cada noite um cemitério; nos bailes, a cada instante, se ouviria a denotação dum tiro; as senhoras levariam cristais de ácido prússico para se matarem ao cabo da tediosa parolice do par dançante; do Jardim de S. Lázaro, aos domingos, iria o pároco levantar algumas dezenas de cadáveres; os próprios templos onde há organistas seriam borrifados de sangue suicida.
Aqui no teatro não se morre de tédio; mas abre-se a boca e buzina-se um vagido sonolento.
No baile ninguém se mata; mas devoram-se gelados para apagar o vulcão da idéia suicida, ou abarrota-se o estômago de sanduíches para que a alma bruta predomine sobre a outra, ou tresfega-se a garrafeira do dono da casa para alucinar e entreter o espírito, como coisa exótica, do ar artificial de uma estufa.
Mas estes remédios não passam de paliativos. A reação, depois, é pior. Falecida a vida de empréstimo, o espírito fica letárgico, marasmado e até inábil para exercer as funções da presidência de uma câmara municipal.
Depois do artigo de fundo, a coisa que mais brutaliza a alma é a melancolia.
O poeta, que vos encampa as suas amarguras em redondilha maior, escreveu as trovas, com ânimo folgado, no intervalo de duas orgias.
A melancolia é sorna e estéril. Camões escreveu a sua epopeia nos dias da esperança.
Quando a tristeza desanimadora o entrou, já não pôde escrever para o fidalgo, que lha pedia, uma paráfrase dos salmos.
Uma inteligência em quietismo não danifica os interesses materiais dum país, e até certo ponto pode considerar-se providencial o pousio; mas um cidadão analfabeto, embrutecido pela melancolia, se a sua qualidade civil é importante como deve ser, pode prejudicar gravemente os interesses da cidade.
Ainda bem que a melancolia raro se atreve a perturbar o funcionalismo intelectivo de certas cabeças, cuja organização é maravilha. Daí provém a traça metódica e auspiciosa com que o homem supinamente ignorante regula os seus negócios. Há nessa cabeça a perene claridade dum fundo de garrafa de cristal. As ideias impedem-lhe congeladas da abóbada craniana como as estalactites duma caverna. Dessa imobilidade imperturbável de cérebro resulta a fixidez da mira posta num alvo, a pertinácia das empresas e o conseguimento dos bons efeitos.
Ainda não vi tão cabal e logicamente explicado o fortunoso êxito de algumas riquezas granjeadas pela inépcia.
Não obstante, o número dos bastardos da fortuna é muito maior. O leitor é de certo um dos que tem em cada dia uma hora de enojo, de quebranto, de melancolia, de concentração dolorosa, de desapego à vida, de misantropia e de diálogo terrível com o fantasma da aniquilação.
É para esse que eu vim, à hora decretada pela providência dos descobrimentos, com o coração a trasbordar de filantrópico júbilo, anunciar o antídoto contra a melancolia.
Bem pudera eu, à imitação de famigerados varões, apresentar, como de engenho meu, o invento da receita, que um obscuro químico deixou como legado de penosas lucubrações. Quem ele fosse não posso eu dizê-lo, porque o modesto inventor julgou-se um átomo da humanidade e, doando-lhe o seu óbolo de talento, não quis glorificar-se de um tesouro que não era mais que transitório depósito em suas mãos.
Eis aqui a receita:
Junco cheiroso - onça e meia.
Íris-de-florença - uma onça.
Pau sândalo - onça e meia
Pau de roseira - onça e meia
Casca de laranja e limão - onça e meia
Cravo-da-Índia - uma oitava
Vinagre rosado - quatro onças
Estes ingredientes lançam-se numa vasilha, que se coloca ao fogo. A pessoa melancólica aspira-lhe o perfume por alguns segundos. A primeira sensação é deliciosa para o olfato. Segue-se um geral sentimento de bem estar físico, de desopressão cerebral, de transporte e contentamento de espírito.
Resta fazer uma reflexão toda pessoal que intende com o desinteresse do signatário do artigo. Não vão pensar que se tem de olho uma daquelas medalhas com que a Real Sociedade Humanitária galardoa os que socorrem o próximo em aflição. Por enquanto o instituto desta munificentíssima sociedade não premeia os socorros prestados à alma: a caridade destes bons tempos de máxima ilustração verte os seus bálsamos somente sobre o corpo. Quando, porém, retrogradarmos ao ponto de se considerarem beneméritos da Real Sociedade Humanitária os propagadores de receitas contra a melancolia, hipocondria e outras enfermidades espirituais, então, não só as medalhas humanitárias, mas até os hábitos de Cristo que a munificência régia dá aos pianistas virão galardoar os obreiros do espírito que se dedicam a melhorar a alma do seu semelhante.


SETE MULHERES
Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e V

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VIII

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX


Jornalista

PÁGINAS SÉRIAS DE MINHA VIDA
Capítulo I à VI
Capítulo VII e NOTA

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX
Capítulo X e NOTA