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CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco



SEGUNDA PARTE

CABEÇA

JORNALISTA

CAPÍTULO I

O homem não se deve somente à sua felicidade - primeira máxima.
O principal egoísta é aquele que se descia em explorar o coração alheio para opulentar o próprio com as deleitações do amor - segunda máxima.
Como a felicidade do egoísta é um paradoxo, a felicidade pelo amor é impossível - terceira máxima.
Quarta - o bem particular é resultado do bem geral.
Quem quiser ser feliz há-de convencer-se de que sacrificou ao bem geral uma parte dos seus prazeres individuais - quinta máxima.
O amor, considerado fonte de contentamentos ideais, é o sonho dum doido sublime - sexta.
Sétima - a mulher é uma contingência: quem quiser constituí-la essência de sua vida aleija-se na alma e cairá setenta vezes sete vezes das muletas a que se ampare do chão mal gradado e barrancoso do seu falso caminho.
Estas sete máximas fui eu que as compus, depois de ler a antiguidade e alguns almanaques que tratavam do amor.
Entrei a cogitar no modo de ser útil à humanidade com a minha experiência e inteligência do coração humano. Ofereceu-se-me logo azo de exercitar as minhas benévolas disposições. Escrevi para o Periódico dos Pobres, do Porto, uma correspondência contra o regedor da minha freguesia, acusando-o de me prender um criado para recruta. Nesta correspondência discorri largamente acerca dos direitos do homem. Examinei o que foi a liberdade em Grécia e Roma. Procurei-a no berço do cristianismo e vim com ela, através dos séculos, até a Revolução Francesa, que eu denominei o último verbo da sociabilidade humana: tudo isto por causa do recruta e contra o regedor da minha freguesia, que eu cobri de epítetos tais como ominoso e paxá de três caudas.
O regedor respondeu-me e eu repliquei. Seguiu-se uma série de correspondências, que podiam formar um livro importante para a história dos costumes dos regedores em Portugal no século XIX.
O prurido de escrever correspondências a respeito doutras muitas coisas, e mormente da dotação do clero - matéria que veio a ponto, quando eu tive uma questão com o meu pároco por causa da côngrua e pé-de-altar -, insinuou-me a persuasão de que havia em mim pronunciadas tendências para escritor político. Discutia-se naquele tempo o Sr. Conde de Tomar, a quem uns chamavam Barba-Roxa e outros marquês de pombal. Decidi-me a favor dos segundos, que tinham incontestável razão. Escrevi uma série de artigos, como muito suco, em grande parte copiados do Dicionário Político de Garnier-Pagés; e, na parte de minha lavra, havia ali uma verdura de ideias que ninguém lhe metia dente. Por essa ocasião recebi de vários pontos do País diferentes cartas, umas insultadoras, capitulando-me de besta; outras, no mais moderado de seus encómios, profetizavam em mim o Girardin português. De Mirandela recebi a lisonjeira nova de se andarem quotizando alguns amigos da ordem para me oferecerem uma pena. Veio a pena, passado algum tempo; mas era uma pena de galinhola, uma zombaria que eu repeli com todas as potências do meu desprezo.
Como as minhas doutrinas andassem encontradas com as do regador e do pároco - afeiçoados à revolução militar de 1844 -, maquinaram eles contra mim ciladas, que me iam sendo fatais, sob pretexto de eu ser partidário do Sr. Costa Cabral. As sevícias do rancor chegaram ao extremo de me matarem uma cabra, que pastava no passal do vigário, e aleijaram-me uma égua, que num ímpeto de castidade, escoiceara um garrano do regedor. Estas prepotências eram indicadas dalgum grande atentado contra minha vida. Saí, portanto, da minha aldeia e fui para o Porto expor com desassombro ao sol da civilização os meus talentos em matéria de governação pública.
Fiquei grandemente surpreendido e embaçado quando cheguei ao Porto e dei fé que ninguém se ocupava a falar de mim! À mesa-redonda do hotel onde me hospedei tratou-se o assunto da política; e, como era essa a feliz conjunção de eu divulgar o meu nome, encaminhei habilmente a controvérsia, até me declarar Silvestre da Silva, autor dos artigos epigrafados "Os Portugueses na balança do mundo".
Ninguém me conheceu o nome, a não ser um literato localista, que teve a audácia de me dizer que os meus artigos tresandavam ao montezinho e que as minhas ideias entouriam o estômago intelectual como se fossem castanhas cozidas. Donde ele concluía que a minha literatura tinha a cor local dos meus alimentos e denunciavam a morosidade das minhas digestões.
Devo a este lorpa a popularidade que alcancei logo aos primeiros dias da minha chegada. Àqueles sarcasmos respondi com um murro de consistência provinciana, murro que devia também ter a cor local da pesada digestão das castanhas. O literato desafiou-me e teve a bravura de me propor um duelo à pistola à ponta de lenço. Responderam os meus padrinhos que eu optava pelo murro à ponta do nariz. Com esta pequena modificação à sua proposta, o localista retirou a honra da peleja e desafogou na secção das locais, chamando-me onagro e vários adjectivos, cujo período eu lhe arredondei com um puxão de orelhas na primeira ocasião.
Assim, pois, inaugurei a minha entrada no Porto.


CAPÍTULO II

Naquele tempo, a cidade heróica estava muito mais adiantada em policiamento que hoje. Uma dúzia das principais famílias abriam frequentemente os seus salões e rivalizavam na profusão do serviço. Comia-se muito.
Posto que os dissabores fundos da minha vida passada me fizessem ver com tédio os regalos da sociedade, fui obrigado pela minha posição nas letras a comparecer nos focos da civilização. Escrevi alguns folhetins, historiando os prazeres fictícios daquelas noitadas, e mediante eles granjeei a estima das donas da casa; e quer-me parecer que, se eu tivesse coração naquela época, as virtudes da cidade da virgem seriam hoje uma coisa muito equívoca.
Como detesto a fatuidade, inibo-me de contar as demonstrações mais ou menos recatadas que recebi de singular afecto.
Não intento desdourar as demais senhoras de Portugal dizendo que as há no Porto que se avantajam em formosura a quantas conheço, excepto a leitora.
A mulher do Porto, como ela era há quinze anos, estava por adelgaçar, gozava-se de cores ricas de bom sangue; era redonda e brunida em todas as suas formas; o ofegar do seu peito comprimido pelas barbas do colete era como a oscilação duma cratera que vai romper à superfície; dardejava com os olhos; ria francamente com os lábios inteiros; deixava ver o esmalte dos dentes e o rosado das gengivas; meneava os braços com toda a pujança dos seus músculos reforçados; pisava com gentil desenvoltura; dizia com toda a lisura as suas primeiras impressões; ria-se com os chistes dos galãs que tinham graça; ouvia sentimentalmente as tristezas dos cépticos; doidejava nas vertigens da valsa; bebia o seu cálice de Porto; comia com angélico despejo uma dezena de sanduíches; tornava para as danças com redobrado ardor; e, ao repontar da manhã, quando as flores da cabeça lhe caiam murchas e as trancinhas da madeixa se empastavam com o suor da testa, a mulher do Porto era ainda formosa, mais formosa ainda pelo cansaço, a disputar lindeza à aurora, que nascera para lhe disputar a beleza.
E eu, vendo-as, pensava nisto e sentia não ter coração para elas!
Ai!, dez anos depois, a mulher do Porto já não era assim, não!
Tinha passado por elas o bafo pestilencial do romance. Liam e morriam para a verdade e para a natureza legítima. Invejavam a palidez das pálidas e a espiritualidade das magras. Tal menina houve que bebeu vinagre com pó de telha; e outras, mais suspirosas e avessas ao vinagre, desvelavam as noites emaciando o rosto à claridade doentia da lua. Algumas tossiam constipadas e queriam da sua tosse catarrosa fingir debilidade do peito, que não pode com o coração. Muitas, à força de jejuns, desmedravam a olhos vistos e amolgavam as costelas entre as compressas de aço do colete.
Estas não são já as mulheres que eu vi, sadias e frescas, como se saíssem do paraíso terreal, antes que o autor da vida as condenasse às dores e à morte.
Foi o romance que degenerou as raças, porque lá de França todas as heroínas, em 8.º e a 200 réis ao franco. Vêm definhadas, tísicas, em jejum natural, tresnoitadas, levadas da breca. Nunca se dá que os romancistas, nos digam o que elas comem, quantas horas dormem, quantos cozimentos de quássia tomam para dessaburrar o estômago, qual género de alimento preferem, que doutrinas de higiene adoptaram, quantos amantes afagam para cicatrizarem os golpes da perfídia com o pêlo do mesmo cão. Mal haja uma literatura que transtorna fundamentalmente a digestão e o sono, estes dois poderosos esteio da saúde, da graça, da formosura e de tudo que é poesia e gozo neste mundo! Se alguma vez o romancista nos dá, no primeiro capítulo, uma menina bem fornida de carnes e rosada e espanejada como as belas dos campos, é contar que, no terceiro capítulo, ali a temos prostrada numa otomana, com olheiras a revelar o cavalo do rosto, com a cintura a desarticular-se dos seus engonços, com as mãos translúcidas de magreza, os braços em osso nu e os olhos apagados nas órbitas, orvalhadas de lágrimas.
Pouca gente alcança os limites do desarranjo que estes envenenadores impunes causam nos costumes e na transmissão da espécie.
Estas mulheres desassisadas, que se imolam aos caprichos duma literatura, por não terem coisa séria em que empreguem a imensa energia do seu espírito, quando tornam a si, e se correm da sua inépcia, tarde vem o arrependimento, que, nos melhores anos, deram cabo das melhores forças. Obrigadas a viverem nos limites da razão, casam-se, e curam de reconstruir o edifício desconjuntado da saúde, comendo e bebendo e dormindo regularmente; mas as molas digestivas já têm então perdido as suas forças; os glóbulos cruóricos do sangue não se retingem jamais; as pulsações batem frouxas; o ar filtra ao pulmão por canais obstruídos; e não há contrapor à segunda natureza, formada por molestos artifícios, cuidados medicinais, que vinguem a antiga compleição deteriorada. Que frutos quereis que desentranhem estas árvores meladas e desmeduladas? Frutos pecos e outoniços, filhos enervados, e como flores mimosas fenecidas ao autor do sol, que lhes cai a prumo em plena vida.
Estas meninas de quinze anos, que eu hoje conheço no Porto, são as filhas das robustas donzelas, que me enchiam de satisfação os olhos na minha mocidade. Que degeneração! Vê-las numa sala é ver as virgens lagrimosas e lívidas, que se pintam nas criptas dos mosteiros góticos. Que tristeza de olhar e que dengoso fastio no falar! Quando se reclinam nas almofadas dum sofá parece que desmaiam narcotizadas; quando polcam, e se deixam ir arrebatadas nos braços dos parceiros, afigura-se-me que de sua parte não há mais acção nem movimento que o das asas, do ar que lhe agita a orla do vestido, volátil e vaporoso como éter. Que degeneração!
Ó mulheres do Porto, ó virgens saudosas da minha mocidade, ó santas da natureza como Deus as fizera, que é feito de vós, que fizeram de vós os romances, e o vinagre, e a Lua, e o pó de telha, e as barbas do colete, e os jejuns, e a ausência completa do boi cozido, que vossas mães antepuseram às mais legítimas e respeitáveis inclinações do coração?!


CAPÍTULO III

Naquele tempo, as minhas cogitações eram todas dirigidas por cálculos e raciocínios. O meu alvo mais remoto era ser ministro da coroa. Estavam as minhas faculdades regidas pela cabeça. As cabeças de alguns ministros, quando não tivessem outro préstimo, nem provassem outra coisa, muito puderam, convencendo-me da minha aptidão para os cargos superiores da república. Eu conhecia na intimidade uns homens de inteligência espalmada e cabeça escura como o cano duma bota; homens sem ciência nem consciência; rebotalhos da humanidade, arremessados à margem pela torrente caudal das transformações sociais; espíritos tolhidos de gota, sem saudades, sem crenças, nem aspirações; entulhos de má morte, que atravancavam todo o progresso e escarneciam com gosmento sorriso as expansões atrevidas da geração nova que a cada passo queria arvorar um marco de adiantamento. Conheci estes homens, e conheci-os ministros da coroa, sopesando debaixo dos pés chumbados à terra, que ameaçava engoli-los, a explosão das ideias e o peito da mocidade que se afrontava com o possante atleta da rotina.
Comecei a publicar uma série de artigos contra os velhos, e disse mesmo que era necessário matá-los, como na Índia os filhos faziam aos pais inválidos para o trabalho. Estes artigos criaram os meus créditos de estadista, e muitas simpatias. Escrevi o panegírico da geração nova, se bem que a geração nova não tinha feito coisa nenhuma. Disse que a mocidade estava a rebentar de cometimentos grandiosos em serviço dos interesses materiais do País. Todos os meus artigos falavam em cometimentos grandiosos e interesses materiais do País.
Naquele tempo fui convidado a alistar-me na maçonaria, e, depois de prestar os juramentos terríveis sobre uma bainha de espada, único objeto do ritual que então apareceu, fui proposto para orador da loja, e aí fiz os meus ensaios de eloquência sanguinária, pedindo diferentes cabeças, como quem pede confeitos pela Semana Santa. Os meus irmãos ouvintes, que tinham que tinham todos uns nomes de guerra medonhos, tais como Átila, Gengiscão e Alarico, tomaram-me tamanho medo que me foram denunciar à polícia como demagogo e me exautoraram das funções da palavra.
Assanhado pelos estorvos, que me embargavam o passo, escrevi contra a estupidez da geração nova, que não valia mais que a velha, e chamei os povos às armas. O ministério público deu querela por abuso de liberdade de imprensa contra o jornal, cujo redactor principal era eu. O jornal foi condenado e os assinantes não pagaram no fim do segundo trimestre.
Empenhei a minha casa para sustentar a gazeta, que três vezes foi condenada na multa e custas. A final, quando me vi exaurido de recursos e cansado de lutar com a indiferença pública, achei em mim terrível analogia de destino com todos os redentores intempestivos da humanidade, e bebi o meu cálice até às fezes, as quais fezes eram pagar à fábrica de papel as últimas cinquenta resmas, que eu fizera gratuitamente distribuir por esta raça de ingratos portugueses que, de três em três meses, mandavam vender o jornal às tendas.
Compenetrei-me da estolidez das minhas aspirações a desencharcar da lama um povo aviltado e cego de sua estupidez. Foi uma terrível decepção esta que me deu à cabeça os tratos que as mulheres de Lisboa me tinham infligido ao coração. Vi que o homem grande, neste país, no mesmo ponto em que hasteia o estandarte da redenção, aí, de força, há-de amargurar as torturas do seu Gólgota. Achei-me extemporâneo neste século e cobri com as mãos o rosto envergonhado, como os mártires da liberdade romana, que velavam com a túnica o rosto e diziam aos pretorianos: "Matai, escravos!"
Após alguns meses de devorantes cogitações sobre o futuro desta terra, fui à minha aldeia vender uma tapada, e o milho de três colheitas, e tornei para o Porto, elaborando projectos que já não tinham que ver com o bem da sociedade. O egoísmo da cabeça, mil vezes mais odioso que o do coração, esporeava-me a falsificar os mais sagrados sentimentos, mascarando-os de modo que a sociedade me desse a desforra das agonias com que remunerara a minha dedicação e o custeamento do jornal, um ano e tantos meses.
O meu pensamento era casar-me rico e fechar os olhos temporariamente ao horizonte onde o desejo via uma pasta de ministro e onde a realidade me mostrava aquela terrível coisíssima nenhuma do Sr. Júlio Gomes da Silva Sanches, admirável em seus dizeres.

SETE MULHERES
Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e V

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VIII

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX


Jornalista

PÁGINAS SÉRIAS DE MINHA VIDA
Capítulo I à VI
Capítulo VII e NOTA

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX
Capítulo X e NOTA