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CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco


PRIMEIRA PARTE

CORAÇÃO
Coisas há hi, que passam ser sem cridas,
E coisas cridas há sem ser passadas...
Mas o melhor de tudo é crer em Cristo.
CAMÕES. (Soneto.)

SETE MULHERES

CAPÍTULO I

O meu noviciado de amor passei-o em Lisboa. Amei as primeiras sete mulheres que vi e que me viram.
A primeira era uma órfã, que vivia da caridade de um ourives, amigo do seu defunto pai. Chamava-se Leontina. Fiz versos a Leontina, sonetos em rima fácil, e muito errados, como tive ocasião de verificar, quando os quis dedicar a outra, dois anos depois.
Leontina não tinha caligrafia nem ideias; mas os olhos eram bonitos e o jeito de encostar a face à mão tinha encantos.
Era minha vizinha. Por desgraça também, era meu vizinho um algibebe que morria de amores por ela, e, à conta deste amor, se ia arruinando, por descuidar-se em chamar freguesia, como os seus rivais, que saíam à rua a puxar pelos indivíduos suspeitos de quererem comprar. Aristocratizara-o o amor: envergonhava-se ele de tais alicantinas, debaixo do olhar distraído da mulher amaD.
Odiava-me o algibebe. Recebi uma carta anônima, que devia ser sua. Era lacônica e sumária: "Se não muda de casa, qualquer noite é assassinado". Pouco mais dizia.
Contei a Leontina, em estilo alegre, com presunçoso desprezo da morte, o perigo em que estava minha vida, por amor dela. Indiquei o algibebe como autor da cara. A menina, que tivera o desfastio de lhe receber noutro tempo algumas, conheceu a letra mal disfarçaD. Tomou-lhe raiva, fez-lhe arremessos e induziu a criada a atirar-lhe com uma casca de melão. Que lhe sujou um colete de veludinho amarelo e verde com listas encarnadas e pintas roxas. Que colete!
Passados tempos, Leontina desapareceu com a família; e, ao outro dia, recebi dela um bilhete, escrito em AlmaD. Dizia-me que o algibebe escrevera ao seu padrinho uma carta anônima, denunciando o namoro comigo. O padrinho ordenou logo a saída para a quinta de AlmaD.
O padrinho era o ourives, sujeito de cinqüenta anos, viúvo, com duas filhas mulheres, das quais amargamente Leontina se queixava. As filhas do ourives, receando que o pai se casasse com a órfã, queriam-lhe mal, e folgavam de a ver nas presas de alguma paixão, que a arrastasse ao crime, para assim se livrarem da temerosa perspectiva de tal madrasta.
E o certo é que o ourives pensava em casar com Leontina, logo que as filhas se arrumassem. Estas, porém, sobre serem feias, tinham contra si a repugnância do pai no dotá-las em viD. Ninguém as queria para passatempo e menos ainda para esposas.
Picado pelo ciúme, abriu o ourives seu peito à órfã, ofereceu-lhe a mão, e uma pulseira de brilhantes nela, com a condição de me esquecer.
Leontina disse que sim, cuidando que mentia; mas passados oito dias admirou-se de ter dito a verdade. Nunca mais soube de mim, nem eu dela; até que, um ano depois, a criada, que a servia, me contou que a menina casara com o padrinho e que as enteadas, coagidas pelo pai, se tinham ido para o recolhimento do Grilo com uma pequena mesada e a esperança de ficarem pobres. Não sei mais nada a respeito da primeira das sete mulheres que amei, em Lisboa.
Nota
Eu sei mais alguma coisa que merece crônica.
Leontina subjugou o ânimo do marido; descobriu que ele era rico e gozou quanto podia das regalias do mundo, as quais vivera estranha até aos vinte e quatro anos. O ourives tomou gosto aos prazeres e esqueceu o valor do dinheiro, exceto o que dava às filhas, que lhe saía da secretária com pedaços de viD. Começaram pelos arlequins e pelos touros e acabaram no Teatro de S. Carlos o refinamento do gosto.
Leontina andou falada na sua roda, como esposa fiel e admirável vencedora de tentações. Quase todos os amigos particulares do marido a cortejaram, sem resultado. Deu bailes em sua casa, donde era freqüente saírem os convidados penhorados, às quatro horas da manhã; mas, duma vez, não saíram todos; ficou um escondido no quarto da criada, e lá passou o dia seguinte. O ourives ignorou muito tempo que a sua lealdade não era dignamente correspondida: porém, suspeitando um dia que a criada o roubava, fez-lhe uma visita domiciliária ao quarto, sem prevenir a esposa, e achou lá o filho do seu primo Anselmo, dormindo sobre a cama da moça, com a segurança de quem dorme em sua casa. Estava de moiras amarelas e vestia um chambre de lã do dono da casa! É o escândalo e mangação!
Foi chamada Leontina a altos gritos. Acordou o filho de Anselmo e foi procurar na algibeira do paletó um revólver. O qüinqüagenário viu cinco bocas de ferro, mais persuasivas que a boca de ouro de Crisóstomo, o santo. Passou ao andar de baixo e gritou pelo código criminal. Leontina tinha fugido para casa da sua amiga e vizinha D. Carlota, pessoa de hipotética probidade. O escandaloso possessor do chambre despiu-o, vestiu-se, sacudiu as moiras amarelas, sentou-se a calçar as botas, acendeu um charuto, desceu as escadas serenamente e encontrou-se no pátio com dois cabos de polícia e um municipal. Dali foi para o administrador, que o mandou reter até ulteriores explicações.
Leontina, dias depois, foi para o Convento da Encarnação, onde esteve dois anos e donde saiu a tomar caldas em Torres Vedras, por consenso do marido, que a foi lá visitar e de lá foi com ela à exposição à Londres. Da volta da viagem, o ourives morreu hidrópico, legando às filhas umas inscrições, que rendem para ambas um cruzado diário, e à esposa uma independência farta em títulos bancários e em gêneros de ourivesaria.
Consta-me que Leontina se lembrara então de Silvestre; mas ignorava que destino ele tivesse. Incumbiu um compadre de indagar se estava no Porto o homem; a resposta demorou-se alguns dias, sete, creio eu, e ao sexto já ela estava em indagações da vida e costumes dum sujeito de bigode e pêra, que à mesma hora de cada tarde lhe passava à porta num tiburi, tirado por uma orça. Fácil lhe foi saber que o sujeito fora, cinco anos antes, algibebe, tirara o prêmio da Loteria de Espanha e fechara a loja. Era o mesmo algibebe que levara no colete de veludinho com a casca de melão. Que mudança de cara e de maneiras ele fizera! O dinheiro faz essas mudanças e outras mais espantosas ainD. Chegaram à fala, deram-se explicações e casaram. Eu tive ocasião de os ver ontem no seu palacete a Buenos Aires. Estão gordos, ricos e muito considerados na sua rua.


CAPÍTULO II

A segunda era também minha vizinha. A casa em que eu vivia formava o cunhal dum quarteirão, com janelas para duas ruas. Assim podia passear os dois corações duma para outra janela sem dar suspeitas da minha doblez.
Nunca pude saber o nome da dama, nem lhe vi a preceito a cara. Entreluziam-lhe os olhos nas tabuinhas verdes das persianas, olhos que abonavam o restante das belezas. Vi-a uma ou outra vez na rua; mas o meu pudor era o mais vigilante anjo-da-guarda que ele tinha. Escrevi-lhe uma carta em vinte páginas e icei-lhe numa cartonagem de amêndoas, que ela, à meia-noite, pendurou da janela. No dia seguinte não a vi. Afligi-me até à desesperação, tomando como zombaria semelhante resposta à minha carta. Desafoguei na sincera amizade de um amigo, e este consolou-me, dizendo que a mulher podia estar doente, podia estar apaixonada; e, na segunda hipótese, fugia à paixão para respeitar os deveres, se os tinha.
Ao outro dia abriu-se a janela, e a persiana baixou logo, como era de uso. As tabuinhas obedeceram ao impulso da mão divina, ficando horizontais. Vi-lhe os olhos, vi-lhe o sorriso, vi-lhe um trejeito de gratidão, e compreendi que me mandava ir à meia-noite debaixo da janela.
Fui com uma legião de amorinhos a volitar ao redor de mim. A patrulha viu-me atravessar a rua e conheceu, pelo passo, que eu era um mortal ditoso. Parou quando eu parei. Perguntou-me o que fazia eu ali quieto. Respondi-lhe que tomava a fresca; e os janízaros responderam: "Veja lá que se não constipe...".
Daí a pouco desceu a coifinha com um bilhete em abraço e eu lancei na coifa uma poesia intitulada: Ela!
Entrei no meu quarto, abri o papelucho, e li:
Gosto muito do seu estilo. Continue, que me entretém. Ontem não lhe apareci porque fui a Oeiras, e li a sua carta na presença de Netuno. Escreva muito, que escreve muito bem.
Reli esta coisa e pus a mão sobre o coração injuriado. Não podia dormir. Saí a resfriar a cabeça para não a partir em casa. O escárnio ia atrás de mim, apupando-me. Parei na azinhaga do Arco do Cego e senti-me febril. Às cinco horas da manhã, fui a uma das barcaças e tomei um banho no Tejo. Recolhi-me com uma catarral e estive onze dias de cama. Quando me ergui, magro e lívido, ouvi dizer à dona da casa que o galego, aguadeiro da casa fronteira, viera duas vezes perguntar por mim, com ordem de alguém. O espinho da irrisão, o tremendo ridículo, salvou a minha dignidade. Nunca mais abri aquela janela, nem vi mais a vizinha. Assim terminou o meu segundo amor.
Um caso me fez saber quem era aquela senhora, que eu desculpo e até respeito. Fora menina de finíssima educação, natural de Beja. Apaixonou-se por um conde de Lisboa e fugiu aos pais, cuidando que a ignomínia lhe viria a dar um marido. O conde deu-lhe casa, mesada e criados. Assim estava vivendo quando a conheci. Era amarga a existência da pobre senhora. O amante casara meses antes, para desempenhar o vínculo deteriorado. Do Património da esposa alargou a mesada à amante, que bebia. Deus sabe com que lágrimas, este segundo cálice de vilipendiosa dependência. Escrevera ela nesse tempo ao pai, pedindo-lhe perdão e asilo. Nunca teve resposta. Quando me deram estes esclarecimentos (1854), continuava ela a viver a expensas do conde e tinha um filho de cinco anos. Não sei mais naD. Ainda há pouco li o bilhete, recebido em 1849, e achei-lhe muitíssima graça. Deus lhe perdoe a noite que me deu e os onze dias de catarro, que me estragaram os brônquios para sempre1!
Era a terceira uma dama quarentona, que freqüentava a casa em que eu me hospedara. Tinha ela um mano, muito mal-encarado e vestido marcialmente, como capitão da carta, que era. A Sra. D. Catarina bailava gentilmente, conversava com todos os pespontos de tagarela muito lida em Eugenio Sue e conhecia todos os atalhos que conduzem à posse dum coração noviço. Declarou-se comigo e eu, urbanamente, acudi ao seu pejo, confessando que já me tinha primeiro confessado com a eloqüência do silêncio. Trocamos algumas cartas, e numa das suas me disse ela que era proprietária de bens de raiz, que valiam seis contos de réis, e tinha, afora isso, uns dez burrinhos em Cacilhas, que anualmente lhe rendiam cento e cinqüenta mil réis. Cuidou que me seduzia com o suplemento dos burrinhos! Respeito muito os burros, mas tanto não! Não respondi a este artigo. Falei-lhe do meu coração, assunto sublime de mais para ser conspurcado no cadastro dos lucros provenientes do dote quadrúpede de D. Catarina.
Uma noite, foi-me concedido ir falar-lhe debaixo das janelas. Morava ela muito longe, em rua de raros moradores, numa casa de um só andar. Tinha eu de costume ir a cavalo até à entrada da rua, e ali me ficava esperando o criado. Foi a minha salvação uma noite! O capitão da carta ergueu-se desconfiado e entrou de espada em punho no quarto da irmã subitamente.
Era em agosto: estava aberta a janela, e nós, sem invocarmos Klopstock, como os amorosos de Goethe, mirávamos as duas ursas, se eram as ursas umas grandes estrelas que Catarina chamava suas, e das quais fazia favor de me dar uma.
Cortado este doce colóquio pelo bruto de gládio nu, saltei da janela à rua, e o ferocíssimo capitão saltou nas minhas costas, tendo-lhe eu apenas a vantagem de três passos em honrosa fuga. O homem tinha desnocado um pé no salto e perdera a esperança de me degolar. Gritou: "Agarra", e a tempo que eu cavalgava, deixando o criado em risco de ser preso e no maior risco de me denunciar.
No dia seguinte, escreveu-me Catarina apelando para o meu cavalheirismo. Dava-se como perdida no conceito do mundo e do irmão se eu não me desse pressa em casar com ela. Respondi com sinceridade que era muito novo para tomar um estado a que não estava de modo nenhum obrigado o meu cavalheirismo. Aquele dizer "de modo nenhum" feriu tão dentro a susceptibilidade da dama, que, em vez de réplica escrita, veio ela mesma pedir-me explicações com furial aspecto e trejeitos de energúmena. Tomei-lhe medo; mas nem assim casei. Quem tinha resistido à sedução dos burrinhos não sucumbia às ameaças da espada ferina do irmão, a qual, a meu ver, podia disputar virgindade às vestais romanas. Catarina é que, já dez anos antes de me ver, não podia competir em recato e pureza com a espada fraterna. Eu disse-lhe isto em linguagem oriental, e ela respondeu-me em termos que depunham inexoráveis contra a inocência de costumes que a colérica senhora alegava.
Acabou isto assim. O bravo oficial portou-se bem comigo, daí em diante. A senhora caiu em si e viu que não tinha razão. Deixou-me.
Cinco anos depois, pedi em Lisboa notícias da Sra. D. Catarina, e soube que ela estava no Pará com seu irmão, senhores de alguns centenares de contos, herdados de um tio. Esperavam-se então na corte, visto que D. Catarina mandara comprar um palácio arruinado em Benfica e apressar a reedificação com a máxima opulência de arquitetura. Perguntei pelos burrinhos de Cacilhas, e o maganão a quem fiz a pergunta disse-me que procurasse uns no Ministério e outros no Parlamento. Era um destes Voltaires do Chiado que fazem espírito, mesmo à custa dos seus parentes e amigos.


CAPÍTULO III

Ninguém me há de acreditar a história da quarta mulher. Quer creiam, quer não, ela ai vai com pouca arte, a ver se a sua mesma desnudez a faz menos incrível.
Fui um dia de agosto a Porto Brandão, onde estava a banhos um meu amigo. Numa quinta para lá da encosta houve uma reunião de famílias de Lisboa, à qual fui convidado. O meu amigo apresentou-me a um cavalheiro, que me tomou o braço e me apresentou a algumas senhoras, todas galantes, palreiras e doutoras em Paulo de Kock.
Pedi miúdos esclarecimentos acerca de todas, e particularmente da mais bonita e modesta. O cavalheiro de todas disse mal, mal, porém, que eu indultei cordialmente, defeitos que são enfeites, vícios que alindam as formosas e denigrem as feias. O crime de todas era a casquilhice, que o leitor pode, se quiser, traduzir para coquetterie. Amavam toda a gente, segundo o informador. Fiquei satisfeito, cuidando que o amarem elas toda a gente era boa probabilidade para eu ser amado. Eu não queria mais naD.
Languiram em doce ternura meus olhos, fitos na mais amável das quatro. Algumas vezes nossas vistas se encontraram, e disseram profundos mistérios da alma. Fugi outras vezes da sala e fui a uma varanda, donde se ouvia o bramido do oceano, casar as melodias do meu amor com as dissonâncias formidolosas do estrugir das ondas. A lua prateava-me a testa, em que o sangue, aquecido no coração, subia em arquejos daquela poesia, que não sai em rimas, e enlouquece, se a paixão a não desafoga em suspiros. Aquilo é que era!
Eu queria comunicar a exuberância da minha ventura, mas tive sempre para mim que a felicidade quer-se recatada para não suscitar invejas: é ela como a fina essência das flores destiladas, que perde o aroma, destapado o cristal que a encerra. Não contei nada ao meu amigo; simulei até desapego das mulheres mais belas do baile, e da preferida nem se quer falei.
Ao romper de alva, vi que um rancho de meninas desciam ao jardim e colhiam flores. A minha amada ficou à janela conversando com senhoras idosas. "Tragam-me a mim uma rosa de musgo", disse ela às amigas. E as amigas volveram sem a rosa. Desci ao jardim, colhi duas rosas aljofradas das lágrimas da aurora, pedi licença para lhes oferecer, e disse: "Não as enxuguei, para não privar as florinhas das carícias de um anjo."
Este meu dito foi celebrado em Porto Brandão.
Daqui encetámos um colóquio, em que o meu acanhamento foi digno de lástima. Perguntei-lhe abruptamente onde morava; e ela, com a mais casta naturalidade, respondeu-me:
- Moro na rua da Rosa das Partilhas, n.º 101, segundo andar.
Naquele dia vim para Lisboa, visto que o meu amigo se retirava. Quinze dias seguidos fui à Rua da Rosa, e vi sempre fechadas as janelas do segundo andar.
Defronte morava uma estanqueira. Afreguesei-me para lhe captar a benevolência: e, ao décimo sexto dia, perguntei-lhe quem morava naquela casa.
- Ali mora um sujeito que é empregado no contrato do tabaco - disse ela.
- E tem família?
- Tem sim senhor. Vejo lá umas duas ou três meninas que me parecem irmãs dele, ou coisa pareciD.
- Uma de olhos pretos e cabelos cor de azeviche, será irmã?
- a falar-lhe a verdade, senhor, a cor que ela tem nos olhos e no cabelo na sei. Ali há uma bonitota, que é mais triste que as outras e está sempre a ler, aos dias santos. As outras têm assim um ar de doidas, que faz rir a gente. Namoram de lenço branco e à meia-noite estão à janela a papaguear para a rua, que é mesmo um escândalo. Que eu, a falar a verdade, meto-me cá com a minha vida e não quero saber quem é, nem o que faz, a vizinhança.
- Sabe dizer-me onde estão agora?
- Estão fora da terra; mas onde, não sei. Ontem andavam lá a lavar a casa; é que não tardam aí.
Nesse mesmo dia, à noite, encontrei no Marrare das Sete Portas o cavalheiro que me tinha apresentado à mulher querida, em Porto Brandão. Falámos muito da divertida noitada e nas mulheres que converteram em paraíso terreal a casinha campestre. Ébrio de amor, deixei-me ir ao sabor do coração indiscreto e falei na mulher, cuja imagem me não dera tréguas duma hora ao espírito cobiçoso dela. O sujeito destramente se insinuou na minha confiança e conseguiu que eu lhe dissesse a morada da dama a quem ele me apresentara.
Riu-se o indivíduo, e sofreou logo a expansão.
- De que ri Vossa Senhoria? - Perguntei com desgosto.
Deteve-se o homem a cismar, e respondeu:
- Rio da pouca ou nenhuma penetração da mocidade. Não se recorda de eu lhe ter dito que aquelas senhoras amavam toda a gente?
- E se o senhor se apaixonar?
- Apaixonado estou eu.
- Pois pior. Suponha agora que aquela mulher o menospreza e ridiculiza!
- Suicido-me!
- Isso é asneira, Sr. Silvestre! Olhe eu já amei Clotilde.
- Chama-se Clotilde?
- Chama. Que nome!, que poesia!, que lirismo!, não acha?
- Acho!... Clotilde! Há não sei quê das paixões sanguentas da Idade Média neste nome!... Clotilde! Que bem fadado nome! Tem magia!... Clotilde!... Então o senhor amou-a?
- Amei.
- E depois?
- Apaixonei-me. Pedi-lhe o coração exclusivo, e ela disse-me que o exclusivo do coração só o daria com o exclusivo da mão. Entende o fraseado?
- Perfeitíssimamente. Queria dizer que só amaria exclusivamente o marido.
- É isso mesmo. Eu era menor, e meu pai negava-me licença para casar. Clotilde era pobre, e eu, sem os benefícios de meu pai, era indigente: Tão inútil homem era eu que fazia versos, e que versos, ó santo Deus!
- E ela ama poesia?
- Gostava das décimas e embirrava com as odes. Fiz-lhe muita décima: estão todas impressas no Ramalhete. Vamos ao essencial. A paixão cegou-me. Clotilde, sabedora da repugnância de meu pai, parecia disposta a aproveitar o tempo com outro namoro. Suspeitei esta infernal resolução, e... que passo eu dei, Sr. Silvestre!... que passo!...
- Que passo deu o senhor?!
- Casei com ela!
- O quê?! - exclamei eu, varando de agulhadas nos olhos e nos ouvidos.
- Casei com clotilde.
- Pois Clotilde é casada?...
- Comigo; há cinco anos, quatro meses e nove dias!
Dito isto, o empregado público, depois duma gargalhada estridente, afectou a mais cómica das seriedades e continuou:
- O senhor não vá contar isso a ninguém, senão arrisca-se a dar mote para uma farsa, e lembre-se que o personagem mais ridículo dela será o Sr. Silvestre da Silva, com cuja candura eu simpatizo. Quer o senhor namorar uma das minhas cunhadas, se não está disposto a continuar o namoro com minha mulher? Olhe que ambas têm nomes inspiradores: uma é Berta, a outra é Laura. Escolha, que eu coadjuvo-o.
Creiam que estava corrido, e dei graças a Deus quando se aproximaram da nossa mesa três sujeitos conhecidos do empregado. Assim foi interrompida a conversação, em que a minha pobre vaidade estava sofrendo como em potro de escárnio. Ergui-me, despedi-me, apertei a mão ao marido de Clotilde, e fui rasgar as prosas e versos que escrevera numa brochura ad ho cenfeixado tudo sob o seguinte título: A Ti!... E mais nada, a tal respeito2.

SETE MULHERES
Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV e V

A MULHER QUE O MUNDO RESPEITA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo VIII

A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX


Jornalista

PÁGINAS SÉRIAS DE MINHA VIDA
Capítulo I à VI
Capítulo VII e NOTA

Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V à Capítulo IX
Capítulo X e NOTA