CORAÇÃO,
CABEÇA E ESTÔMAGO
Camilo Castelo Branco
A MULHER QUE O MUNDO DESPREZA
CAPÍTULO I
Naquele tempo li eu que Alfredo de Musset e Espronceda, poetas de
altos espíritos, atordoavam as suas dores com a embriaguez,
o primeiro porque amava uma literata anfíbia, o segundo porque
o alanceavam remorsos de ter desgraçado uma Teresa, que morrera
de paixão, por isso mesmo que não era literata.
Era então moda a vinolência, particularmente na academia
universitária, onde os mancebos de mais poesia de alma e arremessos
de "aspirações grandiosas", como então
se dizia, protestavam contra a estreiteza do âmbito, em que
o século lhes apertava as faculdades, dilatando os fictícios
horizontes da vida, até onde o vinho da bairrada, a genebra
e o conhaque permitiam. Verdade é que nem sempre os ébrios
podiam justificar a sua degradação com a necessidade
de afogarem os desalentos e dissabores da existência nas copiosas
libações. Uns embriagavam-se para darem em espetáculo
de admiradores a capacidade do seu estômago, e bebiam por alguidares;
outros contavam aos seus amigos uma história tenebrosa de amor,
que lhes matara a esperança e os infernara para sempre: a história
prefaciava de ordinário a emborcação de uma garrafeira.
Os auditores do infausto moço levavam-no depois à cama,
onde ele digeria o seu vinho e a sua angústia suprema.
Eu conheci um deles infelizes, que era meu conterrâneo e passava
em Coimbra por ter sido ultrajado em sua nobre alma pela mulher de
cujos lábios fementidos recebera a morte. Alguns poetas cantaram-no,
praguejando a infame que lhe apunhalara o coração. Da
história, que ele referia em tom cavo, a verdade nua era que
ele viu a sobrinha de um abade numa romaria e ofereceu-lhe cavacas,
que ela não aceitou, porque o abade lhes não tirava
o olho de cima. Ajunte-se a isto que ele foi à aldeia da Sra.
Joaninha com o propósito de lhe falar em fugirem para um deserto;
mas a pequena, como andasse atarefada com a matança dos cevados,
não lhe deu trela. Por último, o meu vizinho ainda lá
tornou em uma noite de esfolhadas; porém, o abade, desconfiado,
como pássaro bisnau que era, deu sobre o académico com
uma foice roçadoira, e o académico fugiu com tanta pressa
e felicidade que algum santo estava a pedir por ele. Em consequência
disto é que o bacharel se embriagava, como Alfredo de Musset
e Espronceda.
À imitação desta, podia eu contar a história
de muitos bêbados ilustres da minha mocidade4. Conheci outros
que eram poetas orientais. Escreviam do amor das mouras, das volúpias
dos serralhos, das acesas paixões dos Árabes. Claro
é que num clima temperado, e com os costumes chãos e
algum tanto lorpas e lerdos da nossa terra, a imaginativa carecia
de espiritar-se com os boléus da embriaguez para sair-se dignamente
com uma sestilha asiática. Vinham a fazer ditirambos, que intitulavam
Arrobos, ou Coriscos.
Nota
Entre as poesias de Silvestre, achamos uma, datada em 1855, que parece
referir-se à época e aos poetas orientais de que vem
falando nas suas memórias. Dela trasladamos um fragmento, que
vem a ponto:
A esperança mocidade, a plêiade
De génios do Marrare, que é feito dela?
Pulavam em barda, enxame às nuvens
De abelhas, que libavam mel do Himeto,
Disfarçado em cognac; e, então, melífluos,
Como diz não sei quem, que sabe a língua,
Emelavam a gente, isto é, melavam!
E melaram os dulcíssimos meninos,
Quando neles se estava embelezado
O Tejo de cristal e a lua meiga.
Que é deles? Onde o ninho destas aves?
Que implumavam, apenas, e já punham
O fito ma montanha bipartida,
E as cândidas asinhas sacudindo,
Era um gosto comum, um brio pátrio,
Um gosto nacional perdê-los d'olho
E ouvi-los, lá do alto, em trinos destes:
"Doce brisa,
Que desliza,
Pela junça
Do paul,
Traz perfume
Como a aragem
Da bafagem
Duma virgem
De Istambul."
A compita de cântico, responde
Dalém, doutro poleiro, em sons mais ternos,
Outro bardo, que tem na terra amores:
"Minha Elisa, o teu segredo
Não no sei;
Nem na voz do arvoredo
Adivinhei.
..., querida!, diz-mo cedo,
Diz-mo, querida,
Pela vida!
Se não dizes,
Morrerei!"
No número de ébrios que inspiram compaixão às
almas flexíveis estava eu. Quem tiver lido as minhas desventuras
e pesado, nas cordas sensíveis do seu peito, as embaçadelas
(por não dizer sempre desapontamentos) que apanhei na curta
primavera da minha vida, decerto me desculpa do asqueroso vício
de que me sinto assaz castigado pelas inflamações de
vísceras que a miúdo me atormentam. A imagem de Paula
não me parecia como visão que da mulher que nos abandonou
enfastiada e talvez chorasse por não poder amar-nos! Deus sabe
quanto dói à criatura que amaldiçoamos o tédio
que as nossas meiguices, e lágrimas, e ciúmes, lhe causam!
Comecei por beber licor de hortelã-pimenta e acabei no abismo
estreme. A minha embriaguez era pacífica e até certo
ponto catedrática. Eu me explico. Se o auditório me
favorecia, deixava-me ir em discursos sobre a filosofia da história,
alternados com outros discursos sobre a história da filosofia.
Estas matérias, que a todo o homem, em estado normal, se figuram
áridas e insípidas, a mim pareciam-me deleitosas e lucidíssimas;
e os ouvintes, salva a lisonja, mostravam-se igualmente admirados
que instruídos. Não poderemos inferir daqui o facto
de que as ciências de certa transcendência as devemos
à alucinação de certas cabeças?, e que
o espírito humano, sem o complemento de outros espíritos,
cuja imortalidade ninguém discute, há-de sentir sempre
a estreiteza dos seus limites? Não discorro agora a este respeito,
por que bebo água há dois anos.
Numa dessas noites de exorbitância intelectual, como o auditório
me abandonasse, saí do Marrare das Sete Portas e fui ver a
Lua, que crispava de cintilantes escamas a superfície prateada
do Tejo. Eram onze horas. Num dos bancos que adornam o Cais do Sodré
vi sentada uma mulher, que trajava de escuro e apoiava a cabeça
entre as mãos, que, ao revérbero dum candeeiro, pareciam
de alabastro, amarelecido de anos.
Aproximei-me dela, parei com quanta firmeza as pernas me permitiam,
e disse-lhe:
- Mulher!
E ela, voltando para mim a face pálida, encarou-me e não
respondeu.
- Mulher! - tornei, encostando-me ao peitoril do cais para manter
a dignidade e aprumo do discurso.
- Que quer? - respondeu ela.
- Que tens tu com as magnificências da noite? Que segredos vens
tu dizer às estrelas, que o Criador fizera tuas irmãs
na formosura do brilho? Se te despenhaste da tua inocência,
que queres tu deste céu que só verte o orvalho consolador
no seio das criaturas afligidas sem mancha, das padecentes sem culpa,
ou das infames com dinheiro?
Pouco mais ou menos, foi isto o que lhe disse, que me lembre; o restante,
a não ser discurso sobre a história filosofia.
O mais que me lembra é que, às cinco horas da manhã
desse dia de Agosto, a mulher do Cais do Sodré ia comigo numa
carruagem e respirava o ar balsâmico da estrada de Sintra.
CAPÍTULO II
- Conta-me a tua história, Marcolina, antes que eu perca a
razão, para lhe dar valor. A embriaguez, quando não
é insultuosa, é pouco persistente nos sentimentos generosos.
Faz-me compadecer de ti e darás à minha vida rumo novo,
ou pelo menos uma idéia útil e própria de homem
que ainda tem intervalos de encontrar-se na consciência. Tu
choraste, quando viste árvores e flores; pediste-me que te
deixasse morrer lá em cima entre as fragatas da serra; erraste
uma vista, de quem se sente morrer de desalento, pela extensão
do mar. Quem és tu?, donde caíste até encontrar
o primeiro apoio na tua queda sobre o ombro dum homem perdido de razão,
que tu recebeste como se encontrasses um teu irmão no despejo
e na desgraça? Já sei o teu nome; vejo que foste bela;
que a natureza te quer ainda vestir dumas galas que tu expeliste de
ti, quando as rasgavas com pedaços do coração.
Já tens outra cor; e as lágrimas, em que te nadam os
olhos, parece que te querem lavar os estigmas da face. Voarão
nesta atmosfera os anjos invisíveis que te conheceram, quando
tu eras pura?
Marcolina abraçou-me sem a veemência convulsiva que os
dramaturgos mandam nas rubricas. Foi um abraço senhoril, comedido
e honesto como nossas avós os davam naqueles jogos e saiam
sempre em uma cadeira defronte da minha otomana e disse:
- Nasci no dia em que meu pai morreu nas linhas de Lisboa. Tenho dezoito
anos. Meu pai foi empregado na tesouraria, onde ganhava para levar
a vida com abundância. Se algum desgosto sentia, era por não
ter um filho. Morreu, como lhe disse, no dia em que eu nasci.
Minha mãe ficou muito nova e bonita; mas quase pobre. As economias
que meu pai deixara dariam escassamente a subsistência dum ano.
Ouvi dizer que a casa estava trastejada com luxo, em que meu pai se
esmerava, por ter sido criado no paço, onde meu avô era
cirurgião.
A mãe teve muito quem a pretendesse, não tanto por ser
bela como por correr fama que tinha dinheiro. Teria eu um ano quando
ela casou com um empregado público, mais novo e mais pobre
que ela.
Lembro-me da minha infância dos seis anos em diante, e dos meus
irmãos, que já eram dois, filhos do meu padrasto; e,
quando eu tinha dez anos, já éramos seis irmãos,
todos meninas.
Não tenho memória nenhuma de viver em casa mobilada
com limpeza. Minha mãe foi vendendo pouco e pouco algumas jóias
que tinha para ajudar às despesas, que aumentavam, e aos vícios
de seu marido, que também cresciam com a pobreza. O que me
lembra muito bem é a indigência, e a fome, e a nudez
de minhas irmãs.
Meu padrasto, por causa duma revolução, foi demitido
do lugar; e, obrigado pela penúria, fez um roubo, e esteve
preso alguns meses. Nunca mais o vi, e não sei ainda hoje se
foi degredado, se foi para o Brasil, como minha mãe dizia.
Quando eu tinha doze anos, vivíamos num último andar
duma casa na Rua de S. Luís. Minha mãe saía à
noite com três de minhas irmãs e recolhia-se muito tarde
a fazer a ceia, que era muitas vezes o jantar. Creio que ela andava
mendigando. Outras vezes fechava-nos todas na única alcova
da casa, e ela ficava na saleta: creio que este facto era mais horrível
que pedir esmola.
Aos catorze anos, estando eu sozinha em casa uma noite, fazendo camisas
para embarque, ouvi um rangido de botas nas escadas próximas
e estremeci. A porta foi aberta de fora com a chave, e eu ergui-me,
espavorida, correndo à janela que se abria sobre o telhado.
Lembraram-me, naquele instante, palavras que a mãe me tinha
dito, e julguei-me perdida.
Quando lancei a vista à porta para me bem convencer da desgraça,
vi um homem que caminhava para mim, dizendo que me não assustasse.
Eu fui recuando até ao cantinho da casa e encolhi-me a tremer
e a chorar.
Parece que o homem teve piedade de mim. Esteve a olhar-me com ar melancólico,
sentou-se e limpou o suor da testa.
Perguntou-me quantos anos tinha; se minha mãe nada me tinha
dito a respeito duma visita; se eu antipatizava com ele; se eu queria
sair de tanta pobreza e da companhia de minha mãe, que me vendera
e que tencionava viver do preço da minha honra.
Eu respondi soluçando a tais perguntas. O homem, que se mostrava
condoído, chegou a chamar-me para junto dele, oferecendo-me
uma cadeira. Fui sentar-me com muito medo; mas tranquilizei-me algum
tanto quando vi que me não lançava as mãos. Uma
vez que ele se inclinou para mim, deitando-me o braço à
cintura, ergui-me de salto e ajoelhei, pedindo que me deixasse. Ergueu-me
com brandura e disse-me: 'Esteja sossegada, que eu não lhe
faço mal' - e passados instantes continuou: 'A sua felicidade
não é eu deixá-la; porque amanhã sua mãe
a venderá a outro homem que se não compadeça
da sua inocência e lhe despreze as lágrimas. A sua posição,
menina, é muito desgraçada nesta casa. Eu vinha preparado
para encontrá-la bem disposta a ceder ao destino que sua mãe
lhe deu; vejo que não é fingida a sua dor. Quer, Marcolina,
salvar-se das grandes vergonhas que a esperam? Saia já desta
casa, aceite a minha amizade; venha para minha companhia, e depois
pensará no que melhor lhe convier para ser menos infeliz. Confesso-lhe
que a sua beleza me encanta; mas já não serei capaz
de a querer sem que o seu coração a leva a ser minha
amiga.'
Continuou a falar neste sentido longo tempo; e a final estando já
de pé para sair, lançou-me ao regaço dinheiro
em ouro e disse: 'Quando sua mãe vier, diga-lhe que está
pura, peça-lhe que não a venda, e obrigue-se a sustentá-la
com a condição de não a vender. Esse dinheiro
é o necessário para um mês; no princípio
do mês que vem receberá igual quantia.' E saiu, beijando-me
na testa e murmurando, quando me viu estremecer ao contato da sua
boca: 'Pobre menina!'
- Era novo esse sujeito? - interrompi.
- Não, senhor. Teria cinquenta anos.
- Continua. Tua mãe quando chegou...
- Viu o ouro sobre a mesa e fez-se escarlate de infernal alegria.
Olhou para mim e disse: 'Não estás mal comigo?' Rompi
num pranto, que me afogava. Quis ela abraçar-me, chamando-me
tola com modos carinhosos, e eu fugi para a alcova onde minhas irmãs
estavam assentadas no enxergão.
- Das tuas irmãs, uma já devia ter treze anos nesse
tempo.
- Essa não vivia conosco.
- Que destino tinha tido?
-O que minha mãe quisera dar-me. A mãe disse-me que
ela estava na Casa Pia; mas, alguns meses depois, soube que ela estava
na situação em que estou hoje.
- E está ainda?
- Não, senhor. Morreu de dezasseis anos.
- No hospital?
- Não, senhor, em minha casa.
- E as outras irmãs?
- Logo lhe direi.
CAPÍTULO III
- Minha mãe quis que eu lhe contasse o que se passara entre
mim e o Sr. Barão.
- Ah!, era barão, o sujeito?!
- Era barão; mas não o maldiga, que tinha boas qualidades.
- Veremos... Por enquanto, não há razão de queixa.
Ora diz o mais.
- Contei à mãe o sucedido; menos o modo como ele me
falara dela. Ouviu-me com admiração e disse-me: "Se
eu soubesse que ele tinha palavra e te dava mesada, saíamos
destas águas-furtadas e podíamos viver regaladamente."
Acrescentou a estas palavras um plano vergonhoso que devia enriquecer-me
em poucos anos. Faz-me horror o que lhe ouvi!
No dia seguinte, minha mãe comprou-me um vestido de cassa,
um mantelete em segunda mão, um chapéu de palha e outras
miudezas. Mandou-me pentear, e vestir, para darmos um passeio. Atravessámos
algumas ruas, que eu via pela primeira vez, e entrámos no pátio
dum palacete. 'Onde vamos?', disse eu. 'Aqui é que mora o Sr.
Barão; é preciso sermos gratas.' O guarda-portão,
que já a conhecia, tinha subido a dar parte ao amo, e voltou
quando minha mãe me estava dizendo: 'Deves mostrar-te muito
agradecida ao fidalgo e pede-lhe licença para mudares de casa
e alugares outra onde ele possa entrar sem repugnância.'
Fez-me uma mudança espantosa no meu espírito, quando
tal ouvi. Não hesitei. Subi as escadas, e minha mãe
sentou-se no banco do pátio. Entrei numa sala muito rica e
sentei-me à espera. Tinha o rosto banhado de lágrimas.
Chegou o barão, e veio ao pé de mim, com ar muito alegre
e meigo. 'Quem a trouxe aqui, Marcolina?', disse ele. 'Foi minha mãe,
com um recado; mas eu venho dizer-lhe outra coisa.'
Faltou-me o ânimo para continuar; mas, instada pelo barão,
e com a odiosa imagem de minha mãe a instigar-me, cobrei forças
e pude dizer-lhe que me tirasse da companhia de minha mãe e
se compadecesse do meu infortúnio. 'Agora mesmo', disse ele.
E saiu da sala para entrar noutra, onde mandou chamar minha mãe.
Soube, depois, que nessa ocasião se realizou o contrato, com
muita generosidade da parte dele no pagamento e pronta anuência
dela no separarmo-nos. Neste intervalo, chorei com saudades da minha
irmãzinha mais nova, que tinha cinco anos e meio e era linda
como um anjo.
Passados quinze dias, a minha guarda-roupa estava cheia de cetins
e veludos. Tinha brilhantes que faziam invejável a minha desonra.
Tinha uma mestra, que me ensinava as atitudes senhoris nos camarotes
e recebia dessa mesma lições para entrar na carruagem,
apanhando a cauda dos vestidos com elegância, e saltando dela
garbosamente para o banco almofadado que me oferecia o lacaio. Numa
das minhas primeiras idas a S. Carlos, vi minha irmã num camarote
com mais duas senhoras. Dei um grito de surpreendida e indiquei-a
ao barão. 'Não olhes para lá, disse-me ele, 'tua
irmã, se é aquela, deve ser o que são as companheiras:
são três prostitutas que ali estão.' Baixei os
olhos, como obrigados pelo peso das lágrimas e da vergonha.
Vergonha e lágrimas! Que mais valia eu que minha irmã,
e quem era mais digna de lágrimas que eu!
Um dia recebi um bilhete de minha irmã, dando-me os parabéns
da minha felicidade e pedindo-me que a não desprezasse por
ter sido menos feliz que eu na carreira que a mãe nos dera
a ambas. Mostrei esta carta ao barão, e ele, com soberba irritação
exclamou: 'Não lhe respondas; proibo-to, sob pena de ficarmos
mal.'
- Começa o barão... - atalhei eu.
- Começa o segundo acto da minha tragédia - disse Marcolina.
CAPÍTULO IV
- Fui um dia ao Campo Grande: ia sozinha na carruagem. Apeei para
passear entre as árvores e vi ao longe duas senhoras correndo
para mim. Conheci minha irmã e corri para ela. Abraçámo-nos
a chorar. Contou-me em breves palavras a sua vida. Era a minha, com
a diferença das pompas. Vivia com um mercador de panos, que
aborrecia; mas sujeitava-se por não ver outro caminho por onde
achasse mais honesto modo de vida. Praguejou contra a mãe,
analisando ao mesmo tempo os meus anéis e pulseiras com olhos
cobiçosos.
Quando assim estávamos entretidas, apareceu de súbito
o barão; encarou-me com desabrimento e disse-me: 'Já
para casa!' Não repliquei, nem mesmo olhei para minha irmã.
O barão arguiu-me severamente; e, dizendo-lhe eu que a minha
vida não era mais honesta que a da outra desgraçada,
mostrou-se muito ofendido com ser comparado ao mercador de panos.
Arrependi-me de dizer tal, porque ouvi insultos da sua vaidade ferida
com tão pouco. Desde esse dia, comecei a sentir os espinhos
da minha posição. Caí numa modorra de tristeza,
mais dolorosa que a miséria. Se ia ao teatro, era violentada:
se me vestia, a capricho do barão, fazia-o tão contrariada
que ele rompia em desatinos contra mim, dizendo-me que eu já
o não amava... como se eu o tivesse amado algum dia! O ódio
a minha mãe recrescia, quanto mais eu entrava na consciência
da minha perdição e no preço das galas com que
eu insultava a virtude honesta. A minha grande desgraça, senhor,
era eu não poder destruir os sentimentos da dignidade, talvez
herdados de meu pai, que fora honrado. As mulheres na minha posição
começam a ser felizes quando se enterram de todo no charco
das torpezas.
Um dia, estava eu à janela, e vi passar minha mãe com
a filha mais nova. Retirei-me, quando ela me ia acenar com a mão;
mas ficaram-me os olhos na criança, e escondi-me a chorar.
O barão encontrou-me a enxugar as lágrimas; contei-lhe
a causa; e ele, querendo consolar-me, disse-me que minha mãe
e irmãs estavam vivendo fartas e com decência à
minha sombra, e ajuntou que, enquanto eu me portasse bem, não
lhes faltaria nada. Pedi-lhe que me deixasse ter na minha companhia
a mais nova de minhas irmãs. Não quis, nem mesmo concedeu
que ela me visitasse alguma vez. Ora isto, e muitas outras contradições
que fazem o desgosto da vida íntima, conseguiram desvanecer
pouco e pouco a amizade que eu cheguei a dar-lhe, mais por amor da
piedade com que me tratou na minha pobre casa que pela opulência
com que me tinha na sua. Entrei a pensar no modo de me resgatar do
cativeiro; porém, não via nenhum que não fosse
aumentar o meu infortúnio.
Lembrei-me de ir para uma terra da província ensinar meninas;
mas eu escrevia tão mal, e lia tão pouco, que de certo
me rejeitariam. De prendas de costura, apenas sabia dar um ponto,
visto que minha mãe não pudera nem quisera dar-me educação,
nem tive mestra, senão quatro meses, enquanto se me não
romperam os vestidinhos que me dera minha madrinha.
Pedi ao barão que me desse uma mestra de escrita e de leitura
e me mandasse ensinar algumas prendas para me entreter.
Anuiu a tudo, menos ensinar-me a escrever, dizendo que o saber escrever
era causa de muitas mulheres se perderem.
Irritou-me muito esta objecção; mas aceitei o consentimento
de aprender a marcar, bordar e talhar vestidos de senhoras. Felizmente
a mestra escrevia sofrivelmente, e ensinou-me às escondidas,
com grande aproveitamento.
O barão tinha um guarda-livros, que raras vezes me via, e perdia
a cor se acertava de encontrar-se comigo. Era novo como eu, tinha
uma fisionomia agradável e um acanhamento que me fazia supor
que eu, na minha situação, ainda impunha respeito. Conheci
então o amor, à força de pensar que sentimento
seria o que ele me causava. Era eu quem já o procurava ver
de longe, e me retirava, se o guarda-livros me surpreendia a observá-lo
duma janela por onde, através do pátio, se via o escritório.
Alguém me denunciou ao barão, quando eu me julgava a
resguardo da menor suspeita. O caixeiro foi despedido e a notícia
deu-ma o barão com um riso sardônico e do mau intento.
'Já sei o fim para que tu querias saber escrever', disse ele.
'Qual era?, acudi eu. Não respondeu.
Passados dias, achei uma carta no livro que andava lendo, emprestado
pela mestra. Era do guarda-livros. Quem trouxera esta carta? Seria
isto uma velhacaria traiçoeira do barão?! Não
era. A mestra fora-me dada por informação do caixeiro
e, a instâncias dele, me trouxe a carta, que não ousara
entregar directamente.
Não me afligiu a temeridade do moço, que eu amava. Recebi
a carta, agradeci-a à mestra, e respondi-lhe sem artifício,
dizendo-lhe sinceramente que o amava; mas que entre mim e ele estava
uma eterna barreira, levantada pela minha vergonhosa posição.
Mulher que não amasse com toda a candura e inexperiência
do que são verdadeiras vergonhas não escreveria tal
carta. A mulher experimentada na infâmia finge sempre que não
a incomoda a consciência de que a tem e nega aos outros o direito
de cuidarem que ela se imagina infame. Penso eu que é verdade
isto, pelo que tenho aprendido de mim própria.
O guarda-livros respondeu-me admirando-se que eu visse tal barreira
entre nós, quando ele meditava em me fazer sua esposa. Desde
que li esta segunda carta, senti-me doida de esperanças felizes;
apaixonei-me pelo homem, que me não via ás nódoas
da desonra: não era já amá-lo, era adorá-lo
na minha imaginação.
E, ao mesmo tempo, tamanha aversão me fazia o outro de quem
o meu corpo era escravo que já mal podia dissimulá-la.
Conseguiu Augusto que eu lhe falasse, quando saísse a passeio.
Mandei pôr os cavalos à sege quando o barão estava
fora. Apeei-me em S. Pedro de Alcântara e desci ao jardim, onde
Augusto me esperava. Balbuciou a repetição do que me
tinha escrito, sem ousar tocar-me a trêmula mão, nem
eu ousava oferecer-lha. Conheci que a minha riqueza o humilhava, lembrei-me
então que aquele rapaz, se me visse numa pobre casa com modestos
trajos, havia de amar-me expansivamente! Que falsos juízos
forma o coração que se não vendeu o corpo. Que
grande bem seria poder a mulher despojar-se da pureza da alma quando
se desonra!
O barão teve aviso de que eu me encontrara com o guarda-livros.
Nada mais natural! Como cuidaria eu que os criados me não espreitassem!
Cegava-me a razão, o amor e o desejo impetuoso da liberdade.
Já se me não dava que ele o soubesse e me expulsasse.
Jussara até comigo de lhe dizer a verdade, provocando-me o
barão a dizê-la.
Foi o que sucedeu. À primeira queixa do homem assanhado pelo
ciúme respondi que certíssimamente amava Augusto; que
queria passar do crime faustoso para a virtude na pobreza; que era
muito infeliz na vida que tinha; e que só com amor se podia
suportar a vergonha de ser banida da sociedade.
Espantou-se do meu desembaraço o barão e cobriu-me de
injúrias; das injúrias passou às lágrimas;
das lágrimas tornou aos insultos; e quando eu menos podia esperar
uma vilania sem nome, deu-me uma bofetada. Levei as mãos ao
rosto e quase perdi os sentidos. Quando abri os olhos, desvariados
de angústia, o barão estava ajoelhado aos meus pés
e dizia: 'Eu não sou, há muito, teu marido porque não
posso sê-lo, porque nunca te disse que sou casado e que tenho
a mulher no Brasil. Espera que ela morra, e então serás
minha mulher. A sociedade te respeitará então o título,
a riqueza e a virtude de me teres sido fiel.'
Não sei que mais lhe ouvi, que parecia aumentar o sentimento
de abominação agravado pelas súplicas depois
do insulto. Afastei-me e escrevi-lhe, a despedir-me. Devia de ser-lhe
nova e aflitiva surpresa quando viu a minha carta escrita com boa
letra e rancorosa eloquência com que eu lhe atirava ao rosto
a desestima em que o tinha, já convertida em desprezo.
Dum arremesso, entrou no meu quarto. Trazia um par de pistolas aperradas:
tive-lhe medo e horror quando ele gritou: 'Uma para te matar e outra
para mim!' 'Que mal fiz eu para morrer?!, exclamei com ânsia
de quem quer e pede a vida.
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