Contrastes
e Confrontos
Euclides da Cunha
SOLIDARIEDADE SUL-AMERICANA
A República
tirou-nos do remanso isolador do império para a perigosa solidariedade
sul-americana: caímos dentro do campo da visão, nem sempre
lúcida, do estrangeiro, insistentemente fixa sobre os povos, os
governos e os "governos" (ironicamente sublinhados ou farpeados
de aspas) da América do Sul.
O imperador, em que pese à sua educação imperfeita
e às suas sensíveis falhas de estadistas, era o grandes
plenipotenciário do nosso bom senso equilibrado e da nossa seriedade.
A sua bela meia ciência, toda ornada de excertos hebraicos e das
estrelas da astronomia doméstica de Flammarion, mas ansiosamente
atraída para o convívio dos sábios e costumaz freqüentadora
de institutos, era a nossa mesma ânsia, talvez precipitada, mas
nobilíssima, de acertar, e a sua bonomia, os seus hábitos
modestos e simples, os mesmos hábitos modestos, certo sem brilhos,
mas em todo o caso decentes, com que andávamos na história.
Tinha a força sugestiva e dominadora dos símbolos, ou das
imagens. Era, para a civilização tão distraída
por infinitos assuntos mais urgentes e mais sérios, um índice
abreviado onde ela aprendia de um lance os aspectos capitais da nossa
vida: o epítome vivo do Brasil.
Talvez não fosse bem certo e carecesse de uma mondadura severa,
ou revisão acurada, mas tinha a vantagem de nos determinar uma
consideração à parte. Na atividade revolucionária
e dispersiva da política sul-americana, apisoada e revolta pelas
gauchadas dos caudilhos, a nossa placidez, a nossa quietude, digamos de
uma vez, o nosso marasmo, delatavam ao olhar inexperto do estrangeiro
o progresso dos que ficam parados quando outros velozmente recuam. E,
dada a complexidade étnica e o apenas esboçado de uma sub-raça
onde ainda se caldeiam tantos sangues, aquela placabilidade e aquele marasmo
recordavam-lhe na ordem social e política a imprescindível
tranqüilidade de ambiente que, por vezes, se exige, na física,
para que se completem as cristalizações iniciadas...
Hoje, não. Sem aquele ponto de referência, a opinião
geral desvaira; derranca-se em absurdos e em erros; estonteia num agitar
sem sentido, de maravalhas inúteis; confunde-nos nas desordens
tradicionais de caudilhagem; mistura os nossos quatorze anos de regime
novo a mais de um século de pronunciamentos; e como, durante esta
crise de crescimento, nos saltearam e salteiam desastres - que só
podem ser atribuídos à República por quem atribuía
ao firmamento as tempestades que no-lo escondem - já não
nos distingue nos mesmos conceitos. E que conceitos ...
Deletreiem-se as revistas norte-americanas, para não citarmos outras,
e vejam-se o desabrido da palavra, o cruciante dos assertos e até
o temerário de futuros planos de absorção, sempre
que acontece tratar-se das sister republics, curioso eufemismo com que
se designa vulgarmente o vasto e apetecido res nullius, desatado do Panamá
ao cabo Horn.
Para os rígidos estadistas que não nos conhecem, e a quem
justamente admiramos, as Repúblicas latinas -"as que se dizem
Repúblicas" no dizer dolorosíssimo de James Bryce,
patenteiam, impressionadoramente, o espetáculo assombroso de algumas
sociedades que estão morrendo. Aplicando à vida superorgânica
as conclusões positivas do transformismo, esta filosofia caracteristicamente
saxônia, e exercitando crítica formidável a que não
escapam os mínimos sintomas mórbidos de uma política
agitada, expressa no triunfo das mediocridades e na preferência
dos atributos inferiores, já de exagerado mando, já de subserviência
revoltante, o que eles lobrigam nas gentes sul-americanas é uma
seleção natural invertida: a sobrevivência dos menos
aptos, a evolução retrógrada dos aleijões,
a extinção em toda a linha das belas qualidades do caráter,
transmudadas numa incompatibilidade à vida, e a vitória
estrepitosa dos fracos sobre os fortes incompreendidos...
Imaginai o darwinismo pelo avesso aplicado à história...
Ora, precisamos anular estes conceitos lastimáveis, que às
vezes nos marcam situações bem pouco lisonjeiras. Porque,
ainda os há que excetuam o México disciplinado por Porfirio
Díaz e enriquecido por José Ignez, embora abrangido de todo
pela órbita comercial e industrial da Norte-América; e o
Chile com a sua rígida estrutura aristocrática; e a Argentina,
que poucos anos de paz vão transfigurando, sob o permanente influxo
do grande espírito de Mitre - um homem que é o poder espiritual
de um povo.
Nós ficamos alinhados com o Paraguai, convalescente; com a Bolívia,
dilacerada pelos motins e pelas guerras; com a Colômbia e a abortícia
república que há meses lhe saiu dos flancos; com o Uruguai,
a esta hora abalado pelas cavalarias gaúchas e com o Peru.
Não exageramos. Poderíamos fazer numerosas e até
monótonas citações, recentes todas, espalhadas em
livros e em revistas, onde se move esta extravagante e crudelíssima
guerrilha de descrédito.
Aqui, um secretário de legação - poupemos o seu nome
- que na North-American Review patenteia um adorável ciúme
ante a expansão teutônica em Santa Catarina e bate alarmadamente
a afinadíssima tecla do princípio de Monroe; e demasia-se
depois no excesso de zelo de denunciar a nossa apatia de filhos de uma
terra onde é sempre de tarde - a land where it is always afternoon!
- e a nossa miopia patriótica que não percebe em Von den
Stein, em Hermann Meyer, em Landerberg os caixeiros sábios de Hansa,
os batedores sem armas do germanismo; além do pretenso sociólogo
- deixemos também em paz o seu nome e o seu livro, que ambos não
valem a escolta dos mais desarranjados adjetivos - que pontificando dogmaticamente,
genialmente canhestro, acerca do imperfeito da instrução
japonesa, aponta-a como inferior a das Repúblicas sul-americanas,
"exceto o Paraguai e o Brasil", recusando-nos, nesta parceria,
a mesma procedência alfabética...
Realmente, o que surpreende em tais artigos não é o extravagante
das afirmativas; é faltar-lhes, subscrevendo-os, a assinatura de
Marc Twain, o mestre encantador da risonha gravidade da ironia ianque.
***
Ora esta campanha
iminente com o Peru pode ser um magnífico combate contra essas
guerrilhas extravagantes.
Fizemos tudo por evitá-la, sobrepondo à fraqueza belicosa
da nação vizinha o generoso programa da nossa política
exterior no últimos tempos, tão elevada no sacrificar interesses
transitórios aos intuitos mais dignos de seguirmos à frente
das nações sul-americanas como os mais fortes, os mais liberais
e os mais pacíficos. O recente tratado de Petrópolis - resolvido
há quarenta anos, quase pormenorizado por Tavares Bastos e Pimenta
Bueno - todo ele resultado de uma inegável continuidade histórica
- é o melhor atestado dessa antiga irradiação superior
do nosso espírito, destruindo ou dispensando sempre o brilho e
a fragilidade das espadas. Nada exprime melhor a nossa atitude desinteressada
e originalíssima, de povo cavaleiro-andante, imaginando na América
do Sul, robustecida pela fraternidade republicana, a garantia suprema
e talvez única de toda a raça latina diante da concorrência
formidável de outros povos.
Mas não a compreendeu nunca a opinião estrangeira, que um
excesso de objetivismo leva à contemplação exclusiva
do quadro material das nossas desditas, à análise despiedada
de tudo quanto temos de mau, à indiferença sistemática
por tudo quanto temos de bom: e interpretam-na talvez como um sintoma
de fraqueza as próprias nações irmãs do continente.
Desiludamo-las.
Aceitemos tranqüilamente a luta com que nos ameaçam, e que
não podemos temer.
Não será o primeiro caso de uma guerra reconstrutora. Mesmo
quando rematam aparentes desastres, estes conflitos vitais entre os povos,
se os não impelem apenas os caprichos dinásticos ou diplomáticos,
traduzem-se em grandes e inesperadas vantagens até para os vencidos.
A França talvez não monopolizasse hoje as simpatias da Europa
sem a catástrofe de 70, que fez a dolorosa glorificação
do seu espírito e o ponto de partida de uma regeneração
incomparável, toda esteada numa experiência duríssima.
Entram muito na glória imortal da Gambeta os planos estratégicos
de Moltke.
Tão certo é que as artificiosas combinações
políticas, afeiçoadas ao egoísmo dos grupos, se despedaçam
nos largos movimentos coletivos, que não abrangem. E nós,
afinal, precisamos de uma forte arregimentação de vontade
e de uma sólida convergência de esforços, para grandes
transformações indispensáveis.
Se essa solidariedade sul-americana é um belíssimo ideal
absolutamente irrealizável, com o efeito único de nos prender
às desordens tradicionais de dois ou três povos irremediavelmente
perdidos, pelo se incompatibilizarem às exigências severas
do verdadeiro progresso - deixemo-la.
Sigamos - no nosso antigo e esplêndido isolamento - para o futuro;
e, conscientes da nossa robustez, para a desafronta e para a defesa da
Amazônia, onde a visão profética de Humboldt nos revelou
o mais amplo cenário de toda a civilização da terra.
O IDEAL AMERICANO
Roosevelt é
um estilista medíocre. A frase adelgaça-se-lhe no distendido
de uns períodos oratórios cheios de incidentes intermináveis
e rematados pela simulcadência inaturável das mesmas idéias
repisadas, volvidas e revolvidas sob todas as faces, com o sacrifício
absoluto da forma à clareza, ou à exposição
desatada em pormenores e minúcias exemplificadoras. Não
escreve, leciona. Não doutrina, demonstra. Não generaliza,
não sintetiza e não se compraz com os aspectos brilhantes
de uma teoria: analisa, disseca, induz friamente, ensina.
Mas isto sem o aprumo pretensioso de um lente que pontifica, senão
com a modéstia fecunda de um adjunto que rediz, experimenta e mostra.
E o grande repetidor da filosofia contemporânea. Nada diz de novo.
Diz tudo de útil.
O seu último livro, o Ideal Americano, é uma sistematização
de truísmos, para adotarmos o anglicismo indispensável às
coisas sabidíssimas e claras. E no primeiro momento, deletreadas
as primeiras páginas, imaginamo-nos às voltas com um excêntrico
rival de Marc Twain, abalançando-se a ressuscitar velharia e a
demonstrar axiomas.
No entanto, a pouco e pouco ele nos domina e absorve. Há um encanto
irresistível naquela rudeza de rough rider e de quaker; e o paladino
rejuvenescido de coisas tão antigas - a energia, a ocupação
aparente dos destinos de seu pais, vai, realmente, traçando todas
as condições imprescindíveis à vida de todos
os países.
Para nós, sobretudo, a sua leitura é imperiosa e urgente.
Copiamos, numa quase agitação reflexa, com o cérebro
inerte, a Constituição norte-americana, arremetendo com
as mais elementares noções do nosso tirocínio histórico
e da nossa formação, violando do mesmo passo as nossas tradições
e a nossa índole; é natural e obrigatório que lhe
vejamos, a par da grandeza, os males, sobretudo quando eles entendem especialmente
com a nossa situação presente e o nosso caráter nacional.
De fato, Roosevelt, ao delatar os "perigos excepcionais" que
ameaçam a grande República, antepõe-lhes por vezes
de relance, mas insistentemente, feito uma contraprova expressiva, o quadro
da anarquia sul-americana; "rusguento grupo de Estados, premidos
pelas revoluções, onde um único senão destaca
mesmo como nação de segunda".
Deste modo, enquanto recuamos espavoridos imaginando o espantalho do perigo
ianque, o estrênuo professor de energia põe, na frente da
opinião ianque, o espantalho do perigo sul-americano. Temos medo
daquela força; e, no entanto, ela é quem se assusta e foge
apavorada da nossa fraqueza.
Ora, infelizmente para nós, a covardia paradoxal do colosso é
mais compreensível que a infantilidade dos nossos receios.
Folheiem-se ao acaso as primeiras folhas do Ideal Americano. Depara-se-nos
para logo uma novidade: o homem tão representativo do absorvente
utilitarismo e do triunfo industrial da América do Norte é
um idealista, um sonhador, um poeta incomparável de virtudes heróicas.
Para ele, as garantias de sucesso da sua terra estão menos nos
prodígios da atividade e no assombro de uma riqueza material sem
par, do que nas belíssimas tradições de honra, e
eficiência, traduzidas na ordem política pelos nomes que
se inserem entre os de Washington e Lincoln, e na ordem social pelo repontar
ininterrupto dessas emoções generosas, que propelem aos
verdadeiros estadistas e sem as quais as nações se transmudam
"em trambolhos obstrutivos de alguns tratos da superfície
terrestre". Não lhe bastam as virtudes da economia e do trabalho;
superpõe-lhes a glorificação permanente da honra
nacional, da coragem e da persistência, do altruísmo, da
lealdade e das grandes tradições provindas das façanhas
passadas, formando a capacidade crescente para as empresas maiores do
futuro...
Traçado este rumo, é inflexível. Caem-lhe sob o passo
de carga de uma lógica inteiriça, confundidos, embolados
e ruídos no mesmo esmagamento: - o político tortuoso e solerte
que, malignado pelo oblíquo incurável da visão moral,
faz da política um meio de existência e supre com a esperteza
criminosa a superioridade de pensar; o doutrinador estéril que
não transforma a vida numa força ativa e combatente; o indiferente
que resmoneia, agressivo, contra a corrupção política
ou administrativa, e não intervém num protesto vigoroso
e alto, definito por atos decisivos; o jornalista que não exercita
uma critica intrépida dos homens e dos partidos, ou se desfaz em
lisonjarias indecorosas... e sobre todos eles, os que formam a platéia
louvaminheira, não só para lhes explorar as ações
como para lhas divinizar e aplaudir, garantindo-lhes no mesmo lance a
impunidade dos crimes e a recompensa das males perpetrados
Ao lermos estas páginas impiedosas, pressentimos o dardo de uma
alusão ferina. Ali está, latente, um comentário interlinear,
de onde ressalta o pior da nossa desalentadora psicologia.
Mas prossigamos. Há identidades mais empolgantes. O impávido
moralista repisa logo adiante uma outra novidade velha: firma de modo
inflexível a necessidade de um largo americanismo, um forte sentimento.
nacional contraposto a um localismo deprimente e dispersivo. Combate às
claras - numa lúcida compreensão,. que não possuímos,
do verdadeiro regime federal - o maligno espírito de paróquia
e esse estreito patriotismo de campanário provincial ou estadual,
que subordina a nacionalidade ao bairrismo e retrata, em nosso tempo,
o federalismo incoerente da antigüidade grega, das Repúblicas
medievais da Itália, e dos retrógrados Estados da Alemanha
antes de Bismarck.
Neste lance, aponta ainda uma vez os fatos "abjetos e sangrentos"
da América do Sul. E tão desanimador se lhe afigura este
vício do regime, que se apressa em lhe denunciar a quase extinção
na América do Norte, graças a uma evolução
inegável e positiva, porque significa, ali, a passagem de uma forma
incoerente e dispersiva a uma forma mais coerente e definida, consoante
o preceito elementar do maior pensador da sua raça.
Trata-se como se vê, de um mal que lá está em plena
decadência, próximo a extinguir-se, mas que ainda atemoriza;
ao passo que entre nós ele surge vigoroso, e se desenvolve e irradia
para toda a banda, delineando umas fronteiras ridículas, ou ostentando
irritantemente umas questões de limites inclassificáveis,
e deixa-nos impassíveis...
Completa-o um outro.
Ao patriotismo diferenciado alia-se, pior, o cosmopolitismo - essa espécie
de regime colonial do espírito que transforma o filho de um país
num emigrado virtual vivendo, estéril, no ambiente fictício
de uma civilização de empréstimo. Mas não
há explicar-se a insistência do escritor neste ponto. O americano
do norte é um absorvente e um dominador de civilizações.
Suplanta-as, transfigura-as, afeiçoa-as ao seu individualismo robusto
e ao seu bom senso incomparável; americaniza-as.
Para nós, sim, é que parecem feitas aquelas páginas
severas riçadas de repentinos e vivos golpes de ironia - porque
entre nós é que se faz mister repetir longamente, e monotonamente
mesmo, que mais vale ser um original do que uma cópia, embora esta
valha mais do que aquele" e que o ser brasileiro de primeira mão,
simplesmente brasileiro, malgrado a modéstia do titulo, "vale
cinqüenta vezes mais do que ser a cópia de 2ª classe,
ou servil oleografia, de um francês ou de um inglês".
Parafraseando, diríamos: os nossos melhores estadistas, guerreiros,
pensadores e dominadores da terra, os que engenharam as melhores leis
e as cumpriram, os homens de energia ativa e de coração,
que definiram com mais brilho a nossa robustez e o nosso espírito
- todos sentiram, pensaram e agiram principalmente como brasileiros; destacam-se,
como no passado, de todo destoantes da fisionomia moral de uma época
onde o mesmo esboço de um irrequieto e frágil nativismo
foi pedir à história do estrangeiro o próprio nome
do batismo.
O Ideal Americano não é um livro para os Estados Unidos,
é um livro para o Brasil.
Os nossos homens públicos devem - com diurna e noturna mão
- versá-lo e decorar-lhe as linhas mais incisivas, como os arquitetos
decoram as fórmulas empíricas da resistência dos materiais.
E um compêndio de virilidade social e de honra política incomparável.
Traçou-o o homem que é o melhor discípulo de Hobbes
e de Gunplowicz - um fanático da força, um tenaz propagandista
do valor sobre todos os aspectos, que vai da simples coragem física
ao estoicismo mais complexo.
Daí a sua utilidade, não nos iludamos. Na pressão
atual da vida contemporânea, a expansão irresistível
das nacionalidades deriva-se, como a de todas as forças naturais,
segundo as linhas de menor resistência. A absorção
de Marrocos ou do Egito, ou de qualquer urna outra raça incompetente,
é antes de tudo um fenômeno natural, e, diante dele, conforme
insinua a ironia aterradora de Mahan, o falar-se no Direito é extravagância
idêntica à quem procura discutir ou indagar sobre a moralidade
de um terremoto.
É o darwinismo rudemente aplicado à vida das nações.
Roosevelt compara de modo pinturesco essa concorrência formidável
a um vasto e estupendo football on the green: o jogo deve ser claro, franco,
enérgico e decisivo; nada de desvios, nada de tortuosidades, nada
de receios, porque o triunfo é obrigatoriamente do lutador que
hits tle line hard!
Aprendamos, enquanto é tempo, esta admirável lição
de mestre.
TEMORES VÃOS
Numa quase mania coletiva
da perseguição, andamos, por vezes, às arrancadas
com alguns espectros: o perigo alemão e o perigo ianque. Nunca,
em toda a nossa vida histórica, o terror do estrangeiro assumiu
tão alarmante aspecto, ou abalou tão profundamente as almas.
Estamos, neste ponto, como os romanos da decadência depois dos revezes
de Varus: escutamos o rumor longínquo da invasão. Uma diferença
apenas: Átila não ruge o stella cadi, tellus fremit! descarregando-nos
àcabeça o frankisk pesado, e sobre o chão as patas
esterilizadoras do cavalo, é Guilherme II, um sonhador medieval
desgarrado no industrialismo da Alemanha; e Genserico, a despeito da sua
envergadura rija de cowboy dominador das pastagens, é Roosevelt,
o grande professor da energia, o maior filósofo prático
do século, o ríspido evangelista da vida intensa e proveitosa.
Não é o bárbaro que nos ameaça, é a
civilização que nos apavora. Esta última consideração
é expressiva. Mostra que os receios são vãos.
De fato, atentando-se para a maior destas ameaças, a da absorção
ianque, põe-se de manifesto que o imperialismo nos últimos
tempos dominante na política norte-americana não significa
o fato material de uma conquista de territórios, ou a expansão
geográfica à custa do esmagamento das nacionalidades fracas
- senão, numa esfera superior, o triunfo das atividades, o curso
irresistível de um movimento industrial incomparável e a
expansão naturalíssima de um país onde um individualismo
esclarecido, suplantando a iniciativa oficial, sempre emperrada ou tardia,
permitiu o desdobramento desafogado de todas as energias garantidas por
um senso prático incomparável, por um largo sentimento da
justiça e até por uma idealização maravilhosa
dos mais elevados destinos da existência.
Esta vida prodigiosa alastra-se pela terra com a fatalidade irresistível
de uma queda de potenciais. Mas não leva exclusivamente o vigor
de uma indústria em busca de mercados, ou uma pletora de riquezas
que impõe o desafogo de emigração forçada
dos capitais senão também as mais belas conquistas morais
do nosso tempo, em que a inviolabilidade dos direitos se ajusta cada vez
mais ao respeito crescente da liberdade humana.
Sendo assim, é pelo menos singular que vejamos uma ameaça
naquela civilização. Singular e injustificável. Tomemos
um exemplo recentíssimo.
Quando o almirante Dewey rematou em Manilha a campanha acelerada que em
tão pouco tempo se alongara, num teatro de operações
de 160o de longitude, da ilha de Cuba às extremas do Pacifico,
a conquista das Filipinas pareceu a toda a gente uma intervenção
desassombrada do ianque na partilha do continente asiático. Os
melhores propagandistas de uma política liberal e respeitadora
da autonomia de outros povos, os mesmos antiexpansionistas do North America,
justificavam uma posse arduamente conseguida através de uma luta
penosa e ferocíssima. Além disto, o arquipélago não
decairia da situação anterior, permanecendo no sistema subalterno
de colônia. Melhoraria com a troca das metrópoles; e as suas
114.000 milhas quadradas de terras fertilíssimas, onde se entranham
as mais opulentas minas e pompeiam os primores de uma flora surpreendente,
eram um novo palco que se abria às grandes maravilhas do trabalho.
Realizava-se a profecia de J. Keill: a civilização, depois
de contornar a terra, volvia ao berço fulgurante do Oriente, levando-lhe
os tesouros de uma faina secular...
Deste modo, quando ao termo da campanha seguiu a primeira "comissáo
filipina" a manter entre os tagalos o prestígio americano,
consolidar a paz e instituir a justiça, viu-se neste aparato pacífico
o primeiro sintoma da absorção inevitável. E era
falso.
Aquela conquista, fato consumado pelo triunfo militar, pela aquiescência
de todas as nações, e pela submissão completa dos
indígenas, sem nenhum empeço material que se lhe oponha,
é, neste momento, duvidosa, problemática e talvez inexeqüível.
Não no-lo diz um sentimental; demonstra-o, friamente, num seco
argumentar incisivo, o homem mais competente para isto - Gould Shurmann,
precisamente o chefe daquela primeira comissão, e o intérprete
mais veraz, senão único, dos intuitos da política
nos Estados Unidos naquele caso.
A sua linguagem é franca; não segreda ou coleia. no abafamento
e nas minúcias das informações oficiais; vibra às
claras e alto numa revista - The Ethical Record, de março último,
onde o assunto, a great national question, está sob as vistas de
todo o mundo.
Ali se discutem os três destinos essenciais das Filipinas: a dependência
colonial, a independência incompleta, a exemplo do que sucede em
Cuba, ou a constituição de um território, prefigurando
vindouro Estado confederado. E a conclusão é surpreendente,
sobretudo para os que tanto armam olhos e ouvidos aos esgares truanescos
e às versas extravagantes do Jingoismo ianque, tão desmoralizado
na própria terra onde se agita: Gould Shurmann, embora ressalvando
os interesses da sua terra, declara-se, com um desassombro raro, advogado
da independência Filipina. A seu parecer ela se impõe feito
um corolário inflexível e insofismável de princípios
e tradições políticas que a grande República
não poderá negar ou iludir sem a renúncia indesculpável
"da sua própria história e dos seus próprios
ideais."
Convenhamos em que estes dizeres, dada a autoridade oficial de quem os
emite, tornam bastante opinável o perigo ianque - a funambulesca
Tarasca que tanto desafia por aí o ferretoar dos pontos de admiração
das frases patrióticas.
Afinal, ele não existe; como, afinal, não existe o perigo
germânico, inexplicável mesmo diante das nossas tentativas
para que se ab-rogue completamente o rescrito de Von der Heydt, que proibiu
a emigração germânica para o Brasil.
***
Concluímos
que este pavor e este bracejar entre fantasmas são um simples reflexo
subjetivo de fraqueza transitória; e que estes perigos - alemão,
ianque ou italiano ou ainda outros rompentes ao calor das fantasias, e
que se nos figuram estranhos são claros sintomas de um perigo maior,
do perigo real e único que está todo dentro das nossas fronteiras
e irrompe' numa alucinação da nossa própria vida
nacional: o perigo brasileiro.
Este, sim; aí está e se desvenda ao mais incurioso olhar
sob infinitos aspectos.
Mas não os consideramos.
Seria uma tarefa crudelíssima.
Teríamos de contemplar, na ordem superior dos nossos destinos,
o domínio impertinente da velha tolice metafísica, consistindo
em esperarmos tudo das artificiosas e estéreis combinações
políticas, olvidando que ao revés de causas elas são
meros efeitos dos estados sociais; e aos desastrosos resultados de um
código orgânico, que não é a sistematização
das condições naturais do nosso progresso, mas uma cópia
apressadíssima, onde prepondera um federalismo incompreendido,
que é o rompimento da solidariedade nacional
Nos recessos mais íntimos da nossa vida, veríamos desdobrar-se
um pecaminoso amor da novidade, que se demasia ao olvido das nossas tradições;
o afrouxamento em toda a linha da fiscalização moral de
uma opinião publica que se desorganiza de dia a dia, e cada dia
se torna mais inapta a conter e corrigir aos que a afrontam, que a escandalizam,
e que triunfam; uma situação econômica inexplicavelmente
abatida e tombada sobre as maiores e mais fecundas riquezas naturais;
e por toda a parte os desfalecimentos das antigas virtudes do trabalho
e perseverança que já foram, e ainda o serão, as
melhores garantias do nosso destino.
Concluiríamos que os temores são vãos.
Mesmo no balancear com segurança os únicos perigos reais
que nos assoberbam, não se distinguiriam males insanáveis
- mas a crise transitória da adaptação repentina
a um sistema de governo que, mais do que qualquer outro, requer, imperativamente,
o influxo ininterrupto e tonificante da moral sobre a política.
Por isso mesmo ele nos salvará.
Firmar-se-á, inevitavelmente, uma harmonia salvadora entre os belos
atributos da nossa raça e as fórmulas superiores da República,
empanados num eclipse momentâneo; e desta mútua reação,
deste equilíbrio dinâmico de sentimentos e de princípios,
repontarão do mesmo passo as regenerações de um povo
e de um regime.
Veremos então, melhor, todo o infundado de receios ou de imaginosas
conquistas, que são até uma calúnia e uma condenável
afronta a nacionalidades que hoje nos assombram, porque progridem, e que
nos ameaçam pelo motivo único de avançarem triunfante
e civilizadoramente para o futuro.