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Contrastes e Confrontos
Euclides da Cunha


CONFLITO INEVITÁVEL

As incursões peruanas não denunciam apenas a avidez de alguns aventureiros doidamente ferretoados da ambição que os arrebata às paragens riquíssimas dos seringais. São mais sérias; são quase um expressivo movimento histórico, desencadeado com uma finalidade irresistível. Não as determinam apenas as energias sociais instáveis e dispersivas da república sul-americana mais malignada pela caudilhagem, senão as mesmas leis físicas invioláveis de toda aquela zona.
Realmente, quem quer que contemple através da visão prodigiosa de Humboldt, ou da clara inteligência de C. Wiener, todo o trato de terras que vai de Arica a Trujillo, constrito entre o Pacífico e os Andes, compreende que os destinos do Peru oscilam entre dois extremos invariáveis: ou a extinção completa da nacionalidade suplantada por uma numerosa população adventícia, que assume todas as modalidades do alemão industrioso ao cooli quase escravo - ou um desdobra. mento heróico para o futuro, uma entrada atrevida na Amazônia, um rush salvador às cabeceiras do Purus, visando do mesmo passo uma saída para o Atlântico e um cenário mais e mais fecundo às atividades. Não há escapar às aperturas do dilema.
A posição prejudicial dos Andes cria ao Peru, como à Bolívia, regimes que se combatem: um litoral estéril que mal se alarga em dunas ondeantes, separado, por uma cordilheira, da porção mais vasta e mais exuberante do país. Na estreita faixa da costa, onde se adensou o povoamento e se erigiu a capital, e pulsa toda a existência política da república, estira-se um esboço de deserto; na montana alpestre do levante e mais longe nas planícies amplas, cobertas de florestas estupendas, por onde derivam, remansados, os últimos galhos dos tributários do Amazonas - pervagam, errantes, as tribos dos quichuas inúteis.
Deste modo a natureza criadora e forte do oriente se desentranha em riquezas incalculáveis diante das vistas incuriosas do selvagem - enquanto no ocidente as praias e vales areentos mal revestidos de uma flora tolhiça onde rebrilham os cristais nitrosos e se derrama em largas superfícies a lava endurecida, vão a pouco e pouco molificando o temperamento dos descendentes diretos dos "conquistadores".
Realmente, ali, naquela tira litorânea e primeiros recostos andinos, que formam, afinal, toda a geografia política do Peru, a sociedade não se irmana à terra, desatando-lhe as energia recônditas e nobilitando-a pelas culturas. Faz uma aliança com os terremotos:
devasta-a.
Enquanto estes lhe devoram as cidades, e lhe desviam os rios, e a retalham de fendas em que se enredam, baralhadas, as curvas sismais dos cataclismos - ela despedaça os flancos das montanhas em procura de ouro e de prata; perfura, escava e esquadrinha as dunas onduladas onde repousa há séculos, nas huacas subterrâneas, a sociedade espectral dos incas mumifícados com as suas incalculáveis riquezas, perquire e tala os descampados na faina estonteadora da exploração dos nitratos de sódio; e desbasta as costas e as ilhas na pesquisa do guano, que exporta para o estrangeiro sem notar que a natureza previdente lhe oferece ao lado da esterilidade do solo os adubos preexcelentes que a destroem.
Mas ainda nesta atividade febril e parasitária, desencadeada à ventura, o peruano não está só. Em qualquer rua de Lima, já o notou um observador, se ostenta a mais numerosa galeria etnográfica da terra: do caucásio puro, ao africano retinto, ou amarelo desfibrado e ao quichua decaído; e entre estes quatro termos principais, as incontáveis variedades de uma mestiçagem dissímil do mulato de todos os sangues, aos zampos e cafuzos, aos cholos que lembram os nossos caboclos, e aos interessantíssimos chino-cholos em cujos rostos se fundem as linhas capitais de quase todas as raças. Assim, ao desordenado das atividades se prende o conflito inevitável dos temperamentos. A vida decorre sem continuidade, sem a disciplina resultante de uma harmonia de esforços que extinga o dispersivo indispensável dos ofícios; e a sociedade incaracterística, sem tradições definidas - porque a invade e a perturba, intermitentemente, a grande massa de estrangeiros que a explora e abandona - parece refletir na ordem política o desequilíbrio das forças naturais que lhe convulsionam o território, oscilando, dolorosamente, sacudida pelos terremotos e pelos "pronunciamentos". Ninguém lhe lobrigou ainda um aspecto estável, um caráter predominante, um traço nacional incisivo. Perenemente em começo, nesse agremiar os tipos adventícios de todos os quadrantes, vai absorvendo-lhes e refletindo-lhes por igual os atributos superiores e os estigmas. Quem lhe deletreia os fastos segue através de uma vertigem, e sofre o constante saltear das emoções mais opostas emergentes num baralhamento de sucessos que se entrechocam díspares. Depois de sentir o mesmo espanto de Darwin ao ver em 1832, na catedral de Lima, desdobrar-se sobre a tropa genuflexa a lúgubre bandeira negra de uma revolta inesperada, completando um Te-Deum - sente a frívola alegria de Offenbach ao divisar a mantilha rendada da Perichole que tanto justificou a ironia popular (Perra e chola!) pela vida desmandada na corte pretensiosa do antigo Peru dos vice-reis.
Passa do trágico ao repulsivo, do assombroso ao gracil.
Ora, este jogar de contrastes oriundos em grande parte do viver aleatório de uma sociedade que parece estar apenas abarracada no território alongado que prolonga o Pacífico, não escapou aos estadistas peruanos. Nascem daquela localização prejudicial sobre um chão maninho encerrando riquezas ocasionais que dia a dia decrescem, que se não reproduzem e dão ao trabalho improdutivo de as descobrir um triste aspecto de pilhagem - confundindo na mesma azáfama tumultuária a aglomeração irrequieta em que há todos as raças e não há um povo...

***

A salvação está no vingar e transpor a cordilheira. Ali ao menos há a sugestão dominadora da civilização surpreendente dos incas: a estrada de duas milhas distendida de Quito às extremas do Chile, lastrada pelas neves eternas, contorneando encostas abruptas em releixos de rocha viva, alcandorada em pontes pênseis sobre abismos, e estirando nas planuras as calçadas eternas de silhares unidos com cimento betuminoso; e os velhíssimos baluartes pré-incaicos feitos de montanhas inteiras arremessando-se nas alturas em sucessivos patamares ameados; e a ruinaria dos santuários do Sol com os seus aparelhos ciclópicos de blocos poligonais de porfiro brunido; e os longos aquedutos do monte Silva, em cujos canais subterrâneos, perfurando as serras, se espelham esforços de uma engenharia titânica...
Depois, descidas as vertentes orientais da primeira cadeia dos Andes, transposta a "montaña" e a segunda cordilheira - a terra exuberante é de medida, prefigurando nas grandes matas a mesma hiloe amazonense.
Nesta região, tão outra, está - pela implantação do trabalhador e pelo equilíbrio da existência agrícola a redenção daquelas gentes que possuem os melhores fatores para um elevado tirocínio histórico.
Mas, ao mesmo passo que lhes despontam estas esperanças, extingue-lhas a mesma cordilheira com o seu largo tumultuar de píncaros e de pendores impraticáveis num alude vivo de muralha, que lhes trancam quase por completo as comunicações com o litoral. De fato, o Pacifico, ainda que se rasgue o canal de Nicarágua, parece que pouco influirá no progresso do Peru. O seu verdadeiro mar é o Atlântico; a sua saída obrigatória o Purus. Sabem-no há muito os seus melhores estadistas: a expansão para o levante traduz-se-lhes como um dever elementar de luta pela vida. Revelam-no todos os insucessos de numerosas tentativas buscando libertá-los das anomalias físicas que o deprimem. Revelou-as desde 1879 C. Wiener: "Os peruanos aquilatam bem a importância enorme que teriam as estradas, ligando os afluentes navegáveis do Amazonas e do Ucayali às cidades do litoral; fizeram todos os esforços para executá-las porque lhas impõem a lógica e o interesse; mas parece que a sua força de vontade é menor que a constituição física dos autóctones".
De feito, contemplando-se diante de um mapa a faixa costeira entre Pachacamas e Tumbez, nota-se um como diagrama daquelas tentativas desesperadas e constantes.
Foi a princípio, no extremo norte, a linha férrea de Paita e Piura, procurando os tributários setentrionais do Solimões; depois, próxima e ao sul, uma outra, de Lambayaque a Ferenafe: ambas estacionaram, trilhos imersos nos areais da costa. A terceira, lançada de Pascamayo à estação terminus de Cajamarca, e a quarta partindo de Salavery, pouco ao sul de Trujíllo - buscavam as linhas de derivação do Ucayali: embateram ambas de encontro às fílades espessas e aos dolentos e quartzos duríssimos das cordilheiras. A quinta, a admirável estrada de Oroya, dominou parte da serrania, mas ficou bem longe do seu objetivo essencial no transmontar as últimas cordas de serras, varar pelas planícies do Sacramento e alcançar o Purus.
Esta é expressiva: mostra como o traçado do grande tributário do Amazonas, em cujas margens contendem agora os flibusteiros, norteia de há muito a administração daquela república.
Por outro lado, desde 1859, com Faustino Maldonado e dez anos depois com o coronel Latorre, sucessivas expedições se lançam para o oriente impelidas por alguns abnegados caídos todos naqueles lugares remotos, numa extraordinária intuição dos interesses reais. do seu país.
Estes antecedentes delatam nas perturbações que lavram em toda aquela zona um significado bem diverso do que lhe podem dar algumas correrias de seringueiros.
A guerra iminente tem uma feição gravíssima.
Se contra o Paraguai, num teatro de operações. mais próximo e acessível, aliados às repúblicas platinas, levamos cinco anos para destruir os caprichos de um homem - certo não se podem individuar e prever os sacrifícios que nos imporá a luta com a expansão vigorosa de um povo.


CONTRA OS CAUCHEIROS

A remessa de sucessivos batalhões para o Alto Purus - movimento de armas recordando um começo de guerra declarada - parece uma medida elementar de previdência.
É um erro. Não implica apenas o desfalecido das nossas finanças, nem se limita a projetar, de golpe, um brilho perturbador de baionetas no meio de um debate diplomático; vai além: prejudica de antemão a campanha provável e torna desde já precária a defesa das circunscrições administrativas criadas pelo tratado de Petrópolis.
Estas afirmativas parecem paradoxais, e vão muito ao arrepio da corrente geral da opinião revoltadíssima contra esse Peru - tão fraco diante da nossa própria fraqueza. Mas são demonstráveis. Está passado o tempo em que a honra e a segurança das nacionalidades se entregavam, exclusivamente, ao rigor das tropas arregimentadas.
A última guerra do Transvaal, à parte os efeitos materiais, teve conseqüências surpreendentes. Estão ainda vivíssimos em todas as memórias os admiráveis episódios daquela esgrima magistral dos boers contra as armas pesadas da Inglaterra; e entre eles, um que pelo aparecer constante e invariável nos dois campos adversos, se reveste quase do caráter de uma lei, se é que as tem a maneira heróica de brutalidade humana. Indiquemo-lo: em Paardeberg, quando as tropas regulares inglesas recuaram rudemente repelidas dos entrincheiramentos de Cronje, ampararam-na os voluntários canadenses num assalto brilhante, que ultimou no assédio; Kimberley, defendida pelos cidadãos armados, reagiu com mais eficácia e diante de mais numerosos sitiantes do que Ladsmith guarnecida pela tropa de linha; em Magersfontain o pânico dos soldados teve o corretivo instantâneo de uma ducha, na fria impassibilidade dos highlanders escoceses... São fatos expressivos. Não escaparam à visão dos modernos profissionais da guerra. O coronel Henderson, que os testemunhou de perto, no estado-maior de Lorde Roberts, explica-os pelos terríveis efeitos desmoralizadores do armamento moderno e pelos embaraços criados pela pólvora sem fumaça.
O espírito de classe e a alta responsabilidade que lhe advém do cargo que ocupou junto ao comandante em chefe, não lhe tolheram o dizer nuamente que toda a luta sul-africana fora a glorificação dos lutadores improvisados, e a triumph for the principle of voluntary service.
De Bloch foi ainda mais incisivo: a preeminência do civil resulta-lhe, iniludível, das mesmas condições do campo das batalhas modernas, onde a virulência e rapidez do tiro impõem uma dispersão de todo oposta aos dispositivos das paradas e das manobras. Em tais circunstâncias os oficiais não podem dirigir efetivamente os soldados, e estes, sem o hábito das deliberações próprias, estonteiam, desunidos e inúteis, porque quanto maior é a sua disciplina e o "training" da fileira, tanto menor é a aptidão individual de agir.
O argumento é impressionadoramente claro: o civil apanhado a laço, o voluntário de pau e corda, o caipira a quem a farda aterroriza-mas cuja capacidade de ação se desenvolveu autônoma nas caçadas, na faina da lavoura, nos múltiplos ofícios, nas viagens e nas várias peripécias de uma existência modesta e livre, surge de improviso desarticulando todas as peças da sinistra entrosagem em que a arte militar tem triturado os povos.
E para que isto sucedesse bastou que esta última se desenvolvesse ao ponto de deslocar todas as velharias da tática, firmando a única garantia dos combates nas faculdades de iniciativa.
A conclusão é tão arrojada, e deforma tanto os moldes do conceito vulgar, que precisamos afastá-la da nossa responsabilidade de latinos sentimentais e exagerados. Deixemo-la aí blindada na rigidez britânica: "It is this quality which makes the superiority of the boers over the british. And it is this also which accounts for the superiority of the british civilian over the british regular". (De Bloch - The wars of the f uture) .
Assim se esclarecem notáveis anomalias: a glória napoleônica, em que colaborou talvez o precipitado de recrutas colhidos em todos os pontos e que iam aperrar pela primeira vez as espingardas na frente do inimigo; as batalhas estupendas da guerra da Sucessão; o esporte ruidoso e álacre dos americanos em Cuba; e, neste momento, os desfalecimentos da formidável disciplina russa diante da vibratibilidade japonesa...
Inesperado desfecho: a guerra cresceu para diminuir na guerrilha; e depois de devorar os povos devora os próprios filhos, extinguindo o soldado. Não é Marte, é Saturno.
Reagiu à reprimenda dos filósofos e ao sentimentalismo dos poetas; evolveu ilogicamente apropriando-se dos recursos da ciência, que a repelem, e dos da indústria, que é a sua antítese; por fim, armou-se com uns dez milhões de baionetas e transformou-as na arma única que a trespassa. Acaba como os velhos facínoras salteados pela fadiga moral dos próprios crimes. Suicida-se.
Ora, um fato que ressalta tão vivo no esmoitado e no desimpedido dos campos mais próprios aos combates e aos seus alinhamentos prescritos, naturalmente se ampliará no embaralhado e no revolto do Alto Purus e do Alto Juruá, onde, até materialmente, são impossíveis aqueles dispositivos.
Ali não nos aguardam tropas alinhadas. Esperam-nos os caucheiros solertes e escapantes, mal reunidos nos baleões de voga, dispersos nas ubás ligeiras, ou derivando velozmente, isolados, à feição das correntes, nos mesmos paus boiantes que os rios acarretam; e repontando, a súbitas, na orla florida dos igapós, e desaparecendo, impalpáveis, no afogado dos paranamirins, onde se entrançam as ramagens das árvores que os escondem; ou girando pelas infinitas curvas e pelos incontáveis furos que formam a interessantíssima anastomose hidrográfica dos tributários meridionais do Amazonas.
A imagem material de uma campanha, ali, será o labirinto inextricável dos igarapés. Aos nossos estrategistas não impenderá a tarefa relativamente fácil de bater o inimigo - mas a empresa, talvez insuperável, de lobrigar o inimigo. Iludem-se os que imaginam que o só aparecimento de alguns corpos de tropas regulares no desmarcado trato de terras que demoram entre o Juruá e o Acre - baste a policiá-las, e a garantir os povoadores, e a impedir a violação de uma fronteira indeterminada. Os batalhões maciços, presos a uns tantos preceitos e ao retilíneo das formaturas, serão tanto mais inúteis quanto mais disciplinados e feitos à solidariedade de movimentos. O melhor de sua organização militar impecável culminará no péssimo da mais completa inaptidão a se ajustarem ao teatro das operações, e a enfrentarem o torvelinho dos recontros súbitos ou a se subtraírem aos perigos das tocaias. Não exemplifiquemos, recordando lastimáveis sucessos da nossa história recente.
Sobre tudo isto uma consideração capital. Aqueles longínquos lugares do Purus - mais conhecidos hoje, depois da exploração de Chandless, do que muitos pontos do nosso far west paulista - exigem uma aclimação dificílima e penosa. Apesar de um rápido povoamento, de cem mil almas em pouco mais de trinta anos, tem ainda o caráter nefasto das paragens virgens onde a copiosa exuberância da vida vegetal parece favorecida por um ambiente impróprio à existência humana. O seu quadro nosológico assombra, pela vasta série de doenças, que vão das maleitas permanentes à hipoemia intertropical entorpecedora e àquela originalíssima "purupuru" que não mata mas desfigura, embaciando a pele do selvagem e dando-lhe um facies de cadáver, pondo no rosto do negro, salpintado de manchas brancas, uma espantada máscara demoníaca, e imprimindo no do branco a brancura repulsiva do albinismo . . .
Vê-se bem quantos agentes, dispares nos aspectos mas convergentes nos efeitos, das conclusões mais recentes da técnica guerreira às mínimas exigências climáticas, concorrerão no invalidar a ocupação estritamente militar daquela zona.
Além disto, as forças para repelir a invasão já ali se acham, destras e aclimadas, nas tropas irregulares do Acre, constituídas pelos destemerosos sertanejos dos Estados do norte, que há vinte anos estão transfigurando a Amazônia. Eles formam o verdadeiro exército moderno como o preconizam, como o desejam, como o proclamam altamente, dentro dos círculos militares da Europa, os luminares da guerra precitados - não já para o caso especial das guerrilhas, mas para todas as formas das campanhas, quer estas se desenrolem nos campos clássicos da Bélgica, quer na topografia revessa do Transvaal. E confiados naqueles minúsculos titãs de envergadura de aço enrijada na têmpera das soalheiras calcinantes, a um tempo bravos e joviais, afeitos às deliberações rápidas e decisivas de uma tática estonteadora, que improvisam nos combates com a mesma espontaneidade com que lhes saltam das bocas as rimas ressoantes dos folguedos - poderemos permanecer tranqüilos.
Para o caucheiro - e diante desta figura nova imaginamos um caso de hibridismo moral: a bravura aparatosa do espanhol difundida na ferocidade mórbida do quichua - para o caucheiro um domador único, que suplantará, o jagunço.


ENTRE O MADEIRA E O JAVARI

Não há em todo o Brasil região alguma que tenha tido o vertiginoso progresso daquele remotíssimo trecho da Amazônia, onde não vingou entrar o devotamento dos carmelitas nem a absorvente atividade, meio evangelizadora, meio comercial, dos jesuítas. Ha pouco mais de trinta anos era o deserto. O que dele se conhecia bem pouco adiantava às linhas desanimadoras do padre João Daniel no seu imaginoso Tesouro Descoberto: "Entre o Madeira e o Javari, em distância de mais de 200 léguas, não há povoação alguma nem de brancos nem de tapuias mansos ou missões". O dizer é do século XVIII e podia repetir-se em 1866 na frase de Tavares Bastos: "O Amazonas é uma esperança; deixando as vizinhanças do Pará penetra-se no deserto".
Entretanto, nada explicava o olvido daquele território.
Compreende-se que os próprios norte-americanos tenham reprimido até 1868 a vaga povoadora impetuosíssima que assoberbou a barreira dos Alleganis e a transmontou, espraiando-se no far west; sopeara-lhe o arremesso a maninhez desalentadora dos terrenos absolutamente estéreis que se desatam a partir das vertentes orientais das Rocky Mountains.
Entre nós, não. As nossas duas maiores linhas de penetraçáo, a de S. Paulo e a do Pará, convergentes ambas em Cuiabá, nortearam-se desde o começo como a procura de empecilhos de toda a ordem.
Os sertanistas que abalaram de Porto Félix à feição do Tietê e do Paraná, para vencerem as águas torrenciais do Pardo até alcançarem pelo Taquari e pelo São Lourenço aquele longínquo objetivo depois de uma navegação de cerca de quatro mil quilômetros - e os que demandavam, a partir de Belém, sempre ao arrepio das águas do Amazonas, do Madeira e do Guaporé, numa travessia de mais de setecentas léguas, iam apostados a luta formidável com os baques das catadupas, com o acachoar das itaipavas, com a monotonia inaturável das varações remoradas, com o choque das correntes e com os torvelinhos dos peraus. Venceram-nos; e o planalto dos Parecis, expressivo divortium aquarum, de onde irradiam caudais para todos os quadrantes, teve, em pleno contraste com este caráter físico dispersivo, uma função histórica unificadora que só será compreendida quando o espírito nacional tiver robustez para escrever a epopéia maravilhosa das Monções.
Entretanto, demoravam-lhes no ocidente paragens que seriam facilmente percorridas sem aquela extraordinária dissipação de esforços.
A queda do maciço brasileiro, irregular e abrupta noutros pontos e originando regimes fluviais perturbadíssimos, que alguns rios, como o Tocantins e o S. Francisco, prolongam quase ao litoral, ali se desafoga na maior expansão em longitude da América do Sul, precisamente na zona em que a viva deflexão dos Andes para o ocidente propiciou uma área à maior bacia hidrográfica da terra. Daí o remansado e o desimpedido dos seus fartos tributários. O Purus e o Juruá são, depois do Paraguai e do Amazonas, os rios mais navegáveis do continente. Descidas as vertentes orientais dos últimos contrafortes andinos, onde lhes abrolham as fontes, e repontam as suas únicas cachoeiras, volvem as águas num declive que o mais rigoroso aparelho às vezes não distingue. Ajustam-se à rara uniformidade dos terrenos. tão eloqüentemente exposta, à mais breve contemplação de um mapa, no paralelismo dos grandes cursos de água que correm entre o Madeira e o Javari, drenando lentamente a região desimpedida que prolonga os piamos bolivianos e onde a natureza equilibrada esconde as opulências de uma flora incomparável nos labirintos. dos igarapés...
Mas ninguém a procurou. A metrópole que firmara a posse da terra nas cabeceiras do Rio Branco, do Rio Negro, no Solimões e no Guaporé com as paliçadas e os pedreiros de bronze dos velhos fortes de S. Joaquim,. Marabitanas, Tabatinga e Príncipe da Beira - quatro, enormes escudos desafiando a rivalidade tradicional da. Espanha - evitara por completo (como se recuasse ante a ferocidade, tão fabulada pelos cronistas, dos muros irradios) aqueles longínquos tratos do território - até que no-las desvendassem, em 1851, Castelnau e o tenente da marinha norte-americana F. Maury.
Foi uma revelação. O descobrimento coincidia com uma renascença da atividade nacional. Na imprensa, o robusto espírito prático de Souza Franco aliara-se à. inteligência fulgurante de Francisco Otaviano nessa propaganda irresistível pela franquia do Amazonas a todas as bandeiras, a que tanto ampararam o lúcido critério de Agassiz, as pesquisas de Bates, as observações de Brunet e os trabalhos de Souza Coutinho, Costa Azevedo (Ladário) e Soares Pinto, até que ela desfechasse no decreto civilizador de 6 de dezembro de 66.
Tavares Bastos, não lhe bastando, à alma varonil e romântica, o tê-la esclarecido com o fulgor das melhores páginas das Cartas de um solitário, transmudava-se num sertanista genial: perlustrou o grande rio trazendo-nos de lá um livro, O Vale do Amazonas, que é um reflexo virtual da Hiloe portentosa e é ainda hoje o programa mais avantajado do nosso desenvolvimento. Ora, neste largo expandir de novos horizontes, um explorador tenaz, Chandless, traçou repentinamente a diretriz de um objetivo definido. Levara-o até lá, no trecho onde os grandes rios misturam as suas águas na anastomose das nascentes, o intento de descobrir uma passagem do Acre para o Madre-de-Dios - o velho problema da ligação das bacias do Amazonas e do Paraguai. Não o resolveu. Fez mais: sugestionado pelas maravilhas naturais, transformou-se num pioneiro salteado de ambições e fundou ali o primeiro estabelecimento que fixou o homem à terra; enquanto um mateiro destemeroso, Manoel Urbano da Conceição, um quase anônimo, como o é a grande maioria dos nossos verdadeiros heróis, batia longamente o reticulado inextricável dos furos e, desvendando as nascentes de todos os tributários do Purus, preparava a um outro dominador de desertos, o coronel Rodrigues Labre, grande parte do terreno para um rápido e intensíssimo povoamento.
De feito, foi uma transfiguração. Em pouco, sucessivas vagas de imigrantes reproduziam em nossos dias o tumulto das entradas do século XVIII.
O látex das seringueiras, o cacau, a salsa, a capaíba e toda a espécie de óleos vegetais, substituindo o ouro e os diamantes, alimentavam as mesmas ambições ensofregadas.
A terra, até então entregue às tribos erradias, teve em cerca de dez anos (1887) uma população de 60.000 almas, ligando-se as suas mais remotas paragens de Sepatini e Hintanaam a Manaus, pela Companhia Fluvial de Amazonas, com um primeiro desenvolvimento de 1.014 milhas, logo depois de distendidas na navegação dos tributários superiores que vão do Ituxi ao Acre. E por fim uma cidade, uma verdadeira cidade. Lábrea, repontou daquela forte convergência de energias trazendo desde o nascer um caráter destoante do de nossos povoados sertanejos - com o requinte progressista de uma imprensa de dois jornais, o Purus e o Labrense, e o luxo suntuário de um teatro concorrido, e colégios, e as ruas calçadas e alinhadas: a molécula integrante da civilização aparecendo, repentinamente, nas vastas solidões selvagens...
Ora, estes sucessos, que formam um dos melhores capítulos da nossa história contemporânea, são, também, o exemplo mais empolgante da aplicação dos princípios transformistas às sociedades. Realmente, o que ali se realizou> e está realizando-se, é a seleção natural dos fortes. Para esse investir com o desconhecido não basta o simples anelo das riquezas: requerem-se, sobretudo, uma vontade, uma pertinácia, um testemor estóico e até uma constituição física privilegiada. Aqueles lugares são hoje, no meio dos nossos desfalecimentos, o palco agitadíssimo de um episódio da concorrência vital entre os povos. Alfredo Marc encontrou, nas margens do Juruá, alguns parisienses, autênticos parisienses, trocando os encantos dos bulevares pela exploração trabalhosa de um seringal fartíssimo; e acredita-se que o viajante não exagerou. Lá estão todos os destemerosos convergentes de todos os quadrantes. Mas, sobrepujando-os pelo número, pela robustez, pelo melhor equilíbrio orgânico da aclimação, e pelo garbo no se afoitarem com os perigos, os admiráveis caboclos do norte que os absorverão, que lhes poderão impor a nossa língua, os nossos usos e, ao cabo, os nossos destinos, estabelecendo naquela dispersão de forças a componente dominante da nossa nacionalidade.
E o que deve acontecer.
Volvendo ao paralelo que, pouco há, indicamos, ao notarmos a súbita parada da expansão norte-americana no far west, levemo-lo às últimas conseqüências.
Por uma circunstância realmente interessante, os ianques, depois de estacionarem largos anos diante das Rochosas, saltaram-nas, vivamente atraídos pelas minas descobertas na Califórnia, precisamente no momento em que nos avantajávamos até ao Acre. O paralelismo. das datas é perfeito. No mesmo ano de 1869, em que nos prendíamos por uma companhia fluvial àquelas esquecidas fronteiras, eles se ligavam ao Pacifico pela linha férrea do Missouri, audaciosamente locada nas cordilheiras e nos desertos.
Emparelhamo-nos, neste episódio da vida nacional, com a grande república.
Aceitemos, por isto mesmo, uma lição de Bryce.. Traçado magistralmente o quadro da expansão ianque,. o historiador nos demonstra que, diante do exagerado.. afastamento da costa oriental, as gentes localizadas nas novas terras do Pacífico formariam inevitavelmente uma outra nacionalidade, se os recursos da engenharia atual lhes não houvessem permitido uma intimidade. permanente com o resto do país.
O nosso caso é idêntico, ou mais sério.
As novas circunscrições do alto Purus, do alto Juruá e do Acre devem refletir a ação persistente do governo em um trabalho de incorporação que, na ordem prática, exige desde já a facilidade das comunicações e a aliança das idéias, de pronto transmitidas e traçadas. na inervação vibrante dos telégrafos.
Sem este objetivo firme e permanente, aquela Amazônia onde se opera agora uma seleção natural de energias e diante da qual o espírito de Humboldt foi empolgado pela visão de um deslumbrante palco, onde mais cedo ou mais tarde se há de concentrar a civilização do. globo, a Amazônia, mais cedo ou mais tarde, se destacará do Brasil, naturalmente e irresistivelmente, como. se despega um mundo de uma nebulosa - pela expansão centrífuga do seu próprio movimento.

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