Contos
Gauchescos
João Simões Lopes Neto
JOGO DE OSSO
- Pois olhe:
eu já vi jogar-se uma mulher num tira de taba. Foi uma parada
que custou vida... mas foi jogada!
Um pouco pra fora da Vila, na volta da estrada, metida na sombra
dumas figueiras velhas ficava a vendola do Arranhão; era
um bochinche mui arrebentado, e o dono era um sujeito alarifaço,
cá pra mim, desertor, meio espanhol meio gringo, mas mui
jeitoso para qualquer arreglo que cheirasse à plata...
Mui destravado da língua e ao mesmo tempo rezador, sempre
se santiguando e olhando por baixo, como porco, tudo pra ele era
negócio: comprava roubos, trocava cousas, emprestava pra
jogo, com usura, e sempre se atrapalhava para menos, no troco dos
pagamentos.
Às vezes armava umas carreiritas, que se corriam numa cancha
dumas três quadras que ele mesmo tinha arranjado a um lado
do potreiro; então conchavava algum gringo tocador de realejo
e estava preparado o divertimento. O que ele queria era gente, peonada,
andantes, vagabundos, carreteiros, para poder vender canha e comida
e doces; e de noite facilitava umas mesas de primeira, de truco
ou de sete-em-porta para tirar o cafife. Doutras ocasiões
ajeitava umas dançarolas que alvorotavam o chinaredo da vizinhança.
Por este pano de amostra vancê vê o que seria aquele
gavião.
Duma vez que ele tinha trançado umas carreiras, com duas
ou três pencas de patacão, e se havia ajuntado algum
povo, tudo gauchada leviana, choveu.
A chuvarada estragou a cancha, molhou as carpetas, atrapalhou tudo.
E a gente foi ganhando na venda, apinhoscou-se por debaixo das figueiras
e no galpão.
Quando passou o aguaceiro e oriou o terreiro, deram alguns aficionados
para jogar o osso.
Vancê sabe como é que se joga o osso?
Ansim:
Escolhe-se um
chão parelho, nem duro, que faz saltar, nem mole, que acama,
nem areento, que enterra o osso.
É sobre o firme macio, que convém. A cancha com uma
braça de largura, chega, e três de comprimento; no
meio bota-se uma raia de piola, amarrada em duas estaquinhas ou
mesmo um risco no chão, serve; de cada cabeça da cancha
é que o jogador atira, sobre a raia do centro: este atira
daqui pra lá, o outro atira de lá pra cá.
O osso é a taba, que é o osso do garrão da
rês vacum. O jogo é só de culo ou suerte.
Culo é quando a taba cai com o lado arredondado pra baixo:
quem atira assim perde logo a parada. Suerte é quando o lado
chato fica embaixo: ganha logo e sempre.
Quer dizer: quem atira culo perde, se é suerte ganha e logo
arrasta a parada.
Ao lado da raia do meio fica o coimeiro que é o sujeito depositário
da parada e que a entrega logo ao ganhador. O coimeiro também
é que tira o barato - para o pulpeiro. Quase sempre é
algum aldragante velho e sem-vergonha, dizedor de graças.
E um jogo brabo, pois não é?
Pois há gente que se amarra o dia inteiro nessa cachaça,
e parada a parada envida tudo: os bolivianos, os arreios, o cavalo,
o poncho, as esporas. O facão nem a pistola, isso, sim, nenhum
aficionado joga; os fala-verdade é que têm de garantir
a retirada do perdedor sem debocheira dos ganhadores... e, cuidado...
muito cuidado com o gaúcho que saiu da cancha do osso de
marca quente!...
Pois dessa feita se acolheraram a jogar a taba o Osoro e o Chico
Ruivo.
O Osoro era um moreno mui milongueiro, compositor de parelheiros
e meio aruá; andava sempre metido pelos ranchos contando
histórias às mulheres e tomando mate de parceria com
elas.
O Chico era domador e morava de agregado num rincão da estância
das Palmas; e vivia com uma piguancha bem jeitosa, chamada Lalica.
Nesse dia Unha vindo com ela ao festo do Arranhão. Enquanto
os dois jogavam, a morocha andava lá por dentro, com as outras,
saracoteando.
Havia violas; havia tocadores; a farra ia indo quente. E os dois,
jogando. O Chico perdia uma em cima da outra.
- Culo! Outra vez?... Má raios!...
- Suerte, chê! Ganhei! repetia o Osoro.
- Jogo-te o tostado, aperado, valeu? Topo!
E culo!... Isto é mau olhado dalgum roncolho mirone!...
E relanceou os olhos pelos vedores, esperando que algum comprasse
a camorra; ninguém se picou.
- Jogo o teu ruano contra as duas tambeiras da Lalica!
- E pouco, Chico!... Ainda se fosse a dona!...
- Osoro, não brinca!... Pois olha; jogo!
- O ruano?
- O mano contra a Lalica! Assim como assim, esta china já
está me enfarando!...
- Pois topo!
Os mirones se entreolharam, boquejando, alguns; eles bem viam que
o gaúcho estava sem liga, que já tinha perdido tudo,
o dinheiro, o cavalo, as botas, um rebenque com argolão de
prata; e agora, o outro, o Osoro, para completar o carcheio, ainda
tinha topado a última parada, que era a china...
A cousa ia ser tirana; correu logo voz; em roda dos dois amontoou-se
a gente.
O Osoro atirou, e deu suerte...
O Ruivo atirou, e deu suerte...
- Ora, não deu gosto! disse um.
- Outra mão! disse o outro.
E o Ruivo atirou: culo!
O Osoro atirou: suerte!
- Ganhei, aparceiro!
- Pois toma conta, ermâo!
- Tu é que tens de fazer a entrega...
- Não tem veremos... Trato é trato!...
Já ia querendo anoitecer.
O que se passou entre aquelas três criaturas, não sei;
se juntaram num canto do balcão da venda e falaram. Por certo
que o Chico Ruivo disse à china que a jogara numa parada
de taba; o Osoro só disse uma vez:
- Eu, se perdesse o ruano, o Chico já ia daqui montado nele...
A Lalica deu uma risadinha amarela; olhou o Osoro, olhou o Chico
Ruivo, cuspiu de nojo e disse pra este, na cara:
- Sempre és muito baixo!..., guampudo, por gosto!...
- Olha, guincha, que te grudo as chilenas!...
- Ixe! Este, agora, é que me encilha, retalhado!...
Nisto um violeiro pegou a rufar uma dança chorada; umas parelhas
pegaram a se menear no compasso da música e logo o Osoro,
para cortar aquele aperto, travou do pulso da morocha, passou-lhe
o braço na cinta e quase levantando-a no ar entrou na roda
dos dançadores; o Ruivo ficou quieto, mas de goela seca e
nos olhos com uma luz diferente.
Na primeira volta, quando o par passou por ele, a china ia dizendo
mui derretida:
- Quando quiseres, meu negro...
Na segunda volta, como num despique, ela tornou a boquejar pro Osoro:
- Eu vou na tua garupa...
E na outra, a china vinha calada, mas com a cabeça deitada
no peito do par, olhando terneira pra ele, com uma luz de riso,
os beiços encolhidos, como armando uma promessa de boquinha;
e o Osoro se esqueceu do mundo... e colou na boca da tentação
um beijo gordo, demorado, cheio de desaforo...
O Chico Ruivo teve um estremeção e deu um urro entupido,
arrancou do facão e atirou o braço pra diante, numa
cegueira de raiva, que só enxerga bem o que quer matar...
E vai, como pegou o Osoro pela esquerda, do lado, meio por detrás,
por debaixo da paleta, o facão saiu no rumo certo e foi bandear
a Lalica meio de lado, sobre a esquerda da frente.
Vancê compr'ende? Do mesmo talho varou os dois corações,
espetou-os no mesmo feno, matou-os da mesma morte, fazendo os dois
sangues, num de cada peito, correrem juntos num só derrame...
que foi lastrando pelo chão duro, de cupim socado, lastrando...
até os dois corpos baterem na parede, sempre abraçados,
talvez mais abraçados, e depois tombarem por cima do balcão,
onde estava encostado o tocador, que parou um rasgado bonito e ficou
olhando fixe para aquela parelha de dançarmos morrentes e
farristas ainda!...
Levantou-se uma berraçada.
- Matou! Foi o Chico Ruivo!... Amarra! Cerca!...
Mas o Ruivo parece que voltou a si; coriscou o facão aos
dois lados e atropelou a porta, ganhou o terreiro e se foi ao palanque
onde estava o ruano do Osoro: montou e gritou pra os que ficavam:
- Siga o baile!...
E deu de rédea, no escuro da noite.
O Arranhão acudiu ao berzabum; aquele safado, curtido na
ciganagem, só soube dizer:
- Pois é... jogaram o osso, armaram a sua paranda... mas
nenhum pagou nada ao coimeiro!... Que trastes!...
O DUELO DOS
FARRAPOS
Já um
ror de vezes tenho dito - e provo - que fui ordenança do
meu general Bento Gonçalves.
Este caso que vou contar pegou o começo no fim de 42, no
Alegrete e foi acabar num 27 de fevereiro, daí dois anos,
nas pontas do Sarandi, pras bandas e já pertinho de Santana.
Foi assim. Tenho que contar pelo miúdo, pra se entender bem.
Em agosto de 42, o general, que era o presidente da República
Rio-Grandense - vancê desculpe... estou velho, mas inté
hoje, quando falo na República dos Farrapos, tiro o meu chapéu!...
- o general fez um papel, que chamavam-lhe - decreto - mandando
ordens pr'uma eleição grande, para deputados; estes
tais é que iam combinar as leis novas e cuidar de outras
cousas que andavam meio à matroca, por causa da guerra.
Em setembro houve a eleição; em outubro já
se sabia quem eram os macotas votados, que eram quase todos os torenas
que andavam na coxilha. O jornal do governo deu uma relação
deles e dos votos que tiveram, que eu sabia, mas já esqueci.
Por sinal que esse jornal chamava-se - Americano - e tinha na frente
um versinho que saía sempre escrito e publicado e que era
assim, se bem me lembro:
"Pela Pátria
viver, morrer por ela;
Guerra fazer ao despotismo insano;
A virtude seguir, calcar o vício;
Eis o dever de um livre Americano".
Em novembro,
os deputados, que eram trinta e seis, mas que só se apresentaram
vinte e dois, juntaram-se em assembléia; em dezembro, logo
no dia um, foi então a cerimônia principal.
O general foi em pessoa, como presidente, com a ministrada, os comandantes
de corpos e outros topetudos, e aí fez uma - Fala - muito
sisuda e compassada, que todos escuitaram quietos, só sacudindo
a cabeça, como quem dizia que era mesmo como o general estava
lendo no escrito.
Uê!... e que pensa vancê?... Estava tudo na estica,
sim senhor: fardas novas, bainhas de espada, alumiando; redingotes
verdes ou azuis com botões amarelos, padres com as suas batinas
saidinhas; um estadão! E famílias, muita moçada
fachuda, povaréu, e até uma música. Eu e o
outro ordenança, os dois, mui anchos, de gandola cobrada.
Por esse entrementes, no Estado Oriental, andava gangolina grossa
entre Oribe e Rivera, que eram os dois que queriam o penacho de
manda-tudo. Volta e meia as partidas deles se pechavam e sempre
havia entrevero.
Ah! se vancê visse a indiada daquele tempo... cada gadelhudo...
Ah! bom!...
Mas, como quera, onde se encontrasse, a nossa gente entropilhava-se
bem com a deles. E mesmo era ordem dos sup'riores.
Quando íamos mal da vida, já pelas caronas, nos bandeávamos
para o outro lado da linha; lá se churrasqueava, fazia-se
uma volteada de potrada e voltávamos à carga, folheiritos
no mais!
O barão Caxias, que era o maioral dos caramurus, mordia-se
com estas gauchadas.
Mas tanto Oribe como Rivera nos codilhavam quando podiam, porquanto
faziam também suas fosquinhas aos legais... apertavam o laço
pra nós, mas afrouxavam a ilhapa pra eles...
Vancê entende?... Pau de dois bicos!...
- Mas, vá vancê escuitando.
Rabo-de-saia é sempre precipício pros homens...
Não vá vancê cuidar que no caso andou mulher
botando fungu no coração de ninguém, não,
senhor; a cousa foi muito outra, de alrifage...
Naquele novembro de 42, quando os deputados foram-se ajuntando,
de um a um, vindos de todos os rumos da província da República
e havia na vila do Alegrete movimento de comitivas e piquetes, um
dia, já à boquinha da noite, chegou uma carreta de
campanha, mui bem toldada, com boiada gorda, e escoltada por um
acompanhamento grande, de gente bem montada e armada.
Chegou o combói e parou em meio da praça; e logo o
que vinha de vaqueano cortou-se e foi apresentar o passe e outros
papéis; e foi dizendo que a pessoa que vinha na caneta era
uma senhora-dona viúva, que trazia ofício pra o governo
e que era sobre uns gados que haviam sido arrebanhados e cavalhadas,
e prejuízos e tal, e mais uma conversa por este teor e com
mais voltas que um laço grande enrodilhado...
Foi isso o que correu logo no redepente da curiosidade.
Papéis foram que a tal dona trazia, que logo o general mandou
chamar os deputados e os ministros e depois se trancaram todos numa
sala grande; e depois despachou um capitão para ir buscar
a figurona.
E ela veio; e mal que chegou o general veio à porta, fez
um rapapé rasgado e foi com ela pra tal sala onde estavam
os outros.
Se era linda a beldade!... Sim, senhor, dum gaúcho de gosto
alçar na garupa e depois jurar que era Deus na terra!.
E destorcida, e bem-falante; e olhava pra gente, como o sol olha
pra água: atravessando!
Dentro da sala, fechada, ia um vozerio dos homens; depois serenava;
parece que eles estavam mussitando; e a voz da dona repenicava,
hablando un castellano de mi flor!
Lá pelas tantas levantaram o ajuntamento; o mesmo capitão
foi levar a dona. E de manhã, nem carreta, nem boiada nem
comitiva apareceram mais.
Depois é que vim ao conhecimento que aquela figurona tinha
vindo de emissária.
Rivera era mais valente; Oribe era mais sorro: mas, os dois, matreiraços!...
Agora, qual dos dois, pra disfarçar dos caramurus o chasque,
mandou, em vez dum homem, aquela vivaracha, qual dos dois foi, não
pude sondar.
Era assunto encapotado...
Depois desse dia começou a haver um zunzum mui manhoso contra
o general.
Não sei se era inveja, ou intrigas ou queixas ou ganas que
alguns lhe tinham. As cousas foram-se parando embrulhadas na tal
assembléia e uma feita, não sei por que chicos pleitos
o general e o coronel Onofre Pires tiveram um desaguisado; o general
deu as costas, num pouco caso e o coronel saiu, num rompante, batendo
forte os saltos dos botins.
Em 43 houve outra arrancada braba, foi quando mataram um Paulino
Fontoura, que era um pesado. Houve outro bate-barbas entre o general
e o coronel Onofre, que era mui esquentado e cosquilhoso.
Mas logo os chefes todos se desparramaram, porque o barão
Caxias andava na estrada, levantando polvadeira.
E brigou-se!
Em S. Gabriel, na Vacaria, em Ponche Verde, no Rincão dos
Touros. O governo tinha saído do Alegrete e estava outra
vez em Piratinim; aí por perto peleou-se, e no Arroio Grande,
em Jaguarão, nas Missões, sobre o Quaraim, em Canguçu,
em Pai Passo.
Que ano que bebeu sangue, esse!
E quando o exército se amontoou todo, pra lá do Ibicuí
e depois foi estendendo marcha, houve um conelho grande de oficiais;
e aí se falou outra vez na emissária, a fulana, aquela
da carreta, no Alegrete. Aí, então, os dois galões-largos
se contrapontearam outra vez.
A gente como eu é bicho bruto e os graúdos não
dão confiança de explicar as cousas, por isso é
que eu não sei muitas delas: tenência não me
faltava; mas como é que eu ia saber as de adentro dos segredos?...
Já sobre o Garupá - vancê não conhece?
são os campos mais bonitos do mundo! - aí os homens
se cartearam.
Então já era o ano 44.
O coronel escreveu barbaridades; o general respondeu com aquele
jeito dele, sisudo.
E quando foi no dia 27 de fevereiro o general me chamou e mandou
que eu fosse levando pela rédea, para a restinga, os dois
cavalos que estavam atados debaixo dum espinilho; era um picaço
grande e um cobrado.
Fui andando; lá longe ia descendo um vulto, atrás
de mim vinha outro.
E devagarinho, como quem vai mui descansado da sua vida, os dois.
Ah! esqueci de dizer a vancê que atravessado debaixo da sobrecincha
de cada flete, vinha uma espada.
Reparando, vi que as duas eram iguais, de copo fechado e folha grande,
das espadas de roca, que só mesmo pulso de homem podia florear.
E quando parei e os dois vultos se chegaram, conheci que eram o
meu general e o coronel Onofre.
E desarmados...
Mas como chegaram, cada um despiu a farda, que botou em cima dos
pelegos e desembainhou a espada que vinha.
O cobrado era do coronel; o picaço, do general.
Então o general deu ordem:
- Espera aí, com os cavalos!
E o coronel também:
- Bombeia; se chegar alguém, assobia!
E rodearam a restinga, para o outro lado.
Então é que entendi a marosca: eles iam tirar uma
tora, dessas que não se fira duas vezes entre os mesmos ferros...
Maneei os mancarrões e com um olho no padre, outro na missa,
por entre as ramas da restinga, fui espiar a peleia.
Estavam já, frente a frente, de corpo quadrado.
O sol dava a meio, para os dois.
O general Bento Gonçalves era sacudido no jogo da espada
preta; meneava o ferro, que chispava na luz, como uma fita de espelho;
o coronel Onofre parava os botes e respondia no tempo, mas com tanta
força que a espada assobiava no coriscar.
Nisto o general pulou pra trás, fincou a espada no chão
e pegou a tirar o tacão da bota, que se despregara.
O coronel encruzou os braços, e a espada dele ficou dependurada
da mão, como dum prego.
Pra um que quisesse aproveitar... Mas qual... aqueles não
eram gente disso, não?
E cruzaram, de novo. Em cima da minha cabeça um sabiá
pegou a cantar... e era tão desconchavado aquele canto que
chora no coração da gente, com aqueles talhos que
cortavam o ar, que eu, que já tinha lanhado muito cristão
caramuru, eu mesmo, fiquei, sem saber como, com os olhos nos peleadores,
os ouvidos no sabiá, mas o pensamento andejando... nos pagos,
no meu padrinho, no Jesu-Cristo do oratório da minha mãe...
Os ferros iam tinindo, E nisto, o coronel deu um -ah! - furioso,
caiu-lhe da mão a espada... e a sangueira coloreou pelo braço
abaixo, desarmado, entregue!...
Pra um que quisesse aproveitar... Mas qual! aqueles não eram
gente disso, não!
O general tornou a cravar a espada na terra e veio ao ferido com
bom jeito.
Pegou o braço, viu o ferimento; e com um lenço grande
que levantou do chão, do lado do chapéu, atilhou o
talho para estancar o sangue.
O outro, calado, nem gemia.
Depois o general tornou a pegar da espada, fez uma inclinação
de cabeça ao coronel e caminhou pra cá...
Foi o quanto eu me atirei pra trás e me acoc'rei perto dos
cavalos.
Vestiu a farda, embainhou a espada e montou. Então me disse:
- Agora vem gente, que eu vou mandar. Não te movas daí,
antes.
E deu de rédea, a galope, para o acampamento.
E no silêncio que ficou, só ficou balançando
no ar o canto do sabiá, na restinga: do outro lado, o sangue
do coronel, pingando nos capins; deste lado, eu, sabendo, mas não
podendo me intrometer...
- Agora veja vancê se não foi mesmo o fungu daquela
tal dona - emissária dum dos dois sorros castelhanos - que
veio transtornar tanta amizade dos farrapos?...
Ela só não pôde foi mudar o preceito de honra
deles: brigavam, de morte, mas como guascas de lei: leais, sempre!
Pois não viu, naquelas duas vezes?... Pra um que quisesse
aproveitar...
E creia vancê, que lhe rezei este rosário sem falha
duma conta, apesar de já sentir a memória mais esburacada
que poncho de calavera... Pois faz tanto ano!...