Contos
Gauchescos
João Simões Lopes Neto
O ANJO DA VITÓRIA
- Foi depois
da batalha de Ituzaingo, no passo do Rosário, pra lá
de São Gabriel, do outro lado do banhado de Inhatium. Vancê
não sabe o que é inhatium?
Ë mosquito: bem posto nome!
Banhado de Inhatium. .. Virge' Nossa Senhora!... mosquito, aí,
fumaceia, no ar!
Eu era gurizote: teria, o muito, uns dez anos; e andava na companha
do meu padrinho, que era capitão, para carregar os peçuelos
e os avios do chimarrão.
As cousas da peleia não sei, porque era menino e não
guardava as conversas dos grandes; o que eu queria era haraganear;
mas, se bem me lembro, o meu padrinho dizia que nós estávamos
mal acampados, e estransilhados, pensando culatrear o inimigo, mas
que este é que nos estava nos garrões; não
havia bombeiros nem ordem, que o exército vinha num berzabum,
e que o general que mandava tudo, que era um tal Barbacena, não
passava de um presilha, que por andar um dia a cavalo já
tinha que tomar banhos de salmoura e esfregar as assaduras com sebo...
O meu padrinho era um gaúcho mui sorro e acostumado na guerra,
desde o tempo das Missões, e que mesmo dormindo estava com
meio ouvido, escutando, e meio olho, vendo...; mesmo ressonando
não desgrudava pelo menos dois dedos dos copos da serpentina...
Num escurecer, enquanto pelo acampamento os soldados carneavam e
outros tocavam viola e cantavam, ou dormiam ou chalravam, o que
sei é que nesse escurecer o meu padrinho mandou pegar os
nossos cavalos; e encilhamos até a cincha; e depois nos deitamos
nos pelegos, com os pingos pela rédea, maneados: ele, armado,
mateando; eu, enroscadito no meu bichará, e o ordenança,
que era um chiru ombrudo, chamado Hilarião, pitando.
Eu, como criança, peguei logo a cochilar.
Amigo! Vancê creia: o coração às vezes,
trepa, dentro da gente, o mesmo que jaguatirica por uma árvore
acima!...
Lá pelas tantas, ouviu-se cornetas e clarins e rufos de caixa...;
mas o som dos toques andava ainda galopeando dentro do silêncio
da noite quando desabou em cima de nós a castelhanada, a
gritos, e já nos foi fumegando bala e bala!...
Numa arrancada dessas é que o coração trepa,
dentro da gente, como gato...
- Desmaneia e monta! gritou o meu padrinho; ele que falava, eu e
o chiru que já estávamos enforquilhados nas ganas.
E por entre as barracas e ramadas; por entre os fogões meio
apagados, onde ainda havia fincados espetos com restos de churrascos;
por entre as carretas e as pontas de bois mansos e lotes de reiúnos;
no fusco-fusco da madrugada, com uma cerraçãozita
o quanto-quanto; por entre toques e ordens e chamados, e a choradeira
do chinaredo e o vozerio do comércio, já no cheiro
da pólvora e em cima dos primeiros feridos, formou-se o entrevero
dos atacantes e dos dormilões.
E cantou o ferro... e choveu bala!...
O meu padrinho levantou na rédea o azulego: e de espada em
punho, o chiru, com uma lança de meia-lua - e eu entre os
dois, enroscadito no meu bichará - nos botamos ao grosso
do redemoinho, para abrir caminho para o quartel-general do dito
Barbacena.
Como lá chegamos, não sei.
A espada do meu padrinho estava torcida como um cipó, e vermelha,
e o azulego tinha uns quantos lanhos na anca; o Hilarião
tinha um corte de cima a baixo da japona, e eu levei um lançaço,
que por sorte pegou no malote do poncho.
Mas, varamos.
No quartel do
Barbacena ninguém se entendia.
A oficialada espumava, de raiva, e um cutuba, baixote, já
velho, botava e tirava o boné e metia as unhas na calva,
furioso, de ralar sangue!...
Esse, era um tal general Abreu... um tal general José de
Abreu, valente como as armas, guapo como um leão... que a
gauchada daquele tempo - e que era torenada macota! - bautizou e
chamava de - Anjo da Vitória!
Esse, o cavalo dele não dava de rédea para trás,
não! Esse, quando havia fome, apertava o cinto, com os outros
e ria-se!
Esse, dormia como quero-quero, farejava como cervo e rastreava como
índio...; esse, quando carregava, era como um ventarrão,
abrindo claros num matagal.
Com esse.. . castelhano se desguaritava por essas coxilhas o mesmo
que bandada de nhandu, corrida a tiro de bolas!...
Era o Anjo da Vitória, esse!
Daí a
pouco apareceu um outro oficial, mocetão bonito, que era
major. Este chamava-se Bento Gonçalves, que depois foi meu
general, nos Farrapos.
Os dois se conversaram, apalavraram os outros e tudo montou e tocou
pra rumos diferentes.
No acampamento estrondeava a briga.
Já tinha amanhecido.
Eu andava colado
ao meu padrinho, como carrapato em costela de novilho. Por onde
ele andou, andei eu; passou, passei; carregava, eu carregava; fazia
cara-volta, eu também.
Naquelas correrias, o meu bicharazito, às vezes, enchia-se
de vento, e voava, batia aberto, que nem uma bandeira-cinzenta...
O major Bento Gonçalves formando a cavalaria, agüentava
como um taura as cargas do inimigo, para ir entretendo, e dar tempo
à nossa gente de quadrar-se, unida.
Os castelhanos, mui ardilosos, logo que aquentou o sol tocaram fogo
nos macegais onde estava o carretame; o vento ajudou, e enquanto
eles carcheavam a seu gosto, uma fumaça braba tapou tudo,
do nosso lado!...
Então
o general Abreu no alto do coxilhão formou os seus esquadrões:
o meu padrinho comandava um deles.
Formou, fez uma fala à gente e carregou, ele, na frente,
montado num tordilho salino, ressolhador.
Oh! velho temerário! Firme nos estribos, com o boné
levantado sobre o cocuruto da cabeça, a espada apontando
como um dedo, faiscando, o velhito ponteou aquela tormenta, que
se despenhou pelo lançante abaixo e afundou-se e entranhou-se
na massa cerrada do inimigo, como uma cunha de nhanduvai abrindo
em dois um moirão grosso de guajuvira... E deixando uma estiva
de estrompados, de mortos, de atarantados, de feridos e de morrentes
- como quando rufa um rodeio xucro... vancê já viu?
- varou para o outro lado, mandou fazer -alto, cara-volta! - e mal
que reformou os esquadrões, os homens chalrando e rindo,
a cavalhada, de venta aberta, bufando ao faro do sangue e trocando
orelha, pelo alarido, o velho já se bancou outra vez na testa,
gritou -Viva o Imperador! - e mandou - Carrega!
E a tormenta
da valentia rolou, outra vez, sobre o campo.
Mas nesta hora maldita, a fumaça maldita nos rodeava e cegava;
e mal íamos dando lance à carga - eu, folheirito,
abanando no mais o meu bichará pra o Hilarião - rebentou
na vanguarda e num flanco a fuzilaria, e vieram as baionetas...
e uma colubrina, que nos tiroteavam donde não podia ser!...
A nossa cavalaria se enrodilhou toda, fazendo uma enrascada de mil
diabos... e enquanto o tiroteio nos estraçalhava, que os
ginetes e os cavalos caíam, varados, e que, por fim, os próprios
esquadrões já iam rusgando uns com os outros - aí,
amigo, andei eu às pechadas!-enquanto isso... veio uma rajada
forte de vento, que varreu a fumaça, limpou a vista de todos
e mostrou que era a nossa infantaria que nos tinha feito aquela
desgraça...
Então,
por cima dos mortos e dos feridos houve um silêncio grande,
de raiva e de pena... como de quem pede perdão, calado...
ou de quem chora de saudade, baixinho...
Lá longe,
os castelhanos, enganados, tocaram a retirada. O nosso quartel-general
também tocou a retirada.
Pegou a debandada; dispersava-se a gente por todos os lados, aos
punhados, botando fora as pederneiras, as patronas; muitos sotretas
fugiram de cambulhada com o chinerio...
Metades de batalhões arrinconavam-se, outras encordoavam
marcha.
Os ajudantes galopavam conduzindo ordens... mas parecia que toda
a força ia fugindo duma batalha perdida, que não era,
porque tudo aquilo era da indisciplina, somentes.
O Anjo da Vitória lá ficou, onde era a frente dos
seus esquadrões, crivado de balas, morto, e ainda segurando
a espada, agora quebrada.
Campeei o meu
padrinho: morto, também, caído ao lado do azulego,
arrebentado nas paletas por um tiro de peça; ali junto, apertando
ainda a lança, toda lascada, estrebuchava o Hilarião,
sem dar acordo, aiando, só aiando...
Deitado sobre o pescoço do cavalo, comecei a chorar.
Peguei a chamar:
- Padrinho! padrinho!...
- Hilarião! Meu padrinho!...
Apeei-me, vim me chegando e chamando - padrinho!... padrinho!...
e tomei-lhe a bênção, na mão, já
fria...; puxei na manga do chiru, que já nem bulia...
Sem querer fiquei vendo as forças que iam-se movendo e se
distanciando.., e num tirão, quando ia montar de novo, sem
saber pra quê... foi que vi que estava sozinho, abandonado,
gaudério e gaúcho, sem ninguém pra me cuidar!...
Foi então, que, sem saber como, já de a cavalo, enquanto
sem eu sentir as lágrimas caíam-me e rolavam sobre
o bichará, os olhos se me plantaram sobre o tordilho salino...
sobre o coto da espada... sobre um boné galoado...
E o cabelo me cresceu e fiquei de choro parado...e ouvi, patentemente,
ouvi bem ouvido, o velho macota, o Anjo da Vitória, morto
como estava, gritar ainda e forte
- Viva o Imperador! Carrega!
O meu bicharazito
se empantufou de vento, desdobrou-se, batendo como umas asas...
o mancarrão bufou, recuando, assustado... e quando dei por
mim, andava enancado num lote de fujões...
Comi do ruim... Vê vancê que eu era guri e já
corria mundo...
CONTRABANDISTA
- Batia nos
noventa anos o corpo magro mas sempre teso do Jango Jorge, um que
foi capitão duma maloca de contrabandistas que fez cancha
nos banhados do Ibirocaí.
Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira
a cruzar os campos da fronteira: à luz do sol, no desmaiado
da lua, na escuridão das noites, na cerração
das madrugadas...; ainda que chovesse reiúnos acolherados
ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu
atalho, nunca desandou cruzada!...
Conhecia as querências, pelo faro: aqui era o cheiro do açouta-cavalo
florescido, lá o dos trevais, o das guabirobas rasteiras,
do capim-limão; pelo ouvido: aqui, cancha de graxains, lá
os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante,
o chape-chape, noutro ponto, o areão. Até pelo gosto
ele dizia a parada, porque sabia onde estavam águas salobres
e águas leves, com sabor de barro ou sabendo a limo.
Tinha vindo das guerras do outro tempo; foi um dos que peleou na
batalha de Ituzaingo; foi do esquadrão do general José
de Abreu. E sempre que falava no Anjo da Vitória ainda tirava
o chapéu, numa braçada larga, como se cumprimentasse
alguém de muito respeito, numa distância muito longe.
Foi sempre um
gaúcho quebralhão, e despilchado sempre, por ser muito
de mãos abertas.
Se numa mesa de primeira ganhava uma ponchada de balastracas, reunia
a gurizada da casa, fazia - pi! pi! pi! pi! - como pra galinhas
e semeava as moedas, rindo-se do formigueiro que a miuçalha
formava, catando as pratas no terreiro.
Gostava de sentar um laçaço num cachorro, mas desses
laçaços de apanhar da paleta à virilha, e puxado
a valer, tanto, que o bicho que o tomava, ficando entupido de dor,
e lombeando-se, depois de disparar um pouco é que gritava,
num - caim! caim! caim! - de desespero.
Outras vezes dava-me para armar uma jantarola, e sobre o fim do
festo, quando já estava tudo meio entropigaitado, puxava
por uma ponta da toalha e lá vinha, de tirão seco,
toda a traquitanda dos pratos e copos e garrafas e restos de comidas
e caldas dos doces!...
Depois garganteava a chuspa e largava as onças pras unhas
do bolicheiro, que aproveitava o vento e le echaba cuentas de gran
capitán...
Era um pagodista!
Aqui há poucos anos - coitado! - pousei no arranchamento
dele. Casado ou doutro jeito, estava afamilhado. Não nos
víamos desde muito tempo.
A dona da casa era uma mulher mocetona ainda, bem parecida e mui
prazenteira; de filhos, uns três matalotes já emplumados
e uma mocinha - pro caso, uma moça -, que era o - santo-antoninho-onde-te-porei!
- daquela gente toda.
E era mesmo uma formosura; e prendada, mui habilidosa; tinha andado
na escola e sabia botar os vestidos esquisitos das cidadãs
da vila.
E noiva, casadeira, já era.
E deu o caso, que quando eu pousei, foi justo pelas vésperas
do casamento; estavam esperando o noivo e o resto do enxoval dela.
O noivo chegou no outro dia; grande alegria; começaram os
aprontamentos, e como me convidaram com gosto, fiquei pro festo.
O Jango Jorge saiu na madrugada seguinte, para ir buscar o tal enxoval
da filha.
Aonde, não sei; parecia-me que aquilo devia ser feito em
casa, à moda antiga, mas, como cada um manda no que é
seu...
Fiquei verdeando, à espera, e fui dando um ajutório
na matança dos leitões e no tiramento dos assados
com couro.
Nesta terra
do Rio Grande sempre se contrabandeou, desde em antes da tomada
das Missões.
Naqueles tempos o que se fazia era sem malícia, e mais por
divertir e acoquinar as guardas do inimigo:
uma partida de guascas montava a cavalo, entrava na Banda Oriental
e arrebanhava uma ponta grande de eguariços, abanava o poncho
e vinha a meia rédea; apartava-se a potrada e largava-se
o resto; os de lá faziam conosco a mesma cousa; depois era
com gados, que se tocava a trote e galope, abandonando os assoleados.
Isto se fazia por despique dos espanhóis e eles se pagavam
desquitando-se do mesmo jeito.
Só se cuidava de negacear as guardas do Cerro Largo, em Santa
Tecla, do Haedo... O mais, era várzea!
Depois veio a guerra das Missões; o governo começou
a dar sesmarias e uns quantíssimos pesados foram-se arranchando
por essas campanhas desertas. E cada um tinha que ser um rei pequeno...
e agüentar-se com as balas, as lunares e os chifarotes que
tinha em casa!...
Foi o tempo do manda-quem-pode!... E foi o tempo que o gaúcho,
o seu cavalo e o seu facão, sozinhos, conquistaram e defenderam
estes pagos!.
Quem governava
aqui o continente era um chefe que se chamava o capitão-general;
ele dava as sesmarias mas não garantia o pelego dos sesmeiros...
Vancê tome tenência e vá vendo como as cousas,
por si mesmas, se explicam.
Naquela era, a pólvora era do el-rei nosso senhor e só
por sua licença é que algum particular graúdo
podia ter em casa um polvarim...
Também só na vila de Porto Alegre é que havia
baralho de jogar, que eram feitos só na fábrica do
rei nosso senhor, e havia fiscal, sim senhor, das cartas de jogar,
e ninguém podia comprar senão dessas!
Por esses tempos antigos também o tal rei nosso senhor mandou
botar pra fora os ourives da vila do Rio Grande e acabar com os
lavrantes e prendistas dos outros lugares desta terra, só
pra dar flux aos reinóis...
Agora imagine vancê se a gente lá de dentro podia andar
com tantas etiquetas e pedindo louvado pra se defender, pra se divertir
e pra 1uxar!... O tal rei nosso senhor, não se enxergava,
mesmo!...
E logo com quem!... Com a gauchada!...
Vai então,
os estancieiros iam em pessoa ou mandavam ao outro lado, nos espanhóis,
buscar pólvora e balas, pras pederneiras, cartas de jogo
e prendas de ouro pras mulheres e preparos de prata pros arreios...
e ninguém pagava dízimos dessas cousas.
Às vezes lá voava pelos ares um cargueiro, com cangalhas
e tudo, numa explosão da pólvora; doutras uma partida
de milicianos saia de atravessado e tomava conta de tudo, a couce
d'arma: isto foi ensinando a escaramuçar com os golas-de-couro.
Nesse serviço foram-se aficionando alguns gaúchos:
recebiam as encomendas e pra aproveitar a monção e
não ir com os cargueiros debalde, levavam baeta, que vinha
do reino, e fumo em corda, que vinha da Baía, e algum porrão
de canha. E faziam trocas, de elas por elas, quase.
Os paisanos das duas terras brigavam, mas os mercadores sempre se
entendiam...
Isto veio mais ou menos assim até a guerra dos Farrapos;
depois vieram as califórnias do Chico Pedro; depois a guerra
do Rosas.
Aí inundou-se a fronteira da província de espanhóis
e gringos emigrados.
A cousa então mudou de figura. A estrangeirada era mitrada,
na regra, e foi quem ensinou a gente de cá a mergulhar e
ficar de cabeça enxuta...; entrou nos homens a sedução
de ganhar barato: bastava ser campeiro e destorcido. Depois, andava-se
empandilhado, bem armado; podia-se às vezes dar um vareio
nos milicos, ajustar contas com algum devedor de desaforos, aporrear
algum subdelegado abelhudo...
Não se lidava com papéis nem contas de cousas: era
só levantar os volumes, encangalhar, tocar e entregar!...
Quanta gauchagem leviana aparecia, encostava-se.
Rompeu a guerra do Paraguai.
O dinheiro do Brasil ficou muito caro: uma onça de ouro,
que corria por trinta e dois, chegou a valer quarenta e seis mil
réis!... Imagine o que a estrangeirada bolou nas contas!...
Começou-se a cargueirear de um tudo: panos, águas
de cheiro, armas, minigâncias, remédios, o diabo a
quatro!... Era só pedir por boca!
Apareceram também os mascates de campanha, com baús
encangalhados e canastras, que passavam pra lá vazios e voltavam
cheios, desovar aqui...
Polícia pouca, fronteira aberta, direitos de levar couro
e cabelo e nas coletarias umas papeladas cheias de benzeduras e
rabioscas...
Ora... ora!...
Passar bem, paisano!... A semente grelou e está a árvore
ramalhuda, que vancê sabe, do contrabando de hoje.
O Jango Jorge
foi maioral nesses estropícios. Desde moço. Até
a hora da morte. Eu vi.
Como disse, na madrugada vésp'ra do casamento o Jango Jorge
saiu para ir buscar o enxoval da filha.
Passou o dia; passou a noite.
No outro dia, que era o do casamento, até de tarde, nada.
Havia na casa uma gentama convidada; da vila, vizinhos, os padrinhos,
autoridades, moçada. Havia de se dançar três
dias!... Corria o amargo e copinhos de licor de butiá.
Roncavam cordeonas no fogão, violas na ramada, uma caixa
de música na sala.
Quase ao entrar do sol a mesa estava posta, vergando ao peso dos
pratos enfeitados.
A dona da casa, por certo traquejada nessas bolandinas do marido,
estava sossegada, ao menos ao parecer.
Às vezes mandava um dos filhos ver se o pai aparecia, na
volta da estrada, encoberta por uma restinga fechada de arvoredo.
Surdiu dum quarto o noivo, todo no trinque, de colarinho duro e
casaco de rabo. Houve caçoadas, ditérios, elogios.
Só faltava a noiva; mas essa não podia aparecer, por
falta do seu vestido branco, dos seus sapatos brancos, do seu véu
branco, das suas flores de laranjeira, que o pai fora buscar e ainda
não trouxera.
As moças riam-se; as senhoras velhas cochichavam.
Entardeceu.
Nisto correu voz que a noiva estava chorando: fizemos uma algazarra
e ela - tão boazinha! - veio à porta do quarto, bem
penteada, ainda num vestidinho de chita de andar em casa, e pôs-se
a rir pra nós, pra mostrar que estava contente.
A rir, sim, rindo na boca, mas também a chorar lágrimas
grandes, que rolavam devagar dos olhos pestanudos...
E rindo e chorando estava, sem saber porque... sem saber porquê,
rindo e chorando, quando alguém gritou do terreiro:
- Aí vem o Jango Jorge, com mais gente!...
Foi um vozerio geral; a moça porém ficou, como estava,
no quadro da porta, rindo e chorando, cada vez menos sem saber porquê...
pois o pai estava chegando e o seu vestido branco, o seu véu,
as suas flores de noiva...
Era já fusco-fusco. Pegaram a acender as luzes.
E nesse mesmo tempo parava no terreiro a comitiva; mas num silêncio,
tudo.
E o mesmo silêncio foi fechando todas as bocas e abrindo todos
os olhos.
Então vimos os da comitiva descerem de um cavalo o corpo
entregue de um homem, ainda de pala enfiado...
Ninguém perguntou nada, ninguém informou de nada;
todos entenderam tudo...; que a festa estava acabada e a tristeza
começada...
Levou-se o corpo pra sala da mesa, para o sofá enjeitado,
que ia ser o trono dos noivos. Então um dos chegados disse:
- A guarda nos deu em cima... tomou os cargueiros... E mataram o
capitão, porque ele avançou sozinho pra mula ponteira
e suspendeu um pacote que vinha solto... e ainda o amarrou no corpo...
Aí foi que o crivaram de bala.... parado... Os ordinários!...
Tivemos que brigar, pra tomar o corpo!
A sia-dona mãe
da noiva levantou o balandrau do Jango Jorge e desamarrou o embrulho;
e abriu-o.
Era o vestido branco da filha, os sapatos brancos, o véu
branco, as flores de laranjeira...
Tudo numa plastada de sangue... tudo manchado de vermelho, toda
a alvura daquelas cousas bonitas como que bordada de cobrado, num
padrão esquisito, de feitios estrambólicos... como
flores de cardo solferim esmagadas a casco de bagual!...
Então
rompeu o choro na casa toda.