CLARA
DOS ANJOS
Lima Barreto
CAPÍTULO VI
A recepção
que tivera Cassi, na sua segunda visita, seca, hostil, quase sendo
despedido à soleira da porta, ao contrário da primeira
vez que fora à casa de Joaquim dos Anjos, fizera-o meditar
e açulara-lhe o desejo de remover todos os obstáculos
que se opunham à sua aproximação de Clara.
Por exclusão, ele só viu duas pessoas capazes de lhe
estarem atrasando seu "trabalho", começado com
tanta rapidez e sem esforço. Quem eram? Só podiam
ser Dona Margarida, por causa do "negócio" do Timbó;
e o tal aleijado, que lhe lançara a indireta, em verso, de
chamá-lo de burro.
Se na sedução, propriamente, ele não empregava
absolutamente força, no que era o contrário dos conquistadores
suburbanos, a ponto dos jornais noticiarem, de quando em quando,
o desespero das vítimas que se fazem assassinas, para se
defenderem de tão torpes sujeitos; Cassi, entretanto, quando
no decorrer de suas conquistas, encontrava obstáculos, fosse
mesmo da parte do próprio irmão da vítima em
alvo, logo procurava empregar violência, para arredá-lo.
É bem de ver que ele sabia com quem se metia; mas, no caso,
tratando-se de um quase inválido, a força a empregar
seria mínima; e, no que toca a Dona Margarida, ele saberia
enganá-la e embaí-la.
A sua força de valente e navalhista era mais fama do que
realidade; mas tinha fama, e muitos se intimidavam. Dava-lhe isso
um ascendente sobre os que, de boa-fé e honestamente, podiam
prevenir as moças que ele cobiçava, não as
prevenindo, não as avisando, não o desmascarando totalmente.
Cheios de temor, deixavam o caminho franco ao modinheiro.
A tal respeito, com o seu cinismo de sedutor de quinta ordem, tinha
uma oportuna teoria, condensada numa sentença: "Não
se pode contrariar dois corações que se amam com sincera
paixão."
Colocando ao lado dessa teoria, bem sua, a consideração
de que não empregava violência nem ato de força
de qualquer natureza, ele, na sua singular moral de amoroso-modinheiro,
não se sentia absolutamente criminoso, por ter até
ali seduzido cerca de dez donzelas e muito maior número de
senhoras casadas. Os suicídios, os assassínios, o
povoamento de bordéis de todo o gênero, que os seus
torpes atos provocaram, no seu parecer, eram acontecimentos estranhos
à sua ação e se haviam de dar de qualquer forma.
Disso, ele não tinha culpa.
Para certificar-se quem era que, na casa do "carteiro",
fermentava o seu descrédito, Cassi resolveu ir sondar Lafões,
em sua casa.
Lafões morava bem próximo do reservatório do
Engenho de Dentro. Uma tarde, Cassi tomou o bonde de Piedade, que,
para ir a essa estação, logo após o Méier,
se interna para os lados da serra, toma ruas despovoadas e, por
fim, a do Engenho de Dentro. O caminho era então pitoresco,
não só pelos restos de capoeira grossa que ainda havia,
mas também pelas casas roceiras de varanda e pequenas janelas
de outros tempos. Caminho de "tropa", talvez, os engenheiros
da Light só se deram ao trabalho de fazer sumários
nivelamentos. Os altos e baixos, os atoleiros e atascadeiros, consolidados
com gravetos e varreduras de capinas, transformaram o caminho do
bonde, naquele trecho, numa montanha-russa, com a lembrança,
de um lado e outro, do espetáculo do que seriam ou do que
são os caminhos do nosso interior, pelos quais nos chegam
os cereais e a carne que comemos.
Às vezes, o bonde cruzava com uma tropa de carvoeiros de
Jacarepaguá, da Serra do Mateus e outras localidades ainda
com florestas aproveitáveis; e tínhamos uma imagem
mais viva. Os tropeiros eram gente de sangue muito mesclado, ossudos,
jarretes nervosos e finos, pés espalmados, às vezes
de feições regulares, mas sempre cobertos de barbas
maltratadas e de uma insondável tristeza. Não eram
só homens feitos; havia crianças também, a
guiar os burros em fila.
Quando o bonde apontava a sacolejar as suas ferragens, estourando
que nem um besouro, avisando-os da sua presença próxima
com o zunido contínuo do tímpano, ou, senão,
com um apito, ao grito de locomotiva, aqueles homens, vivendo tão
perto da terra e da natureza espontânea, não deixavam
de se assustar e tomar precauções, para sua segurança
e dos seus pacientes animalejos. Encostavam bem a tropa a uma ribanceira
lateral da rua, quando na encosta; ou afastavam-se para o lado,
se havia terreno baldio e sem cerca, quando ela era planície;
e ficavam pasmos, diante daquele monstro zunidor que se movia por
intermédio de um grosso fio de arame. Os burros, quer num,
quer noutro caso, permaneciam indiferentes e punham-se a roer a
erva escassa do campo ou a pastar a folhagem que lhes dava sombra
e crescia no alto da chanfradura do corte.
Chegou Cassi Jones à casa de Lafões quase à
noite. Era uma pequena casa, mas bem tratada e limpa. O pequeno
jardim na frente merecia cuidados e, no quintal, aos fundos, cresciam
couves e repolhos, a dar saudades de um bom caldo à portuguesa.
Lafões, por aquelas horas, após o jantar, tinha por
hábito pôr-se em camisa de meia, tamancos e calça,
e completar a leitura do jornal que iniciara pela manhã.
Sentava-se a uma cadeira de balanço, austríaca, que
a punha bem junto à janela, tendo, à esquerda, uma
cadeira, em que repousavam o isqueiro (não usava fósforos)
e os cigarros "Fuzileiros".
Estava assim, naquela postura, e enrolava melhor um cigarro pacientemente,
quando lhe bateram no portão de ripas de madeira. Ergueu
um tanto o busto e, pondo um pouco a cabeça à mostra,
quase rente ao peitoril da janela, perguntou:
- Quem é?
Reconheceu logo:
- É o Senhor Cassi.
Ergueu-se e foi ao encontro dele, abrindo a porta de entrada. Tomou-
lhe o chapéu pelintra, a bengala ultra-aperfeiçoada
e foi dizendo prazenteiramente:
- Por aqui? Sente-se, ora esta! Seja bem-vindo!
O rapaz sentou-se, respondendo:
- Muito obrigado, meu caro "Seu" Lafões.
- Por que não aparece mais vezes, Senhor Cassi? - continuou
Lafões com amizade.
- Não tenho tido tempo. Nos dias da semana, são os
negócios; nos domingos, não dou para os convites.
Eu vinha aqui...
- Para quê, Senhor Cassi?
- Pedir-lhe uma informação.
- Qual é, Senhor Cassi?
- Disseram-me que, no seu escritório, o inspetor está
admitindo escreventes, para não sei que serviço extraordinário.
O senhor não podia saber se isto é verdade?
- Pois não. Indago ao Braga, que é contínuo,
vivo que nem azougue, e sabe de tudo que lá se passa - explicou
Lafões.
- Quando posso vir buscar a resposta?
- Olhe, Senhor Cassi: amanhã, à tarde, não,
porque tenho que ir à sessão da minha sociedade; mas,
se tem pressa, pode vir depois de amanhã, logo pelas sete
ou oito horas.
- Bem - fez Cassi, simulando contentamento. - Desde já agradecido.
Como vão sua senhora e seus filhos?
- Bem. A mulher saiu mais o mais moço; foram a não
sei que ladainha por aí. É um inferno! Estes padres
têm invadido estes subúrbios com mais rapidez que os
"turcos" de prestações. É dinheiro
para esse santo, é dinheiro para as obras da igreja... Não
posso mais! Edméia, porém, está lá no
fundo do quintal. Quer tomar café, Senhor Cassi?
- É incômodo... Se a sua senhora estivesse, sim; mas...
- Não há incômodo algum. Edméia o aquece
no espírito... Só se o Senhor Cassi não gosta
aquecido?
- Gosto.
- Pois bem, vamos a ele - e gritou pela filha, com possante voz
de homem são - Edméia! Edméia!
Não tardou em aparecer a filha. Era uma gentil menina de
doze anos, risonha, com uma fisionomia redonda de traços
firmes e finos, cabelos tirando para o louro, cortados à
inglesa. Entrando, exclamou logo:
- Oh! Estava aqui "Seu" Cassi. Que surpresa! Não
sabia...
Falou ao rapaz e este lhe disse a esmo:
- Há muito que não a via.
- É verdade, desde o dia de anos de Clarinha... Tem ido lá?
- Não tenho podido.
- Por quê? Parece que lá não gostam do senhor...
Principalmente aquele "pé-pé"...
- Menina - ralhou-lhe o pai. - Não te metas a intrigar os
outros... Vá aquecer o café e traze-nos duas xícaras.
Vá.
Saindo a menina, Cassi julgou de bom alvitre, para preencher o fim
verdadeiro de sua visita, dizer:
- Podem não gostar de mim. Mas a implicância é
sem motivo. Nunca...
- Ora, Senhor Cassi, o senhor vai dar ouvido a crianças.
Elas não sabem o que dizem.
- Agora, meu caro "Seu" Lafões, eu notei no dia
da festa que o compadre do Senhor Joaquim dos Anjos não me
tragava - disse Cassi.
- Isto se explica. Ele foi ou é poeta e tem em conta de coisa
nenhuma os cantadores de modinhas. Lá na minha terra, os
poetas dos fidalgos e das fidalgas não tragam os fadistas
do campo, aos quais chamam de rústicos e outras coisas piores.
Em cada ofício, há sempre disso. O senhor não
vê como os cocheiros desprezam os barbeiros? Cocheiro que
não presta é barbeiro. Marramaque, velho, doente,
não sabe disfarçar o seu mau juízo pelos que
apreciam o violão e o tocam, cantando modinhas.
- Mas... o "Seu" Joaquim?
- É que eles são compadres e amigos, meu caro Senhor
Cassi. Está explicado.
Vieram as xícaras de café e a conversa tomou outro
rumo. Falaram sobre as festas próximas do centenário
da Independência, sobre a crise financeira, mas Cassi em nada
disso pensava. Pensava em Marramaque, o audacioso aleijado, que
queria se intrometer no seu amor por Clara. Pagaria bem caro. Despediu-se
em breve e, lentamente, deixou-se ir a pé subúrbios
abaixo. Eram estranhos aquele ódio e aquela obstinação.
Cassi não era absolutamente, nem mesmo de forma elementar,
um amoroso. A atração por uma qualquer mulher não
lhe desdobrava em sentimentos outros, às vezes contraditórios,
em sonhos, em anseios e depressões desta ou daquela natureza.
O seu sentimento ficava reduzido ao mais simples elemento do Amor
- a posse. Obtida esta, bem cedo se enfarava, desprezava a vítima,
com a qual não sentia ter mais nenhuma ligação
especial; e procurava outra.
A sua instrução era mais que rudimentar; mas, assim
mesmo, talvez devido a uma necessidade íntima de desculpar-se,
gostava de ler versos líricos, principalmente os de amor.
Não lia jornais, nem coisa alguma; mas, num retalho apanhado
aqui, num almanaque acolá, num livro que lhe ia ter às
mãos, sem saber como, conseguia ler alguns e os entender
pela metade. Deles, desses sonetos e mais poesias que, por acaso,
iam parar em seu poder, ele concluía, com a sua estupidez
congênita, com a sua perversidade inata, que tinha o direito
de fazer o que fazia, porque os poetas proclamam o dever de amar
e dão ao Amor todos os direitos, e estava acima de tudo a
Paixão. Vê-se bem que ele não sentia nada do
que, poetas medíocres que o guiavam nas suas torpezas, falavam;
e, sem querer apelar para grandes ou pequenos poetas, percebia-se
perfeitamente que nele não havia Amor de nenhuma natureza
e em nenhum grau. Era concupiscência aliada à sórdida
economia, com uma falta de senso moral digna de um criminoso nato
- o que havia nele.
O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura
correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional
que vai da mais intensa alegria até à mais cruciante
dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia;
que faz esperar e desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que
a causa mude de qualquer forma.
Em Cassi, nunca se dava disso. Escolhida a vítima de sua
concupiscência, se, de antemão, já não
as sabia, procurava inteirar-se da situação dos pais,
das suas posses e das suas relações. Em seguida, tratava
de encontrar-se com ela num baile ou uma sala de festas e impressioná-la
com os seus dengues no violão. Se percebia que tinha obtido
algum sucesso, esforçava-se em reiterar os encontros nos
cinemas, nos bondes, nas estações, e, na ocasião
propícia, pespegava-lhe a carta fatal. Isto tudo era feito
com muita calma e discernimento, pacientemente, sem ser perturbado
em nenhum movimento de impaciência ou arrebatamento. Se a
moça ou a senhora aceitava-lhe os galanteios e as cartas,
ele tinha o final como certo; se não, ele não perdia
tempo, abandonava os esforços preliminares e esperava que
outra mais suasória aparecesse.
No caso de Clara, ele não estava disposto a acreditar que
se houvesse dado a primeira hipótese, porquanto lhe davam
certeza disso o embevecimento com que o ouvira cantar, na noite
da festa dos anos dela, e a insistência que mostrara em vir
falar com ele, quando lhe foi à casa do pai pela segunda
e última vez. O que lhe parecia, por indícios aqui
e ali, é que alguém se havia interposto entre ele
e ela, "entre dois corações que se amam",
denunciando aos pais dela os seus maus precedentes de conquistador
contumaz, de forma a trancarem-lhe aqueles as portas de sua casa,
a ele, Cassi.
Agora mesmo, tivera a confirmação dessa suspeita com
a ingênua denúncia de Edméia, a filha de Lafões,
de que Marramaque, padrinho de Clara, não gostava dele. Era,
portanto, prevenir-se contra as "intrigas" do aleijado
e arredá-lo de vez. Cassi sabia que, quase sempre, Marramaque
parava na venda do "Seu" Nascimento, quando vinha do trabalho.
Lá ficava bebericando com outros, até que o negócio
se fechasse. A ele, Cassi, não convinha ir por todos os motivos;
Timbó não podia também, por ser muito conhecido
na localidade, devido à surra que levara; Zezé Mateus
era um idiota. Quem iria, então, sondar aquele terreno? O
Arnaldo, que não era conhecido no local, nem sabidas eram
as suas relações com ele. Muito a contragosto, dirigiu-se
para a casa dos pais. Não tinha dinheiro que prestasse, para
"escorvar" o jogo.
O seu "socavão" doméstico ficava bem debaixo
da sala de jantar da casa, que aí acabava o seu corpo principal.
As dependências restantes ocupavam um puxado longo. Quando
ele entrou, percebeu que na sala de jantar, além do pai,
mãe e irmãs, havia alguém que não era
de hábito e dissera, ouvindo-lhe os passos:
- Há alguém aí?
- É Cassi - dissera a mãe.
- Ele não sobe aqui? - perguntou a visita.
Todos se calaram e se entreolharam, enquanto o velho Manuel de Azevedo
explicava o fato em quatro palavras:
- Você queria, Augusto, que eu, chefe de família, que
prezo a honra das filhas dos outros como a das minhas, deixasse
semelhante miserável sentar-se ao meu lado? Se não
o pus de todo para a rua, foi devido à mãe.
- Você tem razão, mano; mas tudo isto que se diz dele,
pode ser calúnia.
- É também o meu pensamento, Augusto - falou Dona
Salustiana.
As moças se haviam calado por pudor, mas o velho Azevedo
cortou de vez o argumento da mulher e do irmão:
- Você não leu esses papéis escritos à
máquina, que mandaram a você, dois dias após
você chegar, para o hotel?
- Li.
- Leu as datas, a narração dos fatos, as cartas?
- Li, também, mas o tempo...
- Pois tudo é verdade; e ninguém mais do que eu, infelizmente,
pode assegurar isso. Em menos de dez anos, esse meu indigno filho
fez tudo isso. Não o posso negar em sã consciência.
Se não posso...
Ao entrar, Cassi, tendo percebido que a conversa ia versar sobre
ele, colocou-se de ouvido atento, embaixo da janela, nada perdendo
e conseguindo ouvir esse trecho em que tomava parte o seu tio Augusto,
irmão de seu pai, que, havia muito tempo, andava destacado
numa alfândega do Norte. Quando o velho Manuel de Azevedo
falou em papéis escritos à máquina, trazendo
indicações de datas e a narração dos
fatos de suas complicações com a polícia e
a justiça, Cassi assustou-se. Quem estaria fazendo aquele
trabalho surdo? Não era a primeira vez que tivera notícia
da existência desse caderno misterioso e misteriosamente distribuído
pelo correio. Dissera-lhe um investigador de uma delegacia suburbana
que, logo que havia mudança de delegado ou de comissário,
numa delas, o novo delegado ou o novo comissário recebia
o tal caderno. Apavorava-lhe essa perseguição nas
trevas, talvez segura, que, aos poucos, o ia minando. Tão
indiferente era ele pela sorte de suas vítimas e tão
estúpido se mostrara sempre em não compreendê-las,
que não podia encadear raciocínios seguros, para ter
a procedência, mais ou menos provável, da remessa de
tais cadernos.
Precisava fugir - era o que concluía; e ele se sentia ameaçado,
não por duendes, mas por alçapões, homens mascarados,
cárceres privados, suplícios, etc. - todo o arsenal
do maravilhoso das fitas de cinema.
Entretanto, queria antes resolver o caso de Clara, que, apesar de
tudo, considerava em meio.
Deitou-se e dormiu regaladamente, até ao alvorecer do dia.
Logo que a luz do sol ganhou uma relativa nitidez, ele foi passar
revista nas suas gaiolas de galos de briga. Estava tudo a postos,
e foi lhes dando milho tirado de uma lata que tinha em uma das mãos,
e olhando todos aqueles bichos hediondos, com a ternura de um honesto
criador, que revê o seu trabalho nas travessas pesquisas ou
na doçura de olhar de seus cordeiros. Aos pintos, deu milho
moído, triguilho, e só não deu ovo picado porque
não era dia. O seu embevecimento por aquelas horrendas aves
era sincero: elas lhe faziam ganhar dinheiro. Olhou-as e perguntou
de si para si:
- Quanto valeriam ao todo?
Alguns já lhe haviam oferecido quinhentos mil-réis
e ele estava disposto a vendê-las, por esse preço,
depois que a "coisa" estivesse acabada...
Veio tomar café no "socavão", onde a velha
Romualda lhe trazia todas as manhãs. Era velha, e a sua velhice
a defendia perfeitamente contra qualquer assalto de Cassi. Perguntou-lhe
este:
- Meu tio ainda está aí?
- Quem é seu tio, nhonhô?
- Aquele moço que esteve ontem, à noite.
- Ah! Foi embora logo depois do chá.
Não trocaram mais palavras. Depois de servido o café
e comido o pão com manteiga, a velha Romualda levou a bandeja
com a xícara, e Cassi tratou de vestir-se e sair.
Quase nunca parava em casa. Temia encontrar-se com o pai, que, por
isto ou por aquilo, houvesse resolvido ficar no lar, e também
por não poder suportar o desdém de suas irmãs.
A casa era-lhe mais penosa do que os xadrezes, por onde passara
dezenas de vezes.
Ia à procura de Arnaldo, que, morando na Estrada Real, vinha
no bonde de Cascadura, para tomar o trem no Méier. Arnaldo
não deixava de um só dia ir "lá embaixo".
Esperava sempre fazer um biscate e, quando não o fizesse,
arranjar algum "magote" no trem.
Não se enganara. Às nove e pouco, Arnaldo, com o seu
nariz de tromba de tapir, os seus olhos arredios e catadores, chegara;
Cassi disse-lhe que dele precisava, às cinco horas, ali;
e pagou-lhe o café.
- Pois não, Cassi; nas ocasiões é que se vêem
os amigos. Cá estarei.
Fazendo o sacrifício de perder uma tarde de colheita, Arnaldo
chegou na hora marcada, ao ponto ajustado.
Cassi explicou-lhe então que devia ir, naquela tarde, à
venda do Nascimento, cuja rua e cujo número lhe deu. Chegando
lá, simularia ter ido procurar por "Seu" Meneses,
que ele conhecia.
- Se ele não estiver? - indagou Arnaldo.
- Você diz que fica à espera e ouve o que se conversa
lá. Nela, devem estar, entre outros, o aleijadinho que anda
sempre fardado. Ele não conhece você, como os outros,
conforme espero. O que você ouvir, guarda e me conta. Se Meneses
aparecer, você diz que quero falar com ele, negócio
de interesse dele.
Cassi deu-lhe dois mil-réis e ele se pôs a caminho,
mas a pé, para poupar o tostão do bonde. Chegou à
venda de "Seu" Nascimento, teve duas decepções.
Encontrara dois sujeitos, que o conheciam perfeitamente: um era
um engenheiro inglês, Mr. Persons, de quem "abafara"
uma capa de borracha, e o outro era o Alípio, que até
o sabia da roda de Cassi.
Não se deu por vencido e, atravessando por entre Alípio
e o velho Marramaque, que conversavam, foi direto ao balcão
e perguntou naturalmente:
- O senhor não conhece um velho dentista, por nome Meneses?
E acrescentou:
- Ele tem vindo aqui?
O taverneiro respondeu:
- Há dias que não - e, dirigindo-se aos circunstantes,
por sua vez indagou: - vocês têm visto o doutor Meneses?
Todos, porém, responderam: não.
Arnaldo ia dizer obrigado, para retirar-se, quando Mr. Persons perguntou-lhe:
- Sinhôr, vem cá!
Arnaldo fez-se jovial.
- Oh! "Seu" mister como vai?
- Não diga "Seu" mister, é "error".
Bem... Onde está mia capa?
- Trago por esses dias, tenho me esquecido.
- Já é duas vezes que "sinhôr" diz
isso. Eu precisa da capa.
- Não me esquecerei.
E saiu apressado. O negócio da capa fora simples. Persons
não viera da cidade são de seu juízo e deixara
a capa descansando no banco, ao lado, recostando-se na parede do
carro. Pouco antes de certa estação, Arnaldo sentou-se
a seu lado, no intento de carregar-lhe a capa. Ao pôr em prática
o seu propósito, Persons despertou, mas só pôde
dar com o furto, quando Arnaldo ia saindo do carro. Gritou: "minha
capa". Um condutor ainda agarrou Arnaldo com a carga, mas,
quando o Persons deu com o lugar em que estavam ambos, já
o auxiliar o tinha largado e o trem se pusera em movimento. Guardara,
porém, a fisionomia do gatuno; e, vindo a encontrar-se com
ele, perguntara-lhe por essa peça de vestuário, e
Arnaldo lhe dissera que a havia levado por engano.
Ele saiu corrido de vergonha; mas, vendo que ninguém vinha
até às portas da venda, ele voltou e se pôs
a ouvir o que diziam.
O mister já acabara de contar a história da capa,
quando Alípio, em tom de comentário, dissera:
- Isto que saiu daí é uma peste. Não sabia
dessa história de furtos nos trens; mas basta ele ser do
bando do tal Cassi, para não prestar.
Marramaque acudiu:
- Eu ainda não conhecia este. Vou indicá-lo ao compadre.
O tal Trembó ou Tipó, como é?
- Timbó, fez Alípio.
- O tal de Timbó já conheço e já o apontei
ao compadre. Por falar nisto, o senhor sabe, "Seu" Nascimento
e meus senhores, o que recebi, há dias, pelo correio, na
secretaria?
- Não - responderam todos, por sinais ou por palavras.
- A vida desse Cassi.
- Impressa?
- Não. Copiada à máquina de escrever, com fotografias
dele, cópias de notícias dos jornais do tempo, indicação
das datas dos processos e dos juízes e delegados - tudo!
- Quem lhe mandou? - perguntou Alípio.
- Não sei. Recebi a coisa na secretaria, lá a li e
dei-a ao compadre, para se prevenir.
- Com uma boa garrucha - observou Nascimento.
- Ou revólver - obtemperou Marramaque.
Ouvindo tudo isto e percebendo que alguém se dirigia à
venda, cuja hora de fechar não tardaria, Arnaldo deixou o
lugar em que estava e correu ao encontro de Cassi, que devia estar
no Engenho Novo.
Encontraram-se, e ele, no que não tinha o menor hábito,
contou-lhe toda a verdade vista e ouvida.
Cassi nem Arnaldo não eram dados à bebida; mas o momento
a pedia. Aquele convidou o seu dedicado companheiro a tomar uma
garrafa de cerveja, o que fizeram quase sem conversar.
Acabada, pagaram e levantaram-se. Arnaldo procurou o seu rumo e
Cassi meteu-se pela sombria Rua do Barão de Bom Retiro.
Embora não fosse tarde, já se ouviam os tiros que
os suburbanos dão, de quando em quando, para afugentar os
ladrões dos seus galinheiros.
Um estourou bem perto dele, e Cassi, fingindo-se calmo e sem apreensões,
disse à meia voz:
- Ainda não foi desta vez.
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