CLARA
DOS ANJOS
Lima Barreto
CAPÍTULO III
Marramaque,
apesar de sua instrução defeituosa, senão rudimentar,
tinha vivido em roda de pessoas de instrução desenvolvida
e educação, e convivido em todas as camadas. Era de
uma cidadezinha do Estado do Rio, nas proximidades da Corte, como
se dizia então. Feito os seus estudos primários, os
pais empregaram-no num armazém da cidade. Estávamos
em plena escravatura, se bem que nos fins, mas a antiga Província
do Rio de Janeiro era próspera e rica, com as suas rumorosas
fazendas de café, que a escravaria negra povoava e penava
sob os açoites e no suplício do tronco.
O armazém em que Marramaque era empregado havia de tudo:
ferragens, roupas feitas, isto é, camisas, calças,
ceroulas grosseiras, para trabalhadores; armas, louças, etc.,
etc. Comprava diretamente nos atacadistas da Corte; além
disso, o seu proprietário era intermediário entre
os pequenos lavradores e as grandes casas da Capital do Império,
isto é, comprava as mercadorias àqueles, por conta
destas, com o que ganhava comissão.
Marramaque era contemplativo e melancólico, e vivia, debruçado
ao balcão do armazém, ouvindo os tropeiros e peões
contar histórias de todo o gênero: façanhas
de valentia, maus encontros pelos caminhos desertos, proezas de
desafio à viola e de amor roceiro.
No gênio, não saía ao pai, que era um minhoto
ativo, trabalhador, reservado e econômico. Em poucos anos
de Brasil, conseguiu ajuntar dinheiro, comprar um sítio em
que cultivava os chamados "gêneros de pequena lavoura",
aipim, batata-doce, abóboras, tomates, quiabos, laranja,
caju e melancia, dando-lhe esta última cultura, pelos fins
do ano e começo do seguinte, lucros razoáveis. Com
o correr do tempo, comprara um bote; e, duas vezes por semana, acompanhado
de um companheiro a quem pagava, trazia ele mesmo os produtos de
sua lavoura, navegando por um pequeno rio, mais ou menos canalizado,
atravessando a Guanabara até o Mercado. Vinha com o "terral"
e voltava com a "viração".
O filho não seria capaz dessas proezas; mas, como sua mãe,
que, embora quase branca, tinha ainda evidentes traços de
índio, seria capaz de cantar o dia inteiro modinhas lânguidas
e melancólicas.
Havia, quando rapazola, muitas névoas na sua alma, um diluído
desejo de vazar suas mágoas e os sonhos, no papel, em verso
ou fosse como fosse; e um forte sentimento de justiça. O
espectro da escravidão, com todo o seu cortejo de infâmias,
causava-lhe secretas revoltas.
Certo dia, um viajante, que pousara no armazém, deixara,
por esquecimento, na mesa do quarto em que fora hospedado, um volume
das Primaveras, de Casimiro de Abreu.
Ele nunca havia lido versos seguidamente. Nos jornais que lhe caíam
à mão, mesmo nos retalhos deles e em páginas
soltas de revistas que vinham parar ao armazém para embrulho,
é que lera alguns. Dessa forma, encontrando, no seu natural
melancólico, cheio de uma doce tristeza e de um obscuro sentimento
da mesquinhez do seu destino, terreno propício, o livro de
Casimiro de Abreu caiu-lhe n'alma como uma revelação
de novas terras e novos céus. Chorou e sonhou com os doridos
queixumes do sabiá de São João da Barra e não
deixou de notar que, entre ele e o poeta das Primaveras, havia a
semelhança de começarem ambos sendo caixeiros de uma
casa de negócio da roça. Cristalizada a emoção
profunda que lhe causara a leitura dos versos do gaturamo fluminense,
Marramaque resolveu agir, isto é, instruir-se, educar-se
e... fazer versos também. Para isso, precisava sair dali,
ir para a Corte.
De quando em quando, pousavam no armazém, onde dormia também,
caixeiros-viajantes de grandes casas da Corte que tinham negócios
com o Senhor Vicente Aires, patrão de Marramaque. O seu natural
bom, prestativo, a sua irradiação simpática,
provinda dos seus sonhos vagos e amontoados, faziam-no estimado
deles todos. Havia um, entretanto, que ele estimava mais. Era um
rapaz português, o Senhor Mendonça, Henrique de Mendonça
Souto. Em tudo, ele era o contrário do pobre Marramaque.
Era alegre, folgazão, palrador, bebia o seu bocado; mas sempre
honesto, leal e franco.
Certa noite, estando ele hospedado nos fundos do armazém
do Senhor Vicente Aires, de volta de uma partida de "manilha",
na casa do sacristão da Matriz, o alegre "cometa"
veio a encontrar o caixeiro Marramaque lendo o volume de Casimiro
de Abreu. Era alta noite, passava da meia: e, como o caixeiro tinha
que se erguer às cinco da manhã, para abrir o armazém
e atender a tropeiros e viajantes em preparativos de partida, tal
fato causou pasmo a "Seu" Mendonça:
- Ainda lês, menino! E não te lembras que, daqui a
pouco, deves estar de pé, filho de Deus!
- Esperava o senhor.
- E mais esta! Então tu pensas que eu mesmo não sabia
despir-me e meter-me à cama? Que lês?
- Primaveras, de Casimiro de Abreu.
O caixeiro-viajante acabou de vestir-se e deitou-se. Depois de cobrir-
se, perguntou a Marramaque:
- Tu gostas de versos, rapaz?
Hesitou em responder, mas Mendonça fez rispidamente:
- Dize lá, rapaz; porque nisto não vai crime algum.
Está a ver-se, rapaz! Dize!
- Gosto, sim senhor - fez o caixeiro timidamente.
- Pois deves ir para o Rio - acudiu Mendonça com pressa -
estudar e... quem sabe lá?
- Se eu arranjasse um emprego na Corte...
Mendonça pensou um pouco e disse:
- Na casa, não te serve. Há muito serviço e
tu não te acostumas... És aprendiz de poeta, tens
inclinação para essas coisas de versos e te aborrecias.
O que te serve, era trabalhar numa farmácia. Fala a teu pai
que eu te arranjo a coisa. Escrevo-te logo que chegar ao Rio.
Mendonça cumpriu a palavra, e o pai consentiu que ele viesse
para o Rio. Marramaque foi trabalhar numa farmácia; e, à
noite, ia completando a sua instrução, conforme podia,
nas instituições filantrópicas de instrução
que existiam no tempo.
Logo, tratou de fazer versos; e, certa vez, foi surpreendido por
um dos habitués da farmácia, compondo uma poesia.
As farmácias, naquele tempo, eram o lugar de encontro de
pessoas graves e sisudas da vizinhança, que, à tarde,
após o jantar, iam a elas espairecer e conversar. Quem surpreendeu
o jovem Marramaque, fazendo versos, foi o Senhor José Brito
Condeixa, segundo oficial da Secretaria de Estrangeiros, poeta também,
mas, de uns tempos para cá, somente festivo e comemorativo.
Além de publicar, nos dias de gala, sonetos e outras espécies
de poesias alusivas à festa, não se esquecia nunca
de comemorar as datas domésticas da família imperial,
em versos de um lavor chinês. Esperava o hábito da
Rosa; mas, só veio a ter no fim do Império, quando
retirou da Imprensa Nacional o terceiro volume da Sinópsis
da Legislação Nacional, na parte que se refere ao
Ministério de Estrangeiros.
Lendo os versos do adolescente, Brito Condeixa gostou e jurou que
havia de proteger o caixeirozinho. Falou ao patrão, e ele
foi se empregar numa papelaria-livraria, na Rua da Quitanda. Freqüentada
por poetas e literatos que ensaiavam os primeiros passos, nos últimos
quinze anos do Império, com eles se relacionou e sempre era
escolhido para secretário, gerente, tesoureiro, de suas efêmeras
publicações. Deixou o emprego da papelaria, sem zanga;
e atirou-se às refregas e às decepções
da pequena imprensa, com ardor e entusiasmo, sangue republicano
e abolicionista, sobretudo abolicionista.
Esse jornalismo contrário e efêmero pouco ou quase
nada lhe dava para a sua manutenção. Vivia uma vida
de privações e necessidades prementes. Sem deixar
os companheiros poetas, escritores, parodistas, artistas, ele se
improvisou guarda-livros ambulante, fazendo escritas aqui e ali,
com o que ganhava para ter casa, comida, roupa e até, às
vezes, socorrer os camaradas. Manteve-se sempre absolutamente solteiro.
Guardava, da sua vida de acólito da boêmia literária,
recordações muito vivas, que gostava de contar, ensopando-as
de comovida saudade. Anedotas deste, casos com aquele, expedientes
daquele outro, ele narrava com chiste e firmeza de lembrança;
mas, ao que parece, a figura de seu tempo que mais o impressionou
foi a de um pequeno poeta, que nunca teve seu quarto de hora de
celebridade e hoje está totalmente esquecido. A respeito
dele, Marramaque se referia com o sentimento profundo de quem se
lembra de um irmão muito amado:
- Ah! O Aquiles! Que alma! Que poeta! O senhor - dirigindo ao interlocutor
ocasional - não o conheceu?
- Não; não me recordo.
- Nem de nome? Ele deixou obras.
O outro com quem conversava, por delicadeza, respondia:
- De nome, pois não, pois não!
- Que alma era esse Aquiles Varejão! Morreu há pouco
tempo, em 94 ou 95; e, se não me falha a memória,
na Santa Casa. Morreu na maior miséria; entretanto, tudo
o que ganhava - ele era tipógrafo - estava sempre disposto
a distribuir com os amigos. Não pude ir vê-lo... Tinha
tido o primeiro ataque e estava em tratamento. Lembro-me, porém,
do seu último soneto que a Gazeta publicou. Que lindeza!
Aquilo era um poeta que não forçava, nem tinha compasso
e régua. Ouça só!
E, com uma voz difícil, devido à semiparalisia da
parte esquerda da boca, esbugalhando os olhos, devido ao esforço
para pronunciar bem as palavras, recitava:
Prostrado nesta
enxerga, sinto a vida
Ir, pouco e pouco, procurando o nada;
Pra mim não há mais sol de madrugada,
Mas sim tremor da luz amortecida.
Prazeres onde
estais? Longa avenida
De amores, que trilhei nesta jornada?
Tudo acabou. É justa esta pousada,
Antes que dobre o sino da partida.
Feliz quem
tem família! Tem carinho
De mãe, de esposa, e, em derredor do leito,
Não sofre o horror de achar-se tão sozinho.
Porém
ao meu destino estou sujeito;
Devo, batendo as asas, sem ter ninho,
Buscar, quem sabe? um mundo mais perfeito?
O Marramaque, quase sempre, acabava de recitar os versos do amigo
com os olhos úmidos; e o ouvinte, não só pela
dor demonstrada pelo declamador, mas também pelo tom elegíaco
do soneto, comovia-se também e, antes de qualquer pergunta,
comentava:
- É bonito! É mesmo lindo.
Marramaque, poeta raté, tinha uma grande virtude, como tal:
não denegrir os companheiros que subiram nem os que ganharam
celebridade. A todos gabava, sem que, por isso, não lhes
notasse as falhas de caráter.
Tendo vivido assim, em vários e diferentes meios, ganhando
experiência e conhecimento dos homens e das coisas da vida,
estava apto para julgar bem quem era Cassi Jones. Demais, devido
à sua convivência com literatos, poetas e escritores,
adquirira o hábito tirânico de ler diariamente todos
os jornais que apanhava na repartição, e não
fazia lá outra coisa, devido a seu estado de saúde.
De quando em quando, ele encontrava notícias mais que escabrosas,
às vezes sangrentas mesmo, em que estava envolvido o nome
do famigerado violeiro. De umas delas, ele se lembrava perfeitamente,
porque lhe havia causado, na sua alma retardada de idealista e sonhador,
de poeta que quis ser amoroso e cavalheiresco, a maior revolta e
um movimento de nojo irreprimível. Joaquim dos Anjos não
estava a par dela, pois não tinha hábito de ler jornais
e pouco tagarelava com as pessoas de suas bandas suburbanas. Marramaque
apoiou-se em contador e por alto.
Num dos subúrbios, na proximidade da casa de Cassi, veio
a residir um casal. A mulher era moça, fruída de carnes,
alta, louçã, grandes olhos negros, um tipo do Sul,
ao que parece do Rio Grande. O marido, que era oficial de Marinha,
maquinista, era amorenado, tirando a mulato, baixo, sempre triste,
curvado e pensativo. Apesar da diferença de gênios,
que se percebia, e de idade, que estava à mostra, pareciam
viver bem. Quase sempre saíam à tarde, iam a festas,
a teatros; aos domingos, procuravam visitar os arrabaldes pitorescos
e voltavam à noite. Tomavam comida fora e só tinham
uma rapariguita preta, de uns dezesseis anos, para os serviços
leves da casa. Não se sabe como, Cassi conseguiu conhecer
a gaúcha e seduzi-la. Mal o marido saía, ele se metia
em casa da moça com violão e tudo. A vizinhança
murmurava contra aquela pouca-vergonha. Fosse de que fonte fosse,
o marido veio a saber e um dia, de revólver em punho, furioso,
fora de si, louco, totalmente louco, penetrava na casa e alvejou
a mulher com dois tiros de revólver, de cujos ferimentos
veio a morrer horas depois. Após ter alvejado mortalmente
a mulher, correu em perseguição de Cassi, que, descalço,
de calças e em mangas de camisa, saltava cercas e muros,
para se pôr fora do alcance do marido indignado.
Entregando-se à prisão, o oficial maquinista contou
toda a sua desdita e o causador dela. O delegado mandou procurar
Cassi e conseguiu pilhá-lo à noite. Os agentes deram
uma batida nos matos, e o galã fugitivo foi preso e recolhido
à enxovia.
Por ocasião dessa prisão foi que ele veio a conhecer
Lafões. Tinha este sido detido e recolhido ao xadrez, por
ter feito um distúrbio, num botequim, onde tomara uma carraspana,
em comemoração ao ter acertado uma centena no bicho.
Quando Cassi foi recolhido, já Lafões estava no xadrez,
havia quatro horas.
Cassi, que fugira do revólver do oficial, sem paletó
e sem colete, em cujas algibeiras estava o seu dinheiro, não
pudera comprar cigarros; mas Lafões os tinha. O profissional
da sedução pediu-lhe um, que lhe foi dado. Disse,
então, para Lafões:
- Vou te soltar, meu velho. Tu és uma bela alma.
- Por que vosmecê está preso, meu caro senhor?
Cassi respondeu com muita calma e indiferença, como se tratasse
de um acontecimento vulgar:
- Por nada. Coisas de mulheres, meu velho. É o meu fraco.
Pela grade do xadrez, dirigiu-se a um soldado, a quem conhecia,
e falou-lhe baixo qualquer coisa. Em breve, foi a praça substituída
por outra. Vendo isso Cassi, disse para o velho Lafões:
- Estás aqui, estás na rua. Mandei o soldado falar
ao meu chefe político: e ele vai interessar-se para seres
solto.
- E vosmecê?
- Não te importes comigo. Tenho que depor...
Na verdade, Lafões foi solto; não houve, porém,
qualquer intervenção do chefe político de Cassi.
Libertou-o o próprio comissário que o prendera e o
conhecia como homem morigerado e qualificado.
Entretanto, o guarda das obras públicas sempre supôs
que a sua libertação tivesse sido obra de Cassi, por
isso lhe era grato e o defendia com todo o ardor.
Lafões era um homem simplório, que só tinha
agudeza de sentidos para o dinheiro que vencia. Vivendo sempre em
círculos limitados, habituado a ver o valor dos homens nas
roupas e no parentesco, ele não podia conceber que torvo
indivíduo era o tal Cassi; que alma suja e má era
a dele, para se interessar generosamente por alguém.
Muito diferente do guarda era Marramaque, cujo âmbito de vida
sempre fora mais amplo e mais variado. Abraçava um maior
horizonte de existência humana...
Quando aquele lembrou que se convidasse o celebrizado violeiro,
o contínuo viu logo os perigos que a presença do profissional
da desonra das famílias podia trazer à paz e ao sossego
que reinavam na casa de Joaquim dos Anjos.
Além de compadre, Marramaque era profundamente amigo do carteiro,
que o auxiliava nos seus transes de toda a ordem: um pouco, originados
pelos hábitos boêmios que, de todo, não perdera;
um pouco, pela exigüidade de seus vencimentos, com os quais
sustentava uma irmã viúva e dois filhos dela, ainda
menores, com os quais morava, nas proximidades de Joaquim.
Na sua vida, tão agitada e tão variada, ele sempre
observou a atmosfera de corrupção que cerca as raparigas
do nascimento e da cor de sua afilhada; e também o mau conceito
em que se têm as suas virtudes de mulher. A priori, estão
condenadas; e tudo e todos pareciam condenar os seus esforços
e os dos seus para elevar a sua condição moral e social.
Se assim acontecia com as honestas, como não pensaria sobre
o mesmo tema um malandro, um valdevinos, um inconsciente, um vagabundo
cínico, como ele sabia ser o tal Cassi?
Durante o jantar, ainda se falou muito a respeito, mas com as reservas
que a assistência de uma moça pedia fossem tomadas.
- Vamos experimentar, meu caro Marramaque. "Ele" sabe
com quem se mete...
- Eu cá, por mim, nada tenho a dizer dele. Sempre me tratou
muito bem e sou-lhe grato.
- É que você, Lafões, não lê os
jornais.
- Qual jornais! Qual nada! Tudo que lá vem neles é
mentira.
Clara ouvia esse diálogo com muita atenção
e forte curiosidade. Num dado momento, não se conteve e perguntou:
- O que é que esse Cassi faz, padrinho?
A mãe acudiu ríspida, dizendo:
- Não é de tua conta, bisbilhoteira!
A única filha do carteiro, Clara, fora criada com o recato
e os mimos que, na sua condição, talvez lhe fossem
prejudiciais. Puxava a ambos os pais. O carteiro era pardo-claro,
mas com cabelo ruim, como se diz; a mulher, porém, apesar
de mais escura, tinha o cabelo liso.
Na tez, a filha tirava ao pai; e no cabelo, à mãe.
Joaquim era alto, bem alto, acima da média, ombros quadrados
e rija musculatura; a mãe, não sendo muito baixa,
escapava à média da altura de nossas mulheres em geral.
Tinha ela uma fisionomia medida, de traços breves, mas regular;
o que não acontecia com o marido, que era possuidor de um
grosso nariz, quase chato, e malares salientes. A filha, a Clara,
havia ficado em tudo entre os dois; média deles, dos seus
pais, era bem exatamente a filha de ambos.
Habituada às musicatas do pai e dos amigos, crescera cheia
de vapores de modinhas e enfumaçara a sua pequena alma de
rapariga pobre e de cor com os dengues e o simplório sentimentalismo
amoroso dos descantes e cantarolas populares.
Raramente saía, a não ser para ir bem perto, à
casa de Dona Margarida, aprender a bordar e a costurar, ou com esta
ir ao cinema e a compras de fazendas e calçado. A casa dessa
senhora ficava a quatro passos de distância da do carteiro.
Apesar de ser uso, nos subúrbios, irem as senhoras e moças
às vendas fazer compras, Dona Engrácia, sua mãe,
nunca consentiu que ela o fizesse, embora de sua casa se avistasse
tudo o que se passava, no armazém do "Seu" Nascimento,
fornecedor da família.
Essa clausura mais alanceava sua alma para sonhos vagos, cuja expansão
ela encontrava nas modinhas e em certas poesias populares.
Com esse estado de espírito, o seu anseio era que o pai consentisse
na visita do famoso violeiro, cuja má fama ela não
conhecia nem suspeitava, devido ao cerco desvelado que a mãe
lhe punha à vida; entretanto, supunha que ele tirava do violão
sons mágicos e cantava coisas celestiais.
Joaquim dos Anjos, afinal, tendo o assentimento da mulher e também
curioso de conhecer as habilidades de Cassi, no violão e
na trova popular, consentiu que Lafões o trouxesse em sua
casa, no dia do aniversário de Clara. Viria aquela vez e
não viria mais...
Lafões acolheu a resposta com viva alegria e tratou de entender-se
com o tocador mal-afamado. Fez. Quando os seus companheiros de vagabundagem
souberam, comentaram cinicamente o convite:
- Conheço bem esse carteiro. Ele não trabalha aqui;
mas na cidade, na zona dos bancos. Deve ter dinheiro. Tem um pancadão
de filha, meu Deus! Que torrão de açúcar!
- Então estás feito, hein, Cassi? - fez alvarmente
Zezé Mateus, àquela tendenciosa observação
de Ataliba do Timbó.
Cassi, o mestre suburbano do violão, o dedo da modinha, fingiu-se
aborrecido e retrucou com fingido desgosto:
- Vocês mesmo é que me desacreditam. Dizem coisas que
não fiz e não faço, e todo mundo me enche de
desprezo, senão de ódio. Não sou essas coisas
que dizem de mim.
Timbó teve vontade de rir à vontade, mas, embora mais
forte do que Cassi, tinha este sobre ele um ascendente moral que
não se explicava. Zezé Mateus, porém, com o
seu peculiar meio-riso de imbecil, fez:
- Estou brincando, meu "nego". Sou teu amigo - tu sabes.
Eles conversavam sempre de pé, parados pelas esquinas. Raramente,
sentavam-se a uma mesa de café. Aquela intempestiva observação
do Ataliba, seguida do comentário de Zezé Mateus,
arrefecera a palestra da sociedade. Despediram-se, e cada um foi
para o seu lado.
Cassi, que fingira aborrecer-se com a tendenciosa notícia
de Timbó e o comentário de Zezé, ficou, ao
contrário, muito contente com ela. Tinha resolvido não
ir à tal festa; mas, pelo que informara Ataliba, talvez não
tivesse nada a perder. Experimentaria.
Mordeu os lábios e seguiu para o clube, com a consciência
leve e o coração alegre...