CLARA
DOS ANJOS
Lima Barreto
CAPÍTULO X
Clara dos Anjos,
meio debruçada na janela do seu quarto, olhava as árvores
imotas, mergulhadas na sombra da noite, e contemplava o céu
profundamente estrelado. Esperava.
Fazia uma linda noite sem luar; era silenciosa e augusta. As árvores
erguiam-se hirtas e se recortavam na sombra, como desenhadas. Nem
uma aragem corria; mas estava fresco. Não se ouvia a mínima
bulha natural. Nem o estridular de um grilo; nem o piar de uma coruja.
A noite quieta e misteriosa parecia aguardar quem a interrogasse
e fosse buscar no seu sossego paz para o coração.
Clara contemplava o céu negro, picado de estrelas, que palpitavam.
A treva não era total, por causa da poeira luminosa que peneirava
das alturas. Ela, daquela janela, que dava para os fundos de sua
casa, abrangia uma grande parte da abóbada celeste. Não
conhecia o nome daquelas jóias do céu, das quais só
distinguia o Cruzeiro do Sul. Correu com o pensamento errante toda
a extensão da parte do céu que avistava. Voltou ao
Cruzeiro, em cujas proximidades, pela primeira vez, reparou que
havia uma mancha negra, de um negro profundo e homogêneo de
carvão vegetal. Perguntou de si para si:
- Então, no céu, também se encontram manchas?
Essa descoberta, ela a combinou com o transe por que passara. Não
lhe tardaram a vir lágrimas; e, suspirando, pensou de si
para si:
- Que será de mim, meu Deus?
Se "ele" a abandonasse, ela estava completamente desmoralizada,
sem esperança de remissão, de salvação,
de resgate... Moça, na flor da idade, cheia de vida, seria
como aquele céu belo, sedutoramente iluminado pelas estrelas,
que também tinha ao lado de tanta beleza, de tanta luz, de
não sabia que sublime poesia, aquela mancha negra como carvão.
Cassi a teria de fato abandonado? Ela não podia crer, embora
há quase dez dias não a viesse ver. Se ele a abandonasse
- o que seria dela? Veio-lhe então perguntar a si mesma como
se entregou. Como foi que ela se deixou perder definitivamente?
Clara não podia bem apanhar todas as fases dessa queda; ela
se lembrava de poucas e sem nitidez apreciável. Tudo foi
num galope para a desgraça... Em começo, a primeira
impressão simpática, os gemidos do violão,
os seus repinicados, seguidos dos requebros dos olhares do tocador,
que os exagerava e punha neles não sei que chama estranha,
doce e, ao mesmo tempo, quente. Impressionara-se muito com isso,
tão preparada já estava para os efeitos do instrumento.
Depois, aquela oposição de todos, aquele falar contínuo
nele, para dizer mal, tanto da parte do padrinho, como da parte
da mãe e de Dona Margarida. Essa insistência em denegri-lo
fizeram que ela representasse, dentro de si mesma, Cassi, como um
homem excepcional, que causava inveja a todos, pelas suas qualidades
de bravura, pela sua habilidade no canto e na viola. Não
acreditava no que diziam dele... Pareceu-lhe, na primeira vez que
o viu, tão modesto, tão reservado de modos, tão
delicado, que não podia ser o que diziam. Quando conversou
com ele, meses depois, pela primeira vez, no gradil de sua casa,
mais esse retrato se firmou; as suas conversas eram tão inocentes
e honestas, falando sempre em empregar-se e casar-se com ela; removendo
as objeções e dúvidas que ela punha quanto
à viabilidade do casamento deles, com segurança e
franqueza; contrapondo, para mostrar a sua possibilidade, à
cor dela, além da grande paixão que nutria, a sua
pobreza, a oposição dos pais, a sua falta de posição,
de saber - o que não permitia a ele aspirar a grandes casamentos
vistosos, com mulher mais bem-educada do que ele, mais instruída...
O seu ideal era Clara, pobre, meiga, simples, modesta, boa dona-de-casa,
econômica que seria, para o pouco que ele poderia vir a ganhar...
De dia para dia, ele ganhava mais fortemente a confiança
da rapariga. Ela se convencia e sonhava a toda hora com aquela "casa
branca da serra", onde iria aninhar o seu amor por Cassi. Indagava,
em todas as entrevistas, dos passos que ele dava para obter emprego,
colocação; e ele, com blandícia, com afagos,
dizia-lhe com açúcar nas palavras:
- Sossega, filhinha querida! Roma não se fez num dia... É
preciso esperar... Falei ao doutor Brotero, que me deu uma recomendação
para o Senador Carvalhais. Procurei este e ele me disse que, para
o Cais do Porto, não podia arranjar... Tinha pedido muito
e muito; estava "queimado", como se diz.
Ouvindo tudo isto, Clara sentia-se desfazer, ao calor, à
meiguice, ao entono amoroso daquela voz. Era mesmo um bom, um sincero,
um namorado, mais que isto, um noivo - esse Cassi.
- Por que você não me "pede" a papai? - perguntou-lhe
um dia.
Cassi, sem hesitação, com o mais convincente tom de
franqueza, respondeu:
- Não posso ainda, meu bem. Seus pais... É verdade
que seu padrinho não existe mais...
A estas palavras, Clara estremeceu e olhou-o medrosa; ele, porém,
não percebeu o movimento da rapariga, como ainda não
tinha notado as suspeitas que ela tinha, de quando em quando, da
intervenção dele no assassinato do padrinho. No começo,
Clara quase ficara certa de que ele estava metido no crime; mas,
quando, daí a dias, conversou com ele, fosse a emoção
da primeira entrevista, fosse a ternura com que a cobria e se expandia
por ele todo, ela afastou a convicção e perdeu o terror
que ele começara a lhe inspirar. A sua débil inteligência,
a sua falta de experiência e conhecimento da vida, aliado
tudo isto à forte inclinação que tinha e não
sopitava pelo violeiro, agiram sobre a sua consciência, de
forma a inocentar, a seus olhos, o tocador de violão, no
caso da morte misteriosa do padrinho. Entretanto, de quando em quando,
lá lhe vinha uma suspeita, mas ele era tão bom...
Cassi, sem hesitação, respondeu-lhe à pergunta,
no mais persuasivo tom de franqueza:
- Não posso ainda, meu bem. Seus pais... É verdade
que seu padrinho não existe mais; mas Dona Engrácia
não me suporta. Além disso, essa Dona Margarida também
não me traga... Que estranho o que se passou com ela e Timbó...
- Você por que anda com ele, Cassi?
- Que hei de fazer? Ele não me faz e não me fez mal;
procura-me e não posso correr com ele. É por isso.
- Mas é só por isso que você não me pede?
Por causa da implicância que têm com você? Por
isso só, não!
- Não é só por isso. É porque estou
ainda desempregado. Se eu estivesse empregado, desarmava todos;
e - fique você certa - logo que me empregue, peço-te
em casamento.
Recordando-se disso, Clara, mais uma vez, contemplou o céu
profusamente estrelado; mas, logo, deu com a mancha de alcatrão
e ficou triste.
Rememorando conversas e fatos, ela punha todo o esforço em
analisar o sentimento, sem compreender o ato seu que permitiu Cassi
penetrar no seu quarto, alta noite, sob o pretexto de que precisava
se abrigar da chuva torrencial prestes a cair. Ela não sabia
decompô-lo, não sabia compreendê-lo. Lembrando-se,
parecia-lhe que, no momento, lhe dera não sei que torpor
de vontade, de ânimo, como que ela deixou de ser ela mesma,
para ser uma coisa, uma boneca nas mãos dele. Cerrou-se-lhe
uma neblina nos olhos, veio-lhe um esquecimento de tudo, agruparam-se-lhe
as lembranças e as recordações e toda ela se
sentiu sair fora de si, ficar mais leve, aligeirada não sabia
de quê; e, insensivelmente, sem brutalidade, nem violência
de espécie alguma, ele a tomou para si, tomou a sua única
riqueza, perdendo-a para toda a vida e vexando-a, daí em
diante, perante todos, sem esperança de reabilitação.
Pôs-se a chorar silenciosamente. No seio da noite, um apito
de locomotiva ecoou como um gemido; as árvores como que estremeceram;
por sobre um capinzal próximo, um pirilampo emitia a sua
luz de prata azulada; por cima da casa, morcegos silenciosos esvoaçavam;
ao longe, as montanhas tinham aspectos sinistros, de gigantes negros
que montavam sentinela; tudo era silêncio, e, em vão,
ela apurava o ouvido e reforçava o seu poder de visão,
para ver se daquele mistério todo saía qualquer resposta
sobre o seu destino - ou se via o caminho para a sua salvação...
Olhou ainda o céu, recamado de estrelas, que não se
cansavam de brilhar. Procurou o Cruzeiro, rogou um instante a Deus
que a perdoasse e a salvasse. Andou com o olhar no céu, um
pouco além; lá estava a indelével mancha de
carvão...
"Ele" não vinha; os galos começavam a cantar.
Fechou a janela chorando e chorando foi-se deitar. Custou a conciliar
o sono; e a visão ameaçadora da descoberta, por parte
dos seus, da sua falta, passou-lhe pelos olhos e aterrou-a como
um duende, um fantasma.
Em casa e fora, ainda ninguém suspeitava. Os sintomas de
gravidez, por ora, não se faziam sentir. É verdade
que tinha náuseas, enjôos, sem causa nem motivo; mas
ela dissimulava-os tão bem, que sua mãe nada percebia.
Dona Engrácia mesmo era de seu natural pouco sagaz e tinha
grande confiança na vigilância que exercia sobre a
filha. Joaquim, nos dias úteis, mal via a filha, pela manhã,
ao sair, e à noite, quando voltava do serviço.
A morte desgraçada do seu compadre Marramaque o fizera triste,
verdadeiramente triste e acabrunhado. A sua amizade era velha, e
ele devia favores inolvidáveis ao pobre contínuo.
Fora ele quem aperfeiçoara o pouco que ele, Joaquim, sabia,
para ser carteiro. Devia-lhe esse serviço espontâneo.
Mais de uma vez, arranjara-lhe recomendações para
promoções, de modo que o que era, devia de alguma
sorte a Marramaque. As partidas de solo, aos domingos, não
se realizavam mais. Lafões tinha sido transferido para os
mananciais. O sagaz minhoto farejava que aquele negócio de
Cassi desandaria em desgraça. Ele não a podia impedir,
mas não a queria assistir, tanto mais que se sentia arrependido
de ter apresentado o modinheiro em casa do carteiro. Enganou-o,
o malandro! Fizera-o de boa-fé...
O único que aparecia ainda, era Meneses. Estava, porém,
amalucado, monomaníaco. Fugia de todas as conversas e teimava
em expor o seu sistema de carro motor, sem rodas, absolutamente
sem rodas. Uma grande descoberta! - arrematava ele.
- A roda, meu caro Joaquim, é um atraso das nossas máquinas.
No seu acionamento, devido ao atrito dos eixos nos mancais e outros
meios de transmissão da força, perde-se muito do efeito
útil desta, proveniente das resistências passivas.
Se nós, para nos movermos; se um cavalo, um elefante e todos
os animais empregassem rodas para se deslocarem de um ponto para
outro, a força que despenderiam seria muitas vezes maior
do que a de que efetivamente dispõem. Suprimo as rodas da
minha "Andotiva" (é assim que o meu aparelho se
chama) e imito o meio de locomover-se dos animais terrestres. Tenho
hesitado entre os reptis e os mamíferos; mas vou tomar por
modelo estes. Com juntas, jogos combinados de cadeias de distensão
e contração, como as nossas cadeiras de molas, obterei
uma máquina que, com o mesmo custo de força e combustível
que uma locomotiva comum, produzirá o dobro do rendimento
útil que esta produz.
Joaquim, ouvindo tudo isto, bocejava; Meneses, inteiramente engolfado
no seu sonho mecânico, não percebia que estava enfadando
o amigo. Falava, falava sobre a sua sonhada - "Andotiva"
- e bebia parati.
Às vezes, jantava com o carteiro e família; mas, na
mesa, pouco se dirigia à Clara. Tinha medo que, conversando,
traísse o segredo que existia entre ambos.
O velho dentista, mesmo, havia deixado de ver Cassi, e este, por
sua vez, evitava-o, temendo que Meneses percebesse os seus propósitos
de fuga e contasse a todos, levantando suspeitas em Clara.
Outras vezes, o velho dentista ia procurar Leonardo Flores, para
conversar e mesmo jantar com ele. Flores não passava verdadeiramente
necessidade. Com a sua aposentadoria e o auxílio que os filhos
lhe prestavam, sempre tinha o que comer sem se queixar da fome.
A sua casa, graças à dedicação da mulher,
vivia em ordem. Ele não se intrometia em nada da economia
do lar. Os seus próprios vencimentos de aposentado, ele ia
recebê-los, ou ela, e os entregava intactos. Roupa, jornais,
fumo, parati - tudo ela comprava e lhe dava. Em começo, a
boa da Dona Castorina quis ver se suprimia a cachaça; mas
viu que era pior. Ele caía num abatimento, numa apatia de
coisa morta. Resolveu fazer mais este sacrifício ao seu triste
casamento: dar cachaça ao marido. Quando ele queria sair,
ela lhe dava níqueis para a sua predileta bebida.
As visitas de Meneses eram particularmente agradáveis à
mulher de Flores, porque não só distraía o
marido, como lhe tirava a vontade de sair.
Flores tinha épocas em que não se movia de casa, senão
a muito custo, para ir ao Tesouro receber a sua pensão; mas
tinha outra em que se lhe tomava inteiramente o delírio ambulatório.
Dona Castorina, embora compreendendo que o marido não podia
ficar sempre retido em casa, procurava evitar que ele saísse,
devido aos desatinos que praticava. Lá vinha, porém,
um dia que...
Quando Meneses ia, aos domingos, procurá-lo, Flores recebia-o
com um grandiloqüente palavreado heráldico e fidalgo;
mas ele dizia com grande melancolia, com uma mágoa que bem
sabia não ter remédio:
- Só tu me procuras, Meneses! Os outros me abandonaram...
Ah! A Poesia! Ela me tem dado bons momentos, mas me fez ir longe
demais no meu grande serviço...
Punham-se a bebericar e, quando já estavam um tanto "esquentados",
cada um dava para a sua mania. Meneses explicava a mecânica
sutil da sua "Andotiva"; e Leonardo Flores recitava o
seu último soneto, que, embora desconexo, ainda tinha música,
uma imponderável nostalgia de coisas entrevistas em sonho,
uma obsessão de perfume, que constituíam os característicos
de sua poética.
De repente, Meneses punha-se a roncar no sofá, e Leonardo,
saindo do seu mundo sonoro de versos e rimas, punha-se de pé
e, contemplando o camarada, com os braços cruzados, limitava-se
a dizer:
- Imbecil! Dorme imbecil! Filisteu! Burguês!
E voltava a fazer versos, a que era como que forçado até
à hora do jantar. Por essa ocasião, despertava Meneses
aos berros e debaixo de descomposturas e injúrias poéticas.
O jantar, conforme o hábito das nossas pequenas famílias,
nos domingos, era posto à mesa, mais cedo, constituindo o
que se chama o "ajantarado". Assim se usava na casa de
Flores; mas, em geral, era servido tarde, quase à hora do
jantar habitual. A refeição não corria alegre.
Meneses tinha a sua mania; Flores a dele; e ambos, durante ela,
entregavam-se às suas extravagâncias, falando de coisas
que os outros não entendiam. Meneses era calmo; mas o seu
amigo comia fazendo esgares, soltando rugidos, cofiando a barba,
ainda negra, que terminava num cavaignac pontiagudo.
Dona Castorina, a mulher de Flores, de vez em vez, repreendia-o
como a um filho menor:
- Come com modos, Flores! Você parece uma criança.
Raramente acontecia estar presente um dos filhos. Andavam pelo football
e a mãe lhes reservava o jantar. Se acontecia o contrário,
o rebento do poeta olhava o pai sem nenhuma expressão, sem
ânimo de aconselhá-lo e sem insensibilidade para rir.
A loucura de Flores era curiosa. Não só ela se manifestava
com intermitências de grandes intervalos, como também
as havia num curto espaço de um dia. O álcool tinha
contribuído para ela; mas, sem ele, a sua alienação
mental ter-se-ia manifestado, cedo ou tarde. Todos os que o conheceram
moço, sabiam-no de sobra possuidor de diátese da loucura.
Os seus tics, os seus caprichos, a sua exaltação e
outros sintomas confusamente percebidos levavam os seus íntimos
a temerem sempre pela sua integridade mental. A tudo isso, ele juntava,
ainda por cima, álcoois fortes, que sempre tomou; whisky,
genebra, gim, rum, parati - para se compreender a natureza da insânia
de Flores.
Certa vez, após o jantar, tomando café no jardinzinho
de sua casa, que ele mesmo cuidava com rara dedicação,
de surpreender no seu estado - Leonardo olhou o céu e gritou
para Meneses, descansando a xícara sobre uma cadeira ao lado:
- Meneses! Vê só tu como esta tarde está linda!
Não é só o ouro e a púrpura do crepúsculo
que vêm; não é só o azul-ferrete dos
morros que, com o aproximar-se a noite, se vai enegrecendo aos poucos...
Há mais, caro Meneses; há verde no céu, um
verde imaterial que não é o do mar, que não
é o das árvores, que não é o da esmeralda,
que não é o dos olhos de Minerva - é um verde
celestial, diferente de todos aqueles que nós habitualmente
vemos... Vamos sair, vamos gozar a natureza!
- Deixa-te disso, Flores. Daqui mesmo, nós vemos...
- Idiota! Não és um artista... Se não me acompanhas,
saio só!...
Dona Castorina interveio naturalmente:
- Para que vais sair, Leonardo? Estás tão bem aqui
com o "Seu" Meneses... Precisas de repouso, descanso...
- Mulher! Sabes quem eu sou? - fez Flores, com o seu modo habitual
de cruzar os braços e enterrar o queixo no peito, quando
falava com solenidade.
- Sei muito bem. És Leonardo Flores, meu marido - respondeu-lhe
a mulher, sorrindo.
- Não sou só isso. Sou mais! - insistiu Flores, carrancudo.
- O que és, então? - perguntou-lhe Dona Castorina.
- Sou um poeta!
Dizendo isto, entrou pela sala adentro e encaminhou-se para o quarto
de dormir.
- Onde vais? - indagou-lhe a mulher.
- Vou me vestir; quero ver este crepúsculo de pedraria, de
metais caros, de sonhos e de quimeras. Sou um poeta, mulher!
Dona Castorina já sabia que, quando lhe dava essa fúria
de sair, era pior contrariá-lo. Nada disse ao marido e foi
pedir a Meneses que o acompanhasse. O velho dentista não
se sentia bem; o seu desejo era descansar; mas, à vista do
pedido de Dona Castorina, não teve outro remédio senão
acompanhar o camarada. Andaram a pé por toda a parte, bebendo
sempre onde encontravam lugar propício; Meneses, arrastando
o passo; e Flores, dilatando as narinas, fazendo horríveis
contrações com o rosto, alisando o cavaignac e dizendo:
- Que beleza! Que beleza! Quero respirar, cheirar, absorver todo
o perfume desse divino crepúsculo... Não fora a natureza,
os céus, os pássaros, as águas múrmuras,
como poderíamos viver?
Depois de uma pausa, acrescentou desolado:
- A vida é tão banal, tão chata... Nós
somos também natureza; mas do que nos vale isto? Há
os burgueses e os regulamentos que nos abafam...
Já tinha anoitecido de todo. Leonardo Flores não dava
mostras de querer voltar para casa; Meneses arrastava o passo a
muito custo. Iam atravessando um trecho deserto de rua, quando o
velho dentista disse para o amigo:
- Leonardo, estou com as pernas que não posso. Vamos descansar
um pouco.
- Onde?
- Sentados na relva, um pouco longe da estrada, ali, atrás
daquela moita... Estou que não posso, meu caro.
Os dois abandonaram o caminho público e procuraram a tal
moita. Meneses, com muita dificuldade, sentou-se; mas Leonardo foi
logo se deitando. Tinham bebido muito, e a embriaguez lhes chegava.
Leonardo ainda pôde dizer, olhando as estrelas que começavam
a brilhar:
- Como é belo o céu! Lá não haverá
por certo ministros, nem congresso, nem presidentes... Que bom será!
O dentista não se demorou muito tempo sentado; deitou-se
logo; e Leonardo, mal dissera aquelas palavras, ferrou no sono.
Dormiram afinal, na relva, com os olhos voltados para o céu
estrelado...
* * *
Leonardo, já dia adiantado, veio a despertar naquele capinzal,
atordoado, zonzo; e, ao dar com Meneses ao lado, procurou acordá-lo.
Foi em vão; o velho estava morto. Um colapso cardíaco
o tinha levado. Percebendo que o amigo tinha morrido, Leonardo ergueu-se,
tirou-lhe o chapéu de perto da cabeça, pôs-lhe
o rosto bem à mostra, com as suas brancas barbas veneráveis,
e começou a exclamar:
- Sol! Sol glorioso das auroras e das ressurreições!
Sol divino que conténs todos nós, homens e plantas,
bestas e gênios, insetos e vampiros, lesmas e belezas! Sol
que tudo fecundas e transformas! Vem tu - ó Sol! - beijar
esta augusta cabeça de imperador (apontava para Meneses hirto)
que vai para sempre mergulhar na treva e só te verá
de novo, quando for árvore, quando for arbusto, quando for
pássaro e quando de novo voltar a ser homem. Beija-o ainda
mais uma vez! Beija-o, porque ele te amou e muitas vezes voou para
os espaços sidéreos, desejoso de ver o teu fulgor
e morrer por tê-lo visto.
Não dera fé, Leonardo, que alguns transeuntes haviam
parado, para ouvir as suas palavras e ver os seus estranhos trejeitos.
Os mais curiosos se aproximaram e deram com aquele estranho e bizarro
espetáculo de um homem, que parecia louco ou bêbedo,
a pronunciar coisas incompreensíveis e a gesticular, diante
de um pobre velho morto. Chamaram a polícia; e lá
foi Leonardo, gesticulando e falando só, para a delegacia.
Meneses tomou o caminho do necrotério, após fotografias
e outras precauções policiais.
O primeiro movimento do policial que recebeu Leonardo, foi removê-lo
incontinenti para o hospício ou lugar equivalente. Na verdade,
o poeta não dizia coisa com coisa; nem mesmo quem era, informava.
Muitos o conheciam de vista, mas, para essas pessoas, era simplesmente
- "o poeta". Em chegando Praxedes, as coisas mudaram.
Tinha ele o hábito de ir de manhã às delegacias,
ver se pegava algum biscate, alguma coisa. Indo, naquele dia, topou
com Leonardo lá e soube que um velho, que bebia muito e costumava
estar com ele, havia sido encontrado morto junto a Flores e fora
removido para a morgue. Viu logo que se tratava de Meneses. Muito
prestável, obsequioso de gênio, Praxedes, para quem
a polícia não tinha segredos, informou ao comissário
quem era Leonardo e quem era Meneses. A autoridade policial encarregou-o
de prevenir os parentes e amigos de ambos do que havia acontecido.
Praxedes correu à casa de Joaquim dos Anjos, para desobrigar-se
da missão. Foi recebido pela mulher e a filha.
- Quincas não está aí - disse-lhe Dona Engrácia.
- Ele saiu cedo...
- O senhor pode telefonar para a Repartição dos Correios
- lembrou Clara.
- Lembrei-me disso, mas não sabia a seção.
A filha disse-lhe e o doutor Praxedes, muito diplomaticamente, ergueu-se
todo e, ao despedir-se das senhoras, desculpou-se:
- Vossas Excelências hão de me perdoar. Não
podia deixar de vir até aqui. Sabia de dois amigos íntimos
do doutor Meneses; um era o Senhor Cassi, mas este está fora...
Clara espantou-se:
- Está fora!
- Ué, Clara! - fez Dona Engrácia, - Que espanto!
- Não, porque ainda há dias "Seu" Meneses
disse a papai que estivera com ele - fez Clara disfarçando.
- Deve ser há algum tempo, minha senhora -- aventou Praxedes,
com toda a delicadeza de voz; -- porque há bem quinze dias
que embarcou para São Paulo, em Cascadura. Eu até
me despedi dele...
Praxedes saía e Clara, logo que pôde, correu ao quarto
para chorar. Estava irremediavelmente perdida; ele a abandonava
de vez. Como havia de ser? Como havia de esconder a gravidez, que
se ia mostrando aos poucos? Que fariam dela os seus pais? Era atroz
o seu destino!
Todas essas perguntas, ela formulava e não lhes dava resposta.
Cassi partira, fugira... Agora, é que percebia bem quem era
o tal Cassi. O que os outros diziam dele era a pura verdade. A inocência
dela, a sua simplicidade de vida, a sua boa-fé, e o seu ardor
juvenil tinham-na completamente cegado. Era mesmo o que diziam...
Por que a escolhera? Porque era pobre e, além de pobre, mulata.
Seu desgraçado padrinho tinha razão... Fora Cassi
quem o matara.
Ele contava, já não se dirá com o apoio, mas
com a indiferença de todos pela sorte de uma pobre rapariga
como ela. Devia ser assim, era a regra. Nessa indiferença,
nessa frouxidão de persegui-lo, de castigá-lo convenientemente,
é que ele adquiria coragem para fazer o que fazia. Além
de tudo, era covarde. Não cedia ao impulso do seu desejo,
de seu capricho, por uma moça qualquer. Catava com cuidado
as vítimas entre as pobres raparigas que pouco ou nenhum
mal lhe poderiam fazer, não só no que toca à
ação das autoridades, como da dos pais e responsáveis.
Estava aí o seu forte; o mais eram acessórios de modinhas,
de tocatas de violão, de cartas, de suspiros - todo um arsenal
de simulação amorosa, que ele, sem caráter
e, por demais, cínico, sabia empregar, como ninguém.
Que havia de ser dela, agora, desonrada, vexada diante de todos,
com aquela nódoa indelével na vida?
Sentia-se só, isolada, única na vida. Seus pais não
a olhariam mais como a olhavam; seus conhecidos, quando soubessem,
escarneceriam dela; e não haveria devasso por aí que
a não perseguisse, na persuasão de que quem faz um
cesto, faz um cento. Exposta a tudo, desconsiderada por todos, a
sua vontade era de fugir, esconder-se. Mas, para onde? Com a sua
inexperiência, com a sua mocidade, com a sua pobreza, ela
iria atirar-se à voracidade sexual de uma porção
de Cassis ou piores que ele, para acabar como aquela pobre rapariga,
a quem chamavam de Mme. Bacamarte, suja, bebendo parati e roída
por toda a sorte de moléstias vergonhosas.
Pensou em morrer; pensou em se matar; mas, por fim, chorou e rogou
a Nossa Senhora que lhe desse coragem. Se pudesse esconder?... -
acudiu-lhe repentinamente este pensamento. Se pudesse "desfazê-lo"?
Seria um crime, havia perigo de sua vida; mas era bom tentar. Quem
lhe ensinaria o remédio? Correu o rol de suas poucas amigas;
e só encontrou uma: Dona Margarida.
Nisto, sua mãe gritou-lhe do fundo da casa:
- Clara, estás dormindo? Olha que estão batendo na
porta.
- Já vou, mamãe.
Era o estafeta dos telégrafos, que trazia um despacho do
pai, comunicando que, devido a ter de fazer o enterro de Meneses,
chegaria mais tarde, mas viria jantar.
Ela e a mãe não esperaram; jantaram antes. Clara,
muito preocupada com o "remédio" que ia ver se
Dona Margarida lhe arranjava; e Dona Engrácia, aborrecida
com a morte de Meneses.
- Pobre Meneses! - dizia ela. - Morrer assim, no mato! Por que ele
não foi pra casa? Era bem velho, não era, Clara?
- Devia ter mais de setenta anos.
- Isto não quer dizer nada. Há quem dure mais... Você
tem reparado, Clara, que, de uns tempos para cá, está
nos acontecendo uma porção de coisas más?
- Nem tantas! Duas só: a morte do padrinho e...
- Você acha pouco e, ainda por cima, da forma que elas nos
chegam! Deus nos proteja! Tenho para mim que alguma está
para nos acontecer...
- Qual, mamãe! Tudo isto é doloroso, mas são
fatos que se dão...
- Felizmente, esse azar de Cassi se foi. Que vá pro diabo
que o carregue!
Clara teve vontade de chorar; mas conteve-se. Estava resolvida:
amanhã, pediria um "abortivo" a Dona Margarida.
Joaquim dos Anjos chegou e narrou tudo o que acontecera com Meneses
e Leonardo. Aquele, por não ter ninguém que lhe fizesse
o enterro, ele o fizera; e Leonardo, logo que foi afastada a hipótese
de crime e ficou sabido o seu estado mental, entregaram-no à
mulher. Ao chegar em casa, acompanhado de Dona Castorina, foi que
Flores caiu em si e teve consciência perfeita do fim do amigo.
Estava lúcido, bom; estava o verdadeiro Leonardo, que chorou
o falecimento do camarada, sem mescla de delírio, pressentindo
que, nele, havia aviso do seu próximo fim.
Engrácia ouviu a narração de Quincas e, ingenuamente,
perguntou-lhe:
- Esse Leonardo é mesmo homem de inteligência, Quincas?
- É, Engrácia. Por quê?
- Por que ele então bebe tanto?
- Quem sabe lá? Vício, hábito, capricho da
sua natureza, desgostos, ninguém sabe! - observou o marido.
- Eu vejo tanto doutor por aí que não bebe.
- Você pensa que todo doutor é inteligente, Engrácia?
- Pensei.
Clara ficou admirada de que a opinião da mãe não
fosse exata. Ela também, muito popular e estreita de idéia,
admitia que toda a espécie de doutor fosse de sábios
e inteligentes.
Joaquim, dizendo-se cansado, fora logo deitar-se; e, em seguida,
a sua mulher e filha.
Em breve, tudo era silêncio na casa e na rua. Clara não
esperava mais, com a janela semi-aberta, a visita do sedutor. Havia-se
fatigado de aguardá-lo muitas noites seguidas; e, agora então,
depois da informação de Praxedes, tinha perdido toda
a esperança. Ele fugira, e ela ficara com o filho a gerar-se
no ventre, para a sua vergonha e para tortura de seus pais. Imediatamente,
o seu pensamento se encaminhou para o "remédio"
que devia "desmanchá-lo", antes que lhe descobrissem
a falta. Tinha medo e tinha remorsos. Tinha medo de morrer e tinha
remorsos de "assassinar" assim, friamente, um inocente.
Mas... era preciso. Pôs-se a examinar o que lhe podia responder
Dona Margarida. Pesou os prós e os contras; analisou bem
o caráter da amiga russa-alemã; e, na calma do quarto,
percebeu bem que não lhe daria nem indicaria o "remédio"
criminoso. Margarida era uma mulher séria, rigorosa de vontade,
visceralmente honesta, corajosa, e não haveria rogos nem
choro que a fizessem contribuir para um crime de qualquer natureza.
Então, como havia de ser? Examinou a lista das conhecidas,
a ver se encontrava uma que lhe prestasse esse "serviço"...
Não encontrou, e também eram tão poucas...
Se tivesse dinheiro, com auxílio de Mme. Bacamarte... Acudiu-lhe
então uma idéia. Ela ajudava Dona Margarida nos bordados
e nas costuras, com o que já ganhava algum dinheiro. Não
tinha nada a haver da amiga; mas bem lhe podia pedir emprestado,
sob qualquer pretexto, uns vinte ou trinta mil-réis e pagá-los
com trabalho. Qual seria o pretexto? Pensou, combinou mentiras;
e, afinal, encontrou-o. Diria que era para comprar um presente destinado
à mãe, cujo aniversário natalício estava
a chegar. Sorriu de contentamento, quando organizou toda aquela
mentiralhada. Julgava-se salva; mas, com o que ela não contava,
era com a sagacidade da alemã.
Dona Margarida era mulher alta, forte, carnuda, com uma grande cabeça
de traços enérgicos, olhos azuis e cabelos castanhos
tirando para louro. Toda a sua vida era marcada pelo heroísmo
e pela bondade. Embora nascida em outros climas e cercada de outra
gente, o seu inconsciente misticismo humanitário, herança
dos avós maternos, que andavam sempre às voltas com
a polícia dos czares, fê-la logo se identificar com
a estranha gente que aqui veio encontrar. Aprendeu-lhe a linguagem,
com seus vícios e idiotismos, tomou-lhe os hábitos,
apreciou-lhe as comidas, mas sem perder nada da tenacidade, do esprit
de suite, da decidida coragem da sua origem. Gostava muito da família
do carteiro; mas, no seu íntimo, julgava-os dóceis
demais, como que passivos, mal armados para a luta entre os maus
e contra as insídias da vida.
Quando Clara lhe falou no empréstimo ou adiantamento, ela
se espantou. Nunca a filha do "correio" lhe havia feito
semelhante pedido - o que queria dizer aquilo? Não respondeu
logo à solicitação e encarou firmemente, com
o seu olhar translúcido e, no momento, duro, a filha do carteiro;
e, por sua vez, indagou:
- Para que você quer esse dinheiro, Clarinha?
A moça, não podendo suportar a mirada da alemã,
abaixara os olhos; e, com voz sumida, explicou o suposto destino
que ia dar à quantia pedida. Dona Margarida não acreditou;
e, continuando com o olhar a sondar inquisitorialmente Clara, observou
com energia maternal:
- Clara, você não fala a verdade; você está
escondendo alguma coisa.
A moça quis negar; mas Dona Margarida, pressentindo que ela
ocultava alguma coisa de grave, cercou-a de perguntas; e Clara não
teve outro remédio senão confessar tudo. Ela chorou,
mas Dona Margarida, sem se deixar comover, durante toda a confissão,
mais arrancada aos poucos do que mesmo narrada espontaneamente,
foi pensando como agir. Encheu-se, Dona Margarida, de uma infinita
pena daquela desgraçada rapariga, dos seus pais, e mais profunda
se tornava a pena, quando antevia o horrível destino da pobre
Clara; entretanto, não deu qualquer demonstração
do que lhe ia n'alma.
Num dado momento, sem dar-lhe a mínima explicação,
Dona Margarida ergueu-se e, dirigindo-se à Clara, ordenou
imperiosamente:
- Vamos falar à sua mãe.
A filha do carteiro, sem fazer a mínima objeção,
obedeceu. Ao chegar à casa de Joaquim, Dona Engrácia
estava no interior, inocentemente entregue aos seus afazeres domésticos.
Entretanto, Dona Margarida chamou de parte a mãe de Clara
e começou a narrar-lhe o que havia acontecido com a filha.
Dona Engrácia não se pôde conter. Logo que compreendeu
a gravidade do fato, pôs-se a chorar copiosamente, a lastimar-se,
a soluçar, dizendo entre um acesso de choro e outro:
- Mas, Clara!... Clara, minha filha!... Meu Deus, meu Deus!
A filha aproximou-se chorando; ajoelhou-se, ajuntou as mãos,
em postura de oração, aos pés da mãe
e, soluçando, repetiu:
- "Me perdoe", mamãe! "Me perdoe", pelo
amor de Deus!
Dona Margarida, de pé, nada dizia e olhava com profunda e
desmedida tristeza, que não se adivinhava na sua calma e
na segurança do seu olhar, aquele quadro desolador do enxovalhamento
de um pobre lar honesto.
Afinal, quando lhe pareceu que ambas estavam mais calmas, interveio:
- Você sabe, Clara, onde mora a família desse sujeito?
Clara, ainda soluçando, respondeu:
- Sei.
Dona Engrácia indagou:
- Para quê?
Dona Margarida explicou que, antes de qualquer procedimento e mesmo
de comunicar o fato a "Seu" Joaquim, era conveniente entender-se
com a família de Cassi. Ela, Dona Margarida, iria imediatamente
à casa dele, acompanhada de Clara. Mãe e filha concordaram;
e Clara vestiu-se.
A residência dos pais de Cassi ficava num subúrbio
tido como elegante, porque lá também há estas
distinções. Certas estações são
assim consideradas, e certas partes de determinadas estações
gozam, às vezes, dessa consideração, embora
em si não o sejam. O Méier, por exemplo, em si mesmo
não é tido como chique; mas a Boca do Mato é
ou foi; Cascadura não goza de grande reputação
de fidalguia, nem de outra qualquer prosápia distinta; mas
Jacarepaguá, a que ele serve, desfruta da mais subida consideração.
A casa da família do famoso violeiro não ficava nas
ruas fronteiras à gare da Central; mas, numa transversal,
cuidada, limpa e calçada a paralelepípedos. Nos subúrbios,
há disso: ao lado de uma rua, quase oculta em seu cerrado
matagal, topa-se uma catita, de ar urbano inteiramente. Indaga-se
por que tal via pública mereceu tantos cuidados da edilidade,
e os historiógrafos locais explicam: é porque nela,
há anos, morou o deputado tal ou o ministro sicrano ou o
intendente fulano.
Tinha boa aparência a residência da família do
Senhor Azevedo; mas quem a observasse com cuidado, concluiria que
a parte imponente dela, a parte da cimalha, sacadas gradeadas e
compoteiras ao alto, era nova. De fato, quando o pai de Cassi a
comprou, a casa era um simples e modesto chalet, mas, com o tempo,
e com ser sua vagarosa, mas segura, prosperidade, pôde ir,
também devagar, aumentando o imóvel, dando um aspecto
de boa burguesia remediada. Na frente, não era alto; o terreno,
porém, inclinava-se rapidamente para os fundos, de forma
que, nessa parte, havia um porão razoável, onde, ultimamente,
habitava Cassi. O puxado, na traseira da casa, também tinha
porão, porém, com maus quartos, que eram ocupados
pelas galinhas do filho e por coisas velhas ou sem préstimo,
que a família refugava, sem querer pôr fora de todo.
Dona Margarida tocou a campainha com decisão e subiu a pequena
escada que dava acesso à casa. Disse à criada que
desejava falar à dona da casa. Dona Salustiana, que esperava
tudo, menos aquela visita portadora de semelhante mensagem, não
tardou em mandar entrar as duas mulheres. Ambas estavam bem-vestidas
e nada denunciava o que as trazia ali. Só Clara tinha os
olhos vermelhos de chorar, mas passava despercebido. Chegou Dona
Salustiana e cumprimentou-as com grandes mostras de si mesma. Dona
Margarida, sem hesitação, contou o que havia. A mãe
de Cassi, depois de ouvi-la, pensou um pouco e disse com ar um tanto
irônico:
- Que é que a senhora quer que eu faça?
Até ali, Clara não dissera palavra; e Dona Salustiana,
mesmo antes de saber que aquela moça era mais uma vítima
da libidinagem do filho, quase não a olhava; e, se o fazia,
era com evidente desdém. A moça foi notando isso e
encheu-se de raiva, de rancor por aquela humilhação
por que passava, além de tudo que sofria e havia ainda de
sofrer.
Ao ouvir a pergunta de Dona Salustiana, não se pôde
conter e respondeu como fora de si:
- Que se case comigo.
Dona Salustiana ficou lívida; a intervenção
da mulatinha a exasperou. Olhou-a cheia de malvadez e indignação,
demorando o olhar propositadamente. Por fim, expectorou:
- Que é que você diz, sua negra?
Dona Margarida, não dando tempo a que Clara repelisse o insulto,
imediatamente, erguendo a voz, falou com energia sobranceira:
- Clara tem razão. O que ela pede é justo; e fique
a senhora sabendo que nós aqui estamos para pedir justiça
e não para ouvir desaforos.
Dona Salustiana voltou-se para Dona Margarida e perguntou, pronunciando,
devagar, as palavras, como para se dar importância:
- Quem é a senhora, para falar alto em minha casa?
Dona Margarida não se intimidou:
- Sou eu mesma, minha senhora; que, quando se decide a fazer alguma
coisa de justo, nada a atemoriza.
Foi calmamente que Dona Margarida falou; e, à vista dessa
atitude, Dona Salustiana resolveu mudar de tática. Gritou
para as filhas:
- Catarina! Irene! Venham cá que esta mulher está
me insultando.
As moças acudiram e, contemplando o ar enérgico da
teuto-eslava e a figura lastimosa de Clara, compreenderam que Cassi
estava no meio. Acalmaram a mãe e indagaram do sucedido;
Dona Margarida explicou; mas, quando se falou em casamento de Cassi,
Dona Salustiana prorrompeu:
- Ora, vejam vocês, só! É possível? É
possível admitir-se meu filho casado com esta...
As filhas intervieram:
- Que é isto, mamãe?
A velha continuou:
- Casado com gente dessa laia... Qual!... Que diria meu avô,
Lord Jones, que foi cônsul da Inglaterra em Santa Catarina
- que diria ele, se visse tal vergonha? Qual!
Parou um pouco de falar; e, após instantes, aduziu:
- Engraçado, essas sujeitas! Queixam-se de que abusaram delas...
É sempre a mesma cantiga... Por acaso, meu filho as amarra,
as amordaça, as ameaça com faca e revólver?
Não. A culpa é delas, só delas...
Dona Margarida ia perguntar: "Que decide, então?"
- quando se ouviram passos na escada. Era o dono da casa. Entrando
e deparando-se-lhe aquele quadro, suspendeu os passos e parou no
meio da sala.
Olhou tudo e todos e perguntou:
- Que há?
"Papai" - ia dizendo uma das filhas; - mas sabendo, por
aí, quem era aquele homem, Clara correu para ele, ajoelhou-se
e implorou:
- Tenha pena de mim, "Seu" Azevedo! Tenha pena de uma
infeliz! Seu filho me desgraçou!
O velho Azevedo descansou os embrulhos, levantou a moça,
fê-la sentar-se; e ele, sentando-se por sua vez, pôs-se
a olhar, cheio de pena, o dorido rosto da rapariga. Todos os olhos
se fixaram nele; ninguém respirava. Afinal, Azevedo falou:
- Minha filha, eu não te posso fazer nada. Não tenho
nenhuma espécie de autoridade sobre "ele"... Já
o amaldiçoei... Demais, "ele" fugiu e eu já
esperava que essa fuga fosse para esconder mais alguma das suas
ignóbeis perversidades... Tu, minha filha, te ajoelhaste
diante de mim ainda agora. Era eu que devia ajoelhar-me diante de
ti, para te pedir perdão por ter dado vida a esse bandido
- que é o meu filho... Eu, como pai, não o perdôo;
mas peço que Deus me perdoe o crime de ser pai de tão
horrível homem... Minha filha, tem dó de mim, deste
pobre velho, deste amargurado pai, que há dez anos sofre
as ignomínias que meu filho espalha por aí, mais do
que ele... Não te posso fazer nada... Perdoa-me, minha filha!
Cria teu filho e me procura se...
Não acabou a frase. A voz sumiu-se; ele descaiu o corpo sobre
a cadeira e os olhos se foram tornando inchados.
As filhas acudiram, a mulher também; e uma daquelas, chorando,
pediu à Clara e à Dona Margarida:
- É favor, minhas senhoras; retirem-se, sim?
Na rua, Clara pensou em tudo aquilo, naquela dolorosa cena que tinha
presenciado e no vexame que sofrera. Agora é que tinha a
noção exata da sua situação na sociedade.
Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de
solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se
convencer de que ela não era uma moça como as outras;
era muito menos no conceito de todos. Bem fazia adivinhar isso,
seu padrinho! Coitado!...
A educação que recebera, de mimos e vigilâncias,
era errônea. Ela devia ter aprendido da boca dos seus pais
que a sua honestidade de moça e de mulher tinha todos por
inimigos, mas isto ao vivo, com exemplos, claramente... O bonde
vinha cheio. Olhou todos aqueles homens e mulheres... Não
haveria um talvez, entre toda aquela gente de ambos os sexos, que
não fosse indiferente à sua desgraça... Ora,
uma mulatinha, filha de um carteiro! O que era preciso, tanto a
ela como às suas iguais, era educar o caráter, revestir-se
de vontade, como possuía essa varonil Dona Margarida, para
se defender de Cassis e semelhantes, e bater-se contra todos os
que se opusessem, por este ou aquele modo, contra a elevação
dela, social e moralmente. Nada a fazia inferior às outras,
senão o conceito geral e a covardia com que elas o admitiam...
Chegaram em casa; Joaquim ainda não tinha vindo. Dona Margarida
relatou a entrevista, por entre o choro e os soluços da filha
e da mãe.
Num dado momento, Clara ergueu-se da cadeira em que se sentara e
abraçou muito fortemente sua mãe, dizendo, com um
grande acento de desespero:
- Mamãe! Mamãe!
- Que é minha filha?
- Nós não somos nada nesta vida.
Todos os Santos (Rio de Janeiro),
dezembro de 1921 - janeiro de 1922
MINISTÉRIO DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro