CASA VELHA
Machado de Assis
CAPÍTULO
IX
No dia 20 achei, com
efeito, tudo mudado, Lalau, e triste, Félix retraído e seco.
Este veio contar-me o que se passara, e acabou dizendo que o estado moral
da menina pedia a minha intervenção. Pela sua parte não
queria mudar de maneiras com ela, para não entreter um sentimento
condenado; não ousava também dar-lhe notícia da situação
nova. Mas eu podia fazê-lo, sem constrangimento, e com vantagem
para todos.
-Não sei, disse
eu depois de alguns instantes de reflexão; não sei. . .
Sua mãe?
-Mamãe está
perfeitamente bem com ela; parece até que a trata com muito mais
ternura. Não lhe dizia eu? Mamãe é muito amiga dela.
- Não lhe terá
dito nada?
-Creio que não.
E depois de algum
silêncio:
- Nem lho diria ela
mesma. Há confissões difíceis de fazer a outros,
e impossíveis a ela; digo fazê-las diretamente à pessoa
interessada. Vamos lá; tire-nos desta situação duvidosa.
-Bem; verei. Não
afirmo nada, verei.
Estávamos na
sala dos livros; Lalau apareceu à porta. Parou alguns instantes,
depois veio afoutamente a mim, expansiva e ruidosa, mas de propósito,
por pirraça; verão que não me falava com a atenção
em mim, mas dispersa, e olhando de modo que pudesse apanhar os gestos
do rapaz. Este não dizia nada; olhava para os livros. Lalau perguntou-me
o que era feito de mim, por onde tinha andado, se era ingrato para ela,
se esquecia; afirmando que também estava disposta a esquecer-me,
e já tinha um padre em vista, um cônego, tabaquento, muito
feio, cabeça grande. Tudo isso era dito por modo que me doía,
e devia doer a ele também; certo é que ele não se
demorou muito na sala; foi até a janela, por alguns instantes;
depois disse-me que ia ver os cavalos e saiu.
Lalau não pôde
mais conter-se; logo que ele saiu, deixou-se cair numa cadeira, ao canto
da sala, e rompeu em lágrimas. A explosão atordoou-me, corri
para ela, peguei-lhe nas mãos, ela pagou nas minhas, disse que
era desgraçada, que ninguém mais lhe queria, que tinha padecido
muito naquele dia, muito, muito... Nunca falamos do sentimento que a acabrunhava
agora; mas não foi preciso começar por nenhuma confissão.
- Não compreendo
nada, dizia ela; sei só que sofro, que choro, e que me vou embora.
Por quê? Sabe que há?
Não lhe dei
resposta.
- Ninguém sabe
nada, naturalmente, continuou ela. Quem sabe tudo já lá
vai caminhando para a roça. Devia ser assim mesmo; eu não
valho nada, não sou nada, não tenho avó baronesa,
sou uma agregadazinha.. . Mas então por que enganar-me tanto tempo?
Para caçoar comigo?
E chorava outra vez,
por mais que eu defronte dela, em pé, lhe dissesse que não
fizesse barulho, que podiam ouvir; ela, porém, durante alguns minutos
não atendia a nada. Quando cansou de chorar, e enxugou os olhos,
estava realmente digna de lástima. A expressão agora era
só de dor e de abatimento; desaparecera a indignação
da moça obscura que se vê preterida por outra de melhor posição.
Sentei-me ao lado dela, disse-lhe que era preciso ter paciência,
que os desgostos eram a parte principal da vida; os prazeres eram a exceção;
disse-lhe tudo o que a religião lhe poderia lembrar para obter
que se resignasse. Lalau ouvia com os olhos parados, ou olhando vagamente;
às vezes interrompia com um sorriso. Urgia contar-lhe tudo; mas
aqui confesso que não achava palavras. Era grave a notícia;
o efeito devia ser violento, porque, conquanto ela cuidasse estar abandonada
por outra, a esperança lá se aninharia nalgum recanto do
coração, e nada está perdido enquanto o coração
espera alguma cousa. Mas a notícia da filiação era
decisiva.
Não sabendo
como dizê-lo, prossegui na minha exortação vaga. Ela,
que a princípio ouvia sem interesse, olhou de repente para mim,
e perguntou-me se realmente estava tudo perdido. Vendo que lhe não
dizia nada:
-Diga, por esmola,
diga tudo.
- Vamos lá,
sossegue...
- Não sossego,
diga.
- Enquanto não
sossegar não digo nada. Escute, Deus escreve direito por linhas
tortas. Quem sabe o que estaria no futuro?
-Não entendo;
diga.
Em verdade, não
se podia ser menos hábil, ou mais atado que eu. Não ousava
dizer a cousa, e não fazia mais que aguçar o desejo de a
ouvir. Lalau instou ainda comigo, pegou-me nas mãos, beijou-mas,
e esse gesto faz-me mal, muito mal. Ergui-me, dei dous passos, e voltei
dizendo que, não agora, por estar tão fora de si, mas depois
lhe contaria tudo, tudo, que era uma cousa grave. . .
- Grave? Diga-me já,
já.
E pegou-se a mim,
que lhe dissesse tudo, jurava não contar nada a ninguém,
se era preciso guardar segredo; mas não queria ignorar o que era.
Não me dava tempo; se eu abria a boca para adiar, interrompia-me
que não, que havia de ser logo, logo; e falava-me em nome de Deus,
de Nossa Senhora, e perguntava-me se era assim que dizia ser padre.
- Promete ouvir-me
quieta?
- Prometo, disse ela
depressa, ansiosa, pendendo-me dos olhos.
- É bem grave
o que lhe vou dizer.
- Mas diga.
Peguei-lhe na mão,
e levei-a para defronte do retrato do finado conselheiro. Era teatral
o gesto, mas tinha a vantagem de me poupar palavras; disse-lhe simplesmente
que ali estava alguém que não queria: o pai de ambos. Lalau
empalideceu, fechou os olhos e ia a cair; pude sustê-la a tempo.
Lalau tinha o sentimento
das situações graves. Aquela era excepcional. Não
me disse nada, depois da minha revelação, não me
faz pergunta nenhuma; apertou-me a mão e saiu.
Dous dias depois foi
para casa da tia, a pretexto de não sei que negócio de família,
mas realmente era uma separação. Fui ali vê-la; achei-a
abatida. A tia falou-me em particular; perguntou-me se houvera alguma
cousa em casa de D. Antônia; a sobrinha, interrogada por ela, respondera
que não; quis ir à Casa Velha, mas foi a própria
sobrinha que a dissuadiu, ou antes que lhe impôs que não
fosse.
- Não houve
nada, foi a sua última palavra. O que há é que é
tempo de viver em nossa casa, e não na casa dos outros. Estou moça.
preciso de cuidar da minha vida.
D.. Mafalda não
achava própria esta razão. A sobrinha era tão amiga
da Casa Velha, e a família de D. Antônia queria-lhe tanto,
que não se podia explicar daquele modo uma retirada tão
repentina. Nunca lhe ouvira o menor projeto a tal respeito. Acresce que,
desde que viera, andava triste, muito triste...
Todas essas reflexões
eram justas; entretanto, para que ela não chegasse a ir à
Casa Velha, disse-lhe que a razão dada por Lalau, se não
era sincera, era em todo caso boa. Pensava muito bem querendo vir para
casa; eram pobres; ela devia acostumar-se à vida pobre, e não
à outra, que era abundante e larga, e podia criar-lhe hábitos
perigosos.
Nada lhe disse a ela
mesma, nem era possível; falamos juntos os três na sala de
visitas, que era também a de trabalho. Lalau procurou disfarçar
a tristeza, mas a indiferença aparente não chegou a persuadir-me;
concluí
que o amor lhe ficara
no coração, a despeito do vínculo de sangue, e tive
horror à natureza. Não foi só a natureza. Continuei
a aborrecer a memória do homem, causa de tal situação
e de tais dores.
Na Casa Velha fui
igualmente discreto. D. Antônia não me perguntou o que se
passara com elas, nem com o filho, e pela minha parte não lhe disse
nada. O que ela me confiou, dias depois, é que a viagem de Félix
à Europa era já desnecessária; cuidava agora de casá-lo;
falou-me claramente nos seus projetos relativos a Sinhazinha. Parecera-lhe
a escolha excelente; eu inclinei-me, aprovando.
Passaram-se muitos
dias. O meu trabalho estava no fim. Tinha visto e revisto muitos papéis
e tomara muitas notas. O coronel voltou à Corte no meado de setembro;
vinha tratar de umas escrituras. Notou a diferença da caça,
onde faltava a alegria da moça, e sobrava a tristeza ou alguma
cousa análoga do sobrinho. Não lhe disse nada; parece que
D. Antônia também não.
Félix passava
uma parte do dia comigo, sempre que eu ali ia; falava-me de alguns planos
relativamente a indústrias, ou mesmo a lavoura, não me lembra
bem; provavelmente, era tudo misturado, nada havia nele ainda definido;
lembramo-nos que já andara com idéias de ser deputado. O
que ele queria agora era fazer alguma cousa que o aturdisse, que lhe tirasse
a dor do recente desastre. Neste sentido, aprovava-lhe tudo.
Pareceu-me que o tempo
ia fazendo algum efeito em ambos. Lalau não ria ainda, nem tinha
a mesma conversação de outrora; começava a apaziguar-se.
Ia ali muita vez, às tardes; ela agradecia-me evidentemente a fineza.
Não só tinha afeição, como achava na minha
pessoa um pedaço das outras feições, da outra casa
e do outro tempo. Demais, era-me grata, posto que o destino me tivesse
feito portador de más novas, e destruidor de suas mais íntimas
esperanças.
A idéia de
casá-la entrou desde logo no meu espírito; e nesse sentido
falei à tia, que aprovou tudo, sem adiantar mais nada. Não
conhecia o Vitorino, filho do segeiro, e perguntei-lhe que tal seria para
marido.
- Muito bom, disse-me
ela. Rapaz sério, e tem alguma cousa por morte do pai.
- Tem alguma educação?
- Tem. O pai até
queria fazê-lo doutor, mas o rapaz é que não quis;
disse que se contentava com outra cousa; parece que está escrevente
de cartório... escrevente não sei como se diz... mentado...
paramentado . . .
- Juramentado
- Isso mesmo.
-Bem, se puder falar
com ela... sem dizer tudo... assim a modo de indagação...
-Verei; deixe estar.
Dias depois, D. Mafalda
deu-me conta da incumbência: a sobrinha nem queria ouvir falar em
casar. Achava o Vitorino muito bom noivo, mas o seu desejo era ficar solteira,
trabalhar em costura, para ajudar a tia e não depender de ninguém;
mas casar nunca.
Esta conversa trouxe-me
a idéia de ponderar a D. Antônia que, uma vez que Lalau era
filha de seu marido, ficava-lhe bem fazer uma pequena doação
que a resguardava da miséria. D. Antônia aceitou a lembrança
sem hesitar. Estava tão contente com o resultado obtido, que podia
fazê-lo. Confessou-me, porém, que o melhor de tudo seria,
feita a doação, passados os tempos, e casado o filho, voltar
a menina para a Casa Velha. Tinha grandes saudades dela; não podia
viver muito tempo sem a sua companhia. Repeti a última parte a
Lalau que a escutou comovida. Creio até que ia a brotar-lhe uma
lágrima; mas reprimiu-a depressa, e falou de outra cousa.
Era uma terça-feira.
Na quarta, devia eu ultimar os meus trabalhos na Casa Velha, e restituir
os papéis, quando fiz um achado que transtornou tudo.