CASA VELHA
Machado de Assis
CAPÍTULO
VII
Era na varanda na
manhã seguinte. Quando ali cheguei, dei com D. Antônia só,
passeando de um para outro lado; a baronesa recolhera-se, e os outros
tinham saído a cavalo, depois de alguma espera para que eu os visse;
mas cheguei tarde; por que é que não fui mais cedo?
- Não pude:
estive sabendo as más notícias que vieram do Sul.
- Sim? perguntou ela.
Contei-lhe o que havia,
acerca da rebelião; mas os olhos dela, despidos de curiosidade,
vagavam sem ver, e, logo que o percebi. parei subitamente. Ela, depois
de alguma pausa:
- Ah! então
os rebeldes...
Repetiu a palavra,
murmurou outras, mas sem poder vinculá-las entre si, nem dar-lhes
o calor que só o real interesse possui. Tinha outra rebelião
em casa, e, para ela, a crise doméstica valia mais que a pública.
E natural, pensei comigo; e tratei de ir aos meus papéis. Ao pedir-lhe
licença, vi-a olhar para mim, calada, e reter-me pelo pulso.
- lá? disse
finalmente.
- Vou ao trabalho.
D. Antônia hesitou
um pouco; depois, resoluta:
-Ouça-me!
Respondi que estava
às suas ordens, e esperei.
D. Antônia passou
a mão pelos olhos, sacudiu a cabeça, e perguntou-me se não
suspeitava alguma causa absoluta de impedimento entre o filho e Lalau.
-Causa absoluta?
- Sim, murmurou ela,
a medo, baixando e erguendo os cílios, como envergonhada.
Confesso que a suspeita
de que Lalau era filha dela acudiu-me ao espírito, mas varri-a
logo por absurda; adverti que ela o diria antes à própria
moça do que a nenhum homem, ainda que padre. Não, não
era isso. Mas então o que era? Tive outra suspeita, e pedi-lhe
que me dissesse, que me explicasse...
- Está explicado.
- Seu marido. . .
?
D. Antônia fez
um gesto afirmativo, e desviou os olhos. Tinha a cara que era um lacre.
Quis ir para dentro, mas recuou, deu alguns passos até o fim da
varanda, voltou, e foi sentar-se na cadeira que ficava mais perto, entre
duas portas; apoiou os braços nos joelhos, a cabeça nas
mãos, e deixou-se estar. Eu, espantado, não achava nada
que dissesse, nada, cousa nenhuma; olhava para 0 ladrilho, à toa;
e assim ficamos por um longo trato de tempo. Acordou-nos um moleque, vindo
pedir uma chave à senhora, que lhe deu o molho delas, e ficou ainda
sentada, mas sem pousar a cabeça nas mãos. A expressão
do rosto não era propriamente de tristeza ou de resignação,
mas de constrangimento, e pode ser também que de ansiedade; e não
fiz logo esse reparo, mas depois, recapitulando as palavras e os gestos.
Fosse como fosse, não me passou pela idéia que aquele impedimento
moral e canônico podia ser um simples recurso de ocasião.
Caminhei para ela,
estendi-lhe as mãos, ela deu-me as suas, e apertando-lhas, disse-lhe
que não devia ter ajuntado à fatalidade do nascimento o
favor das circunstâncias; não devia tê-los levado,
pelo descuido, ao ponto em que estavam, para agora separá-los irremediavelmente.
D. Antônia murmurou algumas palavras de explicação:
-acanhamento, confiança, esperança, a idéia de casá-la
com outro, a de mandar o filho à Europa.. . As mãos tremiam-lhe
um pouco; e, talvez por tê-lo sentido, puxou-as e cruzou os braços.
- Bem, disse-lhe eu,
agora é separá-los.
-Custa-me muito, porque
eu gosto dela. Eduquei-a como filha.
-E urgente separá-los.
-Aqui é que
Vossa Reverendíssima podia prestar-me um grande obséquio.
Não me atrevo a fazer nada; não sei mesmo o que poderia
fazer. Vossa Reverendíssima, que os estima, e creio que me estima
também, é que acharia algum arranjo. Meu filho está
resolvido a ir por diante; mas a sua intervenção. . . Posso
contar com ela?
-Tem sido excessiva
a minha intervenção. Vim receber um obséquio, e acho-me
no meio de um drama. Era melhor que me tivesse limitado a recolher papéis.
-Não diga mais
nada; acabou-se. Demais, um padre não se pode arrepender do beneficio
que tentou fazer. A intenção era generosa; mas o que lá
vai, lá vai. Agora é dar-nos remédio. Será
tão egoísta que me não ajude? Não tenho outra
pessoa; o coronel é um estonteado... E depois, por mim só,
não faço nada... Ajude-me.
D. Antônia falava
baixinho, com medo de que nos ouvissem; chegou a levantar-se e ir espiar
a uma das portas, que davam para a sala. Não julguei mal da precaução,
que era natural; e, quando ela, voltando a mim, parou e interrogou-me
de novo, respondi-lhe que precisava equilibrar-me primeiro; a revelação
atordoara-me. Aqui desviou os olhos.
- Não é
sangria desatada, acrescentei. Lalau está fora por alguns dias;
pensarei lentamente. Que a ajude? Hei de ser obrigado a isso, agora que
a situação mudou. Se não dei causa ao sentimento
que os liga, é certo que o aprovei, e estava pronto a santificá-lo.
A senhora foi muito imprudente.
- Confesso que foi.
- Vai agora desgraçá-los.
D. Antônia faz
com a boca um gesto, que podia parecer meio sorriso, e era tão-somente
expressão de incredulidade. Traduzido em palavras, quer dizer que
não admitia que a separação dos dous pudesse trazer-lhes
nenhum perpétuo infortúnio. Tendo casado por eleição
e acordo dos pais, tendo visto casar assim todas as amigas e parentas,
D. Antônia mal concebia que houvesse, ao pé deste costume,
algum outro natural e anterior. Cuidava a princípio que a sua vontade
bastava a compor as cousas; depois, não logrando mais que baralhá-las,
cresceu-lhe naturalmente a irritação, e afinal criou medo;
mas, supôs sempre que o efeito da separação não
passaria de algumas lágrimas.
- Amanhã ou
depois falaremos, disse-lhe.
Fui dali aos livros.
Ao entrar na sala deles, parei diante do retrato do ex-ministro, e mirei
por alguns instantes aquela boca, que me parecera lasciva, desde que a
vi pela primeira vez. E disse comigo, olhando para ele:
- Estás morto.
Gozaste e descansas; mas eis aqui os frutos podres da incontinência;
e são teus próprios filhos que vão tragá-los.
Estava irritado, dava-me
ímpeto de quebrar alguma cousa. Sentei-me, levantei-me, fui à
janela e acabei passeando ao longo da sala, com os pensamentos dispersos
e confusos. Os livros, arranjados nas estantes, olhavam para mim, e talvez
comentavam a minha agitação com palavras de remoque, dizendo
uns aos outros que eles eram a paz e a vida, e que eu padecia agora as
consequências de os haver deixado, para entrar no conflito das cousas.
Nem por sombras me acudiu que a revelação de D. Antônia
podia não ser verdadeira, tão grave era a cousa e tão
austera a pessoa. Não adverti sequer na minha cumplicidade. Em
verdade, eu é que proferi as palavras que ela trazia na mente;
se me tenho calado, chegaria ela a dizê-las? Pode ser que não;
pode ser que lhe faltasse animo para mentir. Tocado de malícia,
o coração dela achou na minha condescendência um apoio,
e falou pelo silêncio. Assim vai a vida humana: um nada basta para
complicar tudo.
Meia hora depois,
ou mais, ouvi rumor do lado de fora, cavalos que chegavam lentamente:
eram os passeadores. Fui à janela. Uma das filhas do coronel vinha
na frente com o pai; a outra e Sinhazinha seguiam logo, com o rapaz entre
elas. Félix falava a Sinhazinha, e esta ouvia-me olhando para ele,
direitamente, sem blocos, como na varanda; era talvez o cavalo que restituía
à rio-grandense a posse de si mesma e a franqueza das atitudes.
Todo entregue a um acontecimento, subordinei a ele os outros, e concluí
da familiaridade dos dous que bem podiam vir a amar-se. Sinhazinha escutava
com atenção, cheia de riso, pescoço teso, segurando
as rédeas na mão esquerda, e dando com a ponta do chicotinho,
ao de leve, na cabeça do cavalo.
-Reverendíssimo,
bradou parando embaixo da janela o coronel, os farrapos invadiram Santa
Catarina, entraram na Laguna, e os legais fugiram. Eu, se fosse o governo,
mandava fuzilar a todos estes para escarmento. . .
Já os pajens
estavam ali, à porta, com bancos para as moças, apearam-se
todos e subiram. Daí a alguns minutos Raimundo e Félix entravam-me
pela sala, arrastando as esporas. Raimundo creio que ainda trazia o chicote;
não me lembra. Lembra-me que disse ali mesmo, agarrando-me nos
ombros, uma multidão de cousas duras contra Bento Gonçalves,
e principalmente contra os ministros, que não prestavam para nada,
e deviam sair. O melhor de tudo era logo aclamar o imperador. Dessem-lhe
cinqüenta homens,-vinte e cinco que fossem,-e se ele em duas horas
não pusesse o imperador no trono, e os ministros na rua, estava
pronto a perder a vida e a alma. Uns lesmas! Tudo levantado, tudo sublevado,
ao Norte e ao Sul. . . Agora parece que iam mandar tropas, e falava-se
no General Andréa para comandá-las. Tudo remendos. Sangue
novo é o que se precisava. . . Parola, muita parola.
Bufava o coronel;
o sobrinho para aquietá-lo, metia alguma palavra, de quando em
quando, mas era o mesmo que nada, se não foi pior. irritado com
as interrupções, bradou-lhe que, se o pai fosse vivo, as
cousas andariam de outro modo.
-Aquele não
era paz d'alma, disse o coronel apontando para o retrato. Fosse ele vivo!
Não era militar, como sabe,-continuou olhando para mim,-mas era
homem às direitas. Veja-me bem aqueles olhos, e diga-me se ali
não há vida e força de vontade. . . Um pouco velhacos,
é certo, acrescentou galhofeiramente.
- Tio Raimundo! suplicou
Félix.
-Velhacos, repito,
não digo velhacos para tratantadas, mas para amores; era maroto
com as mulheres,- prosseguiu rindo e esquecendo inteiramente a rebelião.
Eu, quando Vossa Reverendíssima mudar de cara, e trouxer outra
mais alegre, hei de contar-lhe algumas aventuras dele. . . Veja aqueles
olhos! E não imagina como era gamenho, requebrado...
Félix saiu
neste ponto; eu fui sentar-me à escrivaninha; o coronel não
continuou o assunto, e foi deitar-se. Não me procurou mais até
a hora do jantar; naturalmente porque o sobrinho o impediu de vir perturbar-me
na pesquisa dos papéis, como se eu tivesse papéis na cabeça.
Maroto com as mulheres. Esta palavra retiniu ali por muito tempo. Maroto
com as mulheres! Tudo se me afigurava claro e evidente.