CASA VELHA
Machado de Assis
CAPÍTULO
IV
Estava prestes a
deixar a cama, quando o Félix me apareceu em casa, pedindo desculpa
de não ter vindo mais cedo, porque só na véspera
soubera da minha doença. Trouxe-me visitas da mãe e de Lalau.
- Isto não
é nada, disse-lhe eu; e se quer que lhe confesse, até foi
bom adoecer para descansar um pouco.
- Virgem Maria! Não
diga isso.
- Digo, digo. E não
só para descansar, mas até para refletir. Doente, que não
lê nem conversa, nem faz nada, pensa. Eu vivo só, com o preto
que o senhor viu. Vem aqui um ou outro amigo, raro; passo as horas solitárias,
olhando para as paredes, e a cabeça...
- A culpa é
sua, interrompeu-me ele; podia ter ido para a nossa casa, logo que se
sentiu incomodado. É o que devia ter feito. Não imagina
mamãe como ficou cuidadosa, quando soube que o senhor estava de
cama. Queria que eu viesse ontem mesmo, de noite, visitá-lo: eu
é que disse que podia estar acomodado, e a visita seria antes uma
importunação. E a sua amiguinha!
- Lalau?
- Ficou branca como
uma cera, quando ouviu a notícia; e pediu-me muito que lhe trouxesse
lembranças dela, que lhe desse conselho de não fazer imprudências,
de não apanhar chuva, nem ar, nem nada, para não recair,
que as recaídas são piores... Veja lá; se, em vez
de se meter na cama, aqui em casa, tivesse ido para a nossa Casa Velha,
lá teria duas enfermeiras de truz, e um leitor, como eu, nada para
lhe ler tudo o que quisesse.
-Obrigado, obrigado;
agradeço a todos, tanto a elas como ao senhor. Ficará para
a outra moléstia. E, na verdade, é possível que então
não pensasse em nada. . .
- Justo.
- . . . Nem em ninguém.
Ah! então Lalau disse isso? Foi exatamente nela que estive pensando.
-Como assim?
Ouvi passos e vozes
na sala; era o meu preto que trazia um padre a visitar-me. Noutra ocasião,
é possível que Félix se despedisse e cedesse o lugar
ao padre; mas a curiosidade valeu aqui ainda mais do que a afeição,
e ele ficou. O padre esteve poucos minutos, dez ou vinte, neo me lembra,
dando-me algumas notícias eclesiásticas, contando anedotas
de sacristia, que o Félix escutou com grande interesse, talvez
aparente, para justificar a demora. Afinal, saiu, e ficamos outra vez
sós. Não lhe falei logo de Lalau; foi ele mesmo que, depois
de alguns farrapos de conversação, ditos soltos, reparos
sem valor, me perguntou o que é que pensara dela. Eu, que os espreitava
de longe, acudi à pergunta.
- Estive pensando
que essa moça é superior à sua condição,
disse eu. A Senhora D. Antônia falou-me de outra agregada que, há
quatro anos, foi ali seduzida por um saltimbanco. Não creio que
esta faça a mesma cousa, porque, apesar da idade e do ar pueril,
acho-lhe muito juízo; creio antes que escolherá marido,
e viverá honestamente. Mas é aqui 0 ponto. O marido que
ela escolher pode bem ser da mesma condição que ela, mas
muito inferior moralmente, e será um mau casamento.
Félix dividia
os olhos entre mim e a ponta do sapato. Quando acabei, achou-me razão.
- Não lhe parece?
perguntei.
-Decerto.
- Bem sei que é
esquisito meter-me assim em cousas alheias...
- Nada é alheio
para um bom padre como o senhor, disse ele com gravidade.
- Obrigado. Confesso-lhe,
porém, que essa moça excitou a minha piedade. Já
lhe disse: tem cousas de criança, mas não é criança.
Entregá-la a um homem vulgar, que não a entenda, é
fazê-la padecer. Não sei se a Senhora D. Antônia fez
bem em apurar tanto a educação que lhe deu, e os hábitos
em que a faz educar; não porque ela não se acomode a tudo,
como um bom coração que é, mas porque, apesar disso,
há de custar-lhe muito baixar a outra vida. Olhe que não
é censurar...
- Pelo amor de Deus!
sei o que é. Pensa que eu não estou com a sua opinião?
Estou e muito. Mamãe é que pode ser que não esteja
conosco. Já tem pensado em várias pessoas, segundo me consta,
e de uma delas chegou a falar-me; era o Vitorino, filho do segeiro que
nos conserta as carruagens. Ora veja!
--Não conheço
o Vitorino.
- Mas pode imaginá-lo.
Olhei para ele um
instante. Pareceu-me que estava de boa-fé; mas era possível
que não, e cumpria arrancar-lhe a verdade. Inclinei-me, e disse
que já tinha um noivo em vista, muito superior ao Vitorino.
-Quem? perguntou ele
inquieto.
- O senhor.
Félix teve
um sobressalto, e ficou muito vermelho.
- Desculpe-me se lhe
digo isto, mas é a minha opinião, e não vale mais
que opinião. Há grande diferença social entre um
e outro, mas a natureza, assim como a sociedade a corrige, também
às vezes corrige a sociedade. Compensações que Deus
dá. Acho-os dignos um do outro; os sentimentos dela e os seus são
da mesma espécie. Ela é inteligente, e o que lhe poderia
faltar em educação já sua mãe lho deu. Teria
alguma dúvida em casar com ela?
Félix estendeu-me
a mão.
-Não lhe nego
nada, o senhor já adivinhou tudo, disse ele. E continuou, depois
de haver-me apertado a mão: Que dúvida poderia ter? Ela
merece um bom marido, e eu acho que não seria de todo mau. Resta
ainda um ponto.
-Que ponto?
Hesitou um instante,
bateu com a mão nos joelhos duas ou três vezes, olhando para
mim, como querendo adivinhar as minhas intenções.
- Resta mamãe,
disse finalmente.
-Opõe-se?
-Creio que sim.
-Mas não é
certo.
-Há de ser
certo. Digo-lhe tudo, como se falasse a um amigo velho de nossa casa.
Mamãe percebeu, como o senhor, que nós gostamos um do outro,
e opõe-se. Não o disse ainda francamente, mas sinto que,
em caso nenhum, consentirá no nosso casamento. Esse Vitorino é
um candidato inventado para separá-la de mim; e assim outros em
que sei que já pensou. Estou que Lalau resistirá, mas temo
que não seja por muito tempo. . . Não se lembra que mamãe
já lhe pediu uma vez para levar-me à Europa? Era com o mesmo
fim de afastar-me, distrair-me, e casá-la.
-Acha isso?
-Com certeza.
-Como explica então
que ela continue a ter tanto amor à pequena?
- O senhor não
conhece mamãe. E um coração de pomba, e gosta dela
como se fosse sua filha. Mas coração é uma cousa,
e cabeça é outra. Mamãe é muito orgulhosa
em cousas de família. Seria capaz de velar uma semana ou duas,
à cabeceira de Lalau, se a visse doente; mas não consentiria
em casá-la comigo. São cousas diferentes.
- Devia ser isso mesmo,
repliquei alguns instantes depois. E murmurei baixinho as palavras que
ela ouvira ao avô, no tempo do rei e repetira mais tarde no paço:
"Uma Quintanilha não trame nunca!"
-Nem treme, nem desce,
concluiu o rapaz sorrindo. ~ o sentimento de mamãe.
- Seja como for, nada
está perdido; cuido que arranjaremos tudo. Deixe o negócio
por minha conta.
Tinha o plano feito.
Se houvesse reconhecido que as intenções dele eram impuras,
ajudaria a mãe e trataria de casar a menina com outro. Sabendo
que não, ia ter com a mãe para arrancar-lhe o consentimento
em favor do filho. Três dias depois, voltando à Casa Velha,
achei nos olhos de Lalau alguma cousa mais particular que a alegria da
amiga, achei a comoção da namorada. Era natural que ele
lhe tivesse contado a minha promessa. Não lho perguntei; mas disse-lhe
rindo que parecia ter visto passarinho verde. Toda a alma subiu-lhe ao
rosto, e a moca respondeu com ingenuidade, apertando-me a mão:
-Vi.
Não explico
a sensação que tive; lembra-me que foi de incômodo.
Essa palavra súbita, cordial e franca, encerrando todas as energias
do amor, lacerou-me as orelhas como uma sílaba aguda que era. Que
outra esperava, e que outra queria' senão essa? Não a pedira,
não vinha interceder por um e por outro? Criatura espiritual e
neutra, cabia-me tão-somente alegrar-me com a declaração
da moça, aprová-la, e santificá-la ante Deus e os
homens. Que incômodo era então esse? que sentimento espúrio
vinha mesclar-se à minha caridade? Que contradição?
que mistério? Todas essas interrogações surgiram
do fundo de minha consciência, não assim formuladas, com
a sintaxe da reflexão remota e fria, mas sem liame algum, vagas,
tortas e obscuras.
Já se terá
entendido a realidade. Também eu amava a menina. Como era padre,
e nada me fazia pensar em semelhante cousa, o amor insinuou-se-me no coração
à maneira das cobras, e só lhe senti a presença pela
dentada de ciúme.
A confissão
dele não me faz mal; a dela é que me doeu e me descobriu
a mim mesmo. Deste modo, a causa íntima da proteção
que eu dava à pobre moça era, sem o saber, um sentimento
especial. Onde eles viam um simples protetor gratuito existia um homem
que, impedido de a amar na terra, procurava ao menos fazê-la feliz
com outro. A consciência vaga de um tal estado deu-me ainda mais
força para tentar tudo.