CASA
DE PENSÃO
Aluísio
Azevedo
CAPÍTULO IV
Amâncio chegou
à república muito indisposto. Quase que não dava
conta dos quatro lances de escada que a precediam.
Também foi só chegar e atirar-se à primeira cama,
gemendo e resbunando ao peso de uma grande aflição. Estava
mais branco do que a cal da parede; o suor escorria-lhe por todo o corpo;
respirava com dificuldade, a abrir a boca e a retorcer os olhos.
- Então? disse Paiva, batendo-lhe no ombro.
- Mal! respondeu Amâncio, sem levantar a cabeça, que deixara
cair sobre o peito. E com um gesto pediu água.
- Isso passa! afiançou o colega, entregando-lhe o púcaro
cheio. Estás é com um formidável pifão.
E riu-se.
- Eu quero vomitar! exclamou Vasconcelos, apressado pela agonia, e mal
teve tempo de erguer o rosto.
- És um fracalhão! ponderou o companheiro, amparando-o pela
testa - Que diabo! quem não pode com o tempo não inventa
modas!
Amâncio não respondia: os engulhos vinham-lhe uns sobre os
outros.
- Ai! ai! gemia oprimido.
- Ora que tipo! disse Paiva, atirando-o sobre os travesseiros. - Vê
se consegues dormir! Isto não é nada!
E narrou um caso idêntico que experimentara.
Amâncio sentia-se um pouco mais aliviado, continuava, porém,
a suar frio; tinha a cabeça completamente ensopada e não
dispunha de forças para coisa alguma. Os olhos fechavam-se-lhe
com um entorpecimento pesado de sono. Pediu mais água. E, depois
de a tomar, deu a entender que era preciso que o despissem e descalçassem.
Paiva entrou a tirar-lhe a roupa, safou-lhe com dificuldade as botinas,
porque as meias estavam suadas.
Amâncio, muito prostrado, mole, a virar-se de uma para outra banda,
aiava sempre. Afinal sossegou, parecia adormecido; mas, ergueu-se logo,
com ímpeto, e começou a vomitar de novo, sem dizer palavra.
- Que pifão! reconsiderava o colega, encarando-o com as mãos
cruzadas atrás.
- Homem! Vê se lhe dás um pouco de amônia! lembrou
do fundo do quarto uma voz arrastada e um pouco fanhosa.
Só então Amâncio percebeu que ali, a seis ou sete
passos distante dele, estava um rapaz magro, muito amarelo, em ceroulas
e corpo nu, estendido numa cama, a ler, todo preocupado, um grosso volume
que tinha sobre o estômago. Parecia deveras ferrado no seu estudo,
porque até aí não dera fé do que se lhe passava
em derredor.
- Olha! disse ao Paiva. - Creio que está acolá, sobre a
mesa, por detrás do Comte. É um frasquinho quadrado, com
rolha de vidro.
Dito isto, recolheu-se de novo à leitura, como se nada houvesse
sucedido.
Amâncio serenou de todo com algumas gotas de amoníaco em
um copo d'água, e afinal pegou no sono profundamente.
Só acordou no dia seguinte, quando o sol já entrava pela
única janela do quarto.
Sentia a boca amarga e o corpo moído. Assentou-se na cama e circunvagou
em torno os olhos assombrados, com a estranheza de um doido ao recuperar
o entendimento.
O sujeito magro da véspera lá estava no mesmo sítio;
agora, porém, dormia, amortalhado a custo num insuficiente pedaço
de chita vermelha.
Do lado oposto, no chão, sobre um lençol encardido e cheio
de nódoas, a cabeça pousada num jogo de dicionários
latinos, jazia Paiva, a sono solto, apenas resguardado por um colete de
flanela. Mais adiante, em uma cama estreita, de lona, viam-se dois moços,
ressonando de costas um para outro, com as nucas unidas, a disputarem
silenciosamente o mesmo travesseiro.
O quarto respirava todo um ar triste de desmazelo e boêmia. Fazia
má impressão estar ali: o vômito de Amâncio
secava-se no chão, azedando o ambiente; a louça, que servira
ao último jantar, ainda coberta de gordura coalhada, parecia dentro
de uma lata abominável, cheia de contusões e roída
de ferrugem. Uma banquinha, encostada à parede, dizia com o seu
frio aspecto desarranjado que alguém estivera aí a trabalhar
durante a noite, até que se extinguira a vela, cujas últimas
gotas de estearina se derramavam melancolicamente pelas bordas de um frasco
vazio de xarope Larose, que lhe fizera as vezes de castiçal. Num
dos cantos amontoava-se roupa suja; em outro repousava uma máquina
de fazer café, ao lado de uma garrafa de espírito de vinho.
Nas cabeceiras das três camas e ao comprido das paredes, sobre jornais
velhos e desbotados, dependuravam-se calças e fraques de casimira;
em uma das ombreiras da janela umas lunetas de ouro, cuidadosamente suspensas
num prego. Por aqui e por ali pontas esmagadas de cigarro e cuspalhadas
ressequidas. No meio do soalho, com o gargalo decepado, luzia uma garrafa.
A luz franca e penetrante da manhã dava a tudo isso um relevo ainda
mais duro e repulsivo; o coração de Amâncio ficou
vexado e corrido, como se todos os ângulos daquela imundície
o espetassem a um só tempo. Ergueu-se cautelosamente, para não
acordar os outros, e foi à janela. O vasto panorama lá de
fora estremulhou-lhe os sentidos com o seu aspecto.
A república era no alto, sobre três andares, dominando uma
grande extensão. Viam-se de cima as casas acavaladas umas pelas
outras, formando ruas, contornando praças. As chaminés principiavam
a fumar; deslizavam as carrocinhas multicores dos padeiros; as vacas de
leite caminhavam com o seu passo vagaroso, parando à porta dos
fregueses, tilintando o chocalho; os quiosques vendiam café a homens
de jaqueta e chapéu desabado; cruzavam-se na rua os libertinos
retardios com os operários que se levantavam para a obrigação;
ouvia-se o ruído estalado dos carros d'água, o rodar monótono
dos bondes. Mais para além pressentiam-se os arrabaldes pelo verdejar
das árvores; ao fundo encadeavam-se cordilheiras, graduando planos
esfumados de neblina. O horizonte rasgava-se à luz do sol, num
deslumbramento de cores siderais. E lá muito longe, quase a perder
de vista, reverberava a baía, laminando as águas na praia.
Embaixo, na área da casa, uma ilhoa, de braços nus, a cabeça
embrulhada em um lenço de ramagens, lavava a um tanque de cimento
romano; um homem, em mangas de camisa, varrias as pedras do chão,
cantarolando com os dentes cerrados, para não deixar cair a ponta
do cigarro. Numa janela, um sujeito, de óculos azuis, areava os
dentes e com a boca atirava duchas sobre um papagaio, cuja gaiola pousava
no balcão. Dentro de um cercado cacarejavam galinhas, mariscando
na terra; e o homem do lixo entrava e saía, familiarmente, com
o seu gigo às costas.
Um relógio da vizinhança bateu seis horas.
Amâncio reparou que estava com muita sede, mas não descobria
a talha d'água. Afinal encontrou-a, num sótão que
havia ao lado do quarto e onde só se entrava vergando o corpo.
Bebeu até à saciedade.
Depois lavou o rosto e a boca. E com a idéia de sair antes que
os mais acordassem, vestiu-se apressado, contou o dinheiro que lhe restava,
lamentando interiormente o que na véspera esbanjara; viu no chão
uma escova de fato, apanhou-a, escovou a roupa, e, todo cautela e ponta
de pé, abriu a porta e ganhou a escada.
Entre o primeiro e o segundo andar encontrou uma rapariguita de alguns
dezesseis anos, que subia com dois copos de leite, um em cada mão,
fazendo mil esforços para não os entornar. Ao ver Amâncio
ela emperrou, cosendo-se à parede, a fim de lhe dar passagem, e
olhou-o de esguelha, com medo de afastar a vista dos copos.
Era bonitinha, corada, os cabelos castanhos apanhados na nuca. Parecia
portuguesa.
Amâncio, ao passar por ela, estacou também, a fitá-la.
De repente lançou-lhe as mãos.
A pequena, muito contrariada, fez uma cara de raiva e gritou - que a soltasse!
que não fosse atrevido!
E desviava o corpo, querendo defender-se, mas sem se descuidar dos copos.
- Mau! mau! siga o seu caminho e deixe os outros em paz!
Amâncio não fez caso e conseguiu beijá-la a pura força.
Derramaram-se algumas gotas de leite.
- Maus raios te partam! clamou a rapariga, assim que o viu pelas costas.
- Peste ruim de um estudante!
A peste ruim do estudante saiu, e só interrompeu a caminhada para
entrar num botequim, onde pediu café. Então, defronte ao
espelho, pôde admirar o belo estado em que se achava.
- Como diabo havia de apresentar-se naquele gosto em casa do Campos?...
Também que triste idéia a sua - de se enterrar numa casa
comercial! Não! com certeza estava mal hospedado... nem lhe convinha
permanecer ali! - Oh! Bastava já de ser governado, de ser vigiado
a todo instante! - Já era tempo de gozar um pouco de liberdade.
E enquanto sorvia compassadamente o café, recapitulava na memória
todo o seu passado de terror e submissão: - Antes de entrar para
a escola de primeira letras, nunca lhe deixaram transpor a porta da rua
ou a porta do quintal; os outros meninos de sua idade tinham licença
para empinar papagaios, brincar entrudo, queimar fogos pelo tempo de São
Pedro; - ele não! depois caiu nas garras no professor - aquela
fera! Nunca saía de casa, sem levar atrás de si um escravo
para o vigiar, para o impedir de fazer travessuras e obrigá-lo
a caminhar com modo, direito, sério como um homem. Afinal escapou
ao professor, sim! mas continuou sob a dura vigilância do pai, do
tio e das tias; todos o rondavam; todos o traziam "num cortado".
Só na fazenda da avó conseguia desfrutar alguma liberdade,
mas essa mesma não era completa e, ai! durava tão pouco
tempo!...
Agora compreendia a razão pela qual, no mês de férias
que passava aí, se tornava tão travesso e tão maligno
- é que naturalmente queria desforrar o resto do ano, que levava
coagido em casa do pai. De sua infância eram aqueles meses privilegiados
a coisa única que lhe merecia verdadeira saudade; o mais estrangulavam
tristes reminiscências de castigos, de sustos, apoquentações
de todo o gênero.
A própria idéia de sua mãe nunca lhe vinha só;
havia sempre ao lado da venerada imagem alguma recordação
enfadonha e constrangedora. - As poucas vezes em que estavam juntos, o
pai chegava no melhor da intimidade e Ângela se retraía,
cortando em meio as carícias do filho, como se as recebera de um
amante, em plena ilegalidade do adultério.
E a memória desses beijos a furto e medrosos, a memória
desses carinhos cheios de sobressalto, relembravam-lhe às vezes
que ele em pequeno se metia no quarto dos engomados, de camaradagem com
as mulatas da casa que aí trabalhavam conjuntamente.
Era quase sempre pelo intervalo das aulas, no meio do dia, quando o calor
quebrava o corpo e punha nos sentidos uma pasmaceira voluptuosa.
Em casa do velho Vasconcelos havia, segundo o costume da província,
grande número de criadas; só no "quarto da goma"
como lá se diz, reuniam-se quatro ou cinco. Umas costuravam; outras
faziam renda, assentadas no chão, defronte da almofada de bilros;
outras, vergadas sobre a "tábua de engomar", passavam
roupa a ferro.
Amâncio, quando criança, gostava de meter-se com elas, participar
de suas conversas picadas de brejeirice, e deixar correr o tempo, deitado
sobre as saias, amolentando-se ao calor penetrante das raparigas, a ouvir,
num êxtase mofino, o que elas entre si cochichavam com risadinhas
estaladas à socapa. Por outro lado, as mulatas folgavam em tê-lo
perto de si, achavam-no vivo e atilado, provocavam-lhe ditos de graça,
mexiam com ele, faziam-lhe perguntas maliciosas, só para "ver
o que o demônio do menino respondia". E, logo que Amâncio
dava a réplica, piscando os olhos e mostrando a ponta da língua,
caíam todas num ataque de riso, a olharem umas para as outras com
intenção.
De resto, ninguém melhor do que ele para subtrair da despensa um
punhado de açúcar ou de farinha, sem que Ângela desse
por isso.
- O demoninho era levado!
E assim se foi tornando mulherengo fraldeiro, amigo de saias.
A mãe, quando ouvia da varanda as risadas da criadagem, gritava
logo pelo filho.
- Já vou, mamãe! respondia Amâncio.
- Lá estava o diabrete do menino às voltas com as raparigas
no quarto da goma! Oh! que birra tinha ela disso!...
Mas Amâncio não se corrigia. É que ali ao menos não
chegaria o pai.
Às vezes, quando ia passear à casa de alguma família
conhecida, arranjava-se com as moças, gostava de acompanhá-las
por toda parte, fazendo-se muito dócil e amigo de servir. Como
era ainda perfeitamente criança e bonitinho, elas lhe faziam festas
e davam-lhe doces, figurinos de papel recortado e caixinhas vazias. Algumas
lhe perguntavam brincando se ele as queria para mulher, se queria "ser
seu noivo". Amâncio respondia que sim com um arrepio. E daí
a pouco ficavam as moças muito surpreendidas quando ao demônio
do menino lhes saltava ao colo e principiava a beijar-lhes sofregamente
o pescoço e os cabelos ou a meter-lhes a língua pelos ouvidos.
- Credo! disse uma delas em situação idêntica. - Que
menino! Vá para longe com as suas brincadeiras!
Outras, porém, lhe achavam muita graça e eram as primeiras
a puxar por ele.
De todos os brinquedos o que Amâncio em pequeno mais estimava, era
o de "fazer casa". A casa fazia-se sempre debaixo de uma mesa,
com um lençol em volta, figurando as paredes. Uma de suas primas,
filha do protetor Campos, ou alguma menina que estivesse passando o dia
com ele, representava de mulher; Amâncio de marido. A menina ficava
debaixo da mesa enquanto ele andava por fora, "a ganhar a vida"
até que se recolhia também à casa, levando compras
e preparos para o almoço. Amarravam um lenço em duas pernas
da mesa, fingindo rede, e aí metiam uma boneca, que era o filho.
Gostava infinitivamente dessa brincadeira. Mas um belo dia veio abaixo
o lençol que servia de parede, e desde então Ângela
não consentiu que o filho se divertisse a fazer casa.
Muitos anos depois, aos quinze, notou-se incomodado por um padecimento
estranho. Não disse nada à família e procurou um
homem que havia na província com grande habilidade para curar moléstias,
viessem elas até do mau-olhado e do feitiço.
Santo homem! O mal do nosso estudante desapareceu como por milagre; o
que, aliás, não impediu que tivesse daí a pouco de
voltar à cama, debaixo de um novo e mais formidável carregamento
que o ia varrendo ao cemitério. Foram esses os três anos
de sezões a que se referia, quando pela primeira vez falou ao Campos.
E Amâncio, quanto mais rememorava tudo isso, quanto mais remexia
no cinzeiro do passado, tanto mais impacientes lhes rosnavam os sentidos
e tanto mais desabrida lhe vinha a necessidade de gozar, de viver em liberdade,
de recuperar o tempo que levou sopeado e preso.
- Enfim! concluiu ele erguendo-se distraído e abandonando o café
- a casa do Campos não me convém! de forma alguma!
Mas a idéia de Hortênsia, que, para se apresentar só
esperava o termo daquelas considerações, invadiu-lhe o espírito
e foi a pouco e pouco se estendendo e se esticando por todo ele, até
ocupá-lo inteiramente com a sua imagem branca e palpitante, como
uma bela mulher que desperta e, entre voluptuosos espreguiçamentos,
alonga pela cama os seus membros ainda entorpecidos de sono.
E ele, quando deu por si, estava a fazer conjecturas sobre o amor de Hortênsia:
- Seria ardente ou calmo? Meigo ou arrebatador? Que atitude tomaria a
bela mulher nos momentos supremos de ventura? Quais seriam as suas palavras,
as frases do seu delírio?...
E, aguilhoado pelos sentidos, perdia-se em cálculos infames, em
degradantes suposições; tentando, embalde, adivinhar-lhe
os pensamentos, penetrar-lhe nos escaninhos do coração e
devassar-lhe todos os segredos do corpo.
- Oh! Como seria?...
E seu desejo vil começava a despi-la, peça por peça,
até deixá-la completamente nua.
- Mas não! não havia possibilidade! contrapunha-lhe a razão.
- Tudo aquilo era loucura, simples loucura! Hortênsia não
podia ser mais séria, mais amiga do marido! Qual fora a palavra,
o gesto, que lhe dera a ele o direito de pensar em semelhante coisa?...
Sim! que fizera a pobre senhora para autorizá-lo a tanto?... Onde
estava o fundamento daqueles sonhos, pelos quais queria trocar a liberdade,
os seus prazeres, tudo, e ficar encurralado em uma casa comercial, com
obrigação de entrar às tantas, comer às tantas,
e guardar todas as conveniências ao lado de uma gente impossível!?...
Ora! que se deixasse de asneiras! Não fosse tolo!
Hortênsia Campos aparecia-lhe então como em verdade o era:
carinhosa e altiva, afável para todos igualmente, sem dar a nenhum
o direito de supor uma preferência. Amâncio já não
a tinha descomposta defronte dos olhos, mas respeitosamente restituída
ao seu vestidinho de chita, às suas botinas de duraque, quase sem
salto, e às suas tranças honestamente penteadas.
- Mudava-se! Que dúvida! Sim! Uma vez que Hortênsia nada
mais era do que uma senhora virtuosa, que diabo ficava ele fazendo ali?...
Não seria decerto pelos bonitos olhos do Campos!
* * *
Às oito horas, quando entrou em casa tinha já resolvido
não ficar ali nem mais um dia. - Era fazer as malas e bater quanto
antes a bela plumagem!
Mas também, se por um lado não lhe convinha ficar em companhia
do Campos, por outro, a idéia de se manter na república
do Paiva não o seduzia absolutamente. Aquela miséria e aquela
desordem lhe causavam repugnância. Queria a liberdade, a boêmia,
a pândega - sim senhor! tudo isso, porém, com um certo ar,
com uma certa distinção aristocrática. Não
admitia uma cama sem travesseiros, um almoço sem talheres, e uma
alcova sem espelhos. Desejava a bela crápula, - por Deus que desejava!
mas não bebendo pela garrafa e dormindo pelo chão de águas-furtadas!
- Que diabo! - não podia ser tão difícil conciliar
as duas coisas!...
Pensando deste modo, subiu ao quarto. Sobre a cômoda estava uma
carta que lhe era dirigida; abriu-a logo:
"Querido Amâncio.
Desculpe tratá-lo
com esta liberdade; como porém, já sou amigo, não
encontro jeito de lhe falar doutro modo. Ontem, quando combinamos no Hotel
dos Príncipes a sua visita para domingo, não me passava
pela cabeça que hoje era dia santo e que fazíamos melhor
em aproveitá-lo; por conseguinte, se o amigo não tem algum
compromisso, venha passar a tarde conosco, que nos dará com isso
um grande prazer. Minha família, depois que lhe falei a seu respeito,
está impaciente para conhecê-lo e desde já fica à
sua espera."
Assinava "João
Coqueiro" e havia o seguinte pós-escrito: "Se não
puder vir, previna-mo por duas palavrinhas; mas venha."
Amâncio hesitou em se devia ir ou não. Coqueiro, com a sua
figurinha de tísico, o seu rosto chupado e quase verde, os seus
olhos pequenos e penetrantes, de uma mobilidade de olho de pássaro,
com a sua boca fria, deslabiada, o seu nariz agudo, o seu todo seco, egoísta,
desenganado da vida, não era das coisas que mais o atraíssem.
No entanto, bem podia ser que ali estivesse o que ele procurava - um cômodo
limpo, confortável, um pouquinho de luxo, e plena liberdade. Talvez
aceitasse o convite.
- Esta gente onde está? perguntou, indicando o andar de cima a
um caixeiro que lhe apareceu no corredor com a sua calça domingueira,
cor de alecrim, o charuto ao canto da boca.
- Foram passear ao Jardim Botânico, respondeu aquele, descendo as
escadas.
- Todos? ainda interrogou Amâncio.
- Sim, disso o outro entre os dentes, sem voltar o rosto. E saiu.
- Está resolvido! pensou o estudante. - Vou à casa do Coqueiro.
Ao menos estarei entretido durante esse tempo!
E voltando ao quarto:
- Não! É que tudo ali em casa do Campos já lhe cheirava
mal!... Olhassem para o ar impertinente com que aquele galeguinho lhe
havia falado!... E tudo mais era pelo mesmo teor. - Uma súcia de
asnos!
Começou a vestir-se de mau humor, arremessando a roupa, atirando
com as gavetas. O jarro vazio causou-lhe febre, sentiu venetas de arrojá-lo
pela janela; ao tomar uma toalha do cabide, porque ela se não desprendesse
logo, deu-lhe tal empuxão que a fez em tiras.
- Um horror! resmungava, a vestir-se, furioso sem saber do quê.
- Um horror!
E, quando passou pela porta da rua, teve ímpetos de esbordoar o
caixeiro, que nesse dia estava de plantão.